Jornalistas Livres

Dia: 21 de março de 2018

  • Pearl Jam põe tucano com arma em favela carioca

    O poster do show da banda Pearl Jam hoje (21 de março) no Rio de Janeiro traz como tema a intervenção militar no estado. Seu vocalista, Eddie Vedder, sempre foi um ativista das causas sociais, em sua maioria de esquerda (de sua geração, talvez apenas o Rage Against the Machine rivalize nesse quesito). É bastante provável, portanto, que ele se manifeste sobre o assunto e sobre a execução da vereadora do Psol Marielle Franco.

    O autor da imagem é Ravi Zupa (https://www.facebook.com/RaviAmarZupa/?fref=mentions). Em nota sobre sua inspiração para o desenho, Zupa diz ser “uma homenagem ao Rio de Janeiro – especialmente aos moradores das favelas que, apesar da desigualdade obscena, encontram maneiras de construir cidades nas encostas das montanhas”. Sobre a escolha dos animais nos potes de cerâmica (tema recorrente em seu trabalho), ele disse ter retratado espécies de pássaros nativos do Brasil: tucano, papagaio e bem-te-vi.

    Sem conversar com o autor é impossível saber seu nível de conhecimento da realidade brasileira atual. E muito menos da política nacional. O inconsciente coletivo, no entanto, permeia sempre nossas produções artísticas e culturais, influenciando tanto a criação como a interpretação.

    As leituras semióticas possíveis são muitas. Além da óbvia militarização da favela, temos em primeiro plano o pássaro símbolo do PSDB, sócio de primeira hora do então PMDB no golpe de estado, portando uma AK47. Logo atrás, à direita, o papagaio remete ao clássico personagem, Zé Carioca, criado pelo próprio Walt Disney na década de 1940 em meio às estratégias da embaixada dos Estados Unidos para conseguir o apoio do Brasil aos Aliados contra a Alemanha Nazista. O “malandro carioca” já não é um personagem simpático. O verde do papagaio pode facilmente lembrar as fardas do exército. Como as cores naturais estão diferentes no desenho, as novas gerações podem tender a associar a ave a outra espécie e outro personagem: a arara Blue, do filme Rio, de Carlos Saldanha. Nesse caso, o substantivo compunha, durante a ditadura, um outro sentido com mais uma palavra: pau de arara.

    #IntervençãoÉfarsa
    #MariellePRESENTE
    #PearlJamNoRioDeJaneiro

  • Brasil é instado a tratar caso Marielle como Execução Extrajudicial

    por Gustavo Aranda

    Nessa terça-feira (20), o Brasil foi denunciado no Conselho de Direitos Humanos da ONU, por causa da execução política da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. No discurso, lido por Mariana Tavares, negra, tataraneta de pessoas escravizadas e ativista de questões raciais, o governo brasileiro foi instado a “assegurar uma investigação imediata, imparcial e independente, processando os responsáveis materiais e intelectuais deste crime”. O texto ainda pede “a abertura para a possibilidade de o assassinato ter sido uma execução extrajudicial”. E exige “proteção efetiva aos sobreviventes desse ataque, como testemunhas-chave desta atrocidade”.

    Além do discurso, foi entregue à relatora especial da ONU sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias, Agnès Callamard, um vídeo e uma carta com denúncias que relatam a perseguição e os diversos casos de violência sofridos por aqueles que denunciam as arbitrariedades cometidas pelo 41º Batalhão da Polícia Militar em Acari. A tropa é a que registra o maior número de vítimas assassinadas por policiais no Rio de Janeiro, ocorrências que fizeram parte substancial das denúncias públicas feitas pela vereadora Marielle Franco. Ativistas de Direitos Humanos afirmam que o Brasil se recusa a colocar em prática as recomendações aceitas na Revisão Periódica Universal – RPU – 2017 (encontro em que os países se avaliam mutuamente quanto à situação de Direitos Humanos, gerando um conjunto de recomendações), para reestruturar e ampliar o financiamento do Programa de Proteção de Defensores dos Direitos Humanos.

    Claramente constrangida, a missão diplomática brasileira presente em Genebra respondeu ao discurso de forma protocolar, reconhecendo a gravidade do ocorrido e se comprometendo a tomar as providências cabíveis.

    Mais de 100 entidades participaram da denúncia e ajudaram a construir o documento apresentado na 37ª sessão do Conselho de Direitos Humanos.

    Quem é Mariana Tavares

    A missão de fazer a leitura do documento em plenário foi dada a Mariana Tavares, mestranda em “Antropologia e Sociologia do Desenvolvimento” no “Graduate Institute of International and Development Studies”, em Genebra – Suíça. Ela já trabalhou na ONU, em Brasília (DF), com Direitos Humanos e é militante da causa racial.

    Mariana Alves Tavares, de Campinas, é tataraneta de escravos (Foto: Arquivo pessoal)

    Mariana é uma jovem negra, nascida em Campinas, tataraneta de Sebastiana Sylvestre Correa, escravizada até os 29 anos, quando foi alforriada pela Lei Áurea. Sebastiana não realizou o sonho de aprender a ler e escrever. Por isso, lutou muito para que suas gerações futuras tivessem acesso à educação. Mariana ressalta que “sua tataravó deve ser lembrada por sua luta, e com muito respeito por sua história de resistência e perseverança”.

    Sebastiana Sylvestre Correa, tataravó de Mariana (Foto: Arquivo pessoal)

    Entrevistada pelos Jornalistas Livres, por telefone, Mariana Tavares relatou sua dificuldade em vencer a timidez e a pressão por apresentar um tema tão triste e complexo para a realidade brasileira. Contudo, ela “