Jornalistas Livres

Autor: Cecília Figueira | Jornalistas Livres

  • Paulo Freire vive na Amazônia

    Paulo Freire vive na Amazônia

    Ontem pela manhã, deu-se inicio em Belém, PA ao III Encontro da,Cátedra Paulo Freire da Amazônia, promovido pela Universidade do Estado do Pará – UEPA por uma educação pública,popular e democrática.
    Porque Paulo Freire hoje é tão presente e necessário nesta conjuntura de perdas de direitos e de cortes nas politicas sociais? Os princípios de Paulo Freire estão articulados com um.projeto de superação das desigualdades e de construção democrática.

    Paulo Freire é compromisso histórico com a libertação da classe trabalhadora. A proposta de Paulo Freire é revolucionária, vai muito além da sala de aula. Consiste em processo de formação e de análise critica da realidade, juntamente com os trabalhadores, movimentos sociais e de resistência, na luta por uma educação transformadora, libertadora do povo oprimido.

     

    Fruto de produção coletiva e parcerias com movimentos sociais, coletivos de arte e cultura, professores, universidades, sindicatos e pessoas inconformadas com a perda de direitos e o aprofundamento das desigualdades sociais, este evento pretende ser espaço de reflexão, de troca, de articulação, de denúncia das arbitrariedades deste governo em detrimento das conquistas sociais e violação de direitos conquistados, em defesa da educação pública e de qualidade para todos, sem distinção de classe, gênero e raça. Ao mesmo tempo pretende ser um momento de afirmação de princípios, reconhecimento de identidades, de bandeiras de luta e afirmação da ESPERANÇA!
    PAULO FREIRE VIVE no cotidiano, na luta do dia a dia de todos nós.

    Painel de legados de Paulo Freire
  • Flores pela Democracia no Senado em Defesa da Previdência com Proteção Social

    Flores pela Democracia no Senado em Defesa da Previdência com Proteção Social

    Em 10 de setembro o Coletivo Flores pela Democracia, juntamente com pessoas da CNBB/Sul, Grito dos Excluídos, Pastorais e Frente em Defesa da Seguridade Social, com seu gesto de delicadeza, realizaram uma ação de diálogo e de sensibilização com os Senadores, em Brasília, em Defesa do Sistema de Proteção Social.

    Iniciando com o poema:

    “Hoje,

    Só hoje

    Vamos fazer Diferente

     

    Essas Flores apontam

    Um outro Caminho,

     

    Vejam nascer

    Essas flores de nossas mãos

    Flores pela Democracia

     

    Flores que hoje falam

    Da Defesa da Proteção Social”

     

     Através das flores/panfletos, com os dizeres:

    “Votem e Vetem esta Reforma da Previdência. Honrem o voto do povo brasileiro”;

    “Os Devedores é que devem pagar a divida da Previdência e  não o povo”;

    “Vote contra esta Reforma, ela só irá aprofundar a desigualdade social”;

    “Pense no povo trabalhador, esta Reforma criará mais desemprego”,

    ocuparam os corredores que levavam ao Plenário, sensibilizando para refletirem sobre as conseqüências econômicas e sociais negativas que essa Reforma trará para o país.

    • milhões de trabalhadores que ganham até 2 salários mínimos serão penalizados;

    • segmentos mais fragilizados da população como deficientes e idosos, serão afetados em suas necessidades básicas;

    • esta Reforma irá desmontar o Sistema de Proteção Social, previsto na Constituição de 1988;

    • tira do bolso de velhinhos, aposentados, 3 trilhões do consumo;

    • desonera o Estado e as empresas das responsabilidades com a aposentadoria e o trabalhador passa a ser o único contribuinte responsável por sua capitalização, através da rede bancária…

    A ação realizada teve grande aceitação pelo público que circulou pelo “Túnel do Tempo”: senadores, assessores parlamentares, deputados que participavam de comissões mistas, funcionários e servidores da Casa, visitantes.

     

    “A presença de vocês aqui no Senado, representou para nós esperança! Lutamos aqui direto pelos direitos e contra os desmontes das políticas públicas e da soberania nacional. Encontrar vocês aqui com esta ação nos faz sentir que não estamos sós” (Max, relações Institucionais da Liderança do PT);

    “O Coletivo Flores pela Democracia ocupou hoje o Senado Federal para sensibilizar a casa quanto a votação da Previdência. Foi muito emocionante revê-los, nós que lutamos juntos nas esquinas de São Paulo”  (Deputado Alexandre Padilha);

    Um senador no entanto disse que a Democracia já era… Senador, pense melhor nas consequências de sua posição. Ditadura não!

    Espera-se que esta abordagem com flores tenha atingido corações e mentes, alertando os senadores para o compromisso de sua responsabilidade pública: lutar pelos interesses de soberania do país e do povo que o elegeu.

    No dia seguinte o Coletivo atuou também na Câmara dos Deputados, tendo sido muito bem visto pelos parlamentares, assessores e visitantes.

    “Acabo de chegar e recebo dessas mulheres guerreiras, rosas vermelhas pela democracia. Isso em momentos tão difíceis. Este é o caminho, lutar pela democracia, pelos direitos, pela soberania, pelo Brasil. O Brasil é um país democrático, não pertence a nenhuma família mas ao povo brasileiro. Não tem presente sem democracia, não tem presente sem preservar os direitos sociais previstos na Constituição  de 1988” (Deputado José Guimarães).

    “Mulheres guerreiras que estão na luta por direitos, por justiça e em defesa da seguridade social e pela liberdade de organização e de expressão. Lindo gesto” (Deputada Maria do Rosário).

     

    Com mensagem de luta e de esperança o grupo realizou uma ação na defesa dos direitos sociais, da Justiça e hoje, pela Defesa do Sistema de Proteção Social. Esta Reforma da Previdência Não!

    Vida Digna para Todos!

    O Congresso há de honrar o compromisso social com o povo que o elegeu?

  • Marcha das Margaridas: O que tem a nos ensinar?

    Marcha das Margaridas: O que tem a nos ensinar?

