Jornal faz apologia ao uso de armas com base em relação improvável entre facilidade para o porte de armas e diminuição da criminalidade
Santa Catarina prova com seu exemplo que quanto maior facilidade para o porte e posse de armas de fogo menor é o índice de criminalidade e violência. Essa é a criminosa mentira veiculada pelo jornal Notícias do Dia, do Grupo RIC/Record em Florianópolis (SC), para pressionar o Congresso a aprovar o decreto presidencial que facilita a liberação do uso de armas para a população. A falta de escrúpulos crescente da publicação tornou-se objeto de denúncia nacional sobre a ética jornalística. Na manchete de capa da terça-feira (28/5), intitulada “SC tem mais armas e menos violência“, o ND reproduz uma fake news já denunciada por sites de verificação de notícias a fim de incutir na opinião pública a relação de causa e efeito estapafúrdia entre o armamentismo e a paz social. A reportagem apresenta o estado de Santa Catarina como um exemplo de que o elevado número de registro de armas explicaria a redução nos índices de criminalidade, apresentados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública como os mais baixos do país.
Essa mentira criminosa, considerando que o jornalismo tem o dever de contribuir com a cultura da paz, foi inicialmente veiculada pelo Jornal da Cidade Online, de extrema direita, e multiplicada nas redes sociais com 71,9 mil compartilhamentos. Há uma semana, no dia 23 de maio, precisamente, o Instituto Verificador de Notícias, o Lupa, da Revista Piauí (Grupo Folha), já havia mostrado que a relação infundada entre armamento da população e paz social se baseia em dois dados falaciosos: o de que Santa Catarina tem o maior registro de armas de fogo e o mais baixo índice de criminalidade do país. Na quarta-feira mesmo (29/5), a Objethos, uma revista de análise crítica da mídia ligada ao Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, publicou artigo denunciando as distorções éticas de toda a edição do ND, que dedica, além da capa, duas páginas à defesa unilateral das investidas armamentistas do presidente. Sobre a manchete, a analista aponta: “A frase projeta uma relação de causa e efeito capaz de estimular uma população a viver em guerra, já que indica que o volume de armas está estatisticamente relacionado aos índices de contenção da violência”.
No afã de defender as teses armamentistas, o jornal sucumbe de vez à mentira e à deturpação dos panfletos bolsonaristas mais inescrupulosos, desrespeitando o dever jornalístico ao contraditório e à defesa da Declaração dos Direitos Humanos. Em duas páginas, desconhece as análises dos criminalistas que comparecem à mídia nacional e internacional demonstrando o aumento da violência nos países permissivos ao consumo bélico. Finge ignorar as críticas de que por trás do decreto está o interesse de promover o mercado de armas no Brasil, privatizar a segurança pública e legalizar o abuso de poder policial, franqueando o extermínio de pobres e negros sob a alegação de legítima defesa. A própria reportagem enaltece as previsíveis vantagens para os clubes de Tiro, já abundantes no estado, que devem experimentar uma grande expansão, segundo projetam os proprietários desse comércio.
Matérias, entrevistas, artigos e editoriais cercam a reportagem intitulada “Decreto das armas é direito de defesa”, assinada por Cristiano Rigo Dalcin, como um verdadeiro campo de bombardeio ideológico. Todos os intertítulos tratam como se fosse um consenso absoluto, uma via de mão única essa polêmica explosiva, amplamente contestada por setores representativos da sociedade (judiciário, OAB, acadêmico, parlamentar, organizações em defesa dos direitos humanos, entidades pacifistas). O exemplo “mágico” de Santa Catarina para encorajar a disseminação do uso de armas no Brasil se baseia em correspondências forjadas entre segurança e armamento da população, sem nenhum fundamento científico. Apoia-se unicamente na interpretação forçada de informações dos aparatos de repressão e na opinião viciada de agentes diretamente interessadas no decreto, como os militares que atuam na área de segurança, os propagandistas da indústria bélica e os donos das casas de tiro.
Benê Barbosa, ardoroso lobista do decreto do armamento no Congresso Nacional. Foto: arquivo pessoal
É o caso do militante ultradireitista do DEM, Benê Barbosa, presidente da ONG Viva Brasil, ativista que faz lobby no Congresso Nacional e no Senado pelo direito ao acesso a armas de fogo, identificado pelo jornal como “especialista em segurança”, entrevistado pela reportagem. Entusiasta do decreto, coautor do livro Mentiram para mim sobre o desarmamento, o professor de tiro Benê Barbosa afirma que o recente decreto assinado pelo presidente representa um “avanço gigantesco no respeito ao direito de defesa do cidadão”. Em sua página do Facebook, ele comemora a publicação de matérias e editoriais pró-armamentismo pelo ND. A postagem elogiando a matéria do dia 28/5 obteve 3,4 mil engajamentos e 1,4 mil compartilhamentos. Seguidores fazem comentários debochando dos possíveis argumentos de estudantes, sociólogos e esquerdopatas: “Aposto que as ruas são mais iluminadas, diz o estudante de sociologia da UFSC kkkkk”, ironiza Wiliam Lopes de Oliveira.
Sócio de Clube de Caça e Tiro, Carlos Vitorino projeta a expansão do ramo em SC com aprovação do decreto armamentista. Foto: arquivo pessoal
Outro entrevistado de isenção zero e suspeição máxima é Carlos Vitorino, sócio proprietário do Combat de Biguaçu, que pertence a uma rede de Clube e Escola de Caça e Tiro da Grande Florianópolis. Instrutor de tiro que posa para fotos do seu perfil no Facebook portando armamentos e munição pesada, Vitorino se diz “ansioso com a regulamentação do novo decreto”. Depois de afirmar que “quem procura uma arma lícita é o cidadão de bem”, faz apologia aos clubes de tiro como aqueles que capacitam esses cidadãos de bem. O Combat é vizinho do Clube de Tiro.38, de São José, também na grande Florianópolis, frequentado por Carlos e Eduardo Bolsonaro e o esfaqueador de seu pai, ainda candidato a presidente, Adélio Bispo dos Santos. E, como foi revelado no dia 14 de maio pelo DCM, os três eram colegas de tiro de Nilton César Souza Júnior, o ilustre Nilton Dog, assassino do delegado da PF De Angra dos Reis, Adriano Antônio Soares, que investigava a morte do ministro Teori Zavaski. Tudo gente boa.
Entre os militares entrevistados pela reportagem estão o coronel Araújo Gomes, secretário de Estado de Segurança Pública do governo bolsonarista do comandante Carlos Moisés (PSL), surpreende com uma opinião ambígua sobre as vantagens e desvantagens da liberação das verbas, pontuando que o porte e posse de armas traz “mais responsabilidade para as forças de segurança, que precisam evitar que as armas caiam nas mãos de criminosos”. O mais importante da sua declaração fica obliterado pela edição geral: o coronel desautoriza claramente a hipótese proposta pelo jornal de que a redução da criminalidade seja determinada pelo alto índice de registros de armas. Embora esta afirmação derrube a manchete, a opinião do secretário Araújo fica isolada numa retranca à parte, intitulada: “Mais responsabilidade para as polícias”:
– A criminalidade está menos relacionada à disponibilidade promovida pela legalização das armas do que a outros fatores, como questões sociais e econômicas ou mesmo o tráfico de drogas, por exemplo. Essa é a opinião do comandante da PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina) e chefe do Colegiado Superior de Segurança Pública do Estado, coronel Araújo Gomes. “Há países que são bastante flexíveis e tem altas taxas de criminalidade e há países flexíveis que têm baixos índices de criminalidade, indicando que esse talvez não seja o principal fator”, argumenta.
Como não podia faltar a relação de superioridade do Sul sobre o Nordeste, que marca esse pensamento de supremacia racial, conforme outro instrutor, Marcos Marçal, do mesmo Combat Clube e Escola de Caça e Tiro Esportivo, ao contrário do modelo de Santa Catarina: “o Nordeste tem os menores números de armas e as maiores taxas de homicídios”. O bombardeio do jornal Notícias do Dia, pertencente ao empresário Mario Petrelli, do Paraná, desdobra-se no quadro didático “Como obter armas de fogo”. E culmina com o editorial “O direito às armas”, endossado pela assinatura do grupo RIC, sem ouvir uma única voz contestando os dados e suas interpretações a favor da indústria bélica.Operando como um observatório de mídia voltado à análise da conduta ética dos veículos, o Objethos mostra que o jornal não ouve posicionamentos contraditórios. Nega, assim, ao leitor, o direito de conhecer pesquisas, dados e pontos de vista que refutam ou relativizam a tese dogmática em defesa do decreto presidencial que libera a posse de armas para amplos setores da população. “Os índices de criminalidade em Santa Catarina não estão relacionados ao porte de arma – e, ainda que estivessem, seria impossível comprovar este argumento. Ao investir nesta relação de causa e efeito, o jornal Notícias do Dia mentiu aos seus leitores, afastando-se do seu compromisso de informar e contribuir com o debate público e transformando-se em um panfleto de propaganda política pró Bolsonaro”, finaliza a jornalista Amanda Miranda, doutora em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pós-doutoranda na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) no site Objethos.
Adélio Bispo de Oliveira frequentou o Clube de Tiro .38 na mesma época que Carlos Bolsonaro
Entre os maiores beneficiados estão os clubes de tiro, aos quais os cidadãos de bem (como Adélio Bispo, Carlos e Eduardo Bolsonaro e Nilton Dog), precisam estar obrigatoriamente filiados para terem autorizado o porte de armas, segundo o decreto. Se o decreto for aprovado, redes de comunicação de Santa Catarina, estado com a maior concentração desse tipo de clube no país, expandirão seus lucros e poderão, quiçá, assumir de forma aberta o patrocínio de reportagens como essa do ND, veiculando anúncios de página inteira sobre o novo lançamento de espingarda da Taurus, ou de outra empresa estrangeira, para matar agricultores sem-terra, nas versões azul e cor de rosa, pra continuar no campo do “cidadão de bem”.
Também serão beneficiados pelo decreto armamentista e pelo pacote anticrime do ministro Sérgio Moro os policiais do bordão “atira e mata primeiro, pergunta depois”, como os que assassinaram à queima-roupa o adolescente negro Victor Henrique Xavier dos Santos no Feriado de Páscoa, no bairro dos Ingleses, em Florianópolis, no dia 18 de abril, enquanto brincava no quintal de casa mirando contra latinhas de refrigerante com um revólver de pressão. Passados 42 dias, nada se sabe a respeito do inquérito policial prometido pelo coronel Araújo para apurar se houve abuso de poder por parte dos dois policiais que invadiram a casa da família mascarados, sem mandado judicial e já disparando, enquanto a mãe trabalhava como cozinheira. Depois de executar o garoto com cinco tiros e deixá-lo sangrar até morrer sem socorro médico, a PM alegou ter agido em legítima defesa. Segundo a versão repassada pela Segurança Pública, Vitor teria apontado contra os policiais o seu revólver de brinquedo que eles confundiram com uma arma de verdade. Fake News da campanha armamentista: nem toda criança pode fazer arminha ou brincar com revólveres, como aquelas dos comícios de Bolsonaro. Negras e pobres não vale…
Protesto em Florianópolis contra o assassinato do menino negro e inocente Vitor Xavier por dois policiais que invadiram sua casa e o executaram com cinco tiros à queima-roupa. Passados 42 dias, nada se sabe a respeito do inquérito prometido pela Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina. Fotos: Thyago Bregeiron da Silva
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina