Jornalistas Livres

Autor: Raquel Wandelli

  • Corrupção dentro da PF leva à prisão de delegado e prefeito de Florianópolis

    Corrupção dentro da PF leva à prisão de delegado e prefeito de Florianópolis

    VAZAMENTOS NA PF FAVORECIAM INVESTIGADOS EM OPERAÇÃO ALCATRAZ

    Sete dirigentes da PF, PRF, governo do Estado de Santa Catarina e prefeitura de Florianópolis foram presos, acusados de participar de rede de corrupção em órgãos de inteligência e investigação da polícia. As informações alertando sobre diligências da Operação Alcatraz eram vendidas aos investigados como suborno em troca de pagamento em dinheiro, apadrinhamento e favores políticos, como blindagem nas investigações e empregos em cargos públicos.

    O prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, foi apontado como articulador dessa rede de contra informação em conluio com o delegado da PF, Fernando Amaro de Moraes Caieron, agentes policiais e dirigentes públicos, que só foi desbaratada por delação de um preso da Operação Alcatraz, ocorrida há 20 dias. Ao todo 30 mandados foram cumpridos hoje, 23 de busca e apreensão e sete de prisão temporária, expedidos pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre (RS). O prefeito de Florianópolis Gean Loureiro e o policial rodoviário federal Marcelo Roberto Paiva Winter, diretor de comunicação do sindicato da categoria, foram soltos no início da noite, enquanto outros cinco detidos permanecem presos.

     

     

     

    Polícia Federal entra em ação depois de ser delatado escândalo dentro de sua própria corporação

    O prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (eleito pelo MDB/SC), foi preso na manhã desta terça-feira (18), em Florianópolis pela Polícia Federal em sua casa, no bairro Jurerê, e afastado do cargo por 30 dias por ordem do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Ele está indiciado na Operação “Chabu”, desencadeada para desarticular uma organização que violava sigilo de operações policiais em Santa Catarina, incluindo as Operações Eclipse, Alcatraz e Ave de Rapina, todas ligadas à fraude de licitações e crimes fiscais. Entre os sete mandados de prisão temporária expedidos como parte da Operação Chabu está também o do delegado Fernando Caieron, da Polícia Federal em Florianópolis, preso em Porto Alegre, e o empresário da área de tecnologia José Augusto Alves, que atuaria como uma espécie de contrabandista de informações sigilosas obtidas junto à PF.

    Foram presos temporariamente ainda o diretor de Comunicação do Sindicato dos Policiais Rodoviários de Santa Catarina (SINPRF-SC), Marcelo Roberto Paiva Winter, o colega Luciano da Cunha Teixeira, ex-secretário da Casa Civil no governo de Eduardo Moreira, Luciano Veloso Lima e Hélio Sant’Anna Silva Júnior, delegado aposentado da Polícia Federal. A prisão temporária tem duração de cinco dias, prorrogáveis por mais cinco. Ao todo 30 mandados são cumpridos, 23 de busca e apreensão e sete de prisão temporária, expedidos pelo TRF4, em Porto Alegre (RS), na capital e municípios de Balneário Camboriú, Camboriú e Itajaí.

    Os mandados de prisão alegam prática de associação criminosa, corrupção passiva, violação de sigilo funcional, tráfico de influência, corrupção ativa, além da tentativa de interferir em investigação penal envolvendo organização criminosa, segundo a PF. Mantida em segredo de justiça, sem maiores explicações, a operação tem como relator o desembargador federal Leandro Paulsen.
     
    Junto com os demais presos, o prefeito e o delegado estão implicados na participação de um grande esquema de venda de informações sigilosas envolvendo policiais, dirigentes de órgãos públicos e políticos de partidos governistas que apoiam Bolsonaro em Santa Catarina. As informações dizem respeito principalmente à Operação Alcatraz, que investiga fraude em licitações e contratação de empresas laranja para desviar verbas públicas. Além do celular, os computadores do prefeito foram apreendidos em casa e no seu gabinete, na rua Tenente Silveira, assim como o computador do secretário da Casa Civil, Constâncio Maciel.
    Conforme os vereadores Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSol), que tiveram mais tarde acesso a informações do processo, o prefeito é apontado como articulador de uma rede investigada pela Operação Eclipse, que usava alta tecnologia em serviço de inteligência para encobrir desvio de verbas públicas. Ele teria autorizado a instalação de uma “sala segura”, na Prefeitura, blindada contra vazamentos, vigilância e interceptações telefônicas. Nessa sala secreta, esse grupo de hackers e agiotas de contra informação faria sem riscos o assédio aos políticos e empresários investigados, alertando-os sobre diligências dos órgãos da PF. Segundo Boppré, por meio de uma “maleta israelense”, adquirida no Paraguai, o grupo conseguia interceptar telefonemas a 300 metros de distância.

    Após diligências iniciadas em agosto de 2018, dentro da Operação Eclipse, a Polícia Federal apurou que o grupo suspeito construiu uma rede composta por um núcleo político, empresários, e servidores da própria PF e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) lotados em órgãos de inteligência e investigação. Seu objetivo seria atrapalhar ou embaçar o trabalho policial em andamento e proteger os investigados dentro da Operação Alcatraz e de várias outras, em troca de subornos financeiros ou de favores políticos, como empregos em cargos públicos. O próprio prefeito apadrinhava alguns membros desse grupo, segundo os vereadores. Ele pleiteou emprego para a esposa do policial rodoviário federal envolvido, Marcelo Roberto Paiva Winter, em cargo no governo estadual. A filha do empresário José Augusto Alves, o “José Mentira”, apontado como pivô da articulação criminosa, tem cargo de confiança no gabinete do prefeito.

    De acordo com o mandado, as diligências apontam prática de crimes de associação criminosa, corrupção passiva, violação de sigilo funcional, tráfico de influência, corrupção ativa, além da tentativa de interferir em investigação penal envolvendo organização criminosa, segundo nota da PF. “Durante as investigações foram apuradas práticas ilícitas, dentre as quais envolve o vazamento de informações a respeito de operações policiais a serem deflagradas até o contrabando de equipamentos de contra inteligência para montar ‘salas seguras’ à prova de monitoramento em órgãos públicos e empresas”, diz ainda a nota PF. Os agentes realizaram uma busca no Grupo Nexxera por mais de três horas, quando apreenderam documentos na empresa especializada em elaborar plataformas integradas de serviços de automação bancária, gestão de cobranças e soluções de tecnologia. O objetivo foi confirmar a suspeita de associação criminosa e corrupção passiva por parte de agentes públicos e empresas.

    O significado de “Chabu”, que nomeia a operação, é provocar falha no sistema, usado para descrever, por exemplo, falha em fogos de artifício. Segundo a PF, o termo era empregado por alguns dos investigados para alertar sobre a existência de operações policiais antes de ocorrerem. A operação é mantida em segredo de justiça, sem maiores explicações, sob a relatoria do desembargador federal Leandro Paulsen. É o desembargador quem vai decidir se o prefeito será substituído por seu vice João Batista Nunes.

     

    Operação Chabu
    Prefeito Gean Loureiro e secretário ex-secretário estadual da Casa Civil, Luciano Veloso Lima agiriam juntos. Foto: James Tavares/Secom

    PLANOS DE REELEIÇÃO AMEAÇADOS

    Eleito pelo MDB/SC, com pretensões à reeleição em 2020, Gean Loureiro, 47 anos, formado em Direito, se desfiliou do partido em 28 de maio por insatisfações com a cúpula. Ainda está sendo cogitada sua filiação para partidos da base governista federal, como PSD e PRB. Ele prestou depoimento à PF, e teve sua prisão relaxada no início da noite de hoje (18/6), mas permanece suspenso do cargo durante os próximos 30 dias, e proibido de retornar à prefeitura ou de conversar com qualquer envolvido na operação.

    Às 21h30, o prefeito deu entrevista coletiva no escritório do seu advogado Dido Ptsica, quando se disse vítima da pior injustiça da sua vida e afirmou não ter qualquer envolvimento com os suspeitos, assim como negou que a sala segura à prova de monitoramento, onde seria vazadas as informações tenha sido instalada no seu gabinete.

    O policial rodoviário federal Marcelo Roberto Paiva Winter, diretor de comunicação do sindicato da categoria (SINPRF-SC), preso igualmente de forma temporária, também foi liberado na noite de hoje. Os demais cinco detidos continuam presos.

    ALCATRAZ: NEGÓCIOS COM EMPRESAS LARANJA LESAM COFRES PÚBLICOS EM R$ 130 MILHÕES

    Ontem a juíza Janaína Cassol Machado, que está a frente do processo criminal da Operação Alcatraz pela Justiça Federal em Santa Catarina, autorizou a prorrogação por 15 dias do prazo para a conclusão do inquérito da Operação. A Alcatraz envolve desvio de recursos, fraudes em licitações e crimes tributários praticados por órgãos de Santa Catarina e de Florianópolis, como a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Secretaria de Estado da Administração e outras empresas terceirizadas. O presidente da Assembléia Legislativa, deputado Júlio Garcia (PSD) também é citado muitas vezes no pedido de prisão de 11 acusados, detidos no dia 31 de maio deste ano, quatro deles em Florianópolis; quatro em São José; um em Antônio Carlos; um em Ituporanga e um em Vinhedo (SP).

