Travestis e transexuais criam diário de renascimento na internet

Marina Scucciatto entrevistando o secretário de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo, Felipe de Paula

Pode parecer só mais uma nova página no facebook. Não é. A Florescer Cultural, com acesso pelo link www.facebook.com/ProjetoFlorescerCultural, é o diário do renascimento de travestis e mulheres transexuais que viviam em situação de rua. A entrada nas redes sociais é mais uma frente de combate ao estigma da marginalidade da Casa Florescer, o primeiro Centro de Acolhida da América Latina preparado para receber travestis e mulheres transexuais que foram levados a viver na rua por condições impostas como falta de trabalho e renda, rompimento de vínculos familiares, problemas pessoais, doenças e todo tipo de adversidade. A casa fica em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, e conta com quatro quartos, banheiros,lavanderia, refeitório, três salas de atendimento, salas de convivência e quadra poliesportiva.

Fachada da Casa Florescer
Fachada da Casa Florescer

As postagens no facebook trazem relatos do cotidiano deste lar e discutem temas relacionados à saúde, aos direitos humanos, às questões jurídicas, à moda, e outros assuntos importantes para a comunidade trans. “É preciso mudar o senso comum de que travesti foi feita pra fazer rua, que foi feita pra ficar na beira da marginalidade”, diz Marina Scucciatto, 38 anos, uma das administradoras da página. Recentemente, ela entrevistou o Secretário de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo, Felipe de Paula. A matéria completa o leitor pode conferir aqui: http://ow.ly/mL3e3018prl

Das atuais vinte e sete moradoras da casa Florescer, 60% fazem parte do programa Transcidadania, iniciativa pioneira da prefeitura de São Paulo que disponibiliza um salário-mínimo para travestis e transexuais voltarem a estudar. O programa ainda oferece encaminhamento para tratamentos de saúde integral e assistência jurídica. As outras conviventes foram encaminhadas pelo CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social) no bairro da Barra Funda, em São Paulo, depois de passar por uma avaliação psicológica.

A gente entende a casa como se fosse o último processo de conquista da autonomia, pra que elas saiam daqui encaminhadas para pagar o aluguel de suas próprias casas“, declara a orientadora sócio-educadora Nathalia. Ali, além de moradia e amparo, elas ainda contam com cursos e palestras ministrados por profissionais voluntários. Tudo tem um propósito, entre elas as próprias regras da casa. Há escala de quem faz a limpeza do dia, por exemplo, e todas as decisões são discutidas em assembleias. São atos aparenetemente simples, mas fortalecem a autonomia e propiciam um ambiente democrático e de respeito mútuo.

Luiza do Nascimento, uma das administradoras da página do facebook Florescer Cultural
Luiza do Nascimento, uma das administradoras da página do facebook Florescer Cultural

Antes, passávamos por albergues que não tinham o preparo de receber pessoas como nós. Neles, você só pode ficar por 8 ou 12 horas e tem que sair de manhã e ficar a esmo na rua. Aqui eu me sinto na minha casa“, declara a outra administradora da página Florescer Cultural, Luiza do Nascimento, de 43 anos.

Como muitas travestis, Luiza um dia foi para a Europa trabalhar como profissional do sexo. Depois de acumular um pequeno capital por cinco anos, voltou ao Brasil e investiu num salão de beleza. O negócio não deu certo. Ela diz que foi à falência por não saber como fazer uma boa administração.

Me vi sem amigos que eu ajudei, sem a família que bem lá atrás, com 13 anos de idade, eu já não contava mais. Virei, literalmente, moradora da rua.”

Luiza fez várias tentativas para conseguir emprego. Todas frustradas. Empregadores sempre lhe fechavam a porta. Um deles, dono de um salão de beleza no Itaim Bibi, bairro nobre da cidade, não a admitiu mesmo depois de ela ter passado no teste teórico e prático para trabalhar como cabeleireira.  Luiza não foi admitida porque não tinha endereço fixo.

Ela ainda tentou colocação numa empresa especializada em limpeza de hospitais, mas ao ver seus documentos, o selecionador disse que não poderia admití-la porque não saberia que vestuário ou qual banheiro ela poderia usar. Dessa vez, Luiza levou o caso para a Defensoria Pública que obrigou a empresa a treinar todos os seus funcionário para o atendimento ao público lgbt.

Quem que fecha a porta quando eu vou procurar um emprego é a mesma pessoa que vai me procurar na esquina“, desabafa Luiza

Marina Scucciatto entrevistando o secretário de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo, Felipe de Paula
Marina Scucciatto entrevistando o secretário de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo, Felipe de Paula

Já história de Marina Scucciatto, mesmo muito diferente, teve dificuldade parecida. Ela nos conta que nunca trabalhou como profissional do sexo. Antes de assumir sua atual identidade de gênero, trabalhou em multinacionais. Assim que assumiu sua transexualidade, no entanto, viu as “portas irem se fechando” no campo profissional. A situação ficou ainda mais complicada quando “uma pessoa da polícia”, com a qual foi casada por 14 anos faleceu.

Marina perdeu o direito aos bens do cônjuge por causa de uma interdição judicial perpretada pelo cunhado de seu companheiro. Sem casa e sem renda, tentou voltar para a família que, por sua vez, a rejeitou. Ela ainda se lembra das três noites que dormiu na rua. Foi ali o começo de sua vida como moradora de albergues.

Se você sai de casa pra matar um leão, a gente como transexual sai pra matar 20. Se você luta pra colocar a comida dentro da sua casa, a gente luta o dobro. Tudo é muito difícil. É uma luta pela vida.”

A frase de Marina ecoa entre a imensa maioria da população de travestis e mulheres transexuais. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 99% desta comunidade ainda precisam recorrer à prostituição para sobreviver. E é sabido: depois de certa idade, se conseguir sobreviver à violência das ruas, as profissionais do sexo já não tem mais os mesmos atrativos para conseguir clientes. A lógica é simples: quem não fez poupança fica em situação de rua. E, assim, no final, a rua que foi seu meio de sobrevivência, acaba sendo também o fim de uma trajetória dramática.

Moradoras se maquiando para um sarau na Casa Florescer
Moradoras se maquiando para um sarau na Casa Florescer

A Casa Florescer, sob os cuidados da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social em parceria com Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana, é um oasis num mundo de precariedades. Para enfrentar essa realidade, é preciso considerar a luta diária por sobrevivência em subempregos, prostituição e toda a sorte de violência transfóbica nas ruas. Isso sem falar da falta de perspectiva de dignadade diante do abandono, da fome e do frio das ruas.

O espaço aqui é maravilhoso, e não é porque eu moro aqui, não. A casa oferece um olhar que não é opressivo como na maioria dos equipamentos [como são chamados os espaços públicos voltados para a atendimento desta comunidade]. Essa casa te oferece autonomia, liberdade e te faz sentir como se fosse sua casa. Eu espero que esse espaço se multiplique porque são centenas de travestis e transexuais em situação de rua“, conclui Marina, uma guerreira na vida e, agora, nas redes sociais.

1º Festival Florescer Cultural
Primeiro Festival Florescer Cultural

Com sua singela e poderosa página no Facebook, Marina leva a público suas histórias de vida e a de suas amigas e amigos que ali têm espaço para publicar e descrever o que viveram e vivem. Tudo em suas próprias palavras e visão de mundo. Protagonizando. Mas a rede da Florescer Cultural, também é lugar para reivindicar. Afinal, o processo de conquista de autonomia de quem um dia viveu na rua pode até ser pessoal mas, antes de tudo, é uma política pública.

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