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  • IGREJA UNIVERSAL: UM REINO ACIMA DE TODOS

    IGREJA UNIVERSAL: UM REINO ACIMA DE TODOS

     Por Márcia Mendes de Almeida * | resenhista dos Jornalistas Livres

     

    Formidável este livro reportagem de Gilberto Nascimento, a ser premiado, é lógico. Sejam fatos ou depoimentos, todos tem sua respectiva referência. O texto é equilibrado, sereno, contrastando com as realidades e opiniões . Um assunto tabu de nossa medrosa imprensa como um todo, a saber, as fabulosas negociatas das drogas, também não escapa, para bons entendedores. A partir de 1985, as fraudulências do pequeno grande homem – o supremo Edir Macedo – e da Universal ( IURD ),  contaram com o auxílio luxuoso de uns quarenta escroques, diferentes no tempo e no espaço. Enfrentando um “colosso de acusações e de denúncias”, como esmiúça Nascimento.

    Até as pedras sabem (diz Mino Carta) que nada é mais eficiente para lavar dinheiro da corrupção e do narcotráfico do que associar-se a uma igreja evangélica bem azeitada, com imunidade tributária e pouca fiscalização. Além disso, bancos e empresas offshore agradecem penhoradas. Ora, o atual conglomerado de noventa e sete empresas ligadas à Universal, em 35 anos, não poderia ser fruto exclusivo dos sacrificados dízimos de seus fiéis, cuja renda durante décadas não ultrapassou dois salários mínimos.

    Eis o colosso das denúncias, cada qual narrada pelo autor em suas tortuosas tramas: charlatanismo, curandeirismo, sequestro de bens, vilipêndio, incêndio criminoso, ataque a homossexuais, racismo, incitação ao crime, preconceito religioso, calúnia e difamação, exploração da boa-fé do povo, corrupção ativa, remessas ilegais e lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha, estelionato, sonegação fiscal, falsidade ideológica, sonegação de bens, crimes outros contra a ordem tributária, empréstimos para empresas fantasmas, gestão temerária. Sempre empalmando o comando, o todo-poderoso bispo Macedo tratou desde cedo de se proteger via um vasto laranjal, não aparecendo nominalmente como sócio da maioria das empresas do grupo. Era e é tido como magnata das comunicações assim como tycoon da Universal, a multinacional da boa-fé dos infindáveis incautos, ignorantes e desvalidos –por exemplo, os presidiários e dependentes químicos em busca de salvação. Biltre empedernido, o bispo Macedo, pseudo ungido por um Deus oportunista, alimentou com capricho a mistificação de sua excelsa personalidade. Proclamou no início do século XXI:


    “ Todo santo dia eu oro por todos os servos de Deus ( … ) Eu peço a Deus não só pelos meus ( sic ) pastores, os pastores que estão conosco, como os pastores de outras igrejas, porque (…) eu estou trabalhando para o Reino de Deus ”


    Foi refutado de imediato, mas era daqueles que dizia mentiras que não podia provar e, encontrando resistência, cuidava de “melhorar a imagem”, acentua Nascimento. Num ataque de sincericídio, confessou ao pastor Caio Fábio que cada um pescava como podia, até com fezes, como ele:


    “Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito”


    Salvo engano, não há pesquisas que avaliem a escala de evasão dos evangélicos neopentecostais, é segredo de Estado. No início dos anos 80, Edir Macedo arvorou-se em organizar a formação teológica dos pastores. Desistiu incontinente, alegando que precisava de pastor “com boa conversa, que saiba argumentar, convencer as pessoas, comandar uma boa sessão de milagres e exorcismo e fazer a coleta”.  Em um de seus inúmeros livros que não escreveu, mas leu e assinou, definiu como fúteis todos os ramos da teologia. 

    “Não passam de um emaranhado de ideias que nada dizem ao inculto; confundem os simples e iludem os sábios (…) nada fazem pelo homem senão talvez aumentar sua capacidade de discutir e discordar”. 

     

    Sempre ficou claro, para pastores e bispos, que todos deviam tratar Macedo com subserviência e curvar-se às suas ordens, pois como líder “era um ente superior, um ser divino, acima do entendimento humano” como o autor pondera. Pois bem, a Universal (IURD) através de Edir Macedo pronunciou-se a favor do aborto, em caso de gravidez indesejada ou extrema pobreza, salientando que a legalização do aborto diminuiria a violência, e mais:  “O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor ?” Irretocável não?

    Envolvente na dissimulação, Edir Macedo declarou-se contra a homossexualidade, mas não contra os gays, por respeitar o direito de escolha, aí incluídos os vários parceiros do mesmo sexo (!). Estaria pensando, talvez, nas polpudas coletas para a Universal ?

    Os inimigos de dentro da IURD –pastores, bispos, executivos– em muitas e muitas ocasiões foram habilmente manipulados pelo bispo Macedo, zeloso de seu absoluto poder e para que a teologia da prosperidade se restringisse a ele, seus familiares e uns poucos escolhidos a dedo, homens de sua confiança. Ao longo dos anos instaurou-se a confusão entre o que era patrimônio da igreja, do bispo e de sua família. Macedo, um santo, convicto de que colocava o dinheiro a serviço da obra de Deus, teve sucesso em engabelar, como se tudo da Universal fosse dele também. Recebeu salários exorbitantes – por exemplo, em Portugal – e em 2013 adquiriu um jato particular, permitindo viagens diretas de Nova York a Tóquio, ou do Brasil à Ásia, com uma só escala. Tinha e tem, à sua disposição e da família, apartamentos luxuosos em Miami.

    Os pastores e bispos, uns traindo os outros, abocanhavam e disputavam as migalhas da magnificência de Macedo, incessante. A capacidade de arrecadar era a principal condição para ascender e ser recompensado em porcentagens na coleta – de 2% a 10% – prêmios em dinheiro, bons salários, carros modernos, roupas de grife e moradias aprazíveis. Havia porém os que sem cumprir as metas, se davam mal. Eram punidos com “prêmios negativos”, tinham bons descontos em seus rendimentos. 

    O modus operandi  usual do bispo Macedo era lançar na política alguém de quem queria livrar-se no dia a dia da Universal, que sabia muito e conquistava poder. Os melhores bispos emergentes ou os laranjas contrafeitos de suas empresas – em descomunal crescimento – o solerte Macedo deslocava para postos estratégicos no exterior: Portugal, Angola, Moçambique, Espanha, Los Angeles, Argentina e Chile. O que vinha muito a calhar para seus projetos futuros. O autor não nos informa se tais expedientes mudaram.

    Assim o bispo colecionou dissidentes, arquirrivais, inimigos fidagais ou não declarados, assistindo a muitas defecções na feroz guerra interna da Universal. É só prestar muita atenção na carreira de Roberto Lopes, Carlos Magno de Miranda, Mario Justino, bispo Carlos Rodrigues, Ronaldo Didini, Waldir Abrão, Marcelo Pires, Alfredo Paulo Filho, João Batista Ramos da Silva, entre outros.

     

    Os métodos sumários do reino

     

    A Universal experimentou até um dos clássicos métodos dos hoje banais milicianos, em que se especializaram igualmente membros do tráfico de drogas, as PMs e os assassinos de aluguel em geral.

    Em 2003, o pastor e deputado estadual Valdeci Paiva de Jesus, carismático pastor das multidões, mas “rebelde”, foi executado com dezenove tiros por quatro homens. Em 2009, o vereador João R. Monteiro de Castro foi executado da mesma forma, num carro blindado. O ex-vereador e ex-dirigente da Universal e laranja da TV Record, Waldir Abrão foi encontrado em sua casa com um ferimento na cabeça e, após dois dias de hospital, não resistiu e morreu aos 81 anos. A polícia abriu inquérito, que não prosperou, e tratou o caso como suspeita de homicídio. Abrão dias antes registrara um documento oficial junto a seus advogados, com denúncias graves, após ser pressionado e humilhado durante bom tempo.

