Jornalistas Livres

Autor: Raquel Wandelli

  • Parlamento do Mercosul rechaça golpe de Estado na Bolívia

    Parlamento do Mercosul rechaça golpe de Estado na Bolívia

    Reunião do Parlamento do Mercosul teve como foco principal a situação política da Bolívia

    A 69ª Reunião do Parlamento do Mercosul, realizada no dia de ontem, 11/11,  em Montevidéu, aprovou  uma declaração rechaçando o golpe cívico-militar em curso na Bolívia “contra o governo democraticamente eleito do presidente Evo Morales”. No documento, parlamentares do Uruguai, Paraguai, Brasil e Argentina afirmam que o Parlasur “não reconhece qualquer regime surgido do Golpe de Estado”. E ainda condenam a “violência política extrema empregada por milícias privadas, com a cumplicidade de comandantes militares e policiais contra integrantes do governo e de seus familiares”.

    Assinada pelo presidente do Parlamento do Mercosul, Daniel Cggiani e pelo secretário Edgar Lugo, a resolução foi provada pela ampla maioria dos presentes, com 45 votos e apenas dois contra entre os presentes. O quórum do Parlasur é formado por um total de 116 parlamentares, 37 do Brasil, 43 da Argentina, 18 do Uruguai e 18 do Paraguai.

     

    Presidente do Parlasur, Daniel Caggiani: “Manifestação contundente combatendo o golpe”

    Trata-se de uma primeira manifestação contundente condenando e rejeitando o golpe no âmbito do Mercosul, afirmou Caggiani, deputado pelo MPP (Movimento de Participação Popular que integra a Frente Ampla no Uruguai). Em entrevista exclusiva aos Jornalistas Livres, afirma a importância de uma instituição do Mercosul reconhecer, como o fez o governo do Uruguai, o que houve na Bolívia como golpe, enquanto o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Argentina, Antônio Macri, declararam que se trata de renúncia, sem admitir o golpe de Estado. O documento reitera a adesão ao Protocolo de Ushuaia sobre o compromisso democrático no Mercosul ao Estado Plurinacional da Bolívia e República do Chile. Por último, o Parlamento encarrega a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do Mercosul de receber denúncias de violações aos direitos humanos por parte do povo boliviano e das autoridades golpeadas e ameaçadas. Determina que a comissão mantenha a vigilância permanente para que essas pessoas “tenham seus direitos preservados e possam se asilar politicamente sem serem perseguidas pela ditadura”.

    Desde o Golpe de Estado, confirmado ao final da tarde de domingo, 10/11, o governo democrático da República Plurinacional da Bolívia recebeu três manifestações produzidas no Uruguai em defesa do Governo Evo Morales e do Estado Constitucional. A primeira veio do Governo do Uruguai, expedida pelo presidente Tabaré Vásquez ainda no domingo. Ontem, além da decisão do Parlamento do Mercosul, a Frente Ampla divulgou manifesto rechaçando o golpe e declarando solidariedade ao povo boliviano, a Evo Morales e aos membros do governo boliviano presos e ameaçados.

     

    Jornalistas Livres – Qual a importância dessa declaração no âmbito internacional e a quem ela representa?
    O Parlamento do Mercosul é a representação política do bloco onde não só se representam os estados como também os povos e a diversidade das forças políticas que integram os parlamentos. Portanto, essa resolução é muito importante porque expressa a vontade política nesse caso do corpo de representação parlamentar da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o que corresponde a quase 600 milhões de pessoas.

    Daniel Caggiani – Entre os quatro pontos da resolução, um é o que condena e ratifica que o que está acontecendo na Bolívia é um golpe civil e militar. Isso também é importante porque para o Mercosul, como assim o expressou o governo do Uruguai, na Bolívia há um golpe de Estado, enquanto o presidente do Brasil fala que não há golpe e na Argentina também se fez uma declaração dizendo que o presidente da Bolívia renunciou. Portanto, é a única instituição do Mercosul que se pronunciou claramente condenando e rejeitando o golpe.

    Jornalistas Livres – Além de afirmar que se trata de golpe, o que essa resolução oferece ao povo boliviano e às autoridades golpeadas da Bolívia?

    Daniel Caggiani – Ela adquire importância porque também já se ocupa da integridade das pessoas que estão sendo perseguidas, dos familiares dos parlamentares, do presidente, do vice-presidente, que também estão sendo perseguidos. Faz uma denúncia internacional e também propõe que a Comissão dos Direitos Humanos, tanto no âmbito especializado dos parlamentares, os assuntos que fazem a preservação e a defesa dos direitos humanos estabeleça um contato institucional que possa funcionar na Bolívia com a finalidade de fazer uma missão de controle e monitoramento, principalmente para preservar os direitos das vítimas e também para aquelas pessoas que queiram ser exiladas politicamente não sejam perseguidas pela ditadura.

