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Categoria: Florianópolis

  • Jovens são criminalizados por participar de manifestação contra PEC 241 em Florianópolis

    Jovens são criminalizados por participar de manifestação contra PEC 241 em Florianópolis

    Dois dos três jovens presos, agredidos e criminalizados por participarem de manifestação em Florianópolis decidiram na segunda-feira (10/7), em audiência no Fórum da Capital, em Florianópolis, não fazer acordo de suspensão da denúncia judicial para suspender o processo movido contra eles pelo Ministério Público Estadual, submetendo-se a condições de restrição de direitos. Em nome da justiça e de todos os lutadores sociais que defendem o país contra o ataque aos direitos humanos e às políticas públicas, a estudante de Relações Públicas da UFSC, Vanessa Canei, 28 anos, e o fotógrafo independente, Gabriel Rosa, 29 anos, preferiram correr o risco de serem condenados para provar sua inocência.  Com isso, o processo movido contra eles a partir de denúncia do MP continua. As advogadas Luzia Cabreira e Daniela Felix foram intimadas a apresentar defesa prévia dos dois militantes em dez dias e já estão recolhendo provas para mostrar que os estudantes não estavam praticando os atos de que foram acusados. Já a estudante de História Larissa N. F., 22 anos, que foi a mais machucada e agredida no ato da prisão, preferiu assinar o acordo que suspende seu processo por dois anos, ao término dos quais o processo deverá ser arquivado.

    Presos em 10 de outubro de 2016, quando participavam do ato denominado “Ocupa Ponte” contra a Reforma do Ensino Médio e a PEC 241, eles tiveram, nesta segunda-feira, oito meses depois de assinar o termo de custódia que lhes deu liberdade provisória no dia 11, sua segunda audiência para negociar a suspensão do processo mediante condições que podem ser consideradas punitivas. A audiência foi arbitrada pela juíza Érica Lourenço de Lima Ferreira, da primeira instância da quarta vara criminal do Fórum da Capital. As restrições apresentadas pelo promotor do Ministério Público Marcelo Brito de Araújo, o mesmo que apresentou a denúncia por dano ao patrimônio público, desacato à autoridade, resistência à prisão e agressão a policial foram consideradas injustas e pesadas pelos denunciados. O promotor não acatou o pedido das advogadas de considerarem os oito meses em que as duas acusadas já vinham cumprindo condições de restrição dos direitos, como não sair de casa depois das 22 horas, não viajar para fora da cidade, não beber e não fumar. Essas condições não valem para o fotógrafo Gabriel, que obteve liberdade mediante pagamento de fiança, mas também responde o processo.

    Reportagem: Raquel Wandelli – Edição de Luara Wandelli Loth

    Impedidos de entrar com as faixas no pátio do complexo do Fórum e Tribunal de Justiça, que foi cercado por policiais, dezenas de manifestantes empunhavam cartazes em apoio aos três jovens e contra o crescimento generalizado da criminalização dos lutadores sociais após o golpe. Os denunciados entraram às 14h30 para a audiência na qual deveriam decidir se aceitam as condições restritivas do direito determinadas pelo promotor ou continuam respondendo processo.Acompanhados das duas advogadas, eles saíram cerca de uma hora depois com suas decisões tomadas: Larissa vai se submeter as medidas punitivas, mas o fotógrafo Gabriel Rosa e a estudante Vanessa Canei, ­­­­­se negaram a assumir uma culpa que, segundo eles, lhes foi injustamente imputada, inclusive com falso testemunho e flagrante forjado pelos policiais. Segundo as advogadas, Larissa continuará cumprindo restrições de direitos um pouco mais brandas:  não poderá se ausentar da cidade ou mudar de endereço sem comunicar a justiça, deverá se apresentar mensalmente no Fórum e ainda prestará oito horas de trabalhos sociais em um mês, ao cabo dos quais sua denúncia será arquivada. Para Vanessa, prosseguem as medidas punitivas anteriores. “A grande diferença é que Vanessa e Gabriel podem ser absolvidos do processo”, explica a advogada Luzia Cabreira.