    Como brincou Edir Macedo, para seus desígnios, até “gol com a mão” valia, apesar de ter o desplante de criticar certa vez “a podridão do sistema no país “

    Até hoje nada impede que, de má-fé, a Universal utilize em suas práticas que são um pastiche religioso, elementos do catolicismo, do kardecismo e do (venerado) judaísmo. De maneira torpe, apropriou-se de rituais do candomblé e da umbanda, apesar dos ataques contínuos contra os cultos afro-brasileiros.

    O duvidoso batalhão de advogados defensores de Edir Macedo, da TV Record e da Universal não é muito citado por Nascimento. Diga-se que se pode bem supor terem  sido necessários oceanos de dinheiro para que as denúncias se arrastassem por anos. Os crimes prescreveram, muitos culminando em arquivamento por falta de provas. A Justiça brasileira, em sua  crescente venalidade e leniência, condenou bem pouco o contumaz bispo Macedo e a Universal. Quando o bispo buzinou impávido que cedo ou tarde a Justiça chegaria, fazendo acontecer o que tinha de ser feito, certamente não se referia ao Brasil e à Universal, e ao seu irreconciliável embate contra a lei.

     

    Ficha técnica : NASCIMENTO, Gilberto.
    O reino: a história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal.
    Companhia das Letras, 2019

     

    Marcia Mendes de Almeida é jornalista e resenhista, tendo colaborado com a revista Senhor, o Jornal da Tarde e com a Carta Capital.
    O projeto de resenhas de livros para os Jornalistas Livres vai incluir não apenas lançamentos, mas também livros interessantes disponíveis em sebos virtuais.

     

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  • Invasão da Universal ameaça aparelhar conselhos tutelares

    Invasão da Universal ameaça aparelhar conselhos tutelares

    Em todo território nacional, o Brasil está vivendo uma disputa eleitoral silenciosa e invisível para grande parte da população, mas tão importante e acirrada ideologicamente quanto a última campanha presidencial. A sociedade civil se prepara para eleger neste domingo,  6/10, das 9 às 17 horas, os representantes dos conselhos tutelares que, por quatro anos, de janeiro a 2020 a janeiro de 2024, vão fiscalizar o cumprimento dos direitos de crianças e adolescentes. Embora qualquer cidadão seja apto a votar, a ignorância sobre a universalidade do pleito e a importância dos conselhos tornou o processo eleitoral um campo vulnerável para a manipulação de grupos ultraconservadores. Assim como as tecnologias de mídia fraudulentas forjaram um resultado fora do jogo democrático nas eleições presidenciais, a composição desses órgãos democráticos está seriamente ameaçada por uma fraude político-religiosa anterior à votação eletrônica. A virada depende dos defensores dos direitos humanos e sociais atenderem à chamada de comparecimento às urnas.

    O voto é facultativo, qualquer cidadão pode depositá-lo na urna em posse do seu título eleitoral. Qualquer pessoa que conheça o Estatuto da Criança e do Adolescente e tenha dois anos de experiência na área pode se candidatar ao cargo, que é até bem remunerado, R$ 2.779,00 mensais, com expediente das 8 às 18 horas, um luxo para um país com mais de 13 milhões de desempregados, com promessa de vários bônus para os candidatos da rede fundamentalista. Juntos, esses fatores atraíram a militância de direita que alavancou a eleição de Bolsonaro e outros políticos que defendem, por exemplo, trabalho infantil e redução da maioridade penal, só pra início de conversa.

    Depois de aparelhar o Estado brasileiro, em todos os cantos do país a ala retrógrada da Igreja Evangélica, através de seus pastores, mobiliza os fieis para a ocupação em massa dos conselhos tutelares. Já no início do ano, em todo o Brasil, foi deflagrada a acorrida à inscrição da candidatura de uma legião de milhares de evangélicos e teve início a campanha massiva nos cultos e comunidades tomadas pela Igreja do Bispo Macedo. O que está em jogo nessa ocupação fundamentalista é a continuidade do próprio Conselho, das políticas públicas de proteção da criança e do adolescente e do próprio Estatuto, frequentemente ameaçado pelo presidente J.B. e pelos detratores dos direitos humanos. Em última instância, essas forças obscuras veem na estrutura capilarizada dos conselhos a oportunidade de transformá-los em currais eleitorais para os candidatos que vão garantir a permanência do governo Bolsonaro e de seus sucessores no poder.

    Agindo em nome da liberdade religiosa, essa invasão organizada da esfera pública fere o estado laico e a pluralidade de credos, ao implantar o monoteísmo evangélico no seio do Estado braseiro. Com bandeiras como combate ao aborto e ao que chamam de “ideologia de gênero”, os candidatos caem na disputa praticando o mesmo terrorismo psicológico das eleições baseado em fake news do tipo das disseminadas durante as eleições presidenciais, como a ameaça do kit gay, da mamadeira de piroca e das orgias sexuais nas escolas e universidades.

    Ocupação fundamentalista busca fazer dos conselhos currais eleitorais da direita ultraconservadoraA onda bolsonarista está em marcha desde o início do ano, antes mesmo das inscrições para os candidatos, que iniciaram em 20 de maio e foram até 21 de junho. O sinal de alerta do aparelhamento, contudo, foi dado há pouco mais de um mês, tempo exíguo para frear a sanha evangélica conservadora. Mesmo assim, o apito da resistência soou forte e despertou para a necessidade de reação. Nas redes sociais, mensagens dos ativistas dos direitos da criança e do adolescente tentam sacudir a população antes que “o santo do pau oco” tome conta dessas organizações. Mensagens circulam pelas mídias sociais, advertindo para a importância do voto e denunciando a tentativa de aparelhamento dessas entidades.

    Os ativistas dos direitos alertam para a ameaça de expansão dos tentáculos do Estado teocrático nas organizações da sociedade civil, com a infiltração dos dogmas religiosos e das ideologias de combate aos movimentos sociais, aos direitos e ao pensamento crítico nas escolas. Em Santa Catarina, estado assediado pelas forças bolsonaristas e religiosas ultraconservadoras, reuniões de mobilização convocadas por entidades, sindicatos, organizações civis foram intensificadas nesta semana, como a palestra sobre a importância dos conselhos, promovida pela OAB na terça-feira (1/10) à noite, em Florianópolis. Debates com os candidatos chamados por entidades em defesa da democracia ocorrem até as vésperas das eleições, como o que o Campo Santo, organização agroecológica e social de mulheres em defesa de meninas e adolescentes realiza na sexta-feira (4/10), às 16 horas, em sua sede no Campeche.

    “GENTE QUE DEFENDE ATÉ TORTURA QUER APARELHAR OS CONSELHOS”

    Protesto contra o assassinato do adolescente Victor Xavier da Silva Santos, que foi baleado enquanto brincava no quinta de casa por um policial que continua na ativa

    Num momento de desmoralização dos direitos humanos e sociais pela direita fundamentalista, mais do que nunca o Brasil precisa de conselheiros tutelares comprometidos com essas políticas nas quais se estabeleceu a sociedade democrática e de direitos, afirma Thaís Lippel, médica do trabalho e integrante do Grupo de Trabalho do Imigrante, da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc). “Cada um de nós que conhece a importância da rede de organização e defesa da sociedade civil formada pelos conselhos democráticos deve se engajar nessa luta crucial para barrar a investidas oportunistas desses lobos vestidos em pele de pastores e cordeiros”, acrescenta ela.

    “A sociedade civil nunca deu bola para os conselhos tutelares e isso facilitou um certo nível de aparelhamento pela Igreja Católica, mas nunca algo tão comprometedor como a invasão organizada dos evangélicos”,  analisa Simone Curi, coordenadora do Campo Santo, que realiza debate com os candidatos aos conselhos de Florianópolis na sexta-feira à tarde, na sede da entidade, no Campeche.  Por outro lado, a eleição de Bolsonaro despertou finalmente uma consciência sobre a importância de estarmos todos atentos à eleição dos conselhos, pondera ela.