    Os indiciados permanecem presos e fazendo delações entre empresários e agentes públicos investigados por suspeita de envolvimento em esquema de fraude em licitações e contratos. Um dos presos é Nelson Castello Branco Nappi, considerado o cabeça do esquema que fraudava licitações. Os danos aos cofres públicos se aproximam de R$ 30 milhões, segundo estimativas da PF e de mais de R$ 100 milhões em sonegação de impostos, segunda avaliação da Receita Federal.

    Segundo apurou a operação, de 2012 a 2015 a MAAB, empresa do ramo publicitário, emitiu notas frias em nome de empresas de fachada na área de segurança do grupo Ondrepsb e a Orcali, que por sua vez repassariam os valores para agentes públicos do Estado. Já há presos preventivamente na ação. Janaína é a mesma que autorizou a prisão do reitor Luiz Carlos Cancellier. O delegado Igor Gervini pediu a extensão da investigação para que os agentes tenham até o final de junho para concluir o inquérito.

    Atualização:

    Na quarta-feira (19/6), os advogados do prefeito tentaram suspender o seu afastamento no TRF4, mas não obtiveram êxito. Os quatro vereadores da oposição, Afrânio Boppré (PSoL), Marquito (PSoL), Lino Peres (PT) e Vanderlei Farias, o Lela (PDT), já emitiram duas notas conjuntas reivindicando informações da Polícia Federal para se posicionarem com mais clareza sobre o assunto, e evitar julgamentos ou absolvições sem profundidade. Por enquanto quem administra a capital é o vice-prefeito José Batista Nunes (PSDB).
    Em live veiculada nesta sexta-feira, 21, na página do Facebook de Boppré, ele e o vereador Lino Peres afirmam que a oposição está muito apreensiva porque Gean Loureiro tem frequentado a Câmara de Vereadores e o seu gabinete, de onde entra e sai levando pastas e documentos. Querem saber que informações há nos equipamentos e celulares apreendidos e o possível envolvimento de outros funcionários públicos municipais nessa rede de tráfico de informações. “Se Gean diz que é vítima de uma armação, queremos saber quem é esse agente oculto que tem tanto poder e influência na vida da cidade”, afirma Boppré. Por que o prefeito, sendo apontado como o articulador da “Orcrim”, foi solto no mesmo dia da prisão e continua livre para passear no seu gabinete e recolher provas?
    Nesta quinta-feira, 20/6, a revista Isto É publicou reportagem de capa na edição do fim de semana, intitulada “Cerco aos hackers” , afirmando que a PF está investigando as “possíveis ligações” entre a Operação Chabu, a Vaza Jato e a atuação de agentes cibernéticos em Santa Catarina, no Brasil, Dubai e Emirados Árabes. Segundo “investigações preliminares”, a PF teria encontrado conexões entre o jornalista investigativo Glenn Greenwald, do The Intercept, Edward Snowden, refugiado na Rússia, com os irmãos bilionários Nikolai e Pavel Durov. Os Durov são proprietários do programa de conversação em chat, o Telegram, de onde vazaram os diálogos entre o ministro da Justiça Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, revelados por Greenwald e sua equipe no escândalo conhecido também como Brasilgate. Finalmente, a PF teria encontrado ligações com Evgeniy Mikhailovich Bogachev, conhecido como Slavic, procurado pelo FBI sob a acusação de cometer crimes cibernéticos, que criou o vírus Cryptolocker e o código Zeus.
    Conforme o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, o órgão “acredita ter se aproximado dos hackers que invadiram a privacidade dos procuradores”. A relação conspiratória, clara tentativa de criminalizar os jornalistas do The Intercept e levar os denunciadores da tribuna para o banco dos réus, foi levianamente lançada em veículos brasileiros de direita desde o início da semana. Estão aí todas as tintas de mais uma farsa do ex-juiz que fraudou a justiça com seus processos persecutórios e seletivos, baseados numa relação de influência ilícita sobre os procuradores da Lava Jato e na manipulação dos autos de acusação para condenar em tempo record o ex-presidente Lula à prisão. Emparedado pelas revelações do site The Intercept, trazidas a conta-gotas, como uma morte lenta, Sérgio Moro precisa com urgência de qualquer subterfúgio pra sair da berlinda e partir para a ofensiva.
    O único indício apontado pela revista de que a relação apontada por um perfil anônimo no twitter de forma grotesca pode merecer a credibilidade dos seus leitores é o fato de a PF dar importância a ela (SIC). “Embora parecesse inverossímil num primeiro momento, por conter erros de grafia e tradução, ISTOÉ confirmou que a PF segue sim o rastro da pista, considerada importante pelos agentes hoje à frente do caso.” Os métodos caluniosos e fantasiosos são os já conhecidos da sua lavra. Enquanto a PF sege as pistas do “Pavão Misterioso”, em Santa Catarina, ninguém entende os rastros da polícia, que parece encobrir na Operação Chabu a sua própria corrupção interna.

    PRISÃO DE GEAN LOUREIRO: OPOSIÇÃO SE MANIFESTA (NOTA)

    Florianópolis amanheceu com a notícia de que o Prefeito Gean Loureiro (sem partido) foi preso por fazer parte de uma suposta organização criminosa articulada para atrapalhar e impedir investigações da Polícia Federal.

    Os vereadores signatários desta nota assumem o dever legal de se manifestarem publicamente nos termos do art. 37 da Constituição Federal. Somos sabedores que o método Gean de fazer política é questionável. Sem juízo definitivo, sua prisão indica que temos à frente da administração municipal um agente político que construiu sua trajetória por meios duvidosos e com provável quebra de princípio basilar da ética e da honestidade, agindo de modo incompatível com a dignidade e o decoro dos cargos.

    Sua desvinculação recente das fileiras partidárias do MDB foi anunciada como decisão positiva para se afastar dos escândalos promovidos pelo seu partido. Para nós, essa decisão sempre representou mais uma estratégia eleitoral do que uma decisão sincera e de combate aos mal feitos de seu renegado partido.

    Exerceremos nossa função parlamentar de fiscalização e estaremos atentos e vigilantes no nosso dever legal. Não tomaremos decisões por impulsos e nem por motivações midiáticas.

    Certos que preparados estamos para qualquer desafio, buscaremos estar sintonizados com o sentimento de justiça, representando os interesses do povo florianopolitano.”

     

    Afrânio Boppré – Vereador PSOL
    Lino Peres – Vereador PT
    Marquito – Vereador PSOL
    Vanderlei Farias – Vereador PDT

     

    NOTA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES DE FLORIANÓPOLIS SOBRE A PRISÃO DO PREFEITO GEAN LOUREIRO

    O Partido dos Trabalhadores de Florianópolis mantém sistemática oposição ao governo de Gean Loureiro, uma vez que a política implementada pelo prefeito é diametralmente oposta à visão de mundo defendida por nosso Partido, tanto que nossa bancada atua como oposição ao paço municipal, com responsabilidade e de forma sempre propositiva, fato é que nosso projeto de cidade não cabe neste projeto implementado por Gean.

    Contudo, mantemos a responsabilidade e coerência na defesa intransigente do estado democrático de direito, rechaçando práticas que ferem o princípio da presunção de inocência, do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, para dizer o mínimo.

    As prisões pirotécnicas como método tem sido a arma do estado policialesco que tanto combatemos nesses últimos tempos de nítido obscurantismo.

    Que as investigações apurem adequadamente as respectivas responsabilidades cíveis, criminais e administrativas, mas sempre sob o holofote das regras do jogo democrático e das garantias e direitos individuais.

    Vários são os exemplos de excessos cometidos pelas autoridades investigativas do Estado pelo País afora, sendo que em Santa Catarina, por exemplo, passamos pelo fatídico episódio que vitimou o Reitor Cancelier, cujo inquérito recém finalizado conclui sua total inocência.

    Independente de apoiar ou não determinada figura pública e sua política, o foco deste tipo de ação policialesca espetacularizada precisa ser necessariamente pensada a partir do cabimento da prisão, seja ela flagrante, preventiva ou temporária, e o consequente risco que um Chefe do Executivo tem de fuga ou destruição de provas do eventual ilícito. Nesse caso, faz-se necessária uma rápida manifestação da Justiça Federal a respeito. A cidade, tanto quanto os indiciados e presos, merecem saber quais os motivos das suas prisões.

    Florianópolis 18 de Junho de 2019
    Executiva Municipal do Partido dos Trabalhadores de Florianópolis

     

    https://www.facebook.com/afranioboppre50/videos/438509180323097/?t=1

  • Irmã de haitiano linchado em SC chega hoje ao Brasil para buscar filho

    Irmã de haitiano linchado em SC chega hoje ao Brasil para buscar filho

    Tingue foi linchado por uma horda de racistas. Foto: arquivo pessoal

    Neste domingo faz uma semana que o corpo do imigrante haitiano Kerby Tingue está no Instituto Médico Legal, para onde foi levado pela Polícia Rodoviária Federal e registrado enganosamente como  vítima de acidente de trânsito. O estudante e trabalhador foi assassinado na madrugada de segunda, após ser espancado e empurrado para a BR 101 por uma horda de racistas na saída da boate Forma Eventos, no município de São José, vizinho de Florianópolis. Segundo testemunho de um amigo haitiano da vítima, um grupo de cinco homens o viu urinando do lado de fora da casa e começou a esmurrá-lo e a chutá-lo. Logo muitas outras pessoas enfurecidas se juntaram ao linchamento de Kerby, que terminou sua vida no Brasil atropelado por um caminhão. A testemunha conta que sofreu várias ameaças de morte no local e os grupos de apoio estudam pedir proteção federal. As redes de solidariedade se mobilizam para apoiar a irmã, que chega hoje do Haiti para buscar o filho que estava sob a guarda do jovem no Brasil. Marie vai reconhecer o corpo no IML e pretende levar o corpo para ser enterrado no Haiti, mas a família não tem recursos para o traslado.