    A solidariedade para que o Coletivo Flores pela Democracia estivesse em Brasília, começou antes. Com o por do sol de Brasília no dia 12 de agosto, seis representantes chegaram de São Paulo, à casa de Maria e Samuel. Acolhidas com calor especial e muito amor, fizeram flores, brincaram, cozinharam. Dividiram desejos, risos, sonhos, lágrimas… Ouviram música e cantaram. Marcharam com as Margaridas. Vibraram com tantos e tantos sentimentos…

    Com a Marcha, a oportunidade de encontrar o nosso verdadeiro Brasil! Um misto de emoções indescritíveis! Cada Margarida, um histórico de vida, um motivo para participar desse grande evento. Não dimensionaram esforços para seu deslocamento, ainda que fosse de um dos quatro pontos mais longínquos do nosso país.

    Emoção à flor da pele. Passos firmes, determinados, vidas marcadas pela força e sabedoria da lida da terra. Brotaram Margaridas dos profundos rincões do Brasil. Muito fizeram para lá estarem presentes. De longe, com muitas horas de viagem, altivez e dignidade foram representar suas comunidades.

    “Saímos de Mocajuba,  Pará, no baixo Tocantins no domingo meio dia, viajando 2ª dia e noite e chegando na 3ª por volta das 8 hs da manhã. Viemos numa delegação de 26 pessoas, fizemos um trabalho de base sobre o que é a marcha, a mobilização e as vozes das mulheres ocupando espaços de ousadia… O simples  fato das pessoas saírem de suas casa, da zona de conforto, enfrentar esses dias de viagem, ir prá rua é uma forma de ousadia, se rebelando contra o sistema. Larga sua família, seu trabalho e vem se mantendo, acreditando que a mobilização é um processo importante. A própria viagem é um aprendizado político. A marcha é tão bonita, a Marcha das Margaridas começa desde o processo de mobilização, a solidariedade, reunião da comunidade, torneios, futebol de mulheres, quermesses para fundos. Esta mulher que veio está representando a sua comunidade. A solidariedade na viagem, é dessa forma que a gente tem que crescer, as mulheres cada vez mais solidárias, a solidariedade na vida, a partir das mulheres.(Joyce Dandara, 25 anos)

    Viemos de ônibus, do Maranhão 70 ônibus, 3 dias de viagem. Sou solteira, brasileira, naturalizada maranhense. Sou do Município de Matinha,quebradeira de côco babaçu. Nossos objetivos da Marcha das Margaridas é para que a gente tenha nossos pamerás livres, nossos cocos, nossos campos cercados. Outra coisa: Lula Livre. Se tem ladrão, bota os outros na cadeia, não puxa debaixo do tapete. Estamos nessa luta há muito tempo” (Maria Valdelina).

    Sou de José Boiteau, Sta. Catarina, faço faculdade em Blumenau, odontologia. Fiquei espantada com a multidão de gente, um aprendizado que dá mais força pra gente estar na luta estudantil, demarcação de terras indígenas. Muita emoção ainda mais neste tempo que estamos vivendo , dá vergonha. Tem poucos jovens formados,  pouco tempo de cotas raciais, todos que se formaram, voltaram para a aldeia, somos muito apegados, faz parte da cultura nossa”  (Djadjá, da etnia Xokleng)

     

    A presença no Planalto Central

    80.000 Margaridas acamparam e marcharam… Com a sua garra, bandeiras, faixas, cantos e gritos, mostraram sua força, deixaram seu recado e estiveram presentes no Planalto Central do país.

    O dia a dia rude da lida no campo não ceifou suas energias. Em suas expressões, alegria de participar, solidariedade e garra.  Nas suas reivindicações luta por terra e trabalho, direitos, vida digna no campo, afirmação de identidades, uma agricultura sem veneno, preservação da natureza, soberania. A vivência com a natureza, as lições de garra no domar o trato da terra, a sabedoria do plantio, cultivo e colheita dos alimentos, as tornaram mais humanas, mais solidárias e com mais disponibilidade para a luta?

    Sou de Bom Conselho, PE, trabalhadora rural, participo do sindicato, vim prá Marcha por luta por melhorias. Lá as pessoas passam dificuldades sofrem mesmo de verdade, falta emprego. O agricultor sofre muito, a comunidade tem a terra mas não tem como trabalhar, quando aparece, pagam muito pouco ...” (Cleide, 41 anos)

    “Meu objetivo hoje é brigar para que nossos direitos sejam alcançados, Bolsonaro cai fora e Lula Livre. Essa é minha intenção. Tô aqui lutando pelos meus netos, meus filhos e pelas gerações futuras. Sou professora aposentada, me formei depois de 56 anos… A maior parte da juventude está alienada, não teve uma educação política. Pode ver que ele ta acabando com a Universidade, com a educação, com tudo. Enquanto Lula criou várias universidades, ele está destruindo e isso é lamentável. Nós que já temos uma caminhada, temos que lutar prá que isso não aconteça”  (Anadina , 72 anos, presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais , Vila Bonita, Itacarambi, prá lá de Montes Claros, Norte de MG)

    O problema é que no campo não se oferece políticas públicas então o jovem tá saindo para estudar e muitas vezes esse jovem não volta prá comunidade e isso vai dificultando a vida no campo, pra se fazer uma sucessão. A ideia é que o jovem possa ficar no campo com condições dignas, compreendendo a importância rural para que ele possa assumir a terra, continuar produzindo, se percebendo como classe trabalhadora de agricultores familiares(Joyce Dandara, 25 anos).