    Há grupos organizados fazendo campanha para as tendências político-ideológicas mais conservadoras e desumanas e com os interesses mais escusos que se possa imaginar, lembra uma candidata que trabalha há dez anos como conselheira, mas não quer se identificar. “Esses grupos acusam as forças progressistas de fazer aquilo que praticam: eles miram a criança e o adolescente como instrumentos de lavagem cerebral de um Estado autoritário”. A defesa desse público como cidadãos de direito, sujeitos em si mesmos, merecedores de uma formação para a liberdade e para o pensamento crítico, como propugnam as convenções internacionais do setor, tornam-se objeto de repúdio.

    Militantes do autoritarismo político e religioso, que defendem absurdos como pena de morte e golpe militar, que se calam ou mesmo aplaudem quando policiais e seguranças praticam tortura contra menores infratores querem fazer desses organismos mais um meio de aliciamento mental, acredita Loureci Ribeiro, arquiteto popular do Movimento de Ocupação Urbana. “Estão avançando sobre os conselhos com o intuito de colocá-los a serviço de políticas ditatoriais e falsomoralistas, que tendem a derrubar direitos das crianças e das suas famílias”, completa Loureci, que critica a desmobilização da Teologia da Libertação nesse processo. “O trabalho dos setores progressistas da Igreja Católica foi fundamental nos anos 90 para alicerçar as bases de uma política de conselhos comprometida com um Estado laico, democrático e pluralista, mas as pastorais se dissolveram ou se acomodaram nos últimos anos.

    BAIXA VOTAÇÃO FAVORECE O APARELHAMENTO DO PROCESSO

    Nas últimas eleições para conselheiros tutelares nos municípios da Grande Florianópolis (São José, Palhoça, Biguaçu e Florianópolis), 7,6 mil pessoas compareceram às urnas, sendo que a região compreende 319.632 eleitores registrados. Já em Joinville, maior colégio eleitoral do Estado, três mil votos foram computados, em um universo de 372.551 votantes,  sempre segundo dados apresentados pela Comissão da Criança e Adolescente da OAB em Santa Catarina divulgados pela Comunicação Social do órgão.

    “A adesão ainda é baixa e precisamos atuar na divulgação desse processo, que é fundamental na garantia e proteção da criança e adolescente”, salienta o presidente da Comissão da Criança e Adolescente da OAB/SC, Enio Gentil Vieira Júnior. O município de Florianópolis elege 20 conselheiros tutelares. No Estado, cada município tem um Conselho Tutelar e, cada órgão, por lei, deve ter cinco membros fixos.

    COMO VOTAR, ONDE VOTAR

    Conselheiros  e conselheiras se candidatam à tarefa de defender os direitos das crianças e dos adolescentes por um mandato de quatro anos. Têm a prerrogativa de fiscalizar os serviços de atendimento, recebem denúncias de maus tratos, assédio moral ou sexual, requerem serviços públicos, orientam famílias e comunidades, enfim, sacodem as estruturas públicas, delatam as afrontas ao estatuto e à integridade das crianças e fazem as ações acontecerem na área. Para exercer o cargo, recebem remuneração e, por isso, precisam apresentar experiência e conhecer o Estatuto.

    As eleições ocorrem no domingo, 6 de outubro, em todo o país,  mas é preciso verificar o funcionamento do pleito em cada município. Pode haver um ou mais locais de votação, que não são os mesmos das eleições gerais para cargos políticos. Todo cidadão que tem título de eleitor está apto a votar. Em processo semelhante às eleições gerais, com urna eletrônica, os eleitores devem comparecer às suas seções de votação portando o título de eleitor e um documento com foto (RG, CNH ou carteira de trabalho).

    Em Florianópolis há apenas cinco locais de votação. Cada eleitor vota em apenas um candidato e pela ordem de votação escolhem onde atuarão, já que são três Conselhos Tutelares com cinco conselheiros cada. Um para a região continental, um norte e outro sul da ilha.

    Todos os eleitores de cada região precisarão ir até o local indicado:

    1) Região Sul da Ilha – Escola de Ensino Médio Vereador Oscar Manoel da Conceição – Endereço: SC-405, S/n – Rio Tavares, Florianópolis – SC. Ao lado do Terminal do Rio Tavares

    2) Região Continental – Escola Básica Municipal Almirante Carvalhal – Endereço: Rua Bento Góia, 113 – Coqueiros, Florianópolis – SC.

    3) Região Central – Instituto Estadual de Educação – Endereço: Av. Mauro Ramos, 275 – Centro, Florianópolis – SC.

    4) Região Leste da Ilha – Escola Básica Municipal Henrique Veras – Endereço: Rua João Pacheco da Costa, 249 – Lagoa da Conceição, Florianópolis – SC.

    5) Região Norte da Ilha – Escola de Ensino Médio Jacó Anderle – Endereço: Rua Francisco Faustino Martins, 717 – Vargem Grande, Florianópolis – SC.

    ALERTA QUE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS

    Trabalhamos  com Conselhos Tutelares há mais de 10 anos.

    Não podemos nos identificar pois o que temos a dizer nos prejudicaria profissionalmente. Mas agora em 2019 estamos preocupados com o rumo que as coisas estão tomando. Estamos assistindo uma onda evangélica/reacionária  se aproximando desse órgão com toda a força. Os Conselhos Tutelares nunca foram a quinta maravilha do mundo. Possuem trezentos mil problemas. Mas a partir do que temos visto e ouvido, podemos dizer…se não nos organizarmos vai piorar…E MUITO. Tem uma galera querendo entrar no Conselho pra combater ideologia de gênero. Tem uma galera querendo entrar no Conselho pra levar “Deus” pras escolas. Tem uma galera dizendo que o problema das crianças e adolescentes no Brasil é falta de Deus e que só oração resolve. Só pra começo de conversa.

    E por que isso nos preocupa? Porque em eleição de Conselho Tutelar vota quem quer. E essa galera tem o apoio de igrejas inteiras. Que vão votar em massa. Ou seja, enquanto estamos simplesmente alheios a essa eleição, eles estão se organizando.

    Então, sugerimos duas coisas:

    1. Que comecemos a nos organizar e falar sobre a eleição do Conselho (06 de Outubro de 2019)
    2. Que quando sair a lista de candidatos em seu município, escolha um que defenda no mínimo, o estado laico, e faça campanha. Mobilize-se. Porque senão, teremos Conselhos Tutelares que funcionarão como escritórios pastorais.
    3. E antes que nos acusem de perseguição religiosa, são cristãos que escrevem esse texto. O Conselho Tutelar é pra defender os direitos da criança e do adolescente e não pra ser espaço de evangelização. Enfim, se possível repassem essa mensagem e mais do que isso, se organizem pra votar e sensibilizar as pessoas sobre a importância dessa articulação/enfrentamento nesse momento histórico.

    Por um Conselho Tutelar laico.

     

    DEBATE COM OS CANDIDATOS NO CAMPO SANTO

    Campo Santo, entidade que faz um trabalho geracional com mulheres, encadeando mães, filhas adolescentes e avós em cadeias produtivas de economia e cultura solidária

    O Coletivo Campo Santo convida os candidatos a representantes do Conselho Tutelar a uma conversa e apresentação às comunidades do sul da ilha. A acontecer no dia 4 de outubro às 16 horas, na nossa sede, no Campeche.

    Somos uma organização que tem como principal missão o apoio e o empoderamento de jovens da nossa região. Desejamos que com essa conversa a comunidade conheça cada um dos candidatos e que tome consciência da máxima importância dessa eleição, no dia 6 de outubro próximo.

    Contamos com a participação dos candidatos para uma conversa com pais, professores, representantes da comunidade e seus jovens.

    Servidão Germano Honorato Vidal, n. 200 – Campeche

     

    OAB PROMOVE ENCONTRO COM ESPECIALISTAS

    Neste ano, ocorre a eleição para o Conselho Tutelar em todo o Brasil e os escolhidos serão encarregados de zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes durante o período de 2020 a 2024.  Para o presidente da OAB/SC, Rafael Horn, o evento surgiu a partir da necessidade de promover o papel dos conselheiros tutelares, que são eleitos pela população para fiscalizar e garantir os direitos das crianças e adolescentes. “É necessária a participação da sociedade nesse debate, pois esses representantes atenderão casos de crianças ou adolescentes que tiverem seus direitos violados”, justificou.

    Com o objetivo de despertar na sociedade o debate e informá-la sobre seus direitos, a OAB/SC, por meio da Comissão da Criança e Adolescente, realizou na terça-feira (1/10) à noite, na sede da Seccional,  a palestra ‘Vamos Votar pelos Direitos das Crianças e Adolescentes?  O presidente da Comissão da Criança e Adolescente da OAB/SC, Enio Gentil Vieira Júnior, reforçou a importância do debate. “O Conselho Tutelar foi a grande inovação trazida há quase 30 anos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, quando se atribuiu à sociedade, por meio de processo democrático de escolha, a tarefa de definir os principais responsáveis pela promoção dos direitos de crianças e adolescentes de suas localidades. Por isso, é importante o envolvimento de todos no processo e fundamental que tenhamos o compromisso de ir às urnas”, destacou.

    Apesar da importância do Conselho Tutelar,  o poder público não tem garantido as verbas necessárias para o funcionamento do órgão nos estados e municípios. “O investimento ainda tem sido muito tímido, o que dificulta a realização da sua tarefa de promoção dos direitos da criança e do adolescente”, pontuou. “Por isso, é nosso papel, como casa da cidadania, trazer essa discussão e conscientizar a sociedade para a importância que o setor tem na construção de um país melhor, uma vez que as nossas crianças e adolescentes são o futuro do nosso país”, destacou.

    O encontro, em parceria com a Escola Superior de Advocacia, foi dividido em três palestras seguidas de debate com as temáticas: “Vamos votar?”, “A importância dos Conselhos Tutelares para a Promoção dos Direitos das Crianças e Adolescentes” e “O Processo de Escolha Unificado do Conselho Tutelar: Desafios e Potenciais na Experiência de Santa Catarina”. Os candidatos à função de conselheiro tutelar que estiverem presentes também se manifestaram.

    Entre os palestrantes estavam João Luiz de Carvalho Botega (mestre em Ciência Jurídica, pós-graduado em Direito Penal e Criminologia, professor da Disciplina Direito da Criança e Adolescente da Escola do Ministério Público e promotor de Justiça no MPE/SC) e Enio Gentil Vieira Junior (mestre em Direito, especialista em Direito da Criança e do Adolescente, advogado da infância e juventude e professor da Escola Superior de Magistratura e da Escola Superior de Advocacia – ESA).

    Com informações da Assessoria de Comunicação da OAB/SC

     

    PARA ENTENDER A IMPORTÂNCIA DOS CONSELHOS TUTELARES

    • Ágatha Felix, oito anos, assassinada com um tiro nas costas por um policial no Rio de Janeiro

      O Conselho Tutelar foi criado conjuntamente ao ECA, instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990. Órgão municipal responsável por zelar pelos direitos da criança e do adolescente, deve ser estabelecido por lei municipal que determine seu funcionamento tendo em vista os artigos 131 a 140 do ECA.

    • Formado por membros eleitos pela comunidade para mandato de três anos, o Conselho Tutelar é um órgão permanente (uma vez criado não pode ser extinto), possui autonomia funcional, ou seja, não é subordinado a qualquer outro órgão estatal.
    • A quantidade de conselhos varia de acordo com a necessidade de cada município, mas é obrigatória a existência de, pelo menos, um Conselho Tutelar por cidade, constituído por cinco membros.
    • Segundo consta no artigo 136 do ECA, são atribuições do Conselho Tutelar e, consequentemente, do conselheiro tutelar, atender não só as crianças e adolescentes, como também atender e aconselhar pais ou responsáveis.
    • O Conselho Tutelar deve ser acionado sempre que se perceba abuso ou situações de risco contra a criança ou o adolescente, como por exemplo, em casos de violência física ou emocional. Cabe ao Conselho Tutelar aplicar medidas que zelem pela proteção dos direitos da criança e do adolescente. Para informações completas das atribuições do Conselho Tutelar, acesse o ECA completo.
    • Apesar de muitas pessoas acharem o contrário, o Conselho Tutelar não tem competência para aplicar medidas judiciais, ou seja, ele não é jurisdicional e não pode julgar nenhum caso. Exemplificando: quando um adolescente (12 à 18 anos) comete um ato infracional (crime), quem deve ser acionado para o atendimento é a Polícia Militar, e não o conselho tutelar. Este sim deve ser chamado quando o mesmo ato infracional for cometido por uma criança (com até 12 anos de idade incompletos).
    • Por se tratar de um órgão, parte do aparato de segurança pública municipal, não pode agir como órgão correcional. Em resumo, é um órgão ‘zelador’ dos direitos da criança e do adolescente. Não é função do Conselho Tutelar fazer busca e apreensão de crianças e/ou adolescentes, expedir autorização para viagens ou desfiles, determinar a guarda legal da criança.
    • O conselheiro tutelar deve sempre ouvir e entender as situações que lhe são apresentadas por aquele que procura o Conselho Tutelar. Somente após a análise das situações específicas de cada caso é que o conselheiro deve aplicar as medidas necessárias à proteção dos direitos da criança e/ou adolescente. Cabe ressaltar que, assim como o juiz, o conselheiro aplica medidas, ele não as executa. Portanto, o interessado deve buscar os poderes necessários para execução dessas medidas, ou seja, poder público, famílias e sociedade.
    • O processo de escolha dos conselheiros tutelares deve ser conduzido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (órgão que deve ser criado e estar funcionando antes do Conselho Tutelar).
    • Para ser conselheiro tutelar é necessário ter 21 anos completos ou mais, morar na cidade onde se localiza o Conselho Tutelar e ser de reconhecida idoneidade moral. Outros requisitos podem e devem ser elaborados pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. É indispensável que o processo de escolha do conselheiro tutelar busque pessoas com um perfil adequado ao desenvolvimento da função, ou seja, alguém com disposição para o trabalho, aptidão para a causa pública, e que já tenha trabalhado com crianças e adolescentes.
    • É imprescindível que o conselheiro tutelar seja capaz de manter diálogo com pais ou responsáveis legais, comunidade, poder judiciário e executivo e com as crianças e adolescentes. Para isso é de extrema importância que os eleitos para a função de conselheiro tutelar sejam pessoas comunicativas, competentes e com capacidade para mediar conflitos.
  • EXCLUSIVO: Tudo sobre o apoio vergonhoso e imoral da TV Record –e seu dono, o bispo Edir Macedo– a Jair Bolsonaro

    EXCLUSIVO: Tudo sobre o apoio vergonhoso e imoral da TV Record –e seu dono, o bispo Edir Macedo– a Jair Bolsonaro

    Por Patrícia Zaidan, especial para os Jornalistas Livres

    Quando o Jornal da Record colocou no ar a entrevista de 26 minutos de Jair Bolsonaro, no  mesmo horário do Debate da Globo com sete presidenciáveis, as redações da TV e do portal R7 entenderam o recado: dali em diante, o Grupo Record usaria todos os esforços da reportagem como máquina de campanha para defender e promover o candidato do PSL, que liderava as pesquisas.

    Naquela noite de 4 de outubro, reta final do primeiro turno, editores, repórteres e produtores ficaram em silêncio, atônitos, enquanto o colega Eduardo Ribeiro, da equipe paulista, aparecia no vídeo pronunciando as perguntas escritas sob orientação da direção. O vice-presidente de Jornalismo, Douglas Tavolaro, estava presente na empreitada, que se desenrolou na casa de Bolsonaro, no Rio de Janeiro. Tavolaro é homem de confiança e biógrafo do bispo Edir Macedo, o comandante da Record e criador da neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus. O projeto havia sido gestado a sete chaves. Nem mesmo a então chefe de redação, Luciana Barcellos, responsável pelo Jornal da Record, fora comunicada da existência dele. Luciana soube apenas na manhã daquela quinta-feira, quando o diretor de conteúdo de jornalismo, Thiago Contreira, hierarquicamente abaixo de Tavolaro, mandou escalar um determinado editor, pediu a ele para chegar bem mais cedo à emissora, no bairro paulistano da Barra Funda, para preparar o material a portas fechadas.