    Imigrante haitiano foi espancado e morto por frequentadores da boate que o viram urinar do lado de fora. Foto: Divulgação

    Parlamentares e entidades apoiadoras de imigrantes e refugiados em Florianópolis (SC) realizam uma reunião de emergência na segunda-feira (10), às 15 horas, na Casa da Memória, para oferecer apoio à família da vítima e exigir da polícia civil a investigação e punição dos assassinos do imigrante haitiano Kerby Tingue, 32 anos. Vão também tratar com a irmã da vitima, Marie Tingue, que chega neste domingo do Haiti, sobre o traslado do corpo para o país de origem, conforme a médica Thaís Lippel, do Grupo de Trabalho do Imigrante da Assembleia Legislativa de Santa Catarina . Marie Tingue vem a Florianópolis para buscar seu filho, de 11 anos, que estava sob os cuidados do irmão assassinado. A criança está provisoriamente sob a guarda do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente.

    A Diretoria Estadual de Investigações Criminais de Santa Catarina confirmou na sexta-feira ao anoitecer, através das filmagens da rodovia, que se tratou mesmo de um homicídio e não de um atropelamento acidental. Um inquérito policial aberto na sexta-feira (7/6) tem 30 dias para chegar a uma solução. Mas isso só ocorreu após a Polícia Civil ser informada pelos Jornalistas Livres sobre as denúncias do assassinato do imigrante que circulava nos grupos das redes de apoio.

    Delegado Galeno promete: “Identificar os autores e a motivação do crime agora é questão de tempo”

    Mais do que refutar a versão do acidente, as imagens mostram claramente que Kerby foi vítima de um linchamento assistido por mais de uma dezena de pessoas.  Neste final de semana, o delegado responsável pelo inquérito, Manoel Galeno, está realizando diligências nos arredores da boate para encontrar testemunhas entre os frequentadores e vizinhos. A polícia civil de São José já havia rondado a área, sem sucesso, na sexta-feira à noite. “O principal, que eram as provas do homicídio, já foi feito. Agora é só questão de tempo para chegar aos culpados”, promete Galeno.

    O Boletim de Ocorrência registrado pela PRF no dia do crime culpa Kerby pela própria sorte ao agir “em desobediência à lei do trânsito e avançar a pista de rolamento”. Esse documento mostra também que no registro policial houve sonegação de informações sobre o espancamento e o empurrão criminoso para a rodovia pelas pessoas que assistiram à violência. O próprio caminhoneiro, que esperou a polícia chegar e tratou de se defender de qualquer culpa, pode ter ignorado a movimentação dos agressores ou ter sido enganado pelo testemunho da multidão aglomerada em volta. As entidades também avaliam a cumplicidade ou negligência da própria PRF ao prestar ocorrência no local e inocentar os envolvidos.

    FAMÍLIA NÃO TEM RECURSOS PARA O TRASLADO

    Marie Tingue chegou a Florianópolis às 9 horas de hoje e em seguida se reuniu com a comunidade haitiana para tomar pé da situação. Amanhã ela se reúne com entidades solidárias e vai ao IML identificar o corpo

     

     

     

    Além de resgatar o filho que estava sob a guarda do irmão assassinado, Marie Tingue chegou a Florianópolis hoje às 9 horas para tratar do traslado do corpo em nome da família.  Em seguida ela se reuniu com a comunidade haitiana. A operação de traslado tende a ser um grave problema porque a família não tem condições financeiras de arcar com os custos, explica Jeruse Romão, socióloga e integrante do gabinete do vereador Lino Peres, que está convocando a reunião com as entidades solidárias para agilizar as providências junto aos órgãos responsáveis.  “A família está muito chocada, muito triste e muito abalada com a hipótese de não poder se despedir do jovem na sua terra natal, onde ele tem um filho”, relata a socióloga negra, que na quinta-feira recebeu a denúncia de uma testemunha e a fez circular nas redes de apoio. Segundo ela, na segunda-feira, Marie vai ao IML reconhecer o corpo e buscar o laudo do óbito. “E daí este corpo abatido talvez nos conte mais detalhes sobre o horror vivido por esse jovem”.

    Na sexta-feira, assim que a reportagem dos Jornalistas Livres recebeu a denúncia da professora de Língua Portuguesa para estrangeiros, Elsa Nuñez, integrante do Grupo de Apoio aos Imigrantes e Refugiados de Florianópolis, procurou a polícia civil de Biguaçu e São José para elucidar o assassinato. Graças às informações das redes solidárias repassadas pela reportagem, a polícia confirmou que o cadáver despejado há cinco dias no IML como se fosse um indigente, sem qualquer comunicação oficial à família da vítima, aos amigos ou às entidades apoiadoras, era o do imigrante negro assassinado pelos frequentadores da casa de shows Forma Eventos.  A princípio, a Polícia Civil acreditava que tudo não passava de boato ou de uma fake news recorrente há mais de um ano.

    TESTEMUNHA RECEBEU VÁRIAS AMEAÇAS DE MORTE

    Amigo de Kerby afirma que foi intimidado por agressores para não delatar o espancamento no próprio local do crime. Entidades avaliam possibilidade de pedir segurança da Polícia Federal para proteção da testemunha.

    Haitiano estava feliz no Brasil onde trabalhava e estudava inglês há dois anos. (Foto: Arquivo pessoal)

    O haitiano que acompanhava Kerby na noite de domingo, testemunhou que ele foi espancado primeiramente por um grupo de cinco homens e na sequência várias outras pessoas se juntaram ao linchamento, incluindo mulheres. Conta que Kerby apanhou muito e também ele, inclusive, ficou bastante machucado. Quando viu que a situação fugia de controle e que não daria conta de defender o amigo, saiu para buscar socorro. Quando voltou encontrou o amigo já estendido e morto. Segundo as pessoas no local relataram para ele, o conterrâneo morreu ao tentar fugir do espancamento correndo para a rodovia. E foi essa a versão produzida pelos algozes e cúmplices do assassinato difundida entre os grupos de apoio no Brasil, os amigos e a família no Haiti.

    Ao constatar nas imagens liberadas pelo DEIC, na sexta-feira, que Kerby foi empurrado para as rodas do caminhão pela multidão ensandecida, a testemunha entrou em choque emocional e precisou de ajuda médica. Ele está recebendo ajuda psicológica desde sábado.  “Conhecer a verdade sobre a forma cruel como o jovem foi assassinado abateu muito a família”, relata Jeruse. No próprio local do crime, o amigo afirma que recebeu várias ameaças de morte dos agressores para não delatar o espancamento. As entidades avaliam inclusive a possibilidade de pedir segurança da Polícia Federal para a proteção da testemunha.

     

    HAITIANOS E AFRICANOS DESCOBREM DOR DO RACISMO NO BRASIL

    Imigrante ganês usou metáfora física para explicar a dor moral que o racismo provoca em estrangeiro negro que se arrisca a tentar a vida no Brasil: “é como extrair um dente sem anestesia”. Historiadora considera fato a emergência de uma onda neonazista no Sul do Brasil. 

     

    Pai de um menino que está no Haiti, Kerby estudava inglês no Curso de Extensão do Instituto Estadual de Educação e trabalhava como mecânico na empresa Autoviação Catarinense, em Florianópolis, desde o dia 31 de janeiro de 2018. Dhiego Nazario, que estava empregado com Kerby há dois anos na mesma empresa, considerava-o um “super profissional” e surpreendeu-se ao saber  do assassinato através do site dos JL. Segundo Dhiego, na empresa todos os colegas achavam que o haitiano havia sofrido um acidente. “Jamais cogitamos essa hipótese”. Ex-estudante de língua inglesa da UFSC e do IFSC São José, jogava basquete na Liga Desportiva NBA antes de vir ao Brasil e falava cinco línguas, de acordo com o seu perfil nas redes sociais.

    Espancado por frequentadores da boate, Kerby é empurrado para marginal da BR sob tráfego intenso. Foto: divulgação

    Em solidariedade ao haitiano, o vice-presidente da Associação de Senegaleses em Florianópolis, Cheik Bamba Diop, afirmou que o povo africano seria feliz no Brasil se não fosse a discriminação. “Na verdade, a justiça não ajuda, não dá valor aos imigrantes, nem a Polícia Federal. Muitos imigrantes que moram aqui são obrigados a ir para Itajaí renovar o protocolo de entrada.” Para Cheik, a maioria dos caribenhos e africanos não têm maldade e frequentam lugares perigosos para os negros por falta de esclarecimento.

    A historiadora Marlene de Fáveri, autora de livros sobre o nazismo em Santa Catarina, considera fato a emergência de uma onda neonazista no Sul do Brasil. Os imigrantes africanos e caribenhos descobrem o sentido do racismo no Brasil. Em depoimento a Bruna Kadletz, coordenadora dos Círculos de Hospitalidade na grande Florianópolis, um imigrante ganês usou uma metáfora física para explicar a dor moral que o racismo provoca num estrangeiro negro que se arrisca a tentar a vida no Brasil: “é como extrair um dente sem anestesia”.