    Moro em Palhoça, Sta. Catarina. Sou assistente social e faço parte do movimento de economia solidária. Trabalho com mulheres no artesanato. Nesta conjuntura  política é muito importante a gente se empoderar e retomar o espaço por direitos.Levo de volta muita experiência, muito conhecimento, muitas amizades, parece que todo mundo se conhece” (Inês, 57anos)

    Sou de Bom Sossego, PE. Estou aqui para que meus filhos, meus netos, mais etnias, tenham como viver melhor. Não temos saúde, escolas, garantia de nossas terras. Acho importante como homem, estar na Marcha, sinto um grande amor pelas mulheres e por Margarida Alves. Uma grande admiração pela mulher que foi lutadora, batalhadora. Por todas as mulheres batalhadoras que vivem na luta do dia a dia, não importa o trabalho que tenham, são guerreiras. De volta levo uma mala cheia de alívio no peito por ver tantas mulheres lutando como Margarida Alves” (José Roberto, 50 anos, indígena)

    Venho da Amazônia brasileira. Meu povo, minha etnia vem da Amazônia, dentro do Acre. Meu povo sofreu muito, vive na Amazônia há 5 mil anos. Prá vir prá cá foram muitas horas de viagem. Viemos de van, a gente se organizou…  Sou artesã e assim como todas as mulheres do mundo, somos muitas coisas: sou professora, sou costureira, sou ativista do movimento indígena, ambiental, do movimento de liberação da maconha como uso medicinal e recreativo para que nosso país pare com essa pouca vergonha, pare de prender nossos filhos, nossos jovens por causa de um cigarro natural enquanto liberam cigarro cheio de química…Para nós indígenas a saúde está precária, um monte de desvios, muita falta de atenção pras comunidades indígenas do Brasil inteiro. A minha pauta também é da educação.Nós indígenas pertencemos a 6 troncos. Somos mais de 365 povos e não é possível que o governo brasileiro queira enfiar goela abaixo a mesma educação que oferece a todos os brasileiros, sem respeitar cada região brasileira, cada povo. Paulo Freire  em 1964 foi expulso de nosso país, se seu método tivesse sido implantado, nosso país seria outra coisa. Nas aldeias existe um preconceito que nos ensinaram nesses anos todos de dominação colonial que éramos inferiores, incapazes. O que fizeram com a gente, com os povos da América Latina foi uma atrocidade, restou muito pouco. Digo sempre aos meus alunos que nós somos o que restou do paraíso.  Paulo Freire vive em cada região mamadi da Amazônia. Enquanto eu viver o método dele vai ser aplicado na minha aldeia e por onde eu passar no mundo” (Quichirá, aquela que nasceu para guiar, 43 anos).

    Sou de uma aldeia no município de José Boiteau, representante das mulheres que cultivam ervas medicinais, um chá da Índia. Eu e minha mãe estamos desenvolvendo um projeto com as mulheres que estavam entrando em depressão e com os estudantes. Mobilizamos os estudantes para que tenham um lugar para buscar informação sobre nossa cultura indígena que não é só o falar, mas o artesanato, a comida, os costumes, ervas medicinais, as palestras e as vivências que tínhamos e que hoje estamos um pouco distanciados. Projeto faz lembrar como éramos antes da pacificação, nossas crianças brincavam juntas, a gente comia no mesmo prato e isso é muito importante de lembrar. Na Marcha é muito importante ver nós mulheres brigando pelos direitos. Eu sou uma que não  paro e isso eu vou levar para as nossas mulheres. Com é importante a luta política hoje e nós temos que nos levantar” (Antõnia Batlé, 36 anos, etnia Xhokleng)

     

    Margaridas: Encontros de Sujeitos por outro país

    Na Marcha das Margaridas num agosto seco do cerrado brasileiro, vários encontros se deram. Encontros de seres humanos, de pessoas, de sujeitos fortes e, ao mesmo tempo, delicados. Encontros de corpos que estão juntos na luta por outro país. Encontros de olhares de identidade da luta coletiva. Encontros que simbolizam uma chama que não se apaga porque há vida latente… ainda. E sempre.

    Daquelas mulheres simples do campo, de todos os cantos do país, a garra por justiça e direitos, solidariedade e preocupação com a preservação da natureza.

    “A Marcha é tão bonita, começa desde o processo de mobilização. A solidariedade, reunião da comunidade, torneios, futebol de mulheres, quermesses para fundos. Esta mulher que veio está representando a sua comunidade. A solidariedade na viagem das companheiras que ajudam as companheiras. Eu trouxe meu filho e todo mundo ajudou. A solidariedade, é dessa foram que a gente tem que crescer, as mulheres cada vez mais solidárias, a solidariedade na vida, a partir das mulheres” (Joyce Dandara, 25 anos).

    “Tudo o que estão fazendo agora na minha casa no Acre, a fumaça, vai ter repercussão no Sul, no Sudeste, no Nordeste. A única coisa que vai salvar o planeta é a solidariedade. Nós indígenas estamos resistindo. Cada gesto nosso vai refletir no outro. Minha ação no planeta, onde eu estiver,  vai refletir no outro. Temos que ter essa consciência. Quando liberam os agrotóxicos, estamos envenenando nossa própria casa. É como minha mãe dizia, é uma cobra que morde o próprio rabo. O que estão fazendo (o governo, o povinho lá de fora, os banqueiros), não nos interessa, eles vão nos levar à morte. Deixe nós nações indígenas e o povo brasileiro a nos guiar. Esse povo dos grandes lá, só ta pensando em dinheiro. Gostaria que meus descendentes recebessem a casa e o rio que eu recebi. Eu pude nadar no rio da Amazônia . junto com os peixes e agora não tá podendo mais. Eu pude respirar um ar limpo. O que vale realmente a pena na vida é a família, é ser feliz, é estar no ambiente que a natureza esteja bem. Não podemos comprar o sol, a água. Eles vão entender que a  água não é mercadoria, a Bolívia entendeu e graças aos índios eles recuperaram aquilo que eles tem. O que fizerem com os povos da América Latina foi uma atrocidade, restou muito pouco. digo sempre aos meus alunos que nós somos o q restou do paraíso”

    “Como disse Krenáh, nós estamos em guerra  e prá nós não temos trégua. Vocês também estão em guerra, é um tipo de guerra sem bomba, mas é . Vamos mostrar prá esse povo que eles podem até querer fazer mas a gente vai ter reação” (Quichirá, 43 anos)

     

    Juntas Somos Muitas!

     

     

    Não consigo retirar a pulseira  do meu braço.

    Margaridas, Margaridas!Quantas somos?

    Ainda não consigo retirar a pulseira do meu braço.

    Serei eu uma Margarida?

    Quantas somos?

    Ainda não consegui retirar a pulseira do meu braço …

    Conseguirei confeccionar tantas margaridas pra quantas somos?

    A pulseira…  Nossos braços.

     

    Nossa força que carrega nossas Flores.

    Flores que tem perfume de Brasil

    Do nosso Brasil soberano, livre!

     

  • Rastro Vermelho na praça e nas ruas

    Rastro Vermelho na praça e nas ruas

    Iniciativas como o espetáculo político/teatral “Rastro Vermelho” grupo teatral Estudo de Cena, precisam ser incentivadas, multiplicadas… Atividades em espaços públicos como essa, renovam as energias e reavivam a esperança.

    Inspirados no Teatro do Oprimido de Augusto Boal o grupo, composto por aproximadamente 20 atores, com muita música, declamação de poesias, performances em praça pública, ganhou as ruas para denunciar o momento que estamos vivendo, reavivar a memória de lutas e reforçar a a utopia de um mundo melhor.

    Em cortejo da praça da Vila Buarque e pela Consolação, finalizando no teatro de Arena, chamaram a atenção de maneira simbólica, para a dinâmica e força da natureza, da vida e de elementos que a constituem: ar, fogo, água, terra, onde se travam as lutas, ressaltando a importância do chão em que se pisa e da memória como fio condutor  da vida, em constante movimento.

    “Eu canto a aurora… A ruína é progressiva, em nosso caminho um labirinto de pedras, só a solidariedade pode abrir caminhos. Sem a nossa imaginação nunca chegaremos ao lugar esperado. Ficaremos aprisionados nas muralhas de pedra que nos trazem sinais da morte. Estamos na ponta da rua, estamos vendo a rua se fechar, enxergamos a fumaça da pólvora, a corneta bradar… Eu vi Antônio Conselheiro no sertão que o mundo esqueceu, cercado de tanta polícia, Canudos não se rendeu… Cercado de tanta polícia, fascistas não passarão…”

    “A gente busca raiz de quem tem brilho no olhar, olha o jardim onde está o sol, ver a memória, ver a semente do que está por vir, esta terra será de toda gente, de muita luz e de sol…”.

    No teatro de Arena foi entregue a Cecília Boal, uma caixa com cápsulas de sonhos para daqui a cem anos. Sob a mística daquele teatro de tantas resistências, ergueram-se as vozes por liberdade e por direitos.

  • Multiplicar Resistências, Semear Esperanças

    Multiplicar Resistências, Semear Esperanças

    O sábado do dia 08 de junho foi para mim e para cerca de 70 pessoas que se reuniram na Ação Educativa, um dia especial.  Representantes de movimentos, coletivos de resistência, ONGs de Formação Política e de Defesa dos Direitos Sociais, cursinhos e universidades populares, Centros de Defesa de Direitos, militantes indignados com o momento de retrocessos que estamos vivendo em nosso país, se reuniram para trocar experiências a partir de suas práticas, aprofundar a análise de conjuntura, definir estratégias de luta e desafios da resistência e da educação popular para fazer frente à conjuntura nacional.

    Coordenado pelo CEAAL Brasil (parte integrante do Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe, que congrega representantes de 21 países e 150 organizações), juntamente com a Ação Educativa (ONG voltada à assessoria e formação política a movimentos populares e  a instituições educativas, com ênfase no trabalho de base com jovens, mulheres, negros…), o encontro teve como objetivo aprofundar o conceito da Educação Popular como Formação Política frente ao atual contexto a partir  das experiências formativas dos participantes,  articular as lutas de resistência e organizar uma campanha de defesa do legado de Paulo Freire fundamento teórico para as estratégias de luta e de resistência e das práticas de formação política com base na educação popular.

    A vivência em grupos possibilitou conhecer a riqueza de práticas ao mesmo tempo em que apontou desafios de toda ordem para fazer frente ao contexto de discriminação, exclusão, aprofundamento das desigualdades e das políticas neoliberais, perda de direitos, retrocessos de conquistas sociais, perda de direitos e das garantias democráticas, dilapidação de nossas riquezas, da soberania nacional e desmonte do Estado. Acresce-se ainda um questionamento dos valores incutidos com o aprofundamento das políticas neoliberais que reforçam o individualismo, o consumismo, a meritocracia individual, a despolitização da vida e descrédito das instituições, a banalização da violência e disseminação do ódio de classe, gênero, raça, em substituição a valores humanos de respeito e de solidariedade ao diferente.

    Múltiplos foram os desafios e práticas de resistência e de educação popular entendida como processo de produção de conhecimento que se dá através da ação, da escuta e do diálogo, da reflexão e da constatação do modo de dominação que produz despolitização. É preciso escutar e fortalecer as lutas das juventudes, a luta anticapitalista no enfrentamento das discriminações de gênero, etnia e raça; descolonizar o pensamento, reinventar a comunicação e linguagens, incentivar e fortalecer as manifestações culturais que se constituem na expressão das identidades. Realizar ações de base nos territórios onde se constroem redes e identidades, enfim preparar, ocupar e transformar; transformar discursos em ações; fortalecer as lutas de grupos de excluídos; articular politicamente as lutas de resistência e os movimentos sociais.

    Pedro Pontual, educador popular e um dos coordenadores do evento, ressaltou a diversidade de processos e práticas de educação popular as quais devem se referenciar no contexto socioeconômico, político, cultural, ambiental em que estamos vivendo de aprofundamento das políticas neoliberais e conservadoras. Além dos aspectos já apontados, o Estado criminaliza os movimentos sociais e de protesto e boicota todas as formas de participação social da população menos favorecida e dos segmentos marginalizados. Vivemos um momento na América Latina de crise multifacetada, decorrente de golpes em vários países: crise da democracia liberal e das instituições políticas. Polarização política das sociedades, em que as forças da direita e da extrema direita aliadas à forte ação da mídia tentam desmontar e desacreditar as alternativas progressistas com o objetivo de aprofundar a hegemonização capitalista, patriarcal, racista; incutir na subjetividade das pessoas valores consumistas e individualistas; implantar a cultura do ódio de classe de várias formas violentas: homofobia, tendências religiosas fundamentalistas.

    Em contrapartida, ressaltou diversas práticas de resistência em espaços nacionais e internacionais, em busca de ações emancipatórias, novos paradigmas de interpretação da realidade, de construção de nossas utopias. Desafio central das lutas de resistência, da luta por direitos é apontar para a construção de uma nova sociedade.

    Pedro Pontual destacou 12 pontos que se constituem em desafios para a formação política:

    • Como sair da bolha? Dialogar com o outro com práticas respeitosas, trabalho de base nos territórios, com atitude ativa, de escuta e de experimentação;
    • Incentivar as formas de ativismo social, desobedecer e ampliar o reconhecimento de práticas existentes libertadoras assim como valorizar novas práticas emergentes. Superar o medo, recuperar o sentido do coletivo e de comunidade, ação política exercida com alegria;
    • Cultura como eixo de articulação das práticas de resistência, a cultura como manifestação e afirmação da sabedoria popular, mobilizar pessoas com o exercício da criatividade e da liberdade, criar círculos de cultura, incentivar rodas de conversa;
    • Economia solidária, como uma nova maneira de pensar a produção e o trabalho humano;
    • Papel central e protagonista das juventudes nas práticas de formação política e nas novas formas de exercício político;
    • Em contraposição à pedagogia capitalista, a pedagogia feminista, anti-racista e libertadora, desconstruir o modo de pensar colonial no continente latino americano;
    • Novas formas de democracia, reinventar a democracia participativa, direta e representativa; incentivar canais institucionais de participação e controle social das políticas públicas (atenção á campanha atual “O Brasil precisa de Conselhos” e a Plataforma dos movimentos Sociais pela reforma política);
    • Re-significar as políticas e programas sociais, face ao desmonte das políticas públicas, educação política e educação para a cidadania, na concepção de direitos, universalidade no atendimento às diversidades e de proteção social.
    • Resgatar os direitos humanos na sua dimensão integral e as diversas formas e instâncias de participação social;
    • Enfrentar a batalha das redes sociais hegemonizadas pelas elites conservadoras, contra fake news e informações incorretas e maldosas;
    • Pedagogia ecológica de respeito à natureza e ao planeta, obrigações humanas, sentido coletivo e de sustentabilidade ecológica;
    • Religião e política, como desenvolver práticas inter-religiosas e enfrentar os diversos tipos de fundamentalismos que se constituíram em estratégia política da direita para intervir nas subjetividades;

    Fechando o encontro o CEAAL e a Ação Educativa, organizadores do evento reforçaram a importância do engajamento dos participantes na Campanha Latino Americana e Caribenha em defesa do legado de Paulo Freire.

    O engajamento dos participantes na Campanha deverá se centrar em torno de questões fundamentais:

    • lutar por bandeiras que ele sempre apoiou como liberdade de pensamento, autonomia do sujeito, democracia plena e respeito às diversidades.

    • lutar para que suas idéias não sejam descaracterizadas e pela preservação, ampliação e divulgação de seu legado;

    • apoiar o reconhecimento internacional de sua obra obtido ao longo das últimas décadas. No Brasil, lutar pela manutenção do título de Patrono da Educação Brasileira, concedido a Paulo Freire por meio da Lei no. 12.612/2012, que os setores obscurantistas do governo e da sociedade tentam revogar.

    Participantes de Belém do Pará ao Rio Grande do Sul, das periferias de São Paulo para o interior do estado, militantes de várias áreas saímos energizados com a riqueza desse encontro e com nova disposição de luta.

    Nosso norte da formação política calcada nos fundamentos metodológicos e na concepção de libertação dos oprimidos segundo Paulo Freire, fortificou-se. Saímos com garra e determinação para multiplicar resistências e semear esperanças na construção de uma nova utopia, como na música de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós:

    “Quando o muro separa uma ponte une
    Se a vingança encara o remorso pune
    Você vem me agarra, alguém vem me solta
    Você vai na marra, ela um dia volta

    E se a força é tua ela um dia é nossa
    Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
    Que medo você tem de nós, olha aí…

    Você corta um verso, eu escrevo outro
    Você me prende vivo, eu escapo morto

    De repente olha eu de novo

    Perturbando a paz, exigindo troco…”

  • Luíza Erundina: Marco histórico da gestão da cidade de SP

    Luíza Erundina: Marco histórico da gestão da cidade de SP

    Nestes tempos de trevas e desesperanças, senti-me instigada a resgatar um pouco do espírito e dos sentimentos que permearam a gestão da Prefeita Luíza Erundina. À frente do Município de São Paulo, uma das maiores cidades da América Latina, sua gestão deixou profundas marcas para o povo de São Paulo e para os profissionais das mais diversas áreas que participaram, em vários níveis, da sua gestão.

     

    Se formos perguntar ao povo de São Paulo, que há 30 anos vivenciou a gestão da prefeita Luíza Erundina, quem pela primeira vez de fato olhou para as nossas periferias, certamente  milhares responderão com saudades – foi a Erundina.

    “Para falar sobre a gestão Luíza Erundina na Prefeitura Municipal de São Paulo – PMSP, é importante destacar o grande feito que foi sua eleição, num colégio eleitoral com histórico conservador. Tratava-se de escolher uma mulher, nordestina, pobre e sem nenhum glamour. Àquela época, as redes sociais ainda não dominavam, nem conquistavam cabeças sem o debate de idéias. A Luísa participava, há muitos anos, das lutas populares e foi reconhecida por isso, essa foi sua bandeira de campanha. No governo, honrou seu compromisso com as camadas populares, acolhendo demandas e criando mecanismos de participação”. Maria Nadja Leite de Oliveira, Pedagoga do quadro de funcionários da Secretaria de Bem Estar Social, uma das responsáveis pela rede de creches.

