Jornalistas Livres

Autor: Leandro Barbosa (História Incomum)

  • Mata-se para minar a esperança

    Mata-se para minar a esperança

    Quando eu estive na favela Jd. Gramacho, no RJ, num certo momento uma criança pegou em minha mão e me disse várias vezes para que eu não seguisse na direção que eu estava indo. Aquela atitude me impeliu a continuar. Eu sabia que havia algo ali que eu devia conhecer.

    Mais adiante, encontrei com um grupo de traficantes. Eram cerca de 7 homens armados com fuzis. A polícia estava cercando a favela e eles circulavam para não serem encontrados. Naquele momento eu entendi que ele apenas tentou me poupar de uma realidade que não era a minha – porque ali eu estava em um dos muitos Brasis.

    Na mesma ocasião, também visitei o Complexo do Alemão. Foi lá que eu conheci o Miguel, de 6 anos. Fazia pouco tempo que ele havia presenciado a morte da mãe pelas mãos de um policial na porta de sua casa.

    Sua irmã, Maynara de Moura, me contou que enquanto a sua mãe era socorrida, o garoto corria inúmeras vezes para quarto e pedia a Deus para que a mãe acordasse, em seguida voltava para a sala para ver se ela havia levantado.

    Naquele dia, afirmou o seu pai:

    “tiraram dele uma palavra que todo mundo gosta de falar: mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe!”.

    Retomo essas histórias, porque elas sempre ficaram latentes em mim. Mas, além disso, relembro porque a morte nunca deixou de rondar essas e muitas outras comunidades no RJ – ou fora dele.

    Mesmo que por vezes eu me recuse a ler as notícias para que meu coração se aflija menos com a maldade que se alastra feito fogo num rastro pólvora, a realidade dura de quem vive à margem não me deixa fechar os olhos.

    E mesmo que eu tente, tenho amigos que não me deixam fazer isso. Um deles é o Jota Marques, da Cidade de Deus. Sua trajetória demonstra uma constante luta necessária para quem vive à margem. Nos últimos dias, seus posts têm sido sobre a morte de seus vizinhos e companheiros, o que também não deixa de ser a dele, porque muito de nós se vai com quem parte.

    Por intermédio dele, fiquei sabendo da morte da menina Maria Eduarda, de 13 anos, no dia 30 de março. Maria morreu em uma escola, um lugar onde, segundo Rubem Alves, ela deveria conhecer a vida, porque “educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu”.

    No mesmo momento, sua mãe adentrou em um mundo desconhecido, que muita mulher favelada precisa encarar. Um vácuo onde não existe uma nomenclatura que classifique seu atual estado. Como diz Marcia Noleto, fundadora do Instituto MÃES SEM NOME: “… quando se perde um filho, não há nome no dicionário para qualificar esse seu novo status quo”.

    Esse é mais um texto que eu não sei como acabar. Talvez seja assim, porque não há como por fim, mesmo na letra, numa realidade tão cruel que permanece sempre matando alguém todos os dias, com o intuito de nos arrancar a esperança de vivermos livres.

  • Carnaval Sem Catracas – Belo Horizonte

    Carnaval Sem Catracas – Belo Horizonte

    No último domingo (19), o Aglomerado da Serra, maior favela de Minas Gerais, recebeu os Blocos Pula Catraca + Seu vizinho.

    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres
    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres

    O carnaval na periferia vem para afirmar que esta faz parte da cidade e carrega em si toda a cultura que representa o Brasil de forma profunda.

    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres
    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres

    O carnaval no aglomerado mostra que a festa também pode ser um ato de resistência na luta pela mobilidade urbana.

    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres

    Como diz a jornalista Eliane Brum: “A tarifa é cara justamente porque a carne humana é barata”. Lutemos!

    Foto: Leandro Barbosa (História Incomum) / Jornalistas Livres
  • Autistas apresentam melhorias consideráveis com o uso do óleo de cannabis rico em CBD

    Autistas apresentam melhorias consideráveis com o uso do óleo de cannabis rico em CBD

    Dezoito crianças e adolescentes do país, associadas da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal – AMA+ME, que sofrem com sintomas e problemas associados com Distúrbios do Espectro do Autismo (ASD), estão sendo acompanhadas pela coordenação médico científica da associação através de um estudo, tipo coorte prospectiva, coordenado pelo Dr. Paulo Fleury, médico epidemiologista, pesquisador e colaborador da AMA+ME. Todos participam de um estudo sobre o tratamento da doença por meio do Óleo de Cannabis rico em CBD (OC), conhecido como Canabidiol – produto derivado da maconha, com resultados preliminares que demonstram avanços e desafios.

    Foto: Divulgação CBDRx

    O grupo é formado na sua maioria por meninos, com idade média de 10 anos, residentes em três estados do país. Todos recebem doação do OC da marca CBDRx Prime Organics, da empresa norte americana CBDRx, sediada no Colorado (EUA), que é parceira na pesquisa. O tratamento foi buscado espontaneamente e livremente pelos responsáveis ​​pelos pacientes que obtiveram autorizações individuais de importação concedidas pela ANVISA. Tal medida adotada pela agência permitiu que a doação internacional fosse legalmente possível.

    Os pacientes apresentam sinais e sintomas nucleares e um diagnóstico prévio de autismo e são acompanhadas regularmente desde a manifestação dos sintomas. A maioria deles faz uso regular de medicação antipissicótica, muitos utilizam mais de um medicamento. Perturbações do sono, agressividade, auto agressividade, estereotipias (movimentos, gestos, emissão de sons de forma repetitiva) e distúrbios de fala e interação são comuns à maioria. Um terço sofrem convulsões e são epiléticos refratários.

    Resultados, ainda parciais e preliminares, apontam avanços: mais de 80% dos pacientes apresentaram melhorias consideráveis na redução da hiperatividade e dificuldade de concentração identificados pelos pais no registro da evolução mensal do paciente e pela avaliação clínica. Mais da metade apresentou melhorias quanto à redução e maior controle das estereotipias, agressividade e autoagressividade. Segundo observações preliminares, após análises dos registros do primeiro trimestre do estudo, também foram observadas melhorais nos distúrbios do sonso, performance cognitiva e até na autonomia da vida diária. Redução de crises convulsivas e redução de medicação também se destacam dentre os benefícios.

    Em contrapartida, três pacientes tiveram o tratamento interrompido pelos responsáveis que atribuíram o uso do OC ao agravamento da condição geral, com agitação aumentada, estereotipias e crises emocionais.

    Dos 15 pacientes que permanecem em tratamento, foram observados: sonolência, irritabilidade leve, aumento de apetite, dentre outros efeitos colaterais leves presentes em aproximadamente 20% dos casos.

    Segundo Dr. Paulo Fleury, esses resultados preliminares corroboram que o OC é potencialmente eficaz para o controle de convulsões refratárias ao tratamento com outros agentes e também indicam, fortemente, eficácia no tratamento dos principais sinais e sintomas associados ao autismo: distúrbios do sono, agitação, estereotipias e comportamentos aberrantes (arrancar cabelos, unhas, bater familiares e cuidadores) e agressivos.

    Deve-se notar que estes resultados indicam uma perspectiva de melhoria, mas não de cura ou eliminação dos problemas e dificuldades das pessoas com autismo. E, claro, o uso de OC não substitui o alto investimento em dedicação pessoal e cuidados intensivos multidisciplinares que são exigidos por esses pacientes.