    Em entrevista logo após a audiência, Gabriel disse que seria um absurdo assinar o termo de cautela quando os vídeos, as fotos e as testemunhas provam que ele estava parado com seu equipamento quando foi abordado sem dar motivos e preso por um policial que o acusou de estar jogando pedras. “Não posso assinar um acordo assim porque seria legitimar uma perseguição e uma injustiça”, reforçou. Segundo Vanessa, o protesto e o apoio dos companheiros em frente ao Fórum foi decisivo para que ela se recusasse a negociar o arquivamento do processo. “Compreendi que essa causa não era só minha, não era individual, mas coletiva, de todos os que estão lutando”, afirmou, alegando que as acusações são inverídicas e que “até agora nunca fomos sequer ouvidos”.

    O Ocupa Ponte foi o primeiro grande ato em Florianópolis contra as medidas antissociais de Michel Temer a Reforma do Ensino Médio e a PEC 241, que congela os investimentos públicos por 20 anos. A crescente criminalização dos lutadores sociais depois do golpe levou as entidades que participam dos movimentos contra a retirada de direitos e o desmonte das políticas públicas a organizarem o manifesto em frente ao Fórum. “Não podemos permitir que essas retaliações se multipliquem e que transformem vítimas da violência policial em réus como forma de barrar os necessários protestos”, assinalou a antropóloga e professora da Udesc, Carmen Susana Torquist.

    Ao serem detidos próximo à ponte Colombo Salles, além de terem sido submetidos à prisão irregular, sem motivos, segundo as advogadas, os três sofreram humilhação e agressão, numa noite em que vários jovens e adolescentes levaram bala de borracha e golpes de cassetetes nos braços, no rosto, cabeça e tórax. Pelo menos quatro foram hospitalizados. Larissa foi xingada, arrastada por quatro homens pelos pés e pelo pescoço, levou um chute na cabeça e ainda sofreu discriminação de gênero. Como ficou muito machucada, Larissa teve que ser levada ao Instituto Geral de Perícias (IGP). Ao retirarem o lenço que ela usava no rosto para se proteger do gás lacrimogêneo e descobrirem que era uma mulher, os policiais fizeram comentários lesbofóbicos. Vanessa e Larissa foram acusadas de depredação do patrimônio pela queima de dois cones plástico de trânsito. As advogadas solicitam a todos que tiverem  vídeos, fotografias ou depoimentos ajudando a provar a inocência dos jovens e a violência policial a enviarem essas contribuições pelas redes sociais.

     

  • Florianópolis se mobiliza hoje contra criminalização de estudantes presos e agredidos pela PM

    Florianópolis se mobiliza hoje contra criminalização de estudantes presos e agredidos pela PM

    Os movimento de resistência contra as reformas anti-trabalhistas promovem nesta segunda, 10 de julho, às 14 horas, em frente ao Fórum da Capital, um ato de protesto contra a criminalização de militantes que lutam pelos direitos sociais e pelo Estado Democrático e de Direito no país. Nesse horário, iniciará uma audiência com o juiz responsável pela acusação de três jovens presos (um fotógrafo de mídia alternativa e duas estudantes da UFSC) no dia 10 de outubro do ano passado, ao final do primeiro grande ato contra a PEC 241, referente ao congelamento de gastos públicos por duas décadas, e a Reforma do Ensino Médio. De vítimas da ação truculenta da polícia – e fraudulenta, segundo eles – os estudantes passaram a ser réus num processo de denúncia ao Ministério Público.

    Além de terem sido submetidos à prisão irregular, com provas forjadas, segundo as advogadas Daniela Felix e Luzia Cabreira, que fazem a defesa dos manifestantes e acompanham a audiência pelo Coletivo de Advocacia Popular, os três sofreram violência física e humilhação, as meninas foram xingadas de lixo, levaram golpes de cassetetes nos braços, no rosto, cabeça e tórax. Uma das estudantes foi arrastada por quatro homens pelos pés, levou um chute na cabeça e ainda sofreu discriminação de gênero. Como ficou muito machucada, Larissa teve que ser levada ao Instituto Geral de Perícias (IGP). Ao retirarem o lenço que ela usava no rosto para se proteger do gás lacrimogêneo e descobrirem que era uma mulher, os policiais fizeram comentários lesbofóbicos. “É muito importante que os amigos e militantes sociais de todas as entidades estejam em frente ao Fórum na segunda para apoiar os três lutadores e impedir que se generalize essa perseguição contra os que exercem o direito legítimo de manifestação em defesa dos direitos coletivos”, destaca a jornalista Elaine Tavares, que criou no Facebook o evento Ato de apoio aos presos do “Ocupa Ponte”, chamando para o protesto desta segunda. https://www.facebook.com/events/1539569249451525/?acontext=%7B%22ref%22%3A%2222%22%2C%22feed_story_type%22%3A%2222%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D&pnref=story