    Através de depoimentos de algumas pessoas que participaram da administração municipal no período de 1989 a 1992, é possível resgatar um pouco do entusiasmo, da coragem, criatividade e ousadia que marcaram sua gestão. Especialmente aos jovens gostaria de transmitir um olhar crítico e ressaltar que muitos dos desafios de 30 anos atrás são de grande atualidade. E que a utopia se constrói a partir de objetivos claros, da prática e de ações concretas, do compromisso político de transformação social. Jamais podemos abrir mão da esperança.

    Nós éramos jovens, imbuídos de sonhos e coragem. Ousadia que vinha do exemplo dado diariamente pela prefeita Luiza Erundina, que acreditava na mudança de valores e apoiava quem se dispusesse a correr riscos na defesa dos direitos de cidadania. Assim foi na saúde e nas demais áreas”. Carlos Neder, Chefe de Gabinete (89/90) e Secretário de Saúde (90/92)”.

    Como Superintendente do Hospital do Servidor Público Municipal, engajei-me desde a primeira hora no grande desafio que tínhamos pela frente: administrar a maior cidade do país comandados por uma mulher, nordestina e que venceu a eleição de maneira surpreendente. Confesso que nos primeiros muitos meses, nem dormir conseguíamos. Preocupados em acertar, fazer de maneira diferente a política, as relações com as forças vivas da sociedade, num clima de permanente hostilidade por parte daqueles que sempre detiveram o poder durante tanto tempo. Quando me perguntavam se estava com medo; respondia apenas que estava assustado com o tamanho da nossa coragem, coragem de todos que estavam juntos naquela dura missão”. Giovanni Di Sarno, Superintendente do Hospital do Servidor Público Municipal

     “Trabalhar com Luiza Erundina permitiu a realização de um sonho: levar à prática os princípios do Sistema Único de Saúde de universalização, hierarquização, equidade e participação popular nos serviços de saúde. Assim participei da reestruturação dos serviços de saúde da Prefeitura, integrando as unidades básicas aos hospitais em todas as regiões da cidade, montando, assim, os distritos de saúde. Desta forma, a pessoa que recorria a um posto, poderia ser encaminhada a um especialista, pronto-socorro ou hospital na mesma região. Este modelo de serviço favorece imensamente, a prevenção e promoção da saúde, a cura e a reabilitação do cidadão”. Elzira Vilela, médica sanitarista, Diretora do Hospital Campo Limpo

    Luíza transformou a gestão municipal num campo de batalha de ideias e de diálogo em todas as frentes cuja meta era inverter a prioridade da gestão da PMSP e de toda a Administração Pública, para atender os mais necessitados – a população historicamente excluída de bens e serviços.

    O Governo de Luíza Erundina foi o mais revolucionário de todos os tempos em todas as áreas. Porque inovou e ousou em tudo. Desde as pequenas coisas como, por exemplo, deixar de fazer canalização de córrego fechado, que dá muito dinheiro às empreiteiras e fazer canalização de córrego em gabião, que é muito mais barato e muito mais fácil de limpar; até tentar impor para a cidade o coeficiente de aproveitamento igual a 1 (um) que a cidade só conseguiu emplacar 24 anos depois, na gestão de Haddad. Tudo era tratado com muita atenção tendo a preocupação de inovar no sentido de propor atos modernos e sempre pensando o quanto custaria para a cidade. Mas, a imprensa batia nela todos os dias. Era uma luta a cada dia. Na área em que trabalhei, foi implantado o planejamento descentralizado que se obtinha uma inter-relação com as demais secretarias de forma real. Os núcleos de planejamento eram estruturados de maneira em que as subprefeituras e as secretarias sociais e as de obras como vias, transportes, habitação, discutiam e decidiam conjuntamente todos os projetos e problemas. Era uma estrutura difícil porque dependia de profissionais dispostos a entrosar o Trabalho. Foi uma experiência única e nunca mais foi retomada. Foi proposto um novo Plano Diretor que a Câmara não votou. As experiências foram muitas, com ótimos resultados em todas as áreas. Mas, a imprensa não perdoou o sucesso de uma mulher, nordestina e de esquerda.” Penha Pacca, Arquiteta da Secretaria Municipal de Planejamento.

    “Partimos do principio de que as creches eram um direito das famílias, para atenderem seus filhos mas acima de tudo, um direito sagrado das crianças, um espaço de educação. Era necessário elevar a qualidade do atendimento, abrindo duas frentes de atuação: – melhorar as condições materiais, dando suporte para um projeto educacional de qualidade em que contamos com total apoio da administração; – levar o debate para o conjunto dos educadores envolvidos no atendimento, de forma a refletirem sobre o papel educacional das creches, partindo da concepção de que a criança é agente e construtora do seu conhecimento. Promovemos seminários, palestras, convidando profissionais de reconhecida competência, ao mesmo tempo em que levamos o debate para dentro dos equipamentos”. Maria Nadja Leite de Oliveira, Pedagoga do quadro de funcionários da Secretaria de Bem Estar Social.

    De seriedade e ética inquestionável, Luíza se cercou de pessoas identificadas com os mesmos princípios, objetivos e capacidade profissional excepcional. Foi a regente de uma orquestra muito rica e diversa  – Paulo Freire, Paul Singer, Amir Kair, Carlos Neder, Marilena Chauí e muitos outros..Confiava no trabalho de equipe, na capacidade criativa e no potencial do ser humano, como agente da transformação.

    Tenho muito orgulho de ter feito parte do governo de Luiza Erundina. O time de secretários mostra que o critério intelectual, técnico ou de conhecimento da realidade era fundamental naquele tempo de início de um ciclo democrático impar na história do Brasil. Aprendi muito com Paulo Freire, Marilena Chauí, Paul Singer, Lucio Gregori, Eduardo Jorge e Carlos Neder, além de outros tantos parceiros e parceiras. À testa da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano convivi com uma equipe dedicada e muito competente. Os movimentos sociais não nos deram tréguas fazendo manifestações semanais e frequentes ocupações do Edifício Martinelli onde estávamos. Exigiam seus direitos como havia ensinado nossa prefeita. Não fosse essa prática incisiva e corajosa talvez não tivéssemos realizado uma gestão tão promissora. Inauguramos um programa habitacional com participação social e assistência técnica que deitou raízes no Brasil pelo resto dos nossos dias. Esse programa – FUNAPS COMUNITÄRIO- mostrou que é possível fazer moradia social com arquitetura e construção de qualidade e preço baixo” Ermínia Maricato, Secretária de Habitação à época.