     

  • Exclusivo: Frequentadores de boate matam haitiano e ocultam crime da polícia

    Exclusivo: Frequentadores de boate matam haitiano e ocultam crime da polícia

    Trabalhador haitiano foi espancado e morto por frequentadores da boate porque urinava do lado de fora. Foto: divulgação

    O imigrante haitiano Kerby Tingue, 32 anos, foi espancado brutalmente por cinco frequentadores que saiam da casa de shows Forma Eventos, por volta de 2h30 da madrugada de domingo para segunda (3/6), em São José, município vizinho de Florianópolis (SC). A agressão, envolvendo possivelmente seguranças da casa noturna, teria ocorrido porque ele estava urinando ao lado de fora da boate, segundo moradores e testemunhas. Depois de espancado, o trabalhador e estudante foi comprovadamente empurrado para cima de um caminhão que passava pela Br-101, em frente à boate. Kerby morreu na hora, abatido no asfalto. O caminhoneiro chamou a Polícia Rodoviária Federal, que registrou a morte no Boletim de Ocorrência como atropelamento por imprudência da própria vítima. Seu corpo foi levado como se fosse o de um indigente ao Instituto Médico Legal, onde permaneceu por cinco dias, sem que a Delegacia de Polícia Civil tomasse ciência do crime. O inquérito policial só foi aberto hoje, no final da tarde, após os delegados de Biguaçu e de São José serem informados pelos Jornalistas Livres da notícia que já corria entre os imigrantes haitianos e confirmarem o crime através das imagens das câmeras de videomonitoramento da rodovia. “Foi homicídio mesmo”, reconheceu o delegado responsável, Manoel Galeno, que tem 30 dias para concluir o inquérito.

    Kerby Tingue, assassinado porque urinava na rua, era considerado feliz e “irreprovável” pelos amigos

    No segunda mesmo, já começaram a circular nas redes sociais e chats privados de grupos de solidariedade as informações sobre o atroz assassinato de Kerby, que cuidava de um sobrinho de 11 anos e morava no bairro Monte Cristo. Ex-estudante da UFSC, ele trabalhava na empresa Auto Viação Catarinense como mecânico desde o dia 31 de janeiro deste ano, estudava inglês no Curso de Extensão do Instituto Estadual de Educação e jogava basquete na Liga Desportiva NBA antes de vir ao Brasil. A família e os parentes no Haiti já sabiam do ocorrido e lamentavam a morte em suas páginas no Facebook, ressaltando que o rapaz estava muito feliz no Brasil com a conquista de um emprego. A irmã do jovem, Marie Tingue, chega a Florianópolis no domingo para buscar o filho que estava sob a guarda dele. “Frè pam mwen pap janm bliyew afè pam, ti mal ou kiten ak dlo nan je”, escreveu Guyto Viellot, em crioulo, que significa “Meu irmão jamais será repreensível, pessimista, fatigado”.

    Entidades apoiadoras de imigrantes e refugiados e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa estão sendo chamadas para uma reunião de emergência na segunda-feira (10), às 15 horas, na Casa da Memória, convocada pelo gabinete do vereador Lino Peres. A família não tem dinheiro para o traslado do corpo e está muito abalada, segundo a socióloga Jeruse Romão, que está em contato com a irmã. Deve ocorrer um ato no início da semana em protesto aos episódios de violência, racismo e xenofobia contra imigrantes e refugiados africanos e nordestinos, que têm sido recorrentes em Florianópolis e região, segundo Elsa Nuñez, professora voluntária de Língua Portuguesa para esse público e integrante do Grupo de Trabalho do Imigrante da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina.

    No dia 30 de março, Kerby publicou uma foto na sua página do Facebook com o slogan “Eu amo a minha vida”.

    Ex-estudante da UFSC, o mecânico falava inglês, francês, crioulo, português e espanhol

    Imediatamente após assumir o inquérito, o delegado de São José, Manoel Galeno, afirmou que ainda não pode esclarecer os fatos, nem fornecer informações sobre quem são os autores do espancamento e do homicídio, nem concluir quem ocultou o crime ou se os seguranças estavam entre os espancadores e assassinos. “Como a polícia só tomou conhecimento do assassinato agora (através dos Jornalistas Livres), nós ainda estamos apurando e investigando tudo isso”.

    A narrativa repassada à polícia foi fornecida aos Jornalistas Livres por integrantes das redes de entidades solidárias e por moradores da região. “Eu soube que ele foi espancado por seguranças da boate porque estava urinando num local inadequado, cambaleou e morreu depois de ser atropelado”, informa um estudante de jornalismo, morador do bairro, que preferiu não se identificar. Já o delegado Galeno constatou pelas imagens que o haitiano “foi empurrado para cima do caminhão que passava” pela marginal da Br, na direção Sul, o que, segundo ele, comprova o homicídio.

    A boate Forma, que fica de frente para a BR 101, é famosa pelos incidentes, brigas e situações de violência, segundo o estudante de Jornalismo. “Já houve morte lá antes e nada acontece”. Conforme Elsa Nuñez, do Grupo de Apoio aos Imigrantes e Refugiados de Florianópolis (GAIRF), o motorista do caminhão parou ao colidir no jovem e foi ele quem chamou a PRF. “Tudo ainda precisa ser investigado pela polícia”, reitera o delegado.

     

    PRIMEIRO B.O. CULPA VÍTIMA POR DESOBEDECER NORMAS DE TRÂNSITO

    Boletim de Ocorrência inicial culpa a vítima por ter avançado sobre a rodovia, desrespeitando as regras de trânsito

     

    Enquanto nas redes sociais o assassinato de Kerby corria de boca em boca, a Polícia Civil ignorava o crime. Esse descompasso aconteceu porque inicialmente a informação era que o crime havia ocorrido em Biguaçu. Procurado pelos Jornalistas Livres, o delegado do município, Carlos Diego, chegou a afirmar que se tratava de um boato antigo, recorrente há mais de dois anos. O delegado só descartou a hipótese de Fake News quando informado pelos JL de que o corpo do imigrante fora levado para o Instituto Médico Legal, segundo uma testemunha. A polícia então verificou que de fato havia um corpo não reivindicado no IML com essa procedência. A autoridade solicitou as imagens das câmeras da rodovia e confirmou que o haitiano havia sido mesmo assassinado em frente à Forma Eventos, no Bairro Serrarias, no município de São José, e não de Biguaçu.

    Às 20h20, o delegado da Polícia Civil, Manoel Galeno, repassou o Boletim de Ocorrência do dia do crime, aberto pela Polícia Rodoviária Federal como acidente de trânsito, ocorrido por vota das 4h30. Registra também que o trabalhador foi atendido pela equipe de resgate da Arteris Litoral Sul, cujo médico responsável constatou o óbito no local. O documento confirma que o motorista do caminhão, Ronie Mário Petry, parou e aguardou a chegada da polícia.

    A narrativa do B.O. culpa a vítima por ter avançado sobre a faixa de rolamento no km 199,1 da Br-101, “em desobediência às normas do trânsito”. Até o artigo da lei que proíbe o pedestre de avançar sobre a pista é citado para aferir a inocência do caminhoneiro, que prestou exames de alcoolemia, mas não viu que o haitiano fora empurrado para a pista, como mostram as câmeras. Depois de verificar que o crime havia sido ocultado durante cinco dias da polícia, o delegado afirmou que está a poucos passos da elucidação. “O principal já temos, que são as imagens das câmeras. Para chegarmos aos culpados é uma questão de horas”.

    Também integrante do GAIRF e do GTI da Alesc, a antropóloga da UFSC, Janaína Santos, associa o ocorrido aos frequentes episódios de racismo e xenofobia que atingem os imigrantes africanos. “Mais um absurdo caso de violência e assassinato contra um jovem haitiano, que foi espancado por cinco pessoas e empurrado para ser atropelado. O racismo estrutural e abjeto segue fazendo ainda mais vítimas…”, afirma ela, que fez sua tese de doutorado sobre imigrantes.

     

    Saída da Forma eventos, onde Kerby foi espancado e empurrado para o atropelamento.
    Fotos: divulgação

     

    Grupo de Trabalho dos Imigrantes da ALESC

    Chamamos para reunião na segunda-feira, às 15 horas reunião do GTI na Casa da Memória, rua Padre Miguelinho, 58, centro, próximo da Câmara de Convidamos todxs para uma reunião, às 15 horas, na Casa da Memória, com Marie Tingue, a irmã de Kerby, que chegará no domingo do Haiti.

    Já vamos apresentar as dificuldades, necessidades com sugestões de encaminhamento para este caso de violência contra o imigrante haitiano que foi espancado pelo agressores e empurrado para a Br 101, onde foi atropelado e veio a falecer.

     

     

     

     

  • Ex-guerrilheiro político desaparece em Florianópolis

    Ex-guerrilheiro político desaparece em Florianópolis

    Desaparecido desde sábado (1/6), e procurado com a ajuda de cães farejadores por toda Florianópolis (SC), ele faz parte importante da memória da luta contra a ditadura militar. A maior parte das pessoas que reproduzem o anúncio sobre seu desaparecimento ignora, contudo, que Antônio José da Luz Amaral Filho, 83 anos, é um guerrilheiro sobrevivente da repressão. Ex-secretário do Partido Comunista Brasileiro no Paraná, onde atuou como advogado e procurador, passou por perigos inimagináveis. Participou de operações  arriscadas das guerrilhas urbanas, a exemplo do assalto ao navio argentino Missiones, aportado em Paranaguá.

    O desaparecimento de Antônio José da Luz Amaral Filho há quatro dias mobiliza a família, a polícia e as redes sociais em Florianópolis em uma busca sem trégua. A Delegacia de Polícia de Pessoas Desaparecidas (DPPD) e a Guarda Municipal de Florianópolis trabalham desde o final da manhã de terça-feira, 4, procurando pistas do senhor que gosta de caminhar pela cidade. Cães farejadores, estimulados pelo odor de uma peça de roupa da vítima, auxiliam os policiais na busca pelos matagais e na praia do Campeche, onde foi visto pela última vez no sábado à tarde.

    Seu desaparecimento está sendo amplamente anunciado pelo G1 e por vários veículos de comunicação de Santa Catarina como o sumiço de um senhor de saúde frágil, que toma remédios para diabetes, pressão alta e perda de memória. O que a maior parte das pessoas ignora é a biografia corajosa deste homem que foi protagonista importante da história da resistência no Brasil.

    Foto mais recente do advogado desaparecido que atuou na guerrilha do Paraná (Acervo familiar)

    Amaral, como é conhecido na memória da luta contra a Ditadura Militar, foi militante e secretário geral do Partido Comunista Brasileiro no Paraná. Em Curitiba,  atuou profissionalmente como procurador e como advogado durante 50 anos. Passou por perigos inimagináveis, participando de ações arriscadas das guerrilhas urbanas, como o assalto ao navio Missiones, da Argentina, fundeado no Panamá. Embora não faça segredo sobre sua trajetória política, a biografia clandestina de Amaral é mais conhecida dos familiares e amigos próximos. Integrou ações pela derrubada da ditadura de 64 ao lado de figuras como Luiz Carlos Prestes, Carlos Lamarca, Dilma Rousseff e seu marido na época, Cláudio Galeno Linhares e Aguilberto Vieira de Azevedo, militante do PCB desde a Intentona Comunista de 1935.

    Nascido em uma família culta e abastada, ele arriscou a carreira, o conforto e a própria vida para lutar por justiça social. Ajudou a construir a resistência não só com sua inteligência e vitalidade física, mas empregando recursos financeiros para garantir a sobrevivência de outros lutadores.

    Amaral, no pátio do Diretório Estadual do PT, em 18/09/2018, na recepção ao candidato Fernando Haddad. Foto: Raquel Wandelli

    BRAÇOS DADOS COM O GUERRILHEIRO

    Encontrei Amaral em 18 de setembro de 2018 a caminho da recepção a Fernando Haddad no Diretório Estadual do PT/ SC, quando me dirigia para a entrevista coletiva ao candidato à presidência da República, antes do seu comício em Florianópolis. Um amigo me parou para apresentá-lo e pedir para acompanhá-lo até o evento que ele queria muito presenciar. Tomei-o sem demora pelo braço e o conduzi por um percurso de quase dois quilômetros pelo centro da cidade até o local da coletiva. Depois do pronunciamento de Haddad, o ex-guerrilheiro falou com orgulho e altivez. em entrevista ao vivo aos Jornalistas Livres. Também  colaborou com a luta pela redemocratização do Brasil, no lado1 de outros célebres lutadores, 111

    Ao ver os anúncios de jornal e de televisão que comunicavam seu desaparecimento, reconheci-o imediatamente e recordei nossa conversa. O ex-secretário do PCB contou um pouco sobre a operação do navio argentino Misiones, fundeado na baía de Paranaguá, quando ele atuava na  guerrilha paranaense.  Questionei-o por que nunca foi pego pela repressão, e ele respondeu, bem humorado, que escapou à prisão e à tortura graças à extensão do seu nome:

    “No assalto ao navio Missiones, da Argentina, estavam comigo judeus muito ricos de Curitiba que caíram [presos no DOPS] em São Paulo. Mais tarde eles me contaram: ‘Amaral, levei uns 30 paus de arara; estava para te entregar, mas não consegui lembrar o seu nome’. Eles tentavam entregar meu nome, mas esqueciam”.

    Os três geradores e a casa de rádio, tirados do navio, foram, segundo Amaral, doados ao guerrilheiro Carlos Lamarca para que pudesse organizar a resistência brasileira em contato com os comitês internacionais. Da mesma forma, os fuzis e granadas resultantes do saque ao quartel de Alto Piquiri, também no Paraná, foram transferidos ao capitão, que desertou do Exército Brasileiro para comandar o movimento revolucionário armado. Adepto a um socialismo de viés democrático, fez questão de ressaltar que a luta armada foi necessária para fazer frente às atrocidades dos militares de 64, mas não a considera mais a estratégia correta – ao menos não a considerava no cenário pré-eleição de Bolsonaro.

    Amaral estava com esta jaqueta quando visto pela última vez no restaurante Vizu (Foto: arquivo pessoal)

    CÃES FAREJAM RASTROS ATÉ PONTO DE ÔNIBUS PRÓXIMO

    Visto pela última vez no bairro Campeche, por volta das 15 horas desse sábado, seu sumiço pode estar, segundo o delegado Wanderley Redondo, da Delegacia Especializada em Pessoas Desaparecidas de Florianópolis,  relacionado ao quadro de saúde que inclui princípio de diabetes, pressão alta e perda de memória. Ele almoçava com a família no restaurante e bar Vizu quando avisou que sairia para dar uma caminhada enquanto os demais acompanhantes terminavam a refeição. E não voltou mais.

    Após as primeiras buscas na região do desaparecimento, o delegado informou que os cães farejadores da Guarda Municipal levaram os policiais até um ponto de ônibus, localizado a 100 metros de distância do restaurante, onde ele foi visto pela última vez. Isso pode ser um indício de que o militante entrou num ônibus e saltou em local ainda ignorado, segundo Wanderley Redondo. Na quarta-feira, a DPPD teria acesso as imagens da empresa Fênix, que presta serviço de vigilância eletrônica para o sistema de ônibus da região. As imagens ajudariam a investigar o destino do advogado, caso tenha mesmo tomado uma condução.

    Já no domingo, no dia seguinte ao sumiço, a família registrou Boletim de Ocorrência na 2ª Delegacia de Polícia Civil. A notícia do desaparecimento começou a mobilizar a cidade a partir de um comunicado do neto de Amaral em sua página no Facebook:

    Reprodução de foto de anúncio nas redes sociais

    “Olá. Meu avô desapareceu na Avenida Campeche, próximo ao Vizu Bar e Restaurante, ontem (1/6) às 15h/16h. Não temos nenhuma notícia dele desde então. Divulgamos sua foto em muitos grupos de Whatsapp e Facebook. Estamos sem chão. Ele é conhecido como Dr. Amaral. É um senhor de 84 anos e precisa tomar remédios diariamente. Peço, em nome de toda a nossa família, que vocês nos ajudem a encontrar alguma pista de onde ele possa estar, divulgando o desaparecimento. Ele é um cidadão de bem, advogado aposentado, muito querido por diversos amigos e conhecidos.
    Contato: (48) 99668-0771 – Nicolas”

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Pai de três filhos adultos e morador do bairro Agronômica, Amaral não dormiu em casa no sábado. Conforme a família, durante o dia ele gosta de passear de ônibus pelos arredores da Ilha e Continente, mas sempre retorna para casa no final da tarde. Em depoimento à polícia, familiares disseram suspeitar que ele tenha caído ou perdido os documentos, em razão da perda de equilíbrio em sua idade avançada.  Como ele advogou em Curitiba durante 50 anos, o filho Antonio da Luz Amaral Neto considera a possibilidade – e a esperança – de ter viajado para o Estado do Paraná. Os parentes também recorreram ao Grupo de Apoio a Familiares de Desaparecidos de Santa Catarina (GAFAD-SC). Conforme a agente Márcia Hendges, da DPPD, em entrevista ao G1, até a tarde de ontem não havia pistas do Dr. Amaral, como é carinhosamente chamado.

    “Nenhuma informação até agora foi repassada, nem para família, para
    polícia ou autoridades. Isso causa estranheza na gente. Ele é um
    senhor que caminha devagar, não tem telefone. Então a gente trabalha
    com a possibilidade de estar perdido em alguma mata ou ter tido um mal
    súbito”.

     

     

     

     

    A ADMIRAÇÃO POR PRESTES, ANITA E DILMA ROUSSEFF

    Nascido no Recife, Amaral se formou em Direito em Curitiba. Atuou como procurador no Estado do Paraná e transferiu-se com a família para Florianópolis aos 76 anos, em 2012, quando ficou viúvo. Ele próprio se intitula um comunista nascido em berço de ouro, mais propriamente num palácio da Ilha do Retiro, onde hoje está instalado o estádio de futebol do Sport Club Recife. Os pais eram ricos, mas mantinham ligações contraditórias com militares e pessoas influentes no poder de um lado e, de outro, cultivavam vínculos de amizade com intelectuais e militantes de esquerda.

    Amigo e admirador de Prestes, mas também de Brizola, Dilma Rousseff, Oscar Niemeyer, João Saldanha, João Goulart e Mário Lago, seu caminho é cruzado por amigos e camaradas com um traço semelhante ao dele: apesar da origem burguesa, firmaram um compromisso inquebrantável com as classes oprimidas e com a revolução. De Curitiba trouxe na bagagem um valioso espólio de correspondências com militantes históricos e recortes de jornais sobre acontecimentos políticos.