    Entre os três jovens presos nesse grande ato chamado de “Ocupa a Ponte”, que deverão se apresentar diante do juiz, estão as estudantes Vanessa Canei, 22 anos, aluna do Curso de Relações Internacionais, e Larissa Neves Ferreira, 27 anos, do Curso de História. Ambas foram presas sob alegação de desacato, resistência à prisão e depredação de patrimônio público, pois segundo a narrativa policial teriam ateado fogo a um cone de plástico de sinalização de trânsito. Conforme as advogadas, elas foram detidas enquanto estavam sentadas no meio fio. As duas tiveram a liberdade provisória concedida mediante uma série de condições restritivas de direitos desde a audiência de custódia, que ocorreu em 11 de outubro de 2016. Não podem sair depois das 22 horas, não podem beber, não podem fumar e nem se ausentar da cidade e ainda têm que se apresentar todos os meses no Fórum para assinar o cumprimento do termo de cautela.

    O terceiro jovem detido é o fotógrafo Gabriel Rosa, acusado de resistência à prisão e lesão corporal, mas liberado no mesmo dia mediante pagamento de fiança. Gabriel conta que estava fotografando a manifestação e ao sentir a bomba de gás lançada pelos policiais atrás dele, parou para amarrar um pano no rosto com o intuito de se proteger e foi preso sob a falsa acusação de que estava jogando pedras nos policiais. Tentou argumentar, mostrando o equipamento pesado que carregava e as fotos na máquina, mas foi lançado com violência à viatura. Agora, passados nove meses, o processo dos três, em vez de ser arquivado, foi denunciado ao Ministério Público.

    Com essa denúncia, os estudantes precisam se apresentar para uma audiência de suspensão condicional na segunda-feira, após negociarem as condições restritivas de direito, que tendem a ser as mesmas medidas que eles já cumprem mensalmente, conforme a advogada Daniela Felix. Caberá a cada um decidir se aceita ou não a proposta do Ministério Público e, não havendo aceitação, o processo evoluirá para ação penal, podendo culminar na condenação dos estudantes. “Neste caso, o processo se encaminha para a produção de provas e posterior sentença, que poderá condenar – total ou parcialmente ou absolver dos crimes que pesa contra cada um”, explica Luzia.

    As entidades que compõem a Rede de Resistência e Lutas Populares convocam a participação no ato de todas as pessoas contrárias ao ataque às políticas sociais e aos direitos dos trabalhadores impetrados pelo governo do impostor Michel Temer, o primeiro na história do Brasil indiciado por crime de corrupção e obstrução de investigação da Justiça Federal no exercício do cargo. “Precisamos barrar essa inversão da justiça que trata como criminosos os que se arriscam cumprindo seu dever de defender o país e transforma os que violam os direitos humanos em vítimas”, afirma o militante social Loureci Ribeiro. “A criminalização dos lutadores sociais é a forma que a polícia e o sistema encontram para amedrontar os protestos. Lutar contra isso é fundamental”, enfatiza a jornalista Elaine Tavares.

    Vídeo abaixo publicado pelo Site Contra Ataque mostra que o fotógrafo Gabriel estava parado em frente ao Terminal Rodoviário com seu equipamento fotográfico e não jogando pedras, como foi acusado pelo policial que o abordou bruscamente e o levou preso:

    (Raquel Wandelli)

    http://maruim.org/…/tres-pessoas-sao-detidas-e-ao-menos-tr…/

    https://www.contrataque.libertar.org/page/2/

  • Prefeito de Florianópolis marca rodada de negociação com municipários e não comparece

    Prefeito de Florianópolis marca rodada de negociação com municipários e não comparece

    por Raquel Wandelli, especial para os Jornalistas Livres

    O prefeito de Florianópolis, Jean Loureiro (PMDB), propôs uma rodada de negociação com os municipários em greve, depois de uma forte manifestação realizada pela categoria no Centro de Florianópolis ontem (20), no final da tarde. Cerca de sete mil servidores públicos municipais estão em greve há 36 dias contra um pacote de medidas que retira todos os direitos dos trabalhadores, além de desmontar o sistema de saúde do município, que é um modelo para o país desde a implantação do SUS. A rodada começou no final da tarde, logo após a passeata, sem apresentação de nenhuma proposta, mas a reunião de fato, que deveria ter prosseguido hoje pela manhã, na Prefeitura, não aconteceu. O prefeito preferiu judicializar a conversa, convocando uma reunião para amanhã (23), às 9 horas, no Tribunal de Justiça, internediada pela desembargadora que decretou a ilegalidade da greve, Vera Lúcia Cepetti.

