O futuro da democracia ocidental está em jogo no Brasil
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8 anos atrásem
Por Pepe Escobar*
No Brasil está em jogo nada menos do que o futuro da política de todo o Ocidente – e do Sul global.
Despojadas até a sua essência, as eleições presidenciais brasileiras representaram um choque direto entre a democracia e um neofascismo do início do século XXI, entre a civilização e a barbárie.

Embate dramático entre Haddad e candidato fascista
As repercussões geopolíticas e econômicas mundiais serão enormes. O dilema brasileiro ilumina todas as contradições que rodeiam a ofensiva populista de direita do Ocidente, justapondo-se ao inexorável colapso da esquerda. Os riscos não podem ser maiores.
Jair Bolsonaro, apoiante ferrenho das ditaduras militares brasileiras do século passado, que tem sido apresentado simpaticamente como o “candidato de extrema-direita”, ganhou a primeira volta das eleições presidenciais no domingo com mais de 49 milhões de votos. Foram 46% do total, a pouca distância da maioria necessária para uma vitória imediata. Isto, só por si, já é um desenvolvimento incrível.
O seu opositor, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), só recebeu 31 milhões de votos, ou seja, 29% do total. Vai agora enfrentar Bolsonaro numa segunda volta em 28 de outubro. Uma tarefa digna de Sísifo aguarda Haddad: para igualar Bolsonaro, precisa de cada um dos votos dos que apoiaram os candidatos situados em terceiro e quarto lugares, mais uma substancial parte de quase 20% dos votos brancos e nulos.
Entretanto, nada menos de 69% dos brasileiros, segundo as últimas sondagens, manifestam apoio à democracia. Ou seja, há 31% que não a apoiam.
Um Trump tropical? Não.