    Só à tarde, profissionais da redação descobriram que o mistério se chamava Bolsonaro. Do conteúdo bruto quase nada foi cortado. A existência da gravação vazou. Mas o que o capitão reformado do Exército diria, permanecia em segredo. Às 18 hs, o candidato do PSL tuitou: “Hoje, às 22 horas, estarei no Jornal da Record com exclusividade. Peço assistir e divulgar”. PT, PSOL e MDB entraram com recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para impedir a publicação da entrevista.

    COM A PERMISSÃO DO TRIBUNAL

    No espelho – a sequência dos conteúdos que entrariam no ar na edição de 4 de outubro – seriam incluídas matérias frias, que os editores tinham na gaveta, caso a Justiça interditasse a gravação de Bolsonaro.

    Nos bastidores houve torcida para que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acordasse e tomasse providências. Fora da lei, a Record não foi importunada pelo Tribunal que tem, entre suas funções, impedir que empresa detentora de concessão pública de rádio e TV favoreça uma candidatura. Surpreendentemente, o ministro Carlos Horbach deu sinal verde, rejeitando a “censura prévia” e reafirmando o direito à “livre manifestação” da Record.

    O que os telespectadores viram é praticamente a íntegra da amigável entrevista do candidato que se recusara a debater com os sete adversários reunidos nos estúdios da Globo. Sua justificativa para a ausência: a recuperação do ataque a faca sofrido em Juiz de Fora (MG), no dia 6 de setembro.

     

    O ESTRONDOSO PODER DO BISPO

    Terminada a exibição da entrevista, a equipe do Jornal da Record, o principal da casa, deixou a redação constrangida e sem falar nada. “No dia seguinte, 5 de outubro, os colegas chegaram tristes e angustiados para trabalhar”, lembra um produtor, que como todos os outros profissionais da TV e do portal de notícias online R7, deram entrevistas a Jornalistas Livres sob a condição de anonimato. “A Record é uma emissora vingativa. Os repórteres e produtores que se recusam a realizar as pautas sofrem represálias, pressões e podem perder o emprego”, diz ele. Sobre a entrevista, uma profissional da pauta comenta:

    “Foi o divisor de águas. Naquele momento a Record perdeu a mão, a sutileza, passou dos limites”. Em outras disputas eleitorais, lembra ela, “a casa já havia adotado um comportamento abusivo em relação à cobertura dos candidatos alinhados aos interesses econômicos do bispo. Mas o ingresso, de cabeça, na linha de frente da campanha do Bolsonaro foi escancarado e vergonhoso demais.”

    Edir Macedo conta com a gratidão do mundo político. Para isso coloca a serviço de quem assume o poder a força de seu império de comunicação – um conglomerado de mídia. Macedo já esteve ao lado dos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mas virou as costas para ela, envenenado por Eduardo Cunha, ex-parlamentar afinado com o bispo e peça fundamental na orquestração do impeachment de Dilma, ocorrido no período em que ele presidiu a Câmara dos Deputados.

    Entre os estimados 7 milhões de fiéis e pastores da Igreja Universal, fundada por Macedo no Rio de Janeiro em 1977 e hoje espalhada por mais de 7 mil pontos do país, há inúmeros vereadores e deputados estaduais eleitos com a força da máquina do bispo. Um soldado deste esquema é o deputado federal Celso Russomano (PRB-SP), reeleito este ano, e que sempre depois das disputas eleitorais volta à tela da TV com seu quadro Patrulha do Consumidor. Em Brasília, deputados e senadores filiados ao mesmo Partido Republicano Brasileiro, considerado o braço político da igreja, capitaneiam a bancada evangélica do Congresso Nacional. Atraem parlamentares desgarrados ou de legendas inexpressivas, que se enfileiram ao redor dos projetos de Macedo para existir politicamente e, assim, acabam aprovando as propostas mais conservadoras, moralistas ou retrógradas da agenda nacional.

    Douglas Tavolaro, no episódio da entrevista chapa-branca, acertou com Bolsonaro a ampla cobertura que a Record, o R7 e as demais emissoras da rede passariam a fazer dos seus passos. Um jornalista do portal, em um desabafo por escrito, afirmou: “A TV e o R7 passaram a ser usados como máquina de propaganda do candidato do PSL. Nos corredores, já se comenta que Douglas Tavolaro, participa diretamente da campanha de Bolsonaro. Ajuda a estabelecer pautas e estratégias de comunicação…”

    Em 6 de outubro, completou-se o chamamento para que as equipes se engajassem no esforço de eleger Bolsonaro. Márcio Santos, diretor de RH, postou na sua página do Facebook, foto em que aparece sorridente com as hashtags: “Melhor Jair se acostumando; “PT Não”; “Ele sim”. Os jornalistas entenderam o recado. O que é capaz de fazer com os próprios empregados um conglomerado que persegue repórteres de outros veículos, autores de matérias mostrando que o bispo construiu seu império explorando fiéis da igreja? A perseguição mais notória se deu a Elvira Lobato, jornalista processada 111 vezes por publicar na Folha de S.Paulo inúmeras reportagens revelando a instrumentalização do conglomerado de comunicação como arma de massificação da opinião pública, além dos negócios milionários que isso possibilitou. Ficam na mira do time do bispo todos os jornalistas que escrevem sobre investigações policias, inquéritos e processos na Justiça envolvendo a igreja ou seu mentor em denúncias de falsidade ideológica, uso de documentos falsos, sonegação fiscal, importação fraudulenta e estelionato.

    “No fim de semana posterior à entrevista, Eduardo Ribeiro, voltou do Rio para São Paulo só para resolver a vida, buscar roupas e embarcou de vez na cobertura da campanha”,

     

     

     

     

    relata uma colega dele. “Não faço críticas, Eduardo deve estar sofrendo um bocado. Tem sido citado no mercado como alguém que é mandado e não retruca.”

    O cerco se fechou sobre a equipe. Todos os textos de política passaram a ser lidos, com rigor, por Thiago Contrera. Ele também começou a assinar as laudas do espelho, ao dar a sua aprovação.

     

    A LARGADA DO BISPO NO FACEBOOK

    Macedo nunca morreu de amores por Jair Bolsonaro, nascido católico e batizado em Israel, no Rio Jordão, por imersão – conforme a tradição evangélica. Nesta altura do calendário, maio de 2016, era presidenciável, mas por outra legenda, o Partido Social Cristão (PSC). O bispo sempre o considerou um parlamentar indócil, alguém com quem era difícil entabular um diálogo. Seu candidato no primeiro turno era, na maior parte do tempo, Alckmin (PSDB). Às vezes pendia para Ciro (PDT), com as reportagens evidenciando a gangorra. “Os jornalistas de política suspiraram aliviados com a escolha do bispo ficando no campo do centro e da esquerda. Ninguém se sentiria confortável em cobrir Bolsonaro se ele se tornasse o candidato queridinho da casa”, lembra uma editora executiva da TV Record. Para comprovar a crença de que o bispo não embarcaria no tanque de guerra do capitão do Exército, ela cita a linha adotada na cobertura do atentado à faca. “Não tínhamos equipe em Juiz de Fora e a ordem foi pegar leve: ‘Atenção com o tom das matérias sobre a cirurgia em Minas Gerais. Não queremos vitimizar Bolsonaro, para que ele não cresça nas pesquisas’,” recorda a editora.

    Quando se tornou evidente que Alckmin e Ciro não emplacariam e estariam descartados no fim do primeiro turno, Macedo mudou a rota.

    Poucos dias antes da entrevista que dividiu as águas, pairavam a interrogação e o suspense entre os jornalistas do Grupo Record. Dois chefes de redação ouviram de um superior: “Tem um vento aí. Cuidado, não sabemos como ele vai virar”. Era a senha (nunca explicitada em memorandos ou e-mails, mas verbalmente) para não atacar nem paparicar nenhum dos candidatos.

    Não foi preciso esperar muito. No dia 29 de setembro, Edir Macedo soprou a sua escolha feito um tufão. No Facebook, um senhor que se identificou como Antonio Mattos, vendo Macedo em um vídeo que nada tinha a ver com política, cutucou:  “Queremos saber, bispo, do seu posicionamento sobre a eleição pra presidente”. Na lata, o chefe da Universal respondeu: “Bolsonaro!”. Mas o acerto não havia ainda sido firmado com o quartel-general bolsonarista. Então, a conduta ditada ao jornalismo da rede na primeira semana após o primeiro turno foi a seguinte: Foco no Ciro. “Fizeram matérias para mostrar como seria delicada a situação dele, se apoiasse Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República. Outras reportagens mostravam que Ciro não ajudaria o petista.

    Quando o irmão dele, o senador eleito Cid Gomes, gritou: “O Lula tá preso, babaca”, em um evento do PT, foi, para a Record, a festa da uva. “A recomendação era repetir, muitas vezes o episódio, e Cid berrando para a plateia de militantes: “Babaca, babaca”, conta um editor.

     Sobre o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, por um bolsonarista, que o atacou pelas costas com 12 facadas, depois de ouvi-lo declarar voto em Haddad, nenhuma palavra. Nenhuma imagem em rede nacional. Na reunião de pauta, uma editora fez a defesa do tema, dizendo que a TV precisaria acompanhar a investigação. “Trata-se de briga de bar”, foi a resposta. Moa não era um brigão de boteco, teve importância na cultura baiana, fundou o Afoxé Badauê, ajudou na criação dos blocos afros de Salvador. A conclusão da polícia, de que a violência na política acendeu o estopim da morte de Moa foi igualmente ignorada pela Record.

     

    A PORÇÃO QUE CABE A HADDAD

    O adversário do postulante do PSL entra no noticiário minimamente cumprindo sua agenda de campanha. Ponto. Na sexta, 12 de outubro, dia da padroeira do Brasil, saindo de uma missa, Fernando Haddad criticou o apoio do bispo ao capitão. “Bolsonaro é o casamento do neoliberalismo desalmado representado pelo Paulo Guedes, que corta diretos trabalhistas e sociais, com o fundamentalismo charlatão do Edir Macedo”, afirmou o candidato petista. O Jornal da Record pôs no ar apenas uma nota pelada, jargão televisivo para o texto lido pelos âncoras sem imagem ilustrativa. A nota dizia que Haddad havia ofendido o bispo, e a igreja o processaria.

    Na métrica diária do portal R7 entram duas matérias pró-Bolsonaro e duas batendo em Haddad. “Para fazer fachada, publicamos algo positivo do petista, como a sua proposta de baixar o preço do gás para 49 reais. Mas não entra com destaque, fica lá perdida. A demanda é por links negativos”, afirma um dos 80 jornalistas da redação. “Desde sua gestão na Prefeitura (de São Paulo) há um boicote a ele. Não pudemos dar, por exemplo, a queda do número de mortes no trânsito, depois que o prefeito reduziu a velocidade nas vias da cidade”.

    A raiva de Macedo é anterior à gestão municipal do petista. Um projeto da igreja para a criação de uma universidade teria naufragado no Ministério da Educação no período em que Haddad foi o titular da pasta. Na disputa pela Prefeitura, em 2012, Macedo embalava a candidatura de Celso Russomano, que não passou para o segundo turno. Vitorioso, Haddad tomou posse quando a construção do Templo de Salomão, o gigantesco local de reuniões da Universal, no Brás, estava adiantada. O terreno havia sido reservado para moradias populares. A igreja conseguiu um alvará de reforma para o que, na verdade, era uma construção. Havia mais um problema: assinava a autorização Hussain Aref, diretor do departamento municipal que concede a licença, e que acabou afastado sob escândalo de corrupção. Haddad endureceu o jogo, a Prefeitura exigiu uma contrapartida, e o Ministério Público (MP) ameaçou pedir a demolição do templo. O petista exigiu como indenização à cidade a doação de um terreno na região com o mesmo tamanho. A igreja assinou um compromisso garantindo que doaria uma área avaliada em R$ 38 milhões. O MP segue acompanhando as tratativas, agora tocadas pela gestão Bruno Covas. “O bispo sabe que, eleito Haddad, não haveria dinheiro do governo federal para a Record”, analisa um editor da TV.

    Templo de Salomão, construído pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no Brás, região central de São Paulo, Inagurado em 31-07-2014, Foto Paulo Pinto/fotospublicas
    Imagem mostra terreno onde foi construído o templo de Salomão na região do Brás, em São Paulo. Fernando Haddad teve grandes atritos com o Bispo Edir Macedo, por suspeitas de irregularidades no processo de autorização do terreno durante a gestão Kassab. Haddad exigiu uma contrapartida no valor de 38 milhões, do Bispo, já que o imóvel ocupava área de interesse social para moradia popular. Fernando Haddad enfrentou o temido bispo, mesmo contrariando orientações do PT.

     

     

    DUAS PAUTAS-BOMBAS CONTRA O PT

    “No site a cobertura é ainda mais cretina que na TV”, afirma outro editor, do R7. “E tem a Coluna do Fraga, que mente sobre Haddad e é escancaradamente a favor da vitória de Bolsonaro.” O titular da coluna, Domingos Fraga, e sua pequena equipe ficam isolados; os colegas não querem se relacionar com eles. Mas os comentários de Fraga têm força na casa. Um deles pautou uma matéria especial da TV. A repórter Elaine Heringer teria sido a destacada para “amarrar” o material, que demonizaria o Movimento Sem Terra, com foco principal na educação das crianças nas escolas dos assentamentos rurais. “A ordem é mostrar que as crianças do MST são vítimas de lavagem cerebral, com intuito de provar que elas seriam obrigadas a louvar líderes de esquerda, como Che Guevara”, comenta um profissional da casa. Os depoimentos colhidos estavam direcionados para confirmar a tese de Bolsonaro, para quem “o MST é um grupo terrorista”.

    Fraga havia atirado nesta direção ao escrever, em 2 de outubro: “Parece algum grupo muçulmano radical, como o Estado Islâmico (Daesh) ou Hezbollah. Ou mesmo guerrilheiros das Farc. Mas, na verdade, são brasileiros que não alcançaram a puberdade. Milhares de crianças estão sendo guiadas por adultos para militarem nas causas defendidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais”.

    A outra pauta-bomba mirou os venezuelanos. A missão era associar o sofrimento deles a um eventual governo de Haddad. A volta do PT ao governo transformaria o Brasil na Venezuela de Maduro. A ideia era mostrar a saída por estradas horríveis, ao longo de dias, com destino à Colômbia e ao Peru, ou a Roraima. “Em esforço incomum, foram enviadas uma equipe para a Colômbia e outra para a cidade brasileira de Pacaraima”, conta um editor.

    Os destacados para a missão, Leandro Stoliar e Fábio Menegatti, são repórteres experientes, acostumados a levantar dados secretos, provas, documentos difíceis de conseguir. Fazem parte de um seleto grupo investigativo, têm salários mais altos e são chefiados por Leandro Cipoloni, diretor de gestão de jornalismo. “Internamente, esta equipe ganhou o apelido de “Núcleo de Extorsão”, porque algumas vezes é obrigada a usar a técnica investigativa em reportagens que atingem empresas do mercado – e elas, para se verem livres de exposição negativa na mídia de Macedo, cedem aos interesse do grupo, patrocinando projetos ou engordando a receita publicitária da emissora ”, revela um jornalista da Record.

    As reportagens sobre os venezuelanos e a que fala das criancinhas do MST estão editadas e prontas e podem ser publicadas a qualquer momento.

     

    A CAIXA DE MALDADES SEM FIM

    Durante a primeira semana do segundo turno, foram muito valorizadas as delações ex-ministro petista Antônio Palocci, as notícias da Lava-jato. No domingo, 14 de outubro, entrou no ar uma nova pancada no PT. Em manobra sem ética, a reportagem tentou associar ao ex-presidente Lula o filho do ditador da Guiné Equatorial, Teodorin Obiana, preso com 1,5 milhão de dólares em dinheiro e 20 relógios avaliadas em 15 milhões de dólares.

    O ar estava irrespirável; a tensão e o stress crescentes provocavam inúmeras queixas entre repórteres e editores. Até que, na quarta-feira, 18 de outubro, a redatora-chefe do Jornal da Record tomou uma medida que restaurou a dignidade que os profissionais sentiam estar perdendo. Luciana Barcellos chegou às 13 horas, como de costume, e sentou na frente do computador. Abriu o e-mail e dirigiu-se aos superiores, com cópia para Márcio Santos, do RH. Escreveu a sua carta de demissão, avisou para os três editores executivos e a editora-chefe do JR e saiu da redação direto para a sala do diretor do RH. Pouco depois, Thiago Contreira reuniu a equipe para anunciar a saída de Luciana, depois de oito anos de trabalho na empresa. Funcionou como uma catarse. Alguém ali estava legitimando o desejo da maioria: livrar-se de uma cobertura sem verdade, que vai contra os princípios do jornalismo. E atropela brutalmente a cláusula de consciência do Código de Ética da categoria, que assegura ao profissional o direito de recusar um trabalho que vai contra seus princípios.

    Luciana não era uma unanimidade. Para se relacionar com o comando extremamente masculino do jornalismo da Record, ela manteve uma postura firme e muitas vezes foi dura demais com os chefiados. “Mas ela me surpreendeu. Teve a dignidade de dar um basta”, reflete uma repórter. “Fui até ela, como muitos outros colegas, para abraçá-la. Eu lhe disse: ‘Você fez o que muitos de nós queríamos fazer agora’.” Foi uma comoção. Um jovem jornalista perguntou a ela: “Sua decisão foi tomada depois da entrevista do Bolsonaro, não foi?” Luciana respondeu a ele que, na verdade, aquilo fora a gota d’água. E que ela vinha se questionando nos últimos meses: Queria ou não continuar fazendo parte, mesmo que indiretamente, do projeto de poder do Grupo?

     

    NA SAÚDE E NA DOENÇA COM BOLSONARO

    Sob os olhos dos ministros do TSE a cavalaria da Record continua mobilizada para angariar votos. Para o programa Domingo Espetacular de 21 de outubro, a reportagem se instala novamente na intimidade do lar do candidato, dedicando a ele uma longa matéria especial. O tema é saúde de Bolsonaro, sua determinação para enfrentar a colostomia etc etc. Para o veículo que não queria dar ênfase ao episódio da facada em Minas Gerais, a última edição de Domingo Espetacular foi mais uma prova da tentativa de elegê-lo. Exibi-lo como o homem que enfrenta tudo e desperta empatia com as pessoas que sofrem dramas semelhantes.

    O diretor de Comunicação Celso Teixeira tem sido procurado desde o dia 22 de outubro por Jornalistas Livres. Vários recados foram deixados com a secretária do departamento. No dia 23, Teixeira mandou dizer que só atenderá a nossa equipe depois da votação do próximo domingo. Diante da recusa, insistimos, enviando as perguntas principais que gostaríamos de fazer a ele. Celso não as respondeu. Porém, a direção emitiu uma nota se defendendo de acusações de favorecimento de Bolsonaro publicadas por várias mídias. Um trecho: “O principal acionista Edir Macedo, ainda no primeiro turno, informou sua opinião pessoal em sua rede social particular. Um direito individual garantido pela Constituição e já exercido por ele em eleições anteriores. A decisão em nada influencia as posições da emissora, que tem um jornalismo premiado internacionalmente e reconhecido pelo público e anunciantes.” O texto explica ainda a entrevista de Bolsonaro no dia 4, como “parte de uma estratégia do mercado de televisão que visa transmitir ao telespectador informações em primeira mão com agilidade”.

    Faltando três dias para as eleições, a audiência dos veículos de Edir Macedo continua recebendo propaganda eleitoral travestida de reportagem – um veneno recheado de mentiras.

     

     

    Veja aqui a resposta do Grupo Record aos questionamentos que lhe tem sido dirigidos:

     

    Nota à Imprensa

    A Record TV repudia de forma veemente as declarações caluniosas, falsas e preconceituosas do candidato Fernando Haddad contra a emissora nas últimas semanas. Essas ofensas atingem diretamente todos os funcionários e colaboradores do jornalismo que se empenham em coletar informações com um único propósito: atestar a veracidade dos fatos de maneira clara e isenta para que o telespectador tenha a liberdade de tirar suas próprias conclusões.

    Com mais de 30 anos de tradição e credibilidade na cobertura de eleições no Brasil, a Record TV procura sempre apresentar suas reportagens jornalísticas de forma equilibrada, mesmo com as críticas infundadas e ofensivas de qualquer candidato. A prova disto são as 11 horas de notícias diárias ao vivo, mais de 800 reportagens por dia produzidas por 2.000 jornalistas espalhados pelo país. Um trabalho de credibilidade em que todos os profissionais priorizam, ao máximo, se afastar de tudo aquilo que possa pôr em dúvida a sua isenção aos fatos.

    A emissora também denuncia a estratégia de alguns veículos de comunicação que claramente apoiam Fernando Haddad e de blogs ligados ao candidato que usam estas mesmas falsas acusações para atacarem a Record TV, o portal R7.com e as empresas do Grupo. A ação orquestrada ainda usa de estratégia criminosa de reproduzir estes textos e declarações levianas em panfletos ilegais e apócrifos atacando nosso jornalismo e os profissionais que aqui trabalham com objetivos escusos de tumultuar a eleição.

    O principal acionista Edir Macedo, ainda no primeiro turno, informou sua opinião pessoal em sua rede social particular. Um direito individual garantido pela Constituição e já exercido por ele em eleições anteriores. A decisão em nada influencia as posições da emissora, que tem um jornalismo premiado internacionalmente e reconhecido pelo público e anunciantes.

    Também esclarecemos que a entrevista realizada pela emissora no último dia 4 de outubro com o candidato Jair Bolsonaro, fez parte de uma estratégia do mercado de televisão que visa transmitir ao telespectador informações em primeira mão com agilidade. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), rejeitou liminarmente a proibição da gravação exibida no horário do Jornal da Record. Em despacho negando o pedido do PT, Carlos Horbach, ministro do TSE, considerou que o trabalho era uma ação jornalística que não feria os princípios legais da democracia. “Impedir, por meio de decisão judicial, que uma emissora de televisão veicule toda e qualquer entrevista do candidato Jair Bolsonaro antes do primeiro turno das eleições, por quaisquer dos meios de comunicação (televisão aberta, televisão fechada, rádio e internet) seria manifesto ato de censura prévia, contrária à liberdade de imprensa, pressuposto fulcral do regime democrático”, decidiu o desembargador.

    O Ministério Público Eleitoral também deu parecer contrário ao processo contra a entrevista porque considerou que “para candidatos que se encontram em situações distintas, a ação está prevista na própria lei eleitoral”.

    Vale ressaltar que a Record foi a primeira emissora de TV aberta a realizar sabatinas com os candidatos à Presidência da República, com tempos iguais para todos. Uma pesquisa simples no Portal R7.com revela de imediato artigos e reportagens, que atestam nossa independência ao tratar cada um dos candidatos de forma equilibrada, e questionam todos sobre declarações, opiniões e programas de governo.

    Por isso, não aceitamos os ataques covardes à nossa conduta pautada numa só direção: jornalismo imparcial a serviço dos brasileiros.

    Em nome da democracia, da liberdade de expressão e da defesa veemente dos direitos constitucionais previstos para todos, a Record TV vai seguir firme no sentido de oferecer ao público um jornalismo isento.

    São Paulo, 25 de outubro de 2018.