    Nesse relicário, há um lugar de destaque para a amizade com a família de Prestes, o Cavaleiro da Esperança, que percorreu 30 mil quilômetros de Norte a Sul do Brasil, comandando a coluna tenentista. Mantém uma coleção de cartas manuscritas ou datilografadas trocadas com Prestes e com sua filha Anita Leocádia, por quem nutre verdadeira veneração. Algumas cartas de Prestes fazem análises da conjuntura política e econômica; outras, de Anita, falam de decisões pessoais após a morte do pai; outras ainda convocam para os eventos em comemoração ao aniversário do revolucionário, em 1983. Uma mensagem, assinada pelo líder comunista, tem um significado especial para o destinatário:

    “Ao companheiro e amigo Antônio J. da Luz Amaral Filho, nossos votos de boas festas e feliz ano novo e de paz no mundo. Abraço fraternal”

    Apesar de tomar remédios para o controle de diabetes, cujo uso contínuo causam a perda transitória de memória, o Antônio José da Luz Amaral Filho que conheci mostrou-se um homem forte, lúcido, inteligente, culto e de uma franqueza desconcertante. Apoiado em meu braço, caminhou com a firmeza e a determinação de um velho camarada até o local da recepção a Fernando Haddad. Grande estudioso da história do Brasil, conhece também a história internacional moderna e antiga. É capaz de entrelaçar os trunfos e as derrotas do comunismo com interpretações políticas, econômicas e religiosas sobre a ascensão do fascismo no mundo. Falando baixo e com certa dificuldade de ser compreendido devido à perda da arcada dentária superior, analisou o quadro das eleições na entrevista ao JL:

    “A eleição do Brasil é perigosa porque a maioria não consegue compreender a sua grandeza. Os políticos populistas não conseguem viver a grandeza da eleição. Eles não conseguem sentir como realmente a eleição é mais do que popular; ela é a vida do povo. Uma eleição no Brasil é a vida do próprio povo no momento eleitoral.”

    Informações sobre o paradeiro de Antônio José da Luz Amaral Filho devem ser prestadas através do telefone da DPPD: (48) 3665-5595.

     

     

    Entrevista com o ex-guerrilheiro a partir do ponto 11:25

  • Jornal da Record em SC cria Fake News para promover porte de armas

    Jornal da Record em SC cria Fake News para promover porte de armas

    Jornal faz apologia ao uso de armas com base em relação improvável entre facilidade para o porte de armas e diminuição da criminalidade

    Santa Catarina prova com seu exemplo que quanto maior facilidade para o porte e posse de armas de fogo menor é o índice de criminalidade e violência. Essa é a criminosa mentira veiculada pelo jornal Notícias do Dia, do Grupo RIC/Record em Florianópolis (SC), para pressionar o Congresso a aprovar o decreto presidencial que facilita a liberação do uso de armas para a população. A falta de escrúpulos crescente da publicação tornou-se objeto de denúncia nacional sobre a ética jornalística. Na manchete de capa da terça-feira (28/5), intitulada “SC tem mais armas e menos violência“, o ND reproduz uma fake news já denunciada por sites de verificação de notícias a fim de incutir na opinião pública a relação de causa e efeito estapafúrdia entre  o armamentismo e a paz social. A reportagem apresenta o estado de Santa Catarina como um exemplo de que o elevado número de registro de armas explicaria a redução nos índices de criminalidade, apresentados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública como os mais baixos do país.

    Essa mentira criminosa, considerando que o jornalismo tem o dever de contribuir com a cultura da paz, foi inicialmente veiculada pelo Jornal da Cidade Online, de extrema direita, e multiplicada nas redes sociais com 71,9 mil compartilhamentos. Há uma semana, no dia 23 de maio, precisamente, o Instituto Verificador de Notícias, o Lupa, da Revista Piauí (Grupo Folha), já havia mostrado que a relação infundada entre armamento da população e paz social se baseia em dois dados falaciosos: o de que Santa Catarina tem o maior registro de armas de fogo e o mais baixo índice de criminalidade do país. Na quarta-feira mesmo (29/5), a Objethos, uma revista de análise crítica da mídia ligada ao Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, publicou artigo denunciando as distorções éticas de toda a edição do ND, que dedica, além da capa, duas páginas à defesa unilateral das investidas armamentistas do presidente. Sobre a manchete, a analista aponta: “A frase projeta uma relação de causa e efeito capaz de estimular uma população a viver em guerra, já que indica que o volume de armas está estatisticamente relacionado aos índices de contenção da violência”.
    No afã de defender as teses armamentistas, o jornal sucumbe de vez à mentira e à deturpação dos panfletos bolsonaristas mais inescrupulosos, desrespeitando o dever jornalístico ao contraditório e à defesa da Declaração dos Direitos Humanos. Em duas páginas, desconhece as análises dos criminalistas que comparecem à mídia nacional e internacional demonstrando o aumento da violência nos países permissivos ao consumo bélico. Finge ignorar as críticas de que por trás do decreto está o interesse de promover o mercado de armas no Brasil, privatizar a segurança pública e legalizar o abuso de poder policial, franqueando o extermínio de pobres e negros sob a alegação de legítima defesa. A própria reportagem enaltece as previsíveis vantagens para os clubes de Tiro, já abundantes no estado, que devem experimentar uma grande expansão, segundo projetam os proprietários desse comércio.

    Matérias, entrevistas, artigos e editoriais cercam a reportagem intitulada “Decreto das armas é direito de defesa”, assinada por Cristiano Rigo Dalcin, como um verdadeiro campo de bombardeio ideológico. Todos os intertítulos tratam como se fosse um consenso absoluto, uma via de mão única essa polêmica explosiva, amplamente contestada por setores representativos da sociedade (judiciário, OAB, acadêmico, parlamentar, organizações em defesa dos direitos humanos, entidades pacifistas). O exemplo “mágico” de Santa Catarina para encorajar a disseminação do uso de armas no Brasil se baseia em correspondências forjadas entre segurança e armamento da população, sem nenhum fundamento científico. Apoia-se unicamente na interpretação forçada de informações dos aparatos de repressão e na opinião viciada de agentes diretamente interessadas no decreto, como os militares que atuam na área de segurança, os propagandistas da indústria bélica e os donos das casas de tiro.

    Benê Barbosa, ardoroso lobista do decreto do armamento no Congresso Nacional. Foto: arquivo pessoal

    É o caso do militante ultradireitista do DEM, Benê Barbosa, presidente da ONG Viva Brasil, ativista que faz lobby no Congresso Nacional e no Senado pelo direito ao acesso a armas de fogo, identificado pelo jornal como “especialista em segurança”, entrevistado pela reportagem. Entusiasta do decreto, coautor do livro Mentiram para mim sobre o desarmamento, o professor de tiro Benê Barbosa afirma que o recente decreto assinado pelo presidente representa um “avanço gigantesco no respeito ao direito de defesa do cidadão”. Em sua página do Facebook, ele comemora a publicação de matérias e editoriais pró-armamentismo pelo ND. A postagem elogiando a matéria do dia 28/5 obteve 3,4 mil engajamentos e 1,4 mil compartilhamentos. Seguidores fazem comentários debochando dos possíveis argumentos de estudantes, sociólogos e esquerdopatas:  “Aposto que as ruas são mais iluminadas, diz o estudante de sociologia da UFSC kkkkk”, ironiza Wiliam Lopes de Oliveira.

    Sócio de Clube de Caça e Tiro, Carlos Vitorino projeta a expansão do ramo em SC com aprovação do decreto armamentista. Foto: arquivo pessoal

    Outro entrevistado de isenção zero e suspeição máxima é Carlos Vitorino, sócio proprietário do Combat de Biguaçu, que pertence a uma rede de Clube e Escola de Caça e Tiro da Grande Florianópolis. Instrutor de tiro que posa para fotos do seu perfil no Facebook portando armamentos e munição pesada, Vitorino se diz “ansioso com a regulamentação do novo decreto”. Depois de afirmar que “quem procura uma arma lícita é o cidadão de bem”, faz apologia aos clubes de tiro como aqueles que capacitam esses cidadãos de bem. O Combat é vizinho do Clube de Tiro.38, de São José, também na grande Florianópolis, frequentado por Carlos e Eduardo Bolsonaro e o esfaqueador de seu pai, ainda candidato a presidente, Adélio Bispo dos Santos. E, como foi revelado no dia 14 de maio pelo DCM, os três eram colegas de tiro de Nilton César Souza Júnior, o ilustre Nilton Dog, assassino do delegado da PF De Angra dos Reis, Adriano Antônio Soares, que investigava a morte do ministro Teori Zavaski. Tudo gente boa.

    Entre os militares entrevistados pela reportagem estão o coronel Araújo Gomes, secretário de Estado de Segurança Pública do governo bolsonarista do comandante Carlos Moisés (PSL), surpreende com uma opinião ambígua sobre as vantagens e desvantagens da liberação das verbas, pontuando que o porte e posse de armas traz “mais responsabilidade para as forças de segurança, que precisam evitar que as armas caiam nas mãos de criminosos”. O mais importante da sua declaração fica obliterado pela edição geral: o coronel desautoriza claramente a hipótese proposta pelo jornal de que a redução da criminalidade seja determinada pelo alto índice de registros de armas. Embora esta afirmação derrube a manchete, a opinião do secretário Araújo fica isolada numa retranca à parte, intitulada: “Mais responsabilidade para as polícias”:
    – A criminalidade está menos relacionada à disponibilidade promovida pela legalização das armas do que a outros fatores, como questões sociais e econômicas ou mesmo o tráfico de drogas, por exemplo. Essa é a opinião do comandante da PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina) e chefe do Colegiado Superior de Segurança Pública do Estado, coronel Araújo Gomes. “Há países que são bastante flexíveis e tem altas taxas de criminalidade e há países flexíveis que têm baixos índices de criminalidade, indicando que esse talvez não seja o principal fator”, argumenta.