    Aprovada na última assembleia da categoria, a proposta apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem) solicita que o executivo encaminhe Projeto de Lei à Câmara de Vereadores restabelecendo todos os direitos suprimidos pela aprovação do PL 1591, de  janeiro deste ano que, entre outras alterações estruturais, determina o fim do plano de carreira do servidor e cortes superiores a 50% nas futuras aposentadorias. O PL faz parte de um conjunto de projetos de cortes nas verbas públicas apresentado em caráter de urgência pelo executivo à Câmara de Vereadores, no mesmo estilo do que fizeram os prefeitos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. É considerado o piloto municipal do pacote neoliberal de desmonte do serviço público impetrado por Temer no país, conforme o presidente do Sindicato, Alex dos Santos. “Estão esfriando a negociação para apostar num refluxo da categoria, mas estão enganados: o movimento está cada vez mais forte e não vai arredar”, avalia Renê Munaro, farmacêutico e membro do Comando de greve, que considera a convoção da reunião para o TJ como uma tentativa de judicialização das negociações e criminalização do movimento. Servidores e entidades apoiadoras da luta farão uma manifestação em frente ao Tribunal pela manhã, durante a audiência.

    Com adesão inédita dos médicos, dos assistentes sociais, de várias outras categorias, e 100% de paralisação das escolas, os servidores tiveram uma reação forte e persistente, mantendo uma greve inédita na história. Desde o dia 17, a creche Matheus de Barros, no bairro Monte Cristo, está ocupada pelos pais e servidores para impedir o seu fechamento pelos cortes de verbas. Uma rua lateral à creche foi fechada pelos próprios moradores para que ninguém entre enquanto não houver garantia de creche para todos com a derrubada do pacotão de Gean. Enquanto desenvolvem atividades políticas e educativas dentro da creche ocupada, pais e crianças ouvem as sirenes da polícia do lado de fora. Amanhã (22) às 8h30min, um ato será realizado no bairro em apoio à greve, informa Camila Boff, integrante do Comando de Greve, grávida de oito meses, que estava na manifestação do Centro. Grande maioria dos pais e alunos da rede municipal apoia a paralisação e participa com os professores das atividades de rua da categoria.

    No dia 17 de março, o secretário Filipe Mello declarou em programa de rádio que a prefeitura havia encaminhado projeto atendendo algumas revindicações e propondo o fim da greve. A categoria, contudo, entendeu que não havia nenhum recuo do prefeito e votou pela continuidade do movimento, respondendo com uma proposta que pede a revogação do chamado “pacote de maldades” de Gean Loureiro, Gean Loureiro que se elegeu com a promessa de valorização do serviço público e dos aposentados. O presidente do sindicato da categoria, Alex Santos, reclama principalmente do “atropelamento e autoritarismo na imposição das medidas, que foram votadas e aprovadas no período de recesso, por apenas um voto e sem a necessária discussão com a sociedade civil organizada e nem mesmo com os vereadores, que nem tiveram tempo de apreciar medidas tão complexas e impactantes para o futuro da população”.

    Durante a manifestação de ontem, que foi acompanhada por forte aparato policial cercando as ruas e a entrada dos prédios da prefeitura, o sindicato distribuiu um material que apresenta de forma bem didática o pacote de Gean Loureiro para facilitar o acompanhamento das ações e ajudar a população a compreender as repercussões negativas do pacote. Ao mesmo tempo em que avança com as ofensivas contra os direitos, o prefeito impinge sanções aos trabalhadores em greve, o que só tem fortalecido o movimento, conforme o médico Renato Figueiredo, diretor do Sindicato dos Médicos de Santa Catarina e membro do Comando de greve do Sintrasem, que considera a iniciativa de Gean como uma forma de desestruturação do Sistema Único de Saúde, ao tirar a perspectiva de carreira do médico e reduzir a carga horária dos agentes comunitários. Entidades sindicais de todo o Brasil e de vários países se manifestaram contra as ameaças de prisão dos sindicalistas, quando, há duas semanas, o procurador geral de Florianópolis entrou no Tribunal de Justiça com pedido de intervenção no sindicato e prisão de todos os diretores da entidade, que não estariam cumprindo a ordem judicial de retomar o trabalho. O pedido não foi aprovado pela desembargadora responsável.

     

    Por volta das 17:30 de hoje, o grupo, formado por professores, trabalhadores do posto de saúde, demais servidores e representantes da comunidade, saiu da E.B. Dilma Lúcia dos Santos rumo ao centro do bairro próximo à praia. No caminho, foi buscado o diálogo com a comunidade, explicando sobre a situação e falando palavras de ordem contra o prefeito Gean Loureiro – chamado de “Inimigo da Cidade” por alguns cartazes – e o projeto de lei 597/17, conhecido como Pacote de Maldades, por retirar direitos dos servidores públicos. Na marcha, houve momentos também de crítica à cobertura midiática da RBS sobre a greve. A greve caminha para ser a de mais longa duração na história da categoria, contabilizando até hoje 36 dias. Fotos: Giovanni Velozo.
  • Membros do Abutre’s Moto Clube invadem comunidade tumultuam e espancam um morador em SC

    Membros do Abutre’s Moto Clube invadem comunidade tumultuam e espancam um morador em SC

    Integrantes do grupo de 30 motoqueiros que avançou sobre área de banhistas na tradicional praia do Pântano do Sul, em Florianópolis (SC), espancou um jovem morador com uma barra de ferro na madrugada de domingo e abandonou-o desfalecido na praia. Ao amanhecer, um grupo deles ameaçou de morte dois pescadores locais por impedirem que avançassem na área de banhistas proibida para veículos

    fotos Raquel Wandelli

    Famosa no Brasil por ser uma colônia tranquila de pescadores, a comunidade do Pântano do Sul viveu um clima de terror neste fim de semana, com a chegada de um grupo de 30 motoqueiros do Abutre’s Moto Clube. No entardecer do sábado, por volta de 19 horas, quando a praia estava lotada de turistas e moradores, eles chegaram fazendo roncar os motores e avançando sobre a faixa de areia, que há um ano e meio é interditada para veículos por lei do Ministério Público Federal.

    Pescadores que estavam na praia com seus filhos se colocaram na frente das motos e triciclo para impedir que seguissem adiante. Depois de uma discussão e troca de insultos, os motoqueiros concordaram em retornar para a estrada. Mesmo assim, ao menos seis deles furaram o bloqueio humano e ultrapassaram com velocidade a área proibida, onde havia cerca de três mil banhistas. Havia inclusive um grupo de crianças, mulheres e idosos que haviam acabado de concluir uma aula de zumba na areia.

     

    Elvis, morador da comunidade do Pântano, em Florianópolis, Santa Catarina.

    À noite, eles se reuniram num bar local e por volta de 5 horas da manhã, em torno de seis membros do Abutres avançaram sobre Elvis da Silva Soares, um jovem de 28, anos que aproveitava a lua cheia para passear de mãos dadas com a esposa, Karina Kramer, de 26. Um deles, que é morador da praia e dono do bar Rock, agrediu o jovem com uma barra de ferro na cabeça, alegando que havia se posicionado contra o grupo no episódio da invasão da praia. Elvis desmaiou e continuou a ser espancado. Para protegê-lo, a esposa deitou-se sobre seu corpo e foi igualmente agredida com socos e pontapés. “Apanhei sem saber por quê”, disse ela, que teve de arrastar o marido sozinha para fora da praia até conseguir ajuda na comunidade.

    Elvis, que levanta todos os dias às 6 horas para trabalhar num escritório de engenharia sanitária em Canasvieiras e é considerado um rapaz muito tranquilo e de boa conduta pela comunidade, foi atendido no Hospital Celso Ramos, no Centro, levou oito pontos na cabeça e voltou para casa com fortes hematomas nas costas, no rosto, nos olhos e no pescoço. Só talvez na tarde de hoje (16/01), depois que a dor de cabeça ceder, Karina poderá levá-lo ao Centro de carona para registrar o B.O. e fazer o exame de corpo de delito. “Ontem não foi possível; ele passou o dia inteiro desacordado”. A mãe, Bernadete da Silva Soares, não se conforma, pois nasceu e se criou na comunidade e nunca imaginou que seu filho sofreria uma violência desse nível num local onde todos formam uma família. “Foi uma tentativa de homicídio”, sustentam ela e a nora, que vão entrar com ação judicial contra o Moto Clube e os agressores por danos morais e físicos. Com a cabeça enfaixada e muito deprimido, Elvis conta que Francis, com quem conviveu desde menino, começou a ficar estranho e agressivo depois que começou a frequentar os Abutres.

    Conforme relato dos pescadores e comerciantes, Eduardo Rafael Lopes e Jaime Antônio Cláudio, conhecido por Cau, a comunidade estava aproveitando a praia com os filhos no entardecer de sábado, quando subitamente o grupo avançou com as motos, liderado por Francis Maya, 35 anos, dono de bar e morador local. Segundo o membro do Abutres, Marinho Mendes, foi ele quem garantiu ao grupo que a passagem pela praia era permitida para veículos (embora uma placa enorme e uma corrente de cones diga ao contrário). Cau, que é pai de três filhos e vive há mais de 30 anos no Pântano do Sul, esteve à frente do bloqueio que impediu a entrada de parte dos motoqueiros em área protegida para pedestres.

    No domingo pela manhã, Cau e Rafael receberam a visita de Francis Maya e de outros seis integrantes, que lhes fizeram uma ameaça de morte cifrada: “Disseram que voltariam com um grupo de tatuadores”, conta Cau. A ameaça faz referência ao tatuador Antônio Stoppa que, junto com outros três membros do Abutres, foi acusado de espancar até a morte o empresário Paulo Joacir Müller, 34 anos, dono da Pizzaria Yellows, num encontro de motoqueiros em 2000, na extinta boate Lupus’Beer, na praia de Jurerê, também em Florianópolis. A autópsia revelou hemorragia e hematomas nos pulmões e no cérebro, causados por socos e pontapés com botas de bico fino e placas de prata. Eles sofreram prisão preventiva por dois meses e foram absolvidos em 2009 porque as provas foram consideradas insuficientes. (http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/noticia/2009/08/acusados-de-assassinato-de-empresario-em-2000-vao-a-julgamento-nesta-quinta-em-florianopolis-2615968.html)

     

    Com o filho de nove meses no colo, Cau enfrentou os motoqueiros com firmeza: “Por aqui não podem passar! Deixem as motos no estacionamento e caminhem a pé pela praia como todo mundo faz”. Dirigindo-se a Francis, afirmou: “Tu és morador daqui, meu, conhece a lei, sabe que é proibido entrar na praia; deveria respeitar e dar o exemplo”. Segundo Cau, o membro do Abutre tentou convencê-lo com o argumento de que “é atração desfilar de moto pela praia”. Mesmo temeroso pela segurança de seus filhos, o pescador gravou um depoimento dizendo que as famílias estavam se divertindo na praia num dia de lazer e os trabalhadores ganhando seu sustento quando sofreram essa violência inaceitável. Rafael afirmou que a comunidade já está se reunindo para entrar com uma ação. Rui Gonçalves, 64 anos, pescador aposentado, testemunhou o ocorrido e desmentiu com veemência a afirmação dos abutres em comentários no Facebook de que deram a volta e foram imediatamente para o estacionamento assim que ouviram o aviso dos pescadores. “Eles tentaram entrar na marra, aceleraram a moto em cima da gente, tanto que é pelo menos seis passaram pelo bloqueio”. Afirmando que o grupo, hospedado no bar Rock, atordoou a comunidade durante todo o fim de semana, ele defende que o juiz responsável pela lei de interdição do trânsito na praia faça cumpri-la determinando a instalação de grades de ferro e exigindo maior rigor da Polícia Militar, que faz vista grossa para a entrada de carros.

    A lei do Ministério Público Federal proibindo a circulação de veículos na praia foi reivindicada e pela própria comunidade porque havia muitas ocorrências de acidentes com pedestres e insegurança para os banhistas. “Melhorou muito aqui depois desta interdição e todo mundo deve respeitar”, afirma Luiz Carlos Moura, militar aposentado. Pela lei, que foi aprovada em setembro de 2015 e entrou em vigor em novembro do mesmo ano, só os pescadores e moradores locais, cujas casas têm acesso único pela praia, podem transitar com veículos motorizados na faixa da areia e somente para sair ou chegar em suas residências. Mesmo nessas exceções, é preciso solicitar autorização especial da prefeitura na Diretoria de Operações do Sistema Viário de Florianópolis (DIOPE). “Aconteceram muitos acidentes com lancha, carros, crianças que eram atropeladas, pessoas dirigindo alcoolizadas”, justifica Cau. Uma placa alta de sinalização indicando “Trânsito exclusivo de pedestres” está bem visível no alto da área invadida pelos motoqueiros. Marinho Mendes reconhece que o grupo errou ao ter entrado na faixa de areia, mas não pensa em pedir desculpas. Sua versão de que 15 pescadores atacaram seis componetes do Abutres no Bar Rock não encontra respaldo na comunidade. O casal garante que estava sozinho quando foi covardemente espancado na praia por seis homens da sigla. Mendes também assegura que seu grupo não é político, mas diversos posts foram espalhados nas páginas dos Abutres pelo Brasil afora acusando o Jornalistas Livres de ser esquerdopata e comunista e de “chamar de golpe o que ocorreu no Brasil”.

    Ainda no sábado, um Boletim de Ocorrência foi registrado na 2ª Delegacia de Polícia de Florianópolis, no Bairro Saco dos Limões pelo próprio principal agressor, Francis, que se disse vítima de injúria e agressão física. Embora Marinho Mendes e Anderson Batista, subdiretor dos Abutres em Florianópolis, afirmem que motociclistas acataram imediatamente o sinal vermelho dos moradores, deram meia volta, estacionaram na rua e voltaram a pé pela praia, o vídeo mostra os motoqueiros invadindo ao menos sete metros da faixa de areia e vários deles atravessando o bloqueio dos pescadores em direção ao interior da praia. “Se gerar violência, vai haver violência”, pondera Rafael, segundo o qual a comunidade apenas quer fazer valer o seu direito à segurança garantido por lei.

    Fundado no dia 10 de setembro de 1989, o Abutre’s Moto Clube é um dos maiores Motoclubes do mundo, conforme Anderson. A divulgação da notícia da invasão pelo Jornalistas Livres no sábado (14/01) provocou centenas de comentários, grande parte criticando a atitude desrespeitosa e arrogante do grupo com a comunidade. Outros também defenderam a “liberdade” dos motoqueiros e desqualificaram a denúncia do Jornalistas Livres, alegando que “os abutres voam por cima e não se submetem a ninguém”. Todavia, inúmeros representantes de outros clubes, inclusive do próprio Abutres, lamentaram e condenaram duramente o ocorrido, dizendo que o fato não representa o espírito dos amadores desse esporte, que têm por princípio zelar pelas comunidades e contribuir com ações filantrópicas. Há, contudo, um vasto histórico de violência e confrontos com morte envolvendo em eventos do grupo, mas a página do Abutres na internet (www.abutres.com.br) avisa que a organização “não é responsável, direta ou indiretamente, pela conduta pessoal de seus integrantes que contrariem as leis vigentes, os quais responderão, civil e criminalmente por si”.

    Como se não bastasse o clima tenso e as agressões físicas sofridas pelos moradores, o tradional Restaurante Peacinho do Céu amanheceu nesta segunda-feira completamente destruído por um incêndio também na madrugada de sábado pra domingo. Só sobraram cinzas e o madeiramento da sacada carbonizado como resquícios do restaurante de comida típica conduzido pela famosa cozinheira dona Zenaide Silva, que atendia a clientela vestida de almirante. A princípio, os moradores logo associaram o fato aos motoqueiros, mas os bombeiros verificaram que o fogo foi provocado por um curto circuito no freezer. Como disse Rui, o pescador aposentado, a bruxa tá solta no paraíso do Pântano do Sul, desde a chegada dos abutres…

    http://folhacentrosul.com.br/policial/8295/morre-mais-um-membro-do-abutres-mc-baleado-durante-festa-de-moto-clube-no-parana

    http://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2015/07/briga-em-encontro-de-motociclistas-deixa-dois-mortos-e-dois-feridos.html

     

    Recebemos muitas mensagens de repúdio a notícia da invasão, e convidamos os membros do Abutre’s Moto Clube a se defender em um texto. Até o fechamento desta matéria não recebemos nenhum retorno deles.