Revista britânica que defende o o liberalismo econômico considera Bolsonaro a ameaça para a América Latina
A Distopia Central nem sequer o qualifica. Os brasileiros progressistas sentem-se aterrorizados com a ideia de enfrentar um deserto intelectual mutante, como no filme “Brazil” ou Mad Max, devastado por fanáticos evangélicos, capitalistas gananciosos do casino neoliberal e militares raivosos inclinados a recriar uma ditadura 2.0.
Bolsonaro, um antigo paraquedista, tem sido retratado pelos media ocidentais dominantes como o Trump Tropical. Os factos são muito mais complexos.
Bolsonaro, um membro medíocre do Congresso durante 27 anos, sem nada que se destaque no seu currículo, demoniza indiscriminadamente negros, a comunidade LGBT, a esquerda no seu todo, a “fraude” ambiental e, sobretudo, os pobres. Confessou abertamente ser a favor da tortura. Apresenta-se como um Messias – um avatar fatalista que aparece para “salvar” o Brasil de todos os “pecados” atrás referidos.
A Deusa do Mercado, previsivelmente, abre-lhe os braços. Os “investidores” – essas entidades semidivinas – consideram-no bom para “o mercado”, com a sua ofensiva de última hora nas sondagens, refletidas numa recuperação do real brasileiro e do mercado de ações de São Paulo.
Bolsonaro pode ser o “salvador” clássico de extrema-direita, segundo o molde nazi. Pode encarnar o populismo de direita até ao âmago. Mas não é, de modo algum, um “soberanista” – o lema de eleição no debate político em todo o Ocidente. O seu Brasil “soberano” será governado mais como uma ditadura retro-militar, totalmente subordinada aos caprichos de Washington.
O vice-presidente proposto por Bolsonaro é um general reformado, escassamente letrado, um homem que se envergonha da sua origem mista e é abertamente a favor da eugenia. O general António Hamilton Mourão até já ressuscitou a ideia de um golpe militar.
Por detrás desta equipa, encontramos enormes interesses económicos, ligados a recursos minerais, agroindústrias e a quase todos os “Cinturões Bíblicos” brasileiros. Acompanham-nos os esquadrões da morte contra os brasileiros nativos, os camponeses sem terra e as comunidades afro-americanas. É um paraíso para a indústria do armamento. Chamem-lhe a apoteose do cristão-sionismo tropical neopentecostalista.
Louvado seja o Senhor
O Brasil tem 42 milhões de evangélicos – e mais de 200 representantes nos dois ramos do Parlamento. Não se metam com os seus jihadistas. Eles sabem como exercer uma influência maciça entre os mendigos do banquete neoliberal. A esquerda de Lula não sabia como os seduzir.
Assim, mesmo imitando Mike Pence, Bolsonaro só é o Trump brasileiro até um certo ponto: as suas técnicas de comunicação – falar duro, de forma simplista — são uma linguagem que até um miúdo de sete anos percebe. Os italianos instruídos comparam-no a Matteo Salvini, o líder do partido Lega, hoje ministro do Interior. Mas também não é exatamente esse o caso.
Bolsonaro é um sintoma de uma doença muito maior. Só atingiu este nível, um frente a frente na segunda volta contra Haddad, candidato de Lula, por causa duma Guerra Híbrida judicial/congressional/industrial/media, refinada e contínua, desencadeada contra o Brasil.
Bastante mais complexa do que qualquer revolução colorida, a Guerra Híbrida no Brasil caracteriza-se por um golpe lawfare sob a cobertura da investigação anticorrupção da Lava Jato que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e à prisão de Lula, com acusações de corrupção sem quaisquer provas.
Em todas as sondagens Lula ganharia estas eleições. Os conspiradores conseguiram metê-lo na prisão e impedi-lo de se candidatar. O direito de Lula a candidatar-se foi defendido por toda a gente, desde o Papa Francisco ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, assim como por Noam Chomsky. No entanto, numa deliciosa reviravolta histórica, o cenário dos conspiradores rebentou-lhes na cara quando o primeiro candidato a governar o país não é nenhum deles, mas um neofascista.
“Um deles” seria idealmente um burocrata sem rosto, um apaniguado dos antigos sociais-democratas, o PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira –, neoliberais radicais viciados em colocar-se no centro-esquerda, quando são “aceitáveis” perante os neoliberais da direita. Chamem-lhes Tony Blairs brasileiros. As contradições específicas brasileiras, mais o avanço do populismo de direita no Ocidente, levaram à sua queda.
Até a Wall Street e a City de Londres (que apoiaram a Guerra Híbrida no Brasil, depois de ela ter sido desencadeada pela NSA, que espionou a gigantesca petrolífera Petrobrás) começaram a mudar de opinião quanto ao apoio a Bolsonaro para presidente duma nação BRICS, que é líder do Sul Global, e que, até há poucos anos, estava em vias de ser a quinta maior economia do mundo.
Tudo depende do mecanismo da “transferência de votos” de Lula para Haddad e na criação de uma Frente Democrática Progressiva séria e multipartidária na segunda volta para derrotar o crescente neofascismo. Têm menos de três semanas para o realizar.
Steve Bannon. O efeito Bannon
Não é segredo nenhum que Steve Bannon é conselheiro da campanha de Bolsonaro no Brasil. Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, encontrou-se com Bannon em Nova Iorque dois meses depois de o campo de Bolsonaro ter decidido aproveitar a supostamente inigualável visão de engenharia social de Bannon.
O filho de Bolsonaro escreveu num tweet , nessa altura: “Estamos em contacto para reunir forças, especialmente contra o marxismo cultural”. Isto foi seguido por um exército de bots, que vomitaram uma avalanche de notícias falsas até ao dia das eleições.
Um espectro assombra a Europa. Chama-se Steve Bannon. Este espectro mudou-se para os trópicos.
Na Europa, Bannon está agora apostado em intervir como um anjo da perdição num quadro de Tintoretto, anunciando a criação duma coligação populista União Europeia-toda a direita.
Bannon recebe publicamente os maiores elogios do ministro do Interior italiano, Salvini; do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban; do nacionalista holandês Geert Wilders; e do flagelo do establishment de Paris, Marine Le Pen.
No mês passado, Bannon fundou O Movimento; à primeira vista apenas uma start-up política em Bruxelas, com uma pequena equipa. Mas falamos em ambição sem limites: o seu objetivo é nada menos do que virar as eleições parlamentares europeias em maio de 2019 de pernas para o ar.
O Parlamento Europeu em Estrasburgo – um bastião de ineficácia burocrata – não é exatamente um nome familiar na União Europeia. O parlamento está impedido de propor legislação. As leis e os orçamentos só podem ser bloqueados através de uma maioria de votos.
Bannon pretende captar pelo menos um terço dos assentos em Estrasburgo. Está apostado em aplicar métodos ao estilo americano, já testados, tais com sondagens intensivas, análise de dados e intensivas campanhas sociais nos media – tal como no caso de Bolsonaro. Mas, claro, não há garantias de que vá funcionar.