    GRUPO RECORD

  • Aécio fez Joe$ley pagar compra de jornal

    Aécio fez Joe$ley pagar compra de jornal

    BELO HORIZONTE – Não há como negar, boleto para pagamento do IPTU obtido pelos Jornalistas Livres comprova que realmente a J&F, a holding de Joesley Batista, pagou a compra do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, por R$ 17 milhões, a pedido do senador Aécio Neves. Isso é mais uma prova de que o senador Romero Jucá, do MDB, sabia mesmo muito bem do que dizia quando se referiu ao colega mineiro como o “primeiro a ser comido”, durante diálogo telefônico com o ex-presidente do PSDB e ex-senador Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

     

    Falou-se muito dos R$ 2 milhões pedidos por Aécio ao dono da JBS “para pagar advogado”, conforme delatou o empresário, mas só agora fala-se com mais vigor sobre os R$ 17 milhões usados na compra do “predinho” do jornal, como chegou a ser dito pelo próprio Joesley. Se faltava algo para comprovar a destinação dos R$ 17 milhões aos negócios do senador mineiro, aí está a guia de pagamento do IPTU do tal prédio da Rua Padre Rolim, 652, um filé mignon imobiliário bem na região hospitalar da capital mineira. Curiosamente, este é o único bem de Joesley em Minas, onde não possui qualquer negócio.

     

    O imóvel, usado como sede do Hoje em Dia durante décadas, está em nome de nada menos do que a J&F Investimentos S/A, a holding da empresa JBS que, por sinal, teve o ministro Henrique Meirelles no comando de seu conselho de administração entre 2012 até pouco antes de assumir o atual cargo. Ali ele recebia R$ 40 milhões por ano e uma de suas raras funções seria irrigar as campanhas eleitorais dos apaniguados de Joesley. E quando se pesquisa na Prefeitura de Belo Horizonte para saber quem são os titulares da J&F, eis que aparece o nome de Joesley Mendonça Batista abaixo de Antônio da Silva Barreto Júnior como ‘contatos’

     

    Um prédio polêmico

     

    Após a confissão de Joesley sobre suas relações com Aécio, há um ano, o prédio de cinco andares começou a dar o que falar. Desocupado desde que o jornal mudou de endereço nas mãos de novo dono no início de 2016 e sem alguém que se apresentasse como seu proprietário, chegou a ser ocupado, na marra, em 1º junho de 2017 por jornalistas, gráficos, pessoal da administração e movimentos sociais. Demitidos pelo atual dono sem receber seus direitos e até mesmo salários, os jornalistas viram na ocupação do prédio um bom motivo para chamar atenção sobre o drama que viviam. Conseguiram.

     

    Em junho do ano passado o “predinho” foi ocupado por ex-funcionários do jornal Hoje em Dia e Joesley Batista acabou reconhecendo a sua posse – Foto de Isis Medeiros

    A ocupação colocou os holofotes sobre o prédio. Logo a J&F se apresentou como dona do pedaço e colocou o imóvel à venda por R$ 17,5 milhões. Só que surgiu nova pedra no caminho da holding de Joesley: a Justiça do Trabalho bloqueou a venda do imóvel até que se resolva o pagamento de todos aqueles que buscam seus direitos. E assim continua, e, enquanto aguarda uma solução, um terreno ao lado, também de Joesley, foi arrendado para estacionamento de veículos.

     

    Pelo boleto do IPTU nota-se que a J&F vem pagando religiosamente as 11 parcelas de R$ 5.686,06, que vão totalizar R$ 34.116,36. Reza a lenda que o prédio é um pau que nasceu torto desde que foi construído pelo jornal Diário do Comércio, o primeiro dono, e não teria habite-se, principalmente depois que um bispo da igreja Universal resolveu construir mais um andar para instalar a nova redação sem a contratação de um arquiteto ou engenheiro.

     

    Trajetória sinistra

     

    Também o jornal tem uma trajetória sinistra desde que foi criado pelo então governador Newton Cardoso, há 30 anos, para ser o “maior de Minas”. Mas pouco depois acabou vendido para a TV Record/Igreja Universal, num pacote em que incluía a emissora mineira de TV da rede Record. Nas mãos dos bispos de Edir Macedo chegou a ter 64 mil exemplares impressos. Depois, decadente e acumulando um prejuízo de R$ 38 milhões em 2012, a TV Record/Igreja Universal trataram de se livrar do abacaxi em 2013. Logo apareceram apressados interessados.

     

    Há cinco anos o empresário mineiro Rogério de Aguiar Ferreira, então dono da Axial Medicina Diagnóstica, irrompeu pela redação anunciando a compra do jornal. Saiu carregando o apelido de “Boneco de Olinda”, devido à sua estatura avantajada. Na semana seguinte correu para São Paulo a fim de acabar de fechar o negócio com os bispos da Universal. Deu com os burros n’água naquela terça-feira. À boca pequena correu a versão de que não teria levado a mala recheada com dinheiro vivo, uma exigência do bispado.

     

    Era tudo o que a dupla Aécio/Andrea Neves queriam. Imediatamente entraram em ação rumo a algum pomar onde encontrassem laranjas. Semanas depois era a vez de Marco Aurélio Jarjour Carneiro, do Grupo Bel, irromper pela redação do jornal para anunciar a sua compra no dia 18 de setembro de 2013. Parte do dinheiro da aquisição teria vindo da desapropriação de parte de um terreno da antena de rádio dos Carneiros no alto do bairro Novo São Lucas, porta de entrada da favela do Cafezal, com valor superfaturado. R$ 10 milhões, o que motivou uma ação do governo de Minas em tramitação na 5ª Vara da Fazenda, processo 1700189-54.2013.8.13.0024 do Tribunal de Justiça de MG contra a Rádio Del Rery Ltda., de Jarjour Carneiro. Outro dinheiro que entrou no negócio foram R$ 2 milhões da construtora Andrade Gutierrez, a título de publicidade que nunca foi vista.

     

    Dono também da Rádio 98, concorrente da Jovem Pan em BH, entre outros negócios, Carneiro colocou o filho Flávio Jaques Carneiro, um amigão de Aécio, na presidência do jornal, e trouxe para comandar a redação o jornalista Ricardo Galuppo, um mineiro radicado em São Paulo.

     

    A função de Galuppo era, principalmente, azeitar o jornal para ser usado na campanha de Aécio Neves à presidência. E azeitou. Principalmente na acirrada disputa do segundo turno, quando o jornal se esmerou em publicar, com exclusividade, sensacionais manchetes a favor da candidatura do tucano, baseadas em estranhas pesquisas eleitorais do desconhecido instituto de pesquisas Veritá, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Manchetes e números que eram largamente expostos nos horários de propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV. Cuidou o jornal também de deturpar e mentir sobre Igor Rousseff, um pacato irmão da então presidente Dilma Rousseff, morador na também pacata Passa Tempo, no interior de Minas, informações que foram exploradas por Aécio nos debates de TV entre os dois candidatos.

     

    O episódio rendeu, inclusive, uma denúncia de ‘crime eleitoral’ contra Aécio Neves no Ministério Público Federal, onde recebeu o número de expediante 1.22000.002391/2016-50. Atualmente a denúncia está sob sigilo, após ser absorvida por Rodrigo Janot, que ordenou investigação a respeito e mandou o caso até mesmo para a Lava Jato.

     

    Na época, Jarjour Carneiro dizia aos mais chegados: “Estamos com um dinheiro aí, vamos ver até onde poderemos ir”. E, realmente, foi até onde pôde. Se Aécio tivesse sido eleito à Presidência da República estaria nadando de braçadas no paraíso, mas, com a derrota do senador, deu com as portas abertas do inferno. Acabou vendendo o jornal por apenas R$ 1 mil, isso mesmo, sem o prédio, logicamente, para o então prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, marido da deputada Raquel Muniz (PSC), que ficou conhecida negativamente pelo seu “Sim, sim, sim” após elogiar a honestidade do maridão e votar pelo impeachment da presidente Dilma. Na manhã seguinte, Ruy Muniz era preso pela Polícia Federal por corrupção.

     

    Muniz ficou com o jornal e seus credores, enquanto o prédio, o patinho feio que ninguém queria assumir, voltou para os braços daquele que patrocinou a sua compra a pedido de Aécio Neves: Joesley Mendonça Batista.