    Como não podia faltar a relação de superioridade do Sul sobre o Nordeste, que marca esse pensamento de supremacia racial, conforme outro instrutor, Marcos Marçal, do mesmo Combat Clube e Escola de Caça e Tiro Esportivo, ao contrário do modelo de Santa Catarina: “o Nordeste tem os menores números de armas e as maiores taxas de homicídios”. O bombardeio do jornal Notícias do Dia, pertencente ao empresário Mario Petrelli, do Paraná, desdobra-se no quadro didático “Como obter armas de fogo”. E culmina com o editorial “O direito às armas”, endossado pela assinatura do grupo RIC, sem ouvir uma única voz contestando os dados e suas interpretações a favor da indústria bélica.Operando como um observatório de mídia voltado à análise da conduta ética dos veículos, o Objethos mostra que o jornal não ouve posicionamentos contraditórios. Nega, assim, ao leitor, o direito de conhecer pesquisas, dados e pontos de vista que refutam ou relativizam a tese dogmática em defesa do decreto presidencial que libera a posse de armas para amplos setores da população. “Os índices de criminalidade em Santa Catarina não estão relacionados ao porte de arma – e, ainda que estivessem, seria impossível comprovar este argumento. Ao investir nesta relação de causa e efeito, o jornal Notícias do Dia mentiu aos seus leitores, afastando-se do seu compromisso de informar e contribuir com o debate público e transformando-se em um panfleto de propaganda política pró Bolsonaro”, finaliza a jornalista Amanda Miranda, doutora em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pós-doutoranda na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) no site Objethos.

    Adélio Bispo de Oliveira frequentou o Clube de Tiro .38 na mesma época que Carlos Bolsonaro

    Entre os maiores beneficiados estão os clubes de tiro, aos quais os cidadãos de bem (como Adélio Bispo, Carlos e Eduardo Bolsonaro e Nilton Dog), precisam estar obrigatoriamente filiados para terem autorizado o porte de armas, segundo o decreto.  Se o decreto for aprovado, redes de comunicação de Santa Catarina, estado com a maior concentração desse tipo de clube no país, expandirão seus lucros e poderão, quiçá, assumir de forma aberta o patrocínio de reportagens como essa do ND, veiculando anúncios de página inteira sobre o novo lançamento de espingarda da Taurus, ou de outra empresa estrangeira, para matar agricultores sem-terra, nas versões azul e cor de rosa, pra continuar no campo do “cidadão de bem”.

    Também serão beneficiados pelo decreto armamentista e pelo pacote anticrime do ministro Sérgio Moro os policiais do bordão “atira e mata primeiro, pergunta depois”, como os que assassinaram à queima-roupa o adolescente negro Victor Henrique Xavier dos Santos no Feriado de Páscoa, no bairro dos Ingleses, em Florianópolis, no dia 18 de abril, enquanto brincava no quintal de casa mirando contra latinhas de refrigerante com um revólver de pressão. Passados 42 dias, nada se sabe a respeito do inquérito policial prometido pelo coronel Araújo para apurar se houve abuso de poder por parte dos dois policiais que invadiram a casa da família mascarados, sem mandado judicial e já disparando, enquanto a mãe trabalhava como cozinheira. Depois de executar o garoto com cinco tiros e deixá-lo sangrar até morrer sem socorro médico, a PM alegou ter agido em legítima defesa. Segundo a versão repassada pela Segurança Pública, Vitor teria apontado contra os policiais o seu revólver de brinquedo que eles confundiram com uma arma de verdade. Fake News da campanha armamentista: nem toda criança pode fazer arminha ou brincar com revólveres, como aquelas dos comícios de Bolsonaro. Negras e pobres não vale…

    Protesto em Florianópolis contra o assassinato do menino negro e inocente Vitor Xavier por dois policiais que invadiram sua casa e o executaram com cinco tiros à queima-roupa. Passados 42 dias, nada se sabe a respeito do inquérito prometido pela Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina. Fotos: Thyago Bregeiron da Silva

    https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/05/23/verificamos-armas-santa-catarina/

     

  • Professor de SC denuncia perseguição e demissão ideológica ao MP

    Professor de SC denuncia perseguição e demissão ideológica ao MP

     

    Escola Municipal Oswaldo dos Reis, em Itapema, de onde professor foi demitido por discutir texto sobre tortura, classificado como crime hediondo e inafiançável. (Foto: Arquivo da Prefeitura de Itapema)

    Era a Semana do 55° aniversário da Ditadura Militar brasileira. A quadra de Educação Física da Escola Municipal de Educação Básica Oswaldo dos Reis estava perigosa com as reformas inacabadas. O professor da disciplina, Willian Meister, se viu levado a desenvolver um conteúdo pedagógico em sala com os alunos do sétimo ano. Decidiu apresentar um texto poético sobre a ditadura para discussão dentro do projeto de incentivo à leitura que integra todas as disciplinas. O texto escolhido foi o do poeta paraibano Alex Polari, preso e torturado pelos militares aos 20 anos, suplício que inspirou um conjunto de poemas sobre os porões da ditadura. Polari tornou-se célebre também pelas cartas que escreveu à estilista Zuzu Angel, revelando-lhe ter testemunhado o assassinato, sob violenta tortura, do filho Stuart Angel Jones, desaparecido político que ela procurava obstinadamente há quatro anos. Na carta, Polari descreve os requintes de crueldade sofridos pelo jovem até o último suspiro, calvário de horror que ele conseguiu espiar por um buraco na parede do cárcere.

    As cartas e poemas sobre a tortura na obra de Polari, hoje seguidor do Santo Daime, fazem parte indelével da literatura memorial sobre o Golpe de 64. Já foram inclusive objeto de encenação em especial da rede Globo sobre Zuzu Angel. Embora esses fatos sejam de amplo conhecimento público, a aula provocou a ira de um pai de aluno, o radialista e ex-militar do Exército, Marcelo Fidêncio, que compareceu ao gabinete da prefeita Nilza Simas (PSL) para prestar queixa contra o conteúdo da leitura. Foi o pretexto para Willian Diógenes Meister receber uma advertência por conduta inadequada da direção da escola pública, localizada no bairro Várzea, no município de Itapema, Litoral Norte de Santa Catarina. Na terça-feira, véspera do Dia do Trabalhador, quando deveria renovar o seu contrato como professor Admitido em Caráter Temporário (ACT), a secretária municipal de Educação, Alessandra Simas Ghiotto, irmã da prefeita e ambas aliadas do Governo Bolsonaro, comunicou-o da dispensa do posto que ocupava de forma intermitente desde 2012 através de concurso público. O último contrato se referia ao seletivo do final de 2017, quando ficou em segundo lugar na sua área para escolha de vagas nos dois anos seguintes.

    Professor Willian Meister, ao lada da esposa, também professora: livros em vez de armas. (Foto: arquivo pessoal)

    Em linguagem de ACT, não renovar o contrato significa demissão. Casado com a também professora Alessandra Silva, dois filhos e desempregado, o professor não pensou um momento sequer em se curvar à arbitrariedade. No mesmo dia, entrou com representação no Ministério Público de Santa Catarina – MPSC denunciando a direção da EMEB Oswaldo dos Reis e a Secretaria de Educação da prefeitura por improbidade administrativa, assédio moral e violação da liberdade de cátedra.

    DESEMPREGADO NO PRIMEIRO DE MAIO

    Formado em Educação Física e dedicado à pedagogia, Willian Meister declarou em entrevista aos Jornalistas Livres que o caso dos poemas sobre tortura, classificado como crime hediondo, foi o ápice de um longo processo de perseguição político-ideológica. Assessorado pelo advogado Luiz Fernando Ozawa, ele explica o teor do documento jurídico: “Nossa representação ao MP contra a minha demissão denuncia vários indícios de assédio moral, com farta documentação, ocorridos desde o início do ano, que levaram a gestão da escola a cometer crime de improbidade administrativa”, afirma ele, que atua como militante social nas áreas de direitos humanos, políticas públicas e meio ambiente, hoje não mais filiado a nenhum partido.

    Marcelo Fidêncio, ex-militar do Exército que denunciou professor por abordar tema da tortura. (Foto do perfil do Facebook)

    A representação argumenta que a demissão fere o princípio da legalidade porque está baseada em uma advertência irregular, amparada unicamente na queixa do pai contra a discussão de um texto sobre a ditadura. No dia 14/04 último, coincidentemente data do 43° assassinato de Zuzu Angel, a reprimenda foi formalizada pelo diretor da escola sem direito à defesa, como pressupõe a lei, segundo afirma o professor: “Não fui ouvido, ninguém mais foi ouvido, não houve direito ao contraditório”, afirma, lembrando que os textos foram contextualizados e discutidos com os alunos para que levassem a uma compreensão histórica do período da ditadura. Acusado pelo pai de ministrar um conteúdo inapropriado para a disciplina, afirmou que o incentivo à leitura está previsto no projeto pedagógico interdisciplinar da escola.

    O advogado alega também quebra do princípio da impessoalidade, sustentado no fato de que a dispensa se caracteriza como punição a adversário político. Explica-se: em 2012, Willian Meister se candidatou a prefeito de Itapema pelo PSoL e, novamente em 2016, quando fez oposição à chapa vencedora do PSD, encabeçada por Nílza Simas. Eleita, a prefeita nomeou sua irmã Alessandra, também do PSD, ao cargo de secretária municipal de Educação e ambas se engajaram na campanha pela eleição de Bolsonaro (PSL), alinhadas com o diretor da escola, Emílio César da Silva (também presidente do Conselho Municipal de Educação de Itapema).

    Dois dias antes de receber a advertência, Meister soube pelo diretor que havia uma denúncia anônima de um pai “youtuber” à prefeita Nilza Simas por questões político-partidárias. Por conta disso, a secretária de Educação, irmã da prefeita, solicitou ao diretor e à supervisora que gerassem um relatório para apresentar ao “pai-denunciante”, mas não houve consulta ao denunciado. Desde a sua chegada à escola, em 2018, começaram os desentendimentos com Emílio que, segundo a representação, começou a deixar claro que a sua presença era indesejável na instituição. “No início, com divergências de ideias, metodologias e práticas, em discussões dentro dos limites do processo educacional. Porém, a partir do início do ano letivo de 2019, o diretor passou a intensificar suas ações no sentido de expulsar Meister de ‘sua’ escola, usando da burocracia para constranger o professor, seus alunos e suas práticas de ensino”.

    O professor demitido garante que não vai se submeter à sanção sem recorrer à justiça porque tem muito respeito e afeto pelos alunos e pela instituição, tanto é que escolheu a mesma escola onde trabalhou no período da seleção anterior, em 2016. “Quero levantar a cabeça e retornar à sala de aula. Acho importante passar essa mensagem à comunidade escolar de que o poder político cometeu excessos contra o professor, mas isso depende da interpretação do judiciário. Vou aguardar confiante”. Ainda que o tema seja forte, considera necessário conscientizar adolescentes e jovens sobre a tortura como crime contra a humanidade, considerado hediondo, inafiançável, imprescritível e não suscetível à anistia pelo Art. 5º, inciso XLIII da Constituição Federal.

    ESCOLA SEM TORTURA

    Governada por um militar reformado, o comandante Carlos Moisés, Santa Catarina tem sido cenário de assédios constantes de partidários do Projeto Escola Sem Partido a escolas e professores, como ressalta também a representação ao MP/SC. Deputada Ana Caroline Campagnolo (PSL), que se declara antifeminista e uma das baluartes desse projeto, embora sua inconstitucionalidade já tenha sido atestada pelo STF por violar a liberdade de ensino, estabeleceu sua base na região do Litoral Norte, à qual pertence o município de Itapema.

    Foto de Otávio Magalhães (O Globo), que comprova o assassinato de Zuzu Angel pelo coronel Perdigão (de branco, encostado no poste)

    Há 43 anos, fortemente impactada pela carta do poeta Alex Polari, Zuzu Angel deslanchou sua campanha nacional e internacional contra as atrocidades da ditadura militar e o assassinato do seu filho, cujo corpo nunca foi devolvido pelos militares. Só se calou ao morrer no dia 14 de abril de 1976, num sinistro acidente na Estrada da Gávea (Rio de Janeiro), na saída do túnel que hoje leva seu nome. O acidente é atribuído a uma sabotagem criminosa no seu Karmann Ghia executada pelo coronel do Exército Freddie Perdigão, identificado como torturador por vários presos políticos no governo Geisel. Além de vários outros indícios, ele foi flagrado numa foto jornalística ao lado do carro capotado, revelada somente em 2014, pelo ex-agente de repressão Cláudio Guerra.

    Em depoimento para a Comissão Nacional da Verdade, o advogado José Bezerra da Silva, outra testemunha da morte de Stuart, relatou que assistiu, no dia 14 de junho de 1971, à sessão de suplício final em que o jovem foi amarrado pela boca ao cano de descarga do jipe de um oficial militar e arrastado. Bezerra, que era soldado da Aeronáutica na época, reclamou da covardia e em resposta foi levado para a guarda e torturado. Por conta do espancamento, sofreu uma hemorragia no tórax e passou por uma cirurgia e ainda em recuperação foi arrancado da cama pelo tenente, seu chefe, para nova sessão de tortura. Parece que a prática de eliminar do cenário mães, poetas, militantes, jornalistas, professores e até militares que insistem em dar o testemunho das crueldades indecorosas do regime autoritário às futuras gerações voltou à cena nessa marcha-ré da história brasileira.

    Canção para ‘Paulo’ (A Stuart Angel)

     

    Por Alex Polari

    Poesia de Alex Polari denuncia a própria tortura e a de outros jovens nos porões da ditadura. (Foto: Socialista Morena)
    Eles costuraram tua boca
    com o silêncio
    e trespassaram teu corpo
    com uma corrente.
    Eles te arrastaram em um carro
    e te encheram de gases,
    eles cobriram teus gritos
    com chacotas.
    Um vento gelado soprava lá fora
    e os gemidos tinham a cadência
    dos passos dos sentinelas no pátio.
    Nele, os sentimentos não tinham eco
    nele, as baionetas eram de aço
    nele, os sentimentos e as baionetas
    se calaram.
    Um sentido totalmente diferente de existir
    se descobre ali,
    naquela sala.
    Um sentido totalmente diferente de morrer
    se morre ali,
    naquela vala.
    Eles queimaram nossa carne com os fios
    e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.
    Igualmente vimos nossos rostos invertidos
    e eu testemunhei quando levaram teu corpo
    envolto em um tapete.
    Então houve o percurso sem volta
    houve a chuva que não molhou
    a noite que não era escura
    o tempo que não era tempo
    o amor que não era mais amor
    a coisa que não era mais coisa nenhuma.
    Entregue a perplexidades como estas,
    meus cabelos foram se embranquecendo
    e os dias foram se passando.

     

    Abaixo, cenas do especial da Globo sobre Zuzu Angel, no qual sua filha, Hildegard, fala do impacto da mãe ao receber a carta de Alex Polari, em maio de 1975, dando detalhes sobre a tortura e a morte de seu filho Stuart:

     

     

    Leia a matéria publicada pelo DIARINHO, de Itajaí, sob o título “Professor denuncia perseguição”, assinada por Sandro Silva

    Professor denuncia perseguição ideológica

    O professor Willian Meister, de Itapema, apresentou ontem no MP uma denúncia de perseguição político-ideológica praticada, segundo ele, pela direção da escola onde trabalhava e pela secretária de Educação da prefeitura de Itapema. Na terça-feira, Willian não teve o contrato de trabalho temporário renovado porque, segundo a secretaria, aplicou conteúdos inadequados. O professor havia lido com os alunos um texto-poema sobre tortura na ditadura militar.

    Willian dava aulas de educação Física na escola Básica Municipal Oswaldo Reis, na Várzea. Há cerca de 10 dias, como estava chovendo, a quadra estava em reforma e a última aula integrava um projeto de incentivo à leitura dos alunos, ele apresentou a uma turma da sétima série a coletânea de textos “A Tortura na Poesia de Alex Polari”.

    O poeta paraibano Alex Polari foi um dos muitos presos políticos do Brasil e foi quem, por exemplo, alertou a socialite e estilista Zuzu Angel que o filho Stuart havia sido preso, torturado e assassinado pela ditadura. Zuzu, na busca pelo filho, também foi assassinada pela ditadura. O professor diz que recebeu uma advertência sobre isso, mas sequer lhe apontaram detalhes de uma suposta denúncia de pai e que não teve direito à defesa.

    A Secretaria de Educação confirmou que a não renovação do contrato de trabalho de Willian tem a ver com o caso. “As denúncias foram realizadas por pais dos alunos referentes a prática e conteúdos abordados que não estavam de acordo com o planejamento pedagógico da disciplina de educação física”, informou a nota.

    Na representação contra a prefeitura e a direção da escola, Willian pede à promotoria que saia em defesa ao chamado direito de cátedra, que permite ao professor conduzir as aulas sob seu ponto de vista. Também pede a abertura de um inquérito civil para apurar crime de improbidade administrativa. “Esses ataques à educação, à liberdade de cátedra e à atuação do professor não são normais e não podem ser aceitos dentro de um estado democrático de direito”, argumenta.

    A coletânea de texto de Alex Polari, usada pelo professor, pode ser lida no link: encurtador.com.br/vKQY3

     

    Pai que denunciou professor é ex-militar

    O trabalho em sala de aula despertou a ira do ex-militar Marcelo Fidêncio, pai de um aluno de 12 anos. Foi ele quem, por duas vezes, procurou a escola e a secretaria de Educação para reclamar do professor.

    Marcelo sabe do programa de incentivo à leitura. Mas não concorda com o conteúdo do texto apresentado por Willian. “O texto dizia palavrões, que as crianças que ficavam enfileiradas para cantar o hino nacional eram retardadas e endemonhados”, diz o pai, que também não gostou do fato do professor ter citado que um prefeito de Balneário Camboriú (Higino Pio) chegou a ser torturado pela ditadura.

    “Ele é professor de educação e poderia ter dado texto sobre o Pelé ou sobre qualquer coisa”, entende o pai, que ainda acusa o professor de ter feito uma pressão generalizada nos alunos quando descobriu a denúncia e mesmo sem saber quem era o autor o chamou de “covarde” em sala de aula.

    Fidêncio esteve no Exército durante três anos.

    Tem 31 anos de jornalismo, formado em pedagogia pela Udesc e com MBA em Gestão Editorial. geral@diarinho.com.br

     

    https://diarinho.com.br/noticias/geral/professor-denuncia-perseguicao-ideologica/