    O estímulo à participação popular em todas as instâncias da gestão municipal através de Conselhos Gestores, foi um dos pilares de sua gestão:

    Considero um privilégio poder ter participado da gestão da prefeita Luiza Erundina ao lado de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação. Primeiro nome anunciado de sua equipe quis a prefeita evidenciar seu compromisso com uma gestão democrática e educadora. Assim buscava concretizar o que deveria ser uma gestão pautada pelos princípio da inversão de prioridades e da participação popular. Todas as grandes ações da Prefeitura mereceram intenso debate interno e amplo debate com a sociedade. Vale lembrar as propostas de Tarifa Zero nos transportes e do IPTU progressivo. Houve uma politização das ações o que promoveu grandes debates e polêmicas na cidade. Tínhamos a consciência de que através do diálogo e da participação popular estávamos construindo cidadania, democracia e efetivando direitos. Muitas dificuldades e adversidades tiveram que ser enfrentadas mas faziam parte do processo e havia muita energia e compromisso político para buscar alternativas. Tivemos muitos  aprendizados dos acertos e erros cometidos que nos foram muito úteis durante todos estes anos e diante de tantos desafios que todos tivemos de enfrentar para levar a frente um projeto democrático e popular para nosso País”. Pedro Pontual, Educador Popular.

    “Luiza Erundina foi a prefeita da Cidade de São Paulo (1989/1992) mais ousada, coerente e democrática que a cidade já teve! Reorientou as prioridades tradicionais da gestão das cidades, redefinindo os investimentos para as regiões mais pobres da cidade, respondendo com competência e inovação às demandas populares. Investiu em projetos de ação solidária envolvendo diferentes grupos sociais, e exercendo, na prática, suas convicções: só é possível unir essa cidade/estado por meio de uma Gestão Democrática em que as pessoas se sintam, de fato, partícipes ativos das decisões e ações das políticas públicas. Não por acaso, a criação e recriação reformulada de Conselhos na Cidade possibilitou uma ação/participação popular como nunca se teve! A competência de escolha e organização de uma equipe de trabalho coesa e identificada com princípios de cidadania possibilitaram políticas que, diversificadas na sua função – saúde, cultura, educação, assistência social – tivessem como princípio comum a melhoria das condições e de qualidade de vida de todos e todas na cidade, mas, com prioridade aos historicamente marginalizados”… As consultas populares, que envolviam, do motorista de taxi ao usuário de transporte público para a definição dos pontos de parada dos ônibus, dos pais e alunos sobre as prioridades da educação, do happer ao corpo de balé do teatro municipal, possibilitando sugestões e críticas às políticas possibilitaram um exercício concreto de cidadania”. Lisete Arelaro, Chefe da Assessoria Técnica e de Planejamento da Secretaria de Educação

     “Decoramos as paredes do pronto-socorro com fotos da população local para propiciar ao povo da região o sentimento de que aquele era um espaço deles, eram os protagonistas daquele novo cenário”. Elzira Vilela, médica sanitarista. Diretora do Hospital Campo Limpo

    As políticas públicas e os programas foram formulados e se concretizaram a partir das necessidades, interesses e anseios da grande maioria da população paulistana – as classes populares e os segmentos mais pobres. Através das várias áreas de atuação se concretizava a utopia de mudança de prioridades da gestão pública, a construção de um mundo mais digno e justo para todos e de uma cidade mais humana. Luíza enfrentou forças e dificuldades imensas  e de todo tipo.Com garra, confiança na equipe de trabalho,  participação popular e articulação com forças sociais da cidade enfrentava e administrava com serenidade os obstáculos que apareciam pela frente.

    “Campo Limpo, bairro da zona sul da capital tinha 600.000 habitantes, sendo a maioria muito  pobre,  sobrevivendo em locais de extrema violência.  A primeira causa de morte era homicídio, de adultos, crianças e adolescentes.  O enfrentamento deste problema de saúde tornou-se prioritário, e a complexidade desta  tarefa exigiu  mudanças no projeto do hospital em construção – criando centro de reabilitação, ambulatório de especialidades e UTI para crianças e adolescentes  e  um trabalho  conjunto  à Secretaria de Cultura e Educação, Bem-Estar Social e Esportes e Lazer. A prefeita priorizava os serviços voltados à periferia da Cidade, pois entendia que era lá que morava a parcela mais necessitada”. Elzira Vilela, Médica Sanitarista, diretora do Hospital Campo Limpo.

    Conseguiu realizar uma gestão cujos programas implantados foram de grande ousadia, subsídio e embrião para políticas públicas em várias gestões municipais e estaduais de governos do PT e de partidos progressistas, e nos governos Lula e Dilma.

     Surgiram propostas inovadoras na área da saúde, com a transformação da Secretaria de Saúde em sistema de atenção a todos, não mais para crianças, gestantes e mulheres apenas, além das emergências e urgências e atendimento hospitalar. Foram quatro anos de efervescência criativa e estímulo profissional, mudando o foco da Secretaria do modelo hospitalocêntrico e medicocentrado, para atendimento na Rede Básica de Saúde e interprofissional… Se não tivesse acontecido aquele estímulo pela administração da Luiza Erundina, não teríamos toda a proposta inovadora que, hoje, a cidade de São Paulo apresenta a todo o SUS, com programas e políticas premiadas e reconhecidas nacionalmente, na área da atenção à saúde da pessoa idosa.” Sérgio Paschoal, Coordenador da Saúde do Idoso, SMS.

    A integração dos programas considerada fundamental para o enfrentamento das necessidades dos munícipes foi uma realidade em todas as áreas. Muito se realizou, muitas sementes foram lançadas.

    “A gestão da prefeita Luiza Erundina segundo o partido pelo qual foi eleita – Partido dos Trabalhadores – pensava em uma cidade plural, justa e democrática, implantando uma política social que acolhia todas as pessoas. Na época eu era professora da Rede Municipal de Educação, atuando na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e tive o privilégio e a alegria de compor o governo como formadora de professores desta mesma rede… a Prefeita valorizava a Educação e em minha memória de educadora, (atuei por mais de trinta anos da Rede Municipal de Educação), esta foi uma época de muito entusiasmo, de prática democrática e dialógica, de muito trabalho árduo, de muita formação, de realizações, conflitos, conquistas e vitórias. Minha formação política e pedagógica deu-se nesta época. Formulávamos a política Educacional nos fóruns de debate, com os educadores e com a população da cidade… além disso, na gestão de Luiza Erundina, obtivemos uma grande conquista para o magistério: professores serem pagos para planejarem suas aulas e estudarem- era a JTI- Jornada de Tempo Integral. Os aprendizados, as experiências, a postura democrática e dialógica desta gestão caminharam comigo por todos os meus anos de magistério e continuam a orientar minha atuação como cidadã! Lutei e continuarei lutando por uma sociedade justa, democrática e acolhedora para todas e todos!Lívia Maria Antongiovanni, Equipe Pedagógica, Grupo de Formação do NAE-4.

    “Lembro, com saudades, das excelentes e criativas experiências de integração de políticas: saúde/educação; educação/cultura; educação/esportes que possibilitaram aos cidadãos da cidade de São Paulo, a fruição de direitos que nunca tinham experimentado”. Lisete Arelaro, Chefe da Assessoria Técnica e de Planejamento da Secretaria de Educação

    A serenidade, a firmeza com que Luíza Erundina enfrentou os desafios do cargo, sempre de acordo com seus princípios e ética deixam saudades desta gestão corajosa.

    Criticada diariamente pela mídia e pelos poderosos, nunca se deixou abater! Ao contrário, as enfrentava com um pacífico sorriso: Já esperávamos isso! dizia. As greves de funcionários, de lixeiros a motoristas de ônibus – a CMTC era até então uma empresa pública! – ainda que muito difíceis de resolver, nunca lhe ocorreu a possibilidade de chamar a polícia para conter as reivindicações, mesmo quando elas não eram justas…”. Lisete Arelaro, Chefe da Assessoria Técnica e de Planejamento da Secretaria de Educação

     Numa reunião de governo num sábado chuvoso, a Prefeita foi chamada a atender o telefonema do senador por São Paulo, que perguntava por uma chefia de Clínica que havia sido destituída do cargo de chefia, por nós dirigentes do Hospital do Servidor Público Municipal, Há anos ela desempenhava tal função, e que ele, senador da república, gostaria de ver revertida, era um cargo de confiança. A Luiza com respeito e cuidado perguntou-me se aquela decisão era algo irrevogável e necessária. Confirmando que a decisão final havia sido tomada, imediatamente retomou a conversa com o senador, lamentando o fato de não poder atendê-lo, não se intimidando com o personagem influente do outro lado da linha. Deu o irrestrito respaldo para os seus novatos dirigentes. Não ficou intimidada e respeitou a decisão que sua equipe havia tomado. Isso, ilustra como esta mulher corajosa, generosa e solidária com a sua equipe, comandava a maior cidade do Brasil…Também não esqueço a firmeza com que a Prefeita de posicionou no episódio da prisão de um diretor de uma das subdivisões médicas do Hospital. Estávamos com um preso, sendo atendido na enfermaria do hospital, guardado por uma escolta da Polícia Civil. Num dos retornos dos exames que foi realizar os policiais decidiram algemar o paciente ao leito hospitalar. Sabendo deste fato, o diretor de subdivisão, foi imediatamente a enfermaria para protestar da atitude e exigir a remoção das algemas atadas ao leito, porque se tratava de uma   violação intolerável. Na discussão com os policiais apareceu o delegado titular do 36ª D.P. dando voz de prisão ao nosso diretor, levando-o de camburão para o distrito policial. Também acabei me envolvendo na discussão, chegando a dizer ao delegado que ele era autoridade dentro da delegacia, e nós, erámos a autoridade dentro do hospital. Se seguiu uma intensa noite de detenções, discussão dentro e fora da delegacia. A Prefeita com pulso firme como o caso requeria, mobilizou toda a sua equipe da prefeitura, inclusive o seu secretário de negócios jurídicos para intervir a favor dos profissionais da saúde de seu governo. Fomos todos liberados após intensa noite e madrugada de negociação com as autoridades policiais. A opinião pública ficou estarrecida pelos acontecimentos de truculência e falta de respeito dos policiais. A Prefeita Luiza Erundina fez um ato de desagravo nas dependências do Hospital do Servidor Público Municipal no dia seguinte, noticiado por toda a imprensa e repercutido por todas as pessoas desta cidade, aos profissionais de saúde do hospital, neste flagrante desrespeito aos direitos básicos e elementares de qualquer cidadão”. Giovanni Di Sarno, Superintendente do Hospital do Servidor Público Municipal.

    A prefeita Luíza Erundina, ciente da importância de se preservar a história da cidade e a memória da gestão municipal no período em que foi responsável pela Administração do Município de São Paulo, encaminhou ao Centro de Documentação e Memória – CEDEM/UNESP todo o acervo programático e documental de sua gestão.

    No dia 29 de março de 2019, em comemoração aos 30 anos da Gestão Democrática e Popular, Luíza Erundina proferiu no CEDEM uma palestra seguida de debates, depoimentos e reflexões de pessoas comprometidas, profissionais que participaram de sua gestão.

    Reviver este momento da história, da gestão Democrática e Popular de Luíza Erundina, consiste em importante exemplo especialmente para as novas gerações de que a luta vale a pena. A Utopia se constrói a partir de objetivos claros, da prática e de ações concretas, da participação popular na gestão, do compromisso político de transformação social. Jamais podemos abrir mão da esperança!

    Assista a palestra completa: