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  • Boaventura de Sousa Santos fala sobre as esquerdas no poder em Portugal e Espanha

    Boaventura de Sousa Santos fala sobre as esquerdas no poder em Portugal e Espanha

    Entrevista de Bruno Falci e Luiza Abi Saab, em Coimbra, especial para o Jornalistas Livres

    Texto: Bruno Falci / Jornalistas Livres

    O professor Boaventura de Sousa Santos, doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973) e professor da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, recebeu-nos em sua sala no CES – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra para a terceira mais uma edição do “Jornalistas Livres entrevista em Portugal” , ciclo de conversa realizado pelos correspondentes do JL em Portugal. Na Universidade de Coimbra, onde é professor, Boaventura abordou diversos temas de âmbito internacional da atualidade. Entre esses temas, destacam-se a aliança política empreendida pelos partidos de esquerda em Portugal (conhecida pela denominação de Geringonça), que passa por mutações após as últimas eleições legislativas no país, assim como a experiência recente de uma coalizão de esquerda na Espanha.
    Há alguns anos, Sousa Santos afirmou que Portugal era o único país de esquerda da Europa que realmente a governa à esquerda, através da aliança do Partido Socialista (PS), Partido Comunista Português (PCP) e Bloco de Esquerda (BE). O cenário atual apresenta a Espanha tendo uma experiência de coalizão de esquerda, através da junção de projetos do Partido Socialista e do Podemos. Essa coalizão apresenta traços semelhantes à Geringonça portuguesa, composta pelo PS, PCP e BE? Considerando o resultado das últimas eleições parlamentares realizadas em Portugal, podemos considerar que essa aliança pluripartidária de esquerda ainda existe no país?
    O professor emérito do CES responde a essas indagações:
    “O processo espanhol recebeu influência do processo português. Muitos de nós, eu próprio incluído, tenho fortes amizades com o Podemos desde o seu início. Sou muito amigo do Pablo Iglezias. Escrevi um livro no Brasil intitulado “Esquerda do Mundo, Uni-vos”, que está na segundas edição pela Editora Boitempo, em São Paulo. Este livro também foi publicado na Espanha e leva a ideia da unidade das esquerdas antes que os fascistas cheguem ao poder. Eu vi com muita força aqui em Portugal em 2015, quando a ultra direita aplicou as medidas de ajuste estrutural, destruindo parte do que era o nosso estado de bem-estar e as políticas sociais. Vi que havia uma ameaça e os portugueses precisavam votar à esquerda, pois a direita estava unida e a esquerda, como sempre, desunida”.
    Sousa Santos esclarece que “ que esse processo denominou-se de geringonça e foi criado por quem não gostava da união das esquerdas. Adotamos esse nome e hoje ele já tem sinônimos e traduções em inglês e alemão. Isto é uma inovação política obviamente. Chama-se geringonça porque é a primeira vez que os partidos de esquerda se uniram e não era uma coisa muito frequente na Europa, pelo contrário. Era um acordo muito limitado com pontos muito definidos e escritos. Os partidos divergiam em muitas coisas e se declaravam que, pelo menos, em alguns pontos estavam de acordo em por fim às privatizações, estavam de acordo em defender um sistema nacional de saúde e privilegiar a educação pública, aumentar o salário mínimo nacional, aumentar as pensões mais baixas. Havia muitos pontos em desacordo, mas nesses estavam em acordo. Esse foi o modelo pragmático e tem a característica de ser somente dos partidos de esquerda. Até as eleições passadas esse modelo funcionou bem”
    Para Boaventura de Sousa Santos não existe mais uma geringonça formal na política portuguesa como anteriormente. O que existe hoje é uma geringonça informal, que já está sendo mostrada no Parlamento, na discussão do orçamento.
    Entrevista completa no vídeo abaixo:

     

    Jornalistas Livres entrevista em Portugal

    A entrevista realizada com o professor de  Boaventura de Sousa Santos é a terceira realizada pelos correspondentes do Jornalistas Livres em Portugal, para o programa especial de entrevistas e discussão sobre a sociedade, política e direitos humanos. Outras duas entrevistas já foram realizadas para o ciclo, a estreia foi realizada com o ator, roteirista, diretor e militante do PCdoB, Benvindo Sequeira, que atualmente mora em Portugal, em uma entrevista ao vivo pelo facebook. O segundo encontro foi com o também ator brasileiro Paulo Betti, ao vivo pelo Facebook. O ator que passou uma temporada em terras lusitanas apresentando sua peça “Autobiografia autorizada” e participando de outros encontros culturais, conversou com o Jornalistas Livres em Portugal sobre a cultura, suas impressões sobre Portugal e o cenário político no Brasil.

    Além de Sequeira, Betti e Sousa Santos; os correspondentes do Jornalistas Livres em Portugal também vão entrevistar outras figuras públicas, ativistas dos mais diferentes da sociedade brasileira, portuguesa, da América Latina e mundo que estejam morando ou de passagem por Portugal. Acompanhe as chamadas de entrevistas pelas redes do JL e participe ao vivo conosco das transmissões pelo facebook enviando comentários e perguntas.

    Abaixo as entrevistas com Bemvindo Sequeira e Paulo Betti:

    https://www.facebook.com/jornalistaslivres/videos/o-ator-humorista-diretor-de-teatro-cinema-bemvindo-sequeira-%C3%A9-o-primeiro-convida/2554616894814026/

    Entrevista por Bruno Falci e Clara Luiza Domingos / Jornalistas Livres

     

    Entrevista por Clara Luiza Domingos / Jornalistas Livres

  • Deputada do governo explica a mudança da aliança de esquerda que conduz Portugal

    Deputada do governo explica a mudança da aliança de esquerda que conduz Portugal

    Por Isabel Moreira, deputada do Parlamento português pelo Partido Socialista. Especial para o Jornalistas Livres

     

    A Geringonça acabou?

    Sim e não.

    Passo a explicar.

    Em 2015 fez-se história. PS, PCP, BE e PEV entenderam-se pela primeira vez. O PS foi Governo com o apoio parlamentar de toda a esquerda e assim deu-se voz à maioria parlamentar que rejeitava a manutenção do Governo de direita.

    Em Portugal havia uma espécie de barreira psicológica que impedia a esquerda de se entender, pelo que só a direita gozava desse privilégio. Fez-se história, portanto, ao acabar com um mito empobrecedor da democracia segundo o qual governar é coisa que assiste ao centro e à direita, fatalmente.

    Como é sabido, para a Geringonça ser Geringonça foram assinadas posições escritas entre o PS e os seus parceiros à esquerda contendo as matérias do guião que nortearia as chamadas posições comuns ao longo dos quatro que se cumpriram com estabilidade, como é sabido.

     Em outubro de 2019, o PS ganhou a eleições sem maioria. Após conversações com os Partidos à esquerda, não foram assinadas posições conjuntas. Na espuma dos dias ficam as acusações recíprocas. Naturalmente, o PS imputa ao BE a impossibilidade de acordo e o BE imputa ao PS a mesma impossibilidade. Não será difícil de compreender que haverá responsabilidades de todos e que se o PS precisa menos da esquerda para governar, os Partidos à esquerda do PS, em face dos resultados eleitorais, precisam de se distanciar mais do PS do que têm feito.

    Posto isto, se a Geringonça como a conhecemos acabou, o facto é que os parceiros preferenciais do PS continuam a ser os de sempre. As políticas deste Governo continuam as políticas da Geringonça, pelo que estranho seria que PCP ou BE, de boa fé, passassem a ser contra as mesmas.

    Por isso mesmo, no que toca ao Orçamento de Estado para 2020, a esquerda viabilizou-o na generalidade.

    Estou certa de que nesta legislatura teremos de negociar mais e de dialogar sempre, mas também estou certa de que serão os Partidos da  Geringonça  a demonstrarem que há um novo paradigma político em Portugal, no qual o PS é o file da balança da esquerda.

     

    Assista a entrevista exclusiva com a deputada Isabel Moreira, para o Jornalistas Livres