     

    Conteúdo da Declaração:

    Artigo1. Rechaçar o Golpe Cívico-militar em curso no Estado Plurinacional da Bolívia contra o governo democraticamente eleito do presidente Evo Morales, bem como a estratégia de extrema violência política implementada por milícias privadas com a cumplicidade de comandantes militares e policiais contra membros do governo e suas famílias.

    Artigo 2. Realizar um chamado à comunidade internacional para pedir a proteção da vida do presidente Evo Morales e dos integrantes dos poderes executivo, legislativo e governos locais, bem como de seus familiares, diante da onda de violência deflagrada pelos promotores do Golpe de Estado.

    Artigo 3. Declara não reconhecer qualquer regime surgido do Golpe de Estado e reitera seu total respaldo à vigência do Protocolo de Ushuaia sobre o Compromisso Democrático no Mercosul, o Estado Plurinacional da Bolívia e a República do Chile.

    Artigo 4. Encarregar a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do Parlamento do Mercosur de realizar o acompanhamento permanente da situação, informando-a ao Parlamento do Mercosur e, caso seja necessário, estabelecer-se como um espaço institucional para receber as queixas de violações dos direitos humanos, e lidar com elas no âmbito deste colapso da ordem democrática.

    Declaração Parlasuur decl-64-2019

    PARLAMENTARES DO MERCOSUL DISCURSAM CONTRA GOLPE DE ESTADO

    “Acabamos aprovar no a declaração de rechaço ao golpe na Bolívia. A carta teve 45 votos favoráveis e denunciou o golpe de Estado, onda de violência política extrema, com violações de direitos humanos, que se instaurou no país e que põe em perigo milhares de bolivianos”. Fernanda Melcchiona, deputada federal do PSOL, representando o Brasil no Parlasur, em seu twitter.

     

    Frente a ruptura institucional do Estado Plurinacional da Bolívia, a Frente Ampla:

     

     

    1 – Manifesta sua total condena ao golpe de Estado consumado na Bolívia por meio dos grupos opositores violentos, apesar do anúncio efetuado pelo presidente Evo Morales de chamar a um novo processo eleitoral a partir do informe que resultou da missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos.
    2 – Rejeita os atos de violência e destruição de edifícios públicos, como também as ameaças e perseguição política a funcionários do governo boliviano e representações diplomáticas estrangeiras.
    3 – Expressa a sua solidariedade com o irmão povo boliviano e exorta a respeitar a institucionalidade e a democracia, assim também como a defesa dos direitos humanos, o respeito à vida e à integridade das pessoas.
    4- Manifesta o seu apoio à posição do governo uruguaio expressado no seu comunicado de prensa No 121/19.
    5 – Faz um chamado urgente para que se realize um novo processo eleitoral garantindo uma saída pacífica e democrática, sem interferência estrangeira, onde o próprio povo boliviano possa escolher seu governo de acordo com sua Constituição, restabelecendo imediatamente a plena vigência do Estado de Direito.
    Tradução: Letícia Ibaldo

    O governo uruguaio manifesta sua consternação com o colapso do estado de direito produzido no Estado Plurinacional da Bolívia, que forçou o presidente Evo Morales a sair do poder e mergulhou o país no caos e na violência.

    O Uruguai considera que não há argumento para que eles possam justificar esses atos, em especial tendo anunciado algumas horas antes o presidente Morales sua intenção de convocar novas eleições, com base no relatório produzido pela missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos.

    O governo uruguaio faz um apelo urgente a todos os atores bolivianos para que cessem os atos de violência e que o processo eleitoral seja realizdo de acordo com as disposições da Constituição e das Leis do Estado Plurinacional da Bolívia, restaurando imediatamente o Estado Direito e respeitando plenamente os direitos humanos e civis de todos os habitantes e, em particular, a inviolabilidade das representações diplomáticas estrangeiras e de seus funcionários.

    Tradução: Letícia Ibaldo

     

  • URUGUAI: Vitória da esquerda para um segundo turno temeroso

    URUGUAI: Vitória da esquerda para um segundo turno temeroso

    Martínez enfrentará Lacalle no segundo turno. Vantagem no primeiro turno não supera soma dos candidatos de direita no segundo
    Martínez enfrentará Lacalle: vantagem no primeiro turno não supera projeção dos votos de direita no segundo. Fotos: Raquel Wandelli

    Foi bonita a festa da Frente Ampla na avenida 18 de julho, ontem à noite, em Montevidéu. Não foi a vitória desejada já no primeiro turno para anular o poder de uma aliança conservadora e temerosa na “segunda volta”, marcada para 24 de novembro. Mas foi uma vitória e assim deve ser respeitada. As vibrantes multidões de eleitores da esquerda nas ruas de Montevidéu logo após as preliminares não autorizam nenhum partido, analista ou meio de comunicação a tirar do povo uruguaio o valor dessa conquista. Os uruguaios frentistas  comemoraram o favoritismo de Daniel Martínez e Graciela Villar junto com o triunfo de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner no primeiro turno das eleições presidenciais da Argentina como degraus diferentes de uma mesma felicidade cívica.

     

    Aparentemente alheios ao temor que palpitava no peito de cada líder da frente, os eleitores ovacionaram a dupla Martínez e Villar, agitando as bandeiras dos 40 partidos que formam a maior e mais duradoura coalizão de esquerda hoje na América e no mundo. Os eleitos receberam a paixão uruguaia de sempre, paixão de quem não esquece a luta dos antepassados. Mas a vantagem de menos de 11 pontos de Daniel Martínez sobre o segundo colocado, Luís Lacalle Pou, do Partido Nacional, habilitando ambos para o segundo turno, não dá razão para tranquilidade ou confiança para a esquerda na “segunda volta”. Especialmente após  chegarem as notícias sobre as agremiações conservadoras que já começaram a se armar ontem mesmo nos subterrâneos da direita uruguaia. O apoio imediato do ultra conservador Guido Manini, e também de Ernesto Talvi, do Partido Colorado, aumentou a incerteza dos frentistas no segundo turno.

    “Temos que trabalhar muito e dialogar muito”, disse Martínez aos Jornalistas Livres, quando se dirigia para o pavilhão da imprensa, nas imediações da avenida 18 de julho, no centro de Montevidéu, para fazer seu primeiro pronunciamento. Ao identificar nossa nacionalidade, o candidato parou, nos abraçou e desejou: “Feliz aniversário ao querido presidente Lula!”. A liberdade de Lula foi muitas vezes cantada nas manifestações da vitória. O refrão “O povo unido jamais será vencido!” ecoou a consciência da unidade latino-americana pela defesa de suas riquezas e soberania dos povos.

    Por volta das 19h30, quando as primeiras parciais confirmaram a liderança de Martínez sobre Lacalle no primeiro turno, milhares e milhares de uruguaios já comemoravam na avenida com a mesma empolgação da esquerda desde a primeira vitória da Frente, em 2005. À medida que a distância entre ambos era superada pela soma dos candidatos à direita, a vitória foi ganhando um sabor ambíguo. A cúpula se retirou mais cedo do palco da festa, que sequer foi pisado por Pepe Mujica e sua esposa, a atual vice-presidenta Lucía Topolanski, eleitos a senadores com uma votação histórica.

    Graciela Villar e Daniel Martínez: vamos conversar com tudo mundo

    Com o resultado das urnas tornando mais árdua a conquista do quarto mandato das esquerdas uruguaias no segundo turno, a grande vitória nas eleições do Uruguai foi a derrota do plebiscito da Reforma Constitucional relativa ao projeto de combate à criminalidade “Vivir sem Medo”. Foi, ao menos, a única vitória consolidada. Projeto de autoria do senador Jorge Larrañaga, do Partido Nacional (Branco), o pacote é considerado pela maioria como a preparação do terreno para a militarização do governo. O projeto cria uma espécie de guarda nacional, com poderes para prender sem mandado judicial, fazer buscas  no período noturno, prendendo  pessoas suspeitas dentro de casa, entre outras medidas. Uma espécie de “pacote anticrime”, focado no policiamento que, na prática, daria aos militares amplos poderes de repressão.

    Nas ruas, a população assinalava a compreensão da importância da derrota desse projeto, reprovado por 54% da população.  Durante a comemoração do resultado da Frente, eleitores  gritavam: “Não à reforma, o medo não é a forma!” e “Militares nunca mais!”. A repulsa à criação dessa guarda nacional predomina entre as pessoas que vivenciaram a ditadura e a juventude politizada. É o exemplo de Lise Moreno, de 16 anos, que votou pela primeira vez e viveu os horrores do governo militar através da memória dos pais e se disse satisfeita principalmente com a derrota do plebiscito. “Não queremos militares outra vez no poder”.

    O projeto ganhou corpo com o apelo da direita ao tema da criminalidade, martelado pela mídia conservadora a ponto de criar o ambiente de uma crise de segurança. É como se o Uruguai, eleito recentemente como um dos países mais acolhedores do mundo, tivesse os índices de violência das metrópoles mais conturbadas, o que não parece corresponder à realidade e à opinião de turistas e moradores entrevistados. “Experimentamos um aumento do número de roubos, mas estamos longe de ser uma nação violenta”, assinala Suzana Rodrigues, 57 anos, psicóloga, opinião partilhada por Gustavo Area, recepcionista de um hotel no Centro de Montevidéu. “Para mim, que tenho a vivência do Rio de Janeiro, essa visão sobre a segurança do Uruguai soa muito exacerbada”, afirma a carioca Rosana Câmara, que se mudou para o Uruguai com o impeachment de Dilma Rousseff.

    O resultado do plebiscito indica que, na opinião da maioria, o combate à criminalidade era apenas um cavalo de Tróia para ir minando por dentro a sociedade democrática instaurada no Uruguai a duras penas após o processo de redemocratização, findo o período de uma década de autoritarismo e violência de Estado (1973-1984). “Para nós, fica claro que a questão da segurança era apenas um subterfúgio para os militares começarem a tomar o poder, instaurando o medo e a repressão em nome do combate ao crime”, afirma Luís Hector Oliveira, que foi preso, torturado pela Ditadura Militar e teve que deixar o país em 1973 para viver clandestinamente no Brasil até a anistia, em 1984.

    Professor de história em escola pública, Luís viajou de ônibus do Rio de Janeiro, onde vive desde então, até o Uruguai para votar e pretende trazer outros companheiros no segundo turno. “Essas eleições são muito importantes para garantir o projeto de aprofundamento da democracia das esquerdas e de desenvolvimento econômico com distribuição de renda e justiça social”.

    https://www.elpais.com.uy/informacion/politica/mira-todos-resultados-elecciones-octubre.html

    A derrota do plebiscito é, por ora, a única segura, mas se pode dizer que também é relativa. Ela  pode retornar através de outros caminhos, como os acordos que Luís Lacalle Pou já está acenando com a direita mais extremista, representada por Guido Manini Rios, do Cabildo Abierto, considerado o Bolsonaro uruguaio, defensor da tortura e de um governo militar, como lembra Heber Pacheo, 57 anos, empregado do comércio, que também veio do Brasil para votar. Embora tenha chegado ao quarto lugar, Manini continua sendo um azarão com peso decisivo na reconfiguração de forças para o segundo turno.

    Ontem mesmo, Lacalle afirmou que, na reconfiguração das forças para a disputa final, daria o posto de ministro da defesa para o ex-militar. “Uma posição estratégica no sentido de reinstaurar a repressão política sob o argumento de melhorar a segurança”, acrescenta Heber, que inclusive se diz assustado com a margem de reprovação do “pacote anticrime. “Eu esperava que muito mais da metade da população se manifestasse contra, depois de tudo que vivemos no Uruguai”.

    Para crescer ao menos 5%, a esquerda aposta nas dissidências internas de setores do partido Colorado que, embora defendam uma economia neoliberal, não compactuam com a participação de Manini pela ameaça que ele representa à democracia. Entre os nove candidatos, apenas os quatro primeiros colocados apresentam uma soma significativa de votos. Todos os demais somam juntos 7% das urnas e apenas um, a Unidade Popular, centrada no trabalhismo, se identifica como força de esquerda dissidente da FA, que pode recompor uma aliança para o segundo turno. Com a pequena margem de votos em branco, num país marcado historicamente pela polaridade partidária, as chances de virada estão mesmo nos ventos insurgentes da América Latina, Europa e Oriente. E nas atitudes grotescas de referências de direita como Bolsonaro, impalatáveis até mesmo para os brancos e colorados.

    MENOS DE UM MÊS PARA LUTAR PELA VIRADA

    Até o dia 24 de novembro, data da “segunda volta”, a coalizão de esquerda terá que se superar para chegar ao quarto mandato. Será preciso adotar uma estratégia de “conversação e diálogo” com todas as agremiações, na tentativa de romper o muro da direita, como afirmou o próprio Martínez, ao fazer seu primeiro pronunciamento oficial, às 21 horas, no Comando da Campanha da Frente, no Hotel Crystal Tower. Martínez alcançou 39,17% dos votos, contra 28,59% de Lacalle, do Partido Nacional, que somados aos 12,32% de Ernesto Talvi, do Colorado, e 10,88% do ultraconservador Guido Manini, do Cabildo Abierto, apontam para uma nova disputa das mais árduas e temerosas da história. Os votos, depositado em papel nas urnas, são apurados de forma muito rigorosa pela Corte Eleitoral, sem acesso aos políticos ou membro dos partidos, e comunicados oficialmente por etapas a cada parcial.

    Longe de ser confortável, o resultado confirma que o Uruguai, apesar dos enormes avanços econômicos e sociais promovidos pelos três governos da esquerda, não ficou imune à onda fascista e neoliberal na América Latina. Tanto no Brasil quanto no país vizinho, o discurso reproduzido por taxistas e setores afetos ao sistema da pós-verdade é o mesmo contra o conclamado Foro de São Paulo, a suposta corrupção da esquerda, o avanço do comunismo, a ideologia de gênero e o caos urbano, pretensamente deflagrado pela proteção aos direitos humanos. Um taxista  tentou nos convencer dessas teses impondo-nos na viagem até o Velódromo um vídeo no estilo Olavo Carvalho. A tecnologia social de Steve Bannon difunde pelas listas de whatsapp e pelos vídeos do YouTube afirmações caluniosas que não precisam de provas para virar verdade. Nem Pepe Mujica, que cultua uma vida franciscana, nem o presidente Tabaré Vásquez, que enfrenta o câncer avançado no pulmão com uma dignidade comovente, são poupados das fake news.

    Se as lideranças estavam apreensivas, o povo uruguaio mostrou confiança na capacidade histórica da Frente de se agigantar para enfrentar com dignidade a maior aglomeração de direita desde sua primeira vitória em 2004. Martínez e Graciela Villar, a líder feminista e popular, receberam no palco em frente à Intendência de Montevidéu, toda a coragem e amor cívico para fazer esse percurso.

    ESQUERDA PERDE MAIORIA PARLAMENTAR

    Tão importante quanto as eleições presidenciais, foram as eleições parlamentres realizadas no dia de ontem para 30 senadores e 99 deputados federais. Hoje, a frente de esquerda tem maioria parlamentar, mas dentro de uma relação de coalizão muito relativa, sempre exposta à renegociação. O quadro de distribuição de parlamentares por partido mostra que não haverá maioria parlamentar no próximo governo. Com três  senadores a menos, a  Frente Ampla, fez 13 parlamentares na Câmara Alta, enquanto o Partido Nacional fez 10, o Colorado 4 e o Cabildo Abierto 3, cargo conquistado  pela primeira vez por esse partido criado para a disputa. Na Câmara Baixa, a FA perdeu nove deputados. Embora também tenha obtido maioria simples, perde para a soma dos parlamentares de direita.

    Distribuição dos senadores por partidos. Fonte: https://www.elpais.com.uy/informacion/politica/mira-todos-resultados-elecciones-octubre.html

    Entre os mais célebres senadores eleitos estão o ex-presidente José Pepe Mujica, que volta ao Parlamento aos 84 anos pelo Movimento de Participação Popular (MPP), com mais de 281.542 dos 99,96% dos votos apurados.  Sua mulher, a Lucía Topolansky, vice-residente do governo de Tabajaré Vásques, também se elegeu. O MPP é uma das 40 sublegendas que integram a Frente Ampla, assim como o Progressitas, que fizeram 87.132 votos com a eleição de Mario Bergara para o senado, seguido pela corrente Artiguisa, que elegeu Álvaro García e Cristina Lustemberg, com 35.881 votos.

    Esses grandes líderes, herdeiros dos bravos Tupamaros, que enfrentaram a fúria da ditadura, vão mobilizar agora toda o seu  para carisma para  mostrar ao povo uruguaio a armadilha da união entre neoliberais e fascistas. Ao mesmo tempo, precisam mostrar a ameaça concreta que essa aliança representa para um país que reduziu a pobreza de 38% para 8%, elevou o salário mínimo para R$ 1.600,00, investiu na tecnologia, na educação, na erradicação do analfabetismo e no desenvolvimento econômico com distribuição de renda. “Aqui o desenvolvimento econômico e tecnológico não tem por objetivo a concentração de renda entre os mais ricos, mas o crescimento de todos com a diminuição das desigualdades sociais”,  como afirmou Javier Miranda, presidente da FA, em entrevista aos Jornalistas Livres.

    Para a tarefa, contam com os exemplos da América Latina, não só da tragédia do governo bolsonarista no Brasil, mas com a recente vitória peronista na Argentina, a confirmação de Evo Morales no primeiro turno da Bolívia e a reprovação da política neoliberal no Chile, que se mostrou tão violenta e assassina quanto as forças militares uruguaias.

    O povo uruguaio é considerado dos mais politizados do mundo e mais conscientes da importância da união da América Latina para a soberania dos povos, como aponta Javier Miranda, advogado, presidente nacional da Frente Ampla. Por isso, a vitória de ontem foi comemorada pelos eleitores da geração que mudou a história de um país acossado pelo imperialismo, pela ditadura e pelas oligarquias com gosto redobrado, ainda que o segundo tempo desse jogo possa reservar grandes dissabores, como acentua Daniel de Los Santos, técnico de enfermagem, 49 anos. Cada passo dado pela luta precisa ser comemorado para que a vitória sempre esteja no horizonte do lutador, para lembrar a lição do companheiro Guevara.

  • Estão em jogo as conquistas sociais, mas o clima é democracia

    Estão em jogo as conquistas sociais, mas o clima é democracia

    O Uruguai vive uma das disputas mais dramáticas da sua história recente, desde o processo de redemocratização em 1984. Estão em jogo as políticas sociais públicas e direitos dos trabalhadores e minorias conquistados durante os governos da Frente Ampla, que está no poder desde 2005. A vantagem da FA no primeiro turno já é um fato: o grande desafio é a “segunda volta”, em 24 de novembro.

    Eleitores uruguaios decidindo o futuro do país nesse domingo

    Exceto na primeira vitória de Tabaré Vásquez, a Frente sempre ganhou no segundo turno, mas desta vez não há muita margem para crescer além dos cerca de 41% do candidato das esquerdas, Daniel Martínez, diante da ascensão da direita. Esse cenário gera mobilização, não desânimo, porque nenhum resultado pode ser ainda descartado ou consolidado antes da apuração de hoje, conforme Martínez, ao votar pela manhã, na Universidade OTR, em Pocitos.

    Alem da redução drástica dos níveis de pobreza, de 38 para 8%, e da majoração do salário mínimo de R$ 700,OO para R$ 1.600,, outras conquistas no campo  comportamental marcaram os governos de  esquerda. liberdades de gênero, como a descriminalização do aborto, a liberação do uso da maconha e os direitos LGBTI podem sofrer um revés se o projeto neoliberal do candidato do Partido Nacional, Lacalle Pou, vencer num provável segundo turno com uma aliança à direita. O resultado preliminar das eleições, antes da recontagem dos votos de papel, é aguardado para cerca de 22h30min de hoje.

    Apesar do pleito decisivo, o clima é de grande tranquilidade e de respeito às regras democráticas. Mesmo com o rufar ameaçador dos tambores do segundo turno, os preparativos da festa da esquerda nos arredores da 18 de julho são animadores.

    As urnas de hoje dão uma mostra da diversidade e da inclusão social do país, com grande presença de pessoas muito idosas e com deficiência no processo eleitoral. No entanto, a população negra é uma pequena minoria e os índígenas foram quase totalmente exterminados no período pós-colonial, pelo primeiro presidente uruguaio, Frutuoso Rivera, do Partido Colorado, representado nas eleições pelo candidato Ernesto Talvi. Há inclusive uma iniciativa de esquerda para mudar o nome dos logradouros que homenageiam o sanguinário Rivera para nomes de heróis índígenas.

    Pelas ruas de Montevidéu, capital uruguaia.

    Mulheres estão presentes nas chapas dos partidos disputando o posto de vice-presidente. É o caso de Graciela Villard, grande líder feminista de esquerda, vice de Martínez, da Frente Ampla, favorito nas intenções de voto, e de Beatriz Argimoni, candidata à vice na chapa do segundo colocado, Luis Lacalle, do Partido Nacional, de tendência neoliberal, com cerca de 26% nas últimas pesquisas.

    O popular Pepe Mujica concorre à vaga de senador aos 84 anos, assim como sua esposa, a vice-presidente do governo atual de Tabaré Vásquez, Lucia Topolansky, outra grande líder popular. Todos os candidatos a presidente, exceto Martínez, são também candidatos a senadores, peculiaridade prevista na legislação eleitoral.

    *Raquel Wandelli, da equipe de enviadas especiais para as eleições da América Latina

     

     

  • Montevidéu acorda para votar a presidente, senador e deputado

    Montevidéu acorda para votar a presidente, senador e deputado

    Considerado um dos países com mais igualdade, liberdades e direitos sociais da América Latina, o Uruguai acorda hoje para decidir seu destino. Não só o presidente será eleito, mas 30 senadores e 99 deputados federais que compõem as duas câmaras, formada por 129 parlamentares, divididos pelos 19 estados departamentos. Eles são tão importantes quanto o presidente porque a democracia uruguaia, consolidada nos 15 anos da Frente Ampla, fundamenta todas as decisões no apoio do legislativo. O primeiro a votar foi o popular ex-presidente Pepe Mujica, candidato a senador aos 84 anos, que votou no bairro La Teja.

    Pela manhã cedo, o presidente Tabaré Vásquez deu uma entrevista sensível à rede Tele falando sobre sua forma de positiva de lidar com seus graves problemas de saúde. ” temos que superar a ideia de que o câncer é uma tragédia”. No segundo mandato consecutivo, Vásquez deixará a presidência aos 84 anos, com a saúde fortemente abalada por um câncer avançado de pulmão. Mas a força e dignidade do político, que é também um famoso médico oncologista, comove o povo uruguaio. “É a pessoa mais linda e digna que conheço. Sua gestão representou um grande ganho moral, intelectual e espiritual para nosso país”, afirma Gustavo Área, 54 anos, recepcionista de hotel em Montevidéu, que como grande parte dos uruguaios marcantes por sua politização.

    As ruas de Montevidéu amanheceram muito tranquilas neste domingo, em clima de primavera. O candidato da frente ampla, o engenheiro Daniel Martínez, é o amplo favorito, com 43% das intenções de voto, seguido por Lacalle Pou, com 26%. Apesar da tendência ao crescimento ainda maior do candidato da coalizão de esquerda, a vitória no primeiro turno não é segura porque ainda está a 10 pontos pelo menos de atingir 50% mais um da soma dos demais candidatos.

    Como os demais candidatos com expressão nas pesquisas são de direita, a ameaça de uma coalizão de direita no segundo turno, marcado para 24 de novembro, assusta a militância da frente. Ernesto Talvi, do Partido Colorado, tem 13% e Guido Manini Ríos, do Cabildo Abierto, o Bolsonaro uruguaio, tem 11%. A confiança da direção da FA é na divisão de setores mais democráticos desses partidos a uma formação política que conte com Manini para derrotar Martínez. “Vamos aguardar os resultados. Nada está definido”, afirma Javier Miranda, presidente nacional da Frente Ampla.

    *Raquel Wandelli, da equipe enviada especial dos Jornalistas Livres para as eleições do Uruguai

  • URUGUAI: ESFORÇO PARA GARANTIR CONQUISTAS SOCIAIS NO 1° TURNO

    URUGUAI: ESFORÇO PARA GARANTIR CONQUISTAS SOCIAIS NO 1° TURNO

    Há uma semana das eleições do próximo dia 27/10, a Frente Ampla do Uruguai realiza, com grande engajamento popular, seus eventos finais, no esforço de vencer a direita já no primeiro turno. Ontem à noite, vários pontos tradicionais de Montevidéu eram um mar de bandeiras a agitar as ruas de vermelho, azul e branco pela vitória de Daniel Martinez (FA).

    https://twitter.com/J_LIVRES/status/1186028329884966912

    O candidato das forças de esquerda vence as pesquisas com quase 40 pontos, contra 27% do principal adversário, o liberal Lacalle Pou, que é seguido por Ernesto Talvi, do Partido Colorado, com 16% e Guido Manini Ríos, do Cabildo Abierto, com 10%. Lacalle, o segundo colocado, já anunciou uma possível aliança à direita com o ex-militar Manini, defensor da tortura e da ditadura militar, considerado o Bolsonaro uruguaio.

    A vontade de não arriscar numa aliança neoliberal fascista de segundo turno os direitos sociais, trabalhistas e a redução drástica da pobreza de 39% para 8%, conquistados durante os 15 anos de governo de esquerda, deu ao hino da FA uma entonação mais comovente.

    A caravana final de hoje antecede o encerramento da campanha, que ocorrerá na quarta-feira, 23, às 19 horas, na Rambla Presidente Wilson. Três ondas saíram de pontos diferentes da capital e se encontraram no Palácio Legislativo, de onde partem para a rambla Kibón, passando pela Avenida do Libertador, 18 de Julho e Bulevar Artigas.

    Acompanhe a cobertura das eleições dos Jornalistas Livres na Bolívia, Uruguai e Argentina neste momento estratégico para a América Latina e para o Brasil!

  • NEVE NO SERTÃO: A fome é negra, mas o pó é branco

    NEVE NO SERTÃO: A fome é negra, mas o pó é branco

    Empresário não forneciam Equipamentos de Proteção Individual (EPI) aos trabalhadores

    Grande parte deles são adolescentes de 15, 16, 17 anos. Trabalham em temperatura escaldante ou carregando pesos hercúleos que os envergam cedo para o chão. Mas há também homens de meia idade que não encontram outra alternativa de sobrevivência. A maioria tem a pele negra ou parda, mas a paisagem do Araripe, no Sertão de Pernambuco, e o pulmão dos homens e mulheres que vivem na região estão brancos. Meio ambiente, pessoas, plantas e bichos estão doentes. Adultos e crianças cedo desenvolvem asma, bronquite, problemas respiratórios e pulmonares graves. Sertão Branco, documentário produzido pela ONG Papel Social, denuncia as condições de vida do povo de trabalhadores semi escravizados e adoecidos pela extração e produção de gesso.

    Para compor o quadro desse Nordeste embranquecido pelo pó da quase escravidão, uma equipe de repórteres entrevistou empregados do gesso adultos e púberes, agentes de fiscalização, de vigilância sanitária, assistentes sociais e médicos. Eles trazem o testemunho da infração a todas as leis e convenções sobre a dignidade, saúde e respeito no trabalho. Lesões e mutilações encurtam a vida laboral desses lúmpen-proletários, grande parte autônomos, sem vínculo empregatício ou com vínculo precário. Jornada excessiva e não-regulamentada; amputação de braços, mãos e dedos, devido à falta de máscaras e equipamentos de proteção fazem parte dessa vida severina. Afastados da escola, os adolescentes do gesso chegam em casa só para dormir e retornar à rotina esfalfante na manha seguinte.

    Além da violações de direitos trabalhistas, as calcinadoras poluem a atmosfera e causam doenças respiratórias

    A atmosfera, as árvores, plantas, ruas, casas e pessoas cobertas de pó branco compõem o cenário descolorido e sombrio da região do Araripe, no Estado de Pernambuco. Os municípios de Araripina, Ipubi, Trindade, Bodocó e Ouricuri integram o principal polo de produção de gesso do Brasil, produzido a partir do beneficiamento de um mineral chamado gipsita.

    Em 2018, a Papel Social recebeu a tarefa de conduzir, sob a coordenação do jornalista Marques Casara, uma análise situacional sobre as condições de trabalho na cadeia produtiva do gesso, como parte do Projeto “Promoção e Implementação dos Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho no Brasil”. Implementado pela Organização Internacional do Trabalho, em parceria com o Ministério Público do Trabalho, o projeto apurou trabalho escravo, semi-escravo, infantil e irregular ou sem condições de segurança em várias regiões do país, com recursos de multas e indenizações pelo lesionamento de empregados. Sertão Branco é fruto desse investimento na promoção de trabalho decente.

    Em 2019, o projeto “Neve no sertão: a experiência do MPT na (re)configuração do ambiente do trabalho do maior polo gesseiro do mundo” conquistou o segundo lugar na categoria “Transformação Social” do Prêmio CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público). Sertão Branco é fruto da colaboração entre a Agência de Pesquisa Papel Social, o Ministério Público do Trabalho  e a Organização Internacional do Trabalho para a construção de um diagnóstico e planos de ação para a promoção de condições dignas laborais.

     

    EXPECTATIVA DE VIDA: 50  ANOS

    No dia 15 de outubro, terça-feira, na sala Machado de Assis, o Curso de Pós Graduação em Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PGET/UFSC), promove uma discussão sobre o resultado dessa investigação dolorosa no evento “Traduzindo o Sertão”, aberto ao público. Após a exibição do documentário Sertão branco, haverá um debate com parte da equipe de jornalistas diretores e produtores, composta por André Picolotto, Luara Loth e Vitor Shimomura. Daniel Grajew assina a trilha sonora. Como jornalista e professora, integrante da rede de mídia independente Jornalistas Livres, farei a mediação do debate.

    O documentário perfaz o sentido do clássico texto “Fome negra”, publicado na obra A alma encantadora das ruas de crônicas-reportagem que inventariam os povos surgidos no início da industrialização, nos primeiros anos do século XX. Nele, o jornalista, dramaturgo e escritor João do Rio traz uma lancinante denúncia das condições desumanas dos imigrantes negros empregados nas atividades de extração e transporte do carvão das ilhas do Rio de Janeiro para o exterior. Um século depois de “Fome negra”, Sertão branco mostra que o Brasil continua um país escravocrata.

    Longe dos olhos da cidade, o capitalismo feudal continua a se alimentar de povos que trabalham em condições degradantes apenas para sobreviver, mesmo cientes de que esse tipo de ganha-pão significa a condenação à morte ou à invalidez precoces, como revela outro trabalhador entrevistado:

    “Mais na frente o cabra tá lascado com esse pó de gesso. É o pó do bicho. Daqui a uns tempos o cabra tá morto, né?”

    Sem expectativa de futuro, os maltratados operários do minério fino, que mal ganham o dia para comer, encontram subterfúgios para encarar a dura realidade, como na resposta irônica do jovem negro:

    “Quando inteirar 50 anos já tá bom. Já vivi bastante…”

    https://www.youtube.com/watch?v=shDTQpxNIHQ&t=5s

     

     

    Trabalhadores narram sua rotina de horrores e pedem socorro usando as paredes de uma calcinadora. Foto: Vitor Shimomura