Steve Bannon – o estrategista de Trump e de Bolsonaro – rei das notícias falsas
A pedra basilar de O Movimento, segundo tudo leva a crer, foi colocada em duas importantes reuniões no início de setembro, organizadas por Bannon e pelo seu braço direito, Mischael Modrikamen, presidente do pequenino Partido Popular Belga (PP). A primeira reunião realizou-se em Roma com Salvini e a segunda em Belgrado com Orban.
Modrikamen define o conceito como um “clube” que vai “angariar fundos de doadores, na América e na Europa, para assegurar que as ideias ‘populistas’ sejam ouvidas pelos cidadãos da Europa que se apercebem cada vez mais que a Europa já não é uma democracia”.
Modrikamen insiste: “Somos todos soberanistas”. O Movimento vai martelar quatro temas que parecem formar consenso em partidos políticos diferentes, de toda a União Europeia: contra uma “imigração descontrolada”; contra o “islamismo”; a favor da “segurança” na União Europeia; e em apoio a “uma Europa de nações soberanas, orgulhosas da sua identidade”.
O Movimento deverá ganhar velocidade depois das intercalares do próximo mês nos EUA. Em teoria, poderá congregar diversos partidos da mesma nação à sua sombra. Poderá ser uma ordem muito alta, ainda mais alta do que o facto de os principais atores políticos já terem programas divergentes.
Wilders quer rebentar com a União Europeia. Salvini e Orban querem uma União Europeia fraca, mas não querem ver-se livres das suas instituições, Le Pen quer uma reforma da União Europeia seguida por um referendo “Frexit”.
Os únicos temas que unem este saco de gatos de populismos de direita são o nacionalismo, um confuso impulso anti-establishment e — muito popular — o desencanto com a pesada máquina burocrática da União Europeia.
Encontramos aqui terreno comum com Bolsonaro, que se apresenta como nacionalista e contra o sistema político brasileiro – apesar de estar no Parlamento há séculos.

Manifestação organizada pelo grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro em Campinas
Não há uma explicação racional para o avanço de última hora de Bolsonaro nas duas secções do eleitorado brasileiro que o desprezam profundamente: as mulheres e a região nordeste, que sempre foi discriminada pelo sul e pelo sudeste, mais ricos.
Tal como a Analítica de Cambridge nas eleições norte-americanas de 2016, a campanha de Bolsonaro visou eleitores indecisos nos estados do nordeste, assim como as mulheres, com uma barragem de notícias falsas, denegrindo Haddad e o Partido dos Trabalhadores. Funcionou como mágica.
A ação italiana
Estive no norte de Itália para ver até que ponto Salvini é popular. Salvini define as eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019 como “a última hipótese para a Europa”. O ministro italiano dos Estrangeiros, Enzo Moavero, considera-as as primeiras “verdadeiras eleições para o futuro da Europa”. Bannon também acha que o futuro da Europa está em jogo na Itália.
É espantoso apreender a energia conflituosa no ar em Milão, onde o partido Lega de Salvini é muito popular enquanto, simultaneamente, Milão é uma cidade globalizada, a abarrotar de bolsõess ultraprogressistas.
Num debate político sobre um livro publicado pelo Instituto Bruno Leoni, acerca da saída do euro, Roberto Maroni, antigo governador da poderosa região da Lombardia, observou: “A Italexit está fora do programa formal do governo, do Lega e do centro-direita”. Maroni lá sabe, afinal de contas, ele foi um dos fundadores do Lega,
Mas deu a entender que há no horizonte importantes mudanças. “Para formar um grupo no Parlamento Europeu, os números são importantes. Este é o momento para aparecer com um único símbolo dos partidos de muitas nações”.
Não são só Bannon e Modrikamen de O Movimento. Salvini, Le Pen e Orban estão convencidos de que podem ganhar as eleições de 2019 – com a União Europeia transformada numa “União das Nações Europeias”. Isso incluirá não só algumas das grandes cidades onde se passa toda a ação, com o resto reduzido a um estatuto de observadores. O populismo de direita argumenta que a França, a Itália, a Espanha e a Grécia já não são nações – apenas meras províncias.
O populismo de direita sente-se imensamente satisfeito por o seu principal inimigo ser o auto-intitulado Macron “Júpiter” – ridicularizado por alguns em França como “o pequeno Rei-Sol”. O presidente Emmanuel Macron deve andar aterrorizado por Salvini surgir como a “luz principal” dos nacionalistas europeus.
É para isto que a Europa parece estar a caminhar: um destruidor desafio de Salvini contra Macron.
A luta entre Salvini e Macron, na Europa, pode ser uma repetição da luta entre Bolsonaro e Haddad, no Brasil. Alguns espíritos agudos brasileiros estão convencidos de que Haddad é o Macron brasileiro.
Na minha opinião, não é. Tem formação em filosofia e foi um competente prefeito de São Paulo, uma das mais complexas metrópoles do planeta. Macron é um banqueiro Rothschild de fusões e aquisições. Ao contrário de Macron, que foi engendrado pela instituição francesa como o perfeito lobo “progressivo” a ser largado entre as ovelhas, Haddad encarna o que resta da esquerda realmente progressista.

Haddad no enfrentamento com o nazismo mais grave da história do Brasil
Para mais – ao contrário de todo o espectro político brasileiro – Haddad não é corrupto. Terá que oferecer a exigida porção de carne aos suspeitos habituais, se ganhar a corrida. Mas não será uma marioneta nas mãos deles.
Comparem o trumpismo de Bolsonaro, evidente na sua mensagem de última hora, antes do dia das eleições: “Tornem o Brasil Grande de Novo!”, com o trumpismo de Trump.
Os instrumentos de Bolsonaro são o elogio persistente da Pátria Mãe, das forças armadas e da bandeira.
Mas Bolsonaro não está interessado em defender a indústria, os empregos e a cultura do Brasil. Pelo contrário. Um exemplo gráfico é o que aconteceu num restaurante brasileiro, em Deerfield Beach, na Flórida, há um ano: Bolsonaro saudou a bandeira americana e entoou “USA! USA!”
Isso é puro MAGA (Make America Great Again) – e sem a letra “B”.
Jason Stanley, professor de Filosofia em Yale e autor de How Fascism Works , leva-nos mais longe . Stanley sublinha como “a ideia no fascismo é destruir a política económica… Os empresários alinham com os políticos que usam táticas fascistas porque tentam desviar a atenção das pessoas das forças reais que causam a genuína ansiedade que elas sentem”.
Bolsonaro domina estas táticas de diversão. É excelente em denegrir o alegado marxismo cultural. Bolsonaro encaixa na descrição de Stanley, tal como é aplicado aos EUA:
“O liberalismo e o marxismo cultural destruíram a nossa supremacia e destruíram esse maravilhoso passado em que governávamos e as nossas tradições culturais eram as que dominavam. Depois, militariza o sentimento de nostalgia. Toda a ansiedade e perda que as pessoas sentem na sua vida, digamos por causa da perda do serviço de saúde, da perda das suas reformas, da perda da sua estabilidade, é enraizada numa sensação de que o verdadeiro inimigo é o liberalismo, que levou à perda do seu passado mítico”.
No caso brasileiro, o inimigo não é o liberalismo, mas o Partido dos Trabalhadores, ridicularizado por Bolsonaro como “um monte de comunistas”. Ao celebrar a sua espantosa vitória da primeira volta, disse que o Brasil estava à beira de um “abismo” comunista corrupto e podia escolher entre uma via de “prosperidade, liberdade, família” ou “a via da Venezuela”.
A investigação Lava Jato consagrou o mito de que o Partido dos Trabalhadores e toda a esquerda é corrupta (mas a direita não). Bolsonaro ainda ampliou mais o mito: todas as minorias e classe social é um alvo – na sua cabeça são “comunistas” e “terroristas”.
Faz-nos recordar Goebbels – no seu texto fundamental “A Radicalização do Socialismo”, em que ele sublinha a necessidade de retratar o centro-esquerda como marxistas e socialistas porque, como Stanley assinala, “a classe média vê no marxismo não tanto a subversão da vontade nacional, mas sobretudo o ladrão da sua propriedade”.
Isto está no centro da estratégia de Bolsonaro de denegrir o Partido dos Trabalhadores – e a esquerda em geral. A estratégia é encharcada em notícias falsas – mais uma vez refletindo o que Stanley escreve sobre a história dos EUA: “Todo o conceito de império baseia-se em notícias falsas. Toda a colonização baseia-se em notícias falsas”.
A direita contra o populismo? Como já escrevi num artigo anterior , a esquerda no Ocidente é como um encadeado encadeado por faróis, quando se trata de combater o populismo de direita.
Espíritos atentos, de Slavoj Zizek a Chantal Mouffe estão a tentar conceptualizar uma alternativa – sem conseguir arranjar o neologismo definitivo. Populismo de esquerda? Popularismo? Idealmente, devia ser “socialismo democrático” – mas ninguém, num ambiente pós-ideologia, pós-verdade, se atreveria a usar a palavra temida.
A ascensão do populismo de direita é uma consequência direta do aparecimento de uma profunda crise de representação política em todo o Ocidente; a política de identidade erigida como um novo mantra; e o esmagador poder das redes sociais, que permitem – na definição inigualável de Umberto Eco – a ascensão do “idiota da aldeia à condição de oráculo”.
Como já vimos, o lema central do populismo de direita na Europa é contra a imigração – uma variante mal disfarçada do ódio contra o Outro. No Brasil, o tema principal, realçado por Bolsonaro, é a insegurança urbana. Pode ser o Rodrigo Duterte brasileiro – ou Harry Duterte: “Atreve-te, idiota”.
Ele intitula-se o Legítimo Defensor contra uma elite corrupta (apesar de fazer parte dessa elite); e o seu ódio de todas as coisas politicamente corretas, do feminismo, da homossexualidade, do multiculturalismo – tudo isso são crimes imperdoáveis contra os “valores da família”. Um historiador brasileiro afirma que a única forma de nos opormos é “traduzir” para cada setor da sociedade brasileira como a posição de Bolsonaro os afeta: “o armamento alargado, a discriminação, os empregos, (e) os impostos”. E isso tem que ser feito em menos de três semanas.
Penso que o melhor livro que explica o fracasso da esquerda por toda a parte para lidar com esta situação tóxica é o livro de Jean-Claude Michea, Le loup dans la Bergerie (O lobo no curral) publicado em França há uns dias.
Michea mostra, concisamente, como as profundas contradições do liberalismo, desde o século XVIII – políticas, económicas e culturais – o levaram a VIRAR-SE CONTRA SI MESMO e a separar-se do espírito inicial de tolerância (Adam Smith, David Hume, Montesquieu). É por isso que estamos mergulhados profundamente no capitalismo pós-democrático.
Chamadas eufemisticamente “a comunidade internacional” pelos “media” dominantes ocidentais, as elites, que têm sido confrontadas desde 2008 com “as dificuldades crescentes que o processo da acumulação globalizada do capital enfrenta”, parecem agora dispostas a fazer tudo para manter os seus privilégios.
Michea tem razão quando diz que o mais perigoso inimigo da civilização – e até da vida na Terra – é a dinâmica cega da acumulação infindável do capital. Sabemos para onde este bravo Mundo Novo neoliberal nos está a levar.
O único obstáculo é um movimento autónomo, popular “que não esteja submetido à hegemonia ideológica e cultural de movimentos ‘progressistas’ que, durante mais de 30 anos, defendem apenas os interesses culturais das novas classes médias em todo o mundo”, diz Michea.
Por agora, um tal movimento mantém-se no reino da utopia. O que resta é tentar remediar uma distopia iminente – como o apoio a uma verdadeira Frente Democrática Progressista – para bloquear um Brasil Bolsonaro.
Um dos pontos altos da minha estadia em Itália foi uma reunião com Rolf Petri, professor de História Contemporânea na Universidade Ca’ Foscari, em Veneza, e autor do livro absolutamente essencial A Short History of Western Ideology: A Critical Account .
Passando da religião, da etnia e do colonialismo, para o projeto iluminista de “civilização”, Petri tece uma tapeçaria devastadora de como “a geografia imaginada de um ‘continente’ que nem sequer era um continente, oferecia uma plataforma para a afirmação da superioridade europeia e da missão civilizadora da Europa”.
Durante um longo jantar numa pequena trattoria veneziana longe das hordas galopantes de selfies, Petrie observou como Salvini – um pequeno empresário da classe média – descobriu astuciosamente como canalizar uma profunda saudade inconsciente de uma harmoniosa Europa mítica que nunca voltará, tal como o pequeno-burguês Bolsonaro evoca um regresso mítico ao “milagre brasileiro” durante a ditadura militar de 1964-1985.
Todos os seres conscientes sabem que os EUA mergulharam numa desigualdade extrema “supervisionada” por uma plutocracia implacável. Os trabalhadores norte-americanos continuarão a ser lixados, tal como os trabalhadores franceses com o “liberal” Macron. O mesmo acontecerá aos trabalhadores brasileiros com Bolsonaro. Como dizia Yeats, que besta imunda, nesta hora tão negra, se lança à liberdade de nascer?
Fonte: Instituto de Estudos Latino-Americanos
[*] Pepe Escobar é jornalista, brasileiro, correspondente do Asia Times. O seu último livro é 2030 .
O original encontra-se em consortiumnews.com/… . Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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Geral
Narcorrachadão das Américas, o escudo
De Serra Pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime. Mas quem fica no controle?
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1 dia atrásem
22/10/26
Narcogarimpo. Comércio de ouro, de fachada, para lavar o dinheiro sujo do narcotráfico. O que poucos sabem, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou por volta de 1981, em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo enviou, ainda em maio de 1980, interventor federal para botar ordem na bagunça, Major Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava. Na cratera em si, no formigueiro humano.

Não no Trinta, como ficou conhecida a vila para onde a balbúrdia migrou, lá do ladinho, no km 30 da rodovia PA-175, e criada só para isso: institucionalizar a balbúrdia. No Trinta, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma, cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que a vila acabou virando cidade e a cidade foi batizada em homenagem a seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é. O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, juram de pés juntos que querem criar um Escudo das Américas para nos proteger dos narcoterroristas”.

Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra? Mais conhecido como o pivô assumido (1) do esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio, o Bolsonaro. Caladinho até dia desses, agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho. (2) Prefiro nem imaginar Queiroz se movimentando, a tirar por Bolsonaro Pai fazendo flexão. De todo modo, a dúvida: estaria se movimentando sozinho? Ou se movimentando com os mesmos comparsas de sempre, só esperando para transformar o país num narcorrachadão?
Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, não, nem estou me referindo a esses, não. Falo de um Alessandro Pitombeira Carracena, por exemplo, que só anda com ilustres cações. Apontado como cúmplice do Comando Vermelho. Sabe? Aquele clubinho de biriba, domingo de sol no parque. Era secretário de Esportes e de Defesa do Consumidor do ex-governador Cláudio Castro, com acesso a informações privilegiadas, ao ser preso por vazar justo esses dados, no caso, sobre operações na Maré, no Complexo do Alemão. (3) A Polícia Federal o descreveu como “verdadeiro integrante” do CV, transcendendo os limites do exercício lícito da advocacia. (4) Gente finíssima, o Carracena. Grande biribeiro. Adivinha quem o indicou a Cláudio Castro? O Queiroz? Não, não foi o Queiroz. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro. (5)

Até aí, espero, novidade nenhuma. Mal molhei o bico. O papel de Carracena no esquema com o Comando Vermelho era “apenas” complementar, o X9 da turma, quem entregava as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja aos traficantes. O responsável pela articulação política e financeira era outro, TH Joias. Era Joias quem, segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado, drogas e dispositivos antidrones para o CV. (6) Agora, adivinha de quem TH Joias era aliado de primeira hora? Então. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro. (7)
O contato direto de Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da Polícia Federal, era Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão, assessor parlamentar de TH (8) e com quem Joias negociava armas, drogas, cinco milhões de reais convertidos em dólares para a facção. (9) Fartas provas, com direito a videozinho que Índio recebeu de TH Joias, duzentos quilos de maconha. (10) Faltou a selfie com joinha, tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático. Pena não ter videozinho também dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que TH teria transacionado com Pezão. (11) Luciano Martiniano da Silva. (12) Quem estava acima de todos no bando, “no topo da estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.

Resumindo, para ficar facinho de entender: Carracena e Joias formavam o “núcleo de liderança política” do esquema, e os dois estavam “sob a supervisão dele”, de Pezão. (13) Percebe? Tanto o sujeito que Flávio, o Bolsonaro, indicou para secretário de Castro, quanto o aliado de primeira hora de Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos de Pezão, o cara que traficava armas do Paraguai (14), drones e equipamento antidrone da China (15), cocaína do… do próprio TH. E, se era Pezão quem supervisionava TH e Carracena, nova dúvida: quem supervisionava Pezão?
Não sei. Mas olha que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho? (16) Você deve ter visto, né, nos jornais? Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, vice de Cláudio Castro. Balinha de coco ao primeiro que adivinhar de quem Bacellar era o preferido para suceder Castro como governador. Exato. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro. (17) Vai ter de se contentar com Douglas Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei compatível com os empreendimentos do grupo. (18) Boa sorte.
A sorte que Márcio Canella não teve. Preso em flagrante a dois meses das eleições, com um fuzil no carro. (19) Preso de novo agorinha no dia 15 de outubro, apontado pela PF como “patrono político e articulador de alto escalão” (20) de uma organização criminosa que movimentou sete ponto seis bilhões, com B de Bolsonaro, em lavagem de dinheiro via rede de postos de combustíveis, conexões com milícias, evidente, e com o Comando Vermelho em Belford Roxo. (21) E quem apoiou Canella como seu pré-candidato ao Senado pelo Rio, numa chapa com PL, União Brasil e PP? Quem? A mãe de Flávio, o Bolsonaro? Bem provável, afinal, Rogéria Bolsonaro foi escolhida, uni duni tê, como primeira suplente de Canella. (22) Natural, o apoio. Natural, filho apoiar mãe e a chapa em que sua mãe é suplente. (23) Normal. Nada de mais. Flávio, o Bolsonaro, inclusive, se declarou “surpreso” diante das… desse caso de família todo aí. (24)
A assessoria do candidato à presidência pelo Partido Liberal, a bem da verdade, nega tudo, relação nenhuma com qualquer dos episódios. Claro que nega. Imagina assumir relação com cento e cinquenta quilos de cocaína em meio ao segundo turno, relação com a própria mãe. Caso eleito – bate na madeira –, aí sim, Flávio, o Bolsonaro, poderá assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário duma vez e assumir tudo, tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater o crime organizado o qual ele jura de pés juntos que irá combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora, indicado por mim, meu preferido para governador, mas nem conheço. Nunca nem vi. Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga. Bora mudar de assunto, bora?
Que tal? Por que vocês da imprensa não falam sobre o avião lá da FAB com trinta e nove quilos de cocaína, na comitiva do Lula? Perfeito, porque não foi na comitiva do Lula, foi na comitiva do pai, o Bolsonaro. (25) Eu não disse isso. Acho que vou desmaiar, rapeizo. De modo geral, é o que costumam fazer. Negar a realidade. Vê o Trump. Disse que tinha invadido a Venezuela para combater o narcotráfico. (26) Aí, capturou o Maduro e deixou os traficantes todos lá. Colocou outra presidente no lugar para “supervisionar” os trabalhos, capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor. (27) Sem comando, será? Os EUA passaram a controlar o petróleo, (28) querem as terras raras, (29) a Venezuela toda, e justo o cartel de drogas, que era o maior problema do país segue funcionando sem a “supervisão” dos EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?

De besta que sou. Normalidade é exceção no continente. Da Argentina a El Salvador. É, meu querido “ancap” (anarcocapitalista, que defende a abolição total do Estado), não adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ler até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo por Bukele ou por Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou meio mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que Milei teria lhe confessado já ter “assessorado narcotraficantes” como economista, (30) e que seu contato, Federico Machado, teria sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante?
Não ia. Claro que não ia. Se falasse, José Luis Espert, candidato de Milei à prefeitura de Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares de Machado nem admitido ter feito míseras trinta e cinco viagens nos aviões dele durante a campanha de 2019. (31) Nunquinha. Milei nega tudo, coisa da oposição. Tal qual o presidente do Equador, Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e que teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína para a Europa. (32) A investigação revelou que ao menos 26 milhões de euros em droga foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente, com destino à Croácia e à Itália. Apesar disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou a cooperação de Noboa no combate ao narcotráfico. (33)

No Chile, agora, temos José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado. Cara de compenetrado, tem. Mas, ô, dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me escolher justo Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Importou lá de El Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça de Nayib Bukele. “Sócio de narcotraficantes”, segundo consta. (34) O leitor deve estar se perguntando: “Espera, o Bukele não tinha prendido os meliantes, os membros de gangue, livrado o país da criminalidade? É desse mesmo Bukele que estamos falando?”
Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase todos. Empenhou-se tanto que fez até pacto secreto com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, do México, em 2023, para que o cartel capturasse e entregasse “Crook”, líder da Mara Salvatruga, maior facção de El Salvador. Em contrapartida, ofereceu um milhão de dólares. No fim das contas, surpresa, descobriram que era tudo armação de um pilantra 171 para cima do governo. (35) Quer dizer, armação, o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis de El Salvador, não teve armação, não. O pacto foi para valer. (36) Isso, para não mencionar os três funcionários públicos salvadorenhos, bem próximos de Bukele, incluindo seu chefe de gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e facilitadores do tráfico de drogas. (37) Te contar, viu, se Bukele por acaso tivesse qualquer tipo de vínculo oculto com Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico, (38) daria até para alguém com mente mais poluída imaginar que esse combate à criminalidade em El Salvador, na ponta do lápis, não ter passado de tomada de território mesmo. Acabar com a concorrência e ficar com o caminho livre para assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se Bukele tivesse vínculo oculto com algum ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico, mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. Muito embora Flávio, o Bolsonaro, ter declarado, dia desses, não existir isso de coincidência.
Porquê… sabe? Se começarmos a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido por tráfico que financia candidato de Milei, sócio de traficantes como assessor de Kast, pacto secreto entre cartéis e Bukele, e mais vínculo oculto com outro ex-presidente narcotraficante – que mal tem, gente, vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu? que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que vamos parar?

Vamos pensar mais o quê? Que Trump teria algo a ver com isso? (39) Que Trump estaria controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas seria só uma desculpinha furada para tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, a fim de “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador, Honduras, Equador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora. (40) Desfeita.

Se Trump tivesse dado indulto a Hernandez (41), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões de dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano (42), ou tivesse, sei lá, feito acordo com o filho de El Chapo, lembra de El Chapo?, para que dezessete familiares de líderes do Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA (43), ou fosse aliado e entusiasta das bananas de Noboa, aquelas, eu até pensaria mesmo coisa errada sobre o moço. Daria até para pensar que essas centenas de soldados (44) que ele está enviando para a América Latina não são para combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só para ocupar o território e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez na Venezuela. Porque besta eu sou, mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, o que estava à frente das investigações contra o aliado de Trump, Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz de la Sierra, afastado por lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes. O cara também não se ajuda, né?

Não se ajuda. Enfim, Bolívia. Lá longe. O problema de ficar pensando nessas coisas é acabar imaginando que Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente para que o Brasil entre nesse clubinho do narcotráfico do bem (45) e ele faça que nem Bukele em El Salvador: exterminar a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja ao aliado, ao preferido, ao indicado, ao Comando Vermelho e à narcomilícia toda duma vez. E é como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, outra acolá, e, quando vê, já está fumando cocaína, fica doidão e logo quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado pela narcomilícia. Que nem Major Curió fez em Serra Pelada. Disse que ia proteger os garimpeiros, acabou criando uma cidade com seu nome para proteger os próprios interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que pode acontecer se Flávio, o Bolsonaro, virar presidente sob “supervisão” de Trump. Ele jura de pés juntos que quer o Brasil no Escudo das Américas para nos proteger. Talvez, só queira mesmo proteger seus narcomilicianos de estimação. Tirar a soberania do Brasil de nossas mãos e entregá-la de mãos beijadas ao narcotráfico internacional. Ao chefão da quadrilha de colarinho branco.
Arrisca? Ou melhor nem pensar nisso?
Referências da reportagem:
1 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/
2 https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml
3 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml
4 https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
5 https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/
6 https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html
7 https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv
8 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm
9 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml
10 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml
11 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml
12 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm
13 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml
14 https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html
15 https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/
16 g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml
17 https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/
18 https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/
19 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/05/preso-com-fuzil-canella-e-o-2-deputado-estadual-mais-votado-no-rj.ghtm
20 https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/canella-era-patrono-politico-e-articulador-de-organizacao-criminosa-diz-pf/
21 https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/15/pf-cita-ligacao-de-marcio-canella-com-milicia-e-acordo-com-comando-vermelho.ghtml
22 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/mae-de-flavio-foi-escolhida-como-suplente-de-canella-preso-pela-pf/
23 https://veja.abril.com.br/politica/preso-pela-pf-marcio-canella-foi-pre-candidato-ao-senado-na-chapa-de-flavio-bolsonaro/
24 https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-diz-que-foi-surpreendido-com-prisoes-de-canella-e-bacellar/
25 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/02/politica/1562091519_351309.html
26 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml
27 https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894
28 https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/
29 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/
30 https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/
31 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm
32 https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/
33 https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds
34 https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816
35 https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html
36 https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223
37 https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele
38 https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/
39 https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/
40 https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/
41 https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968
42 https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891
43 https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html
44 https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml
45 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm
Geral
A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
Publicadoo
3 meses atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Internacional
IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS
Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)
Publicadoo
4 meses atrásem
02/07/26
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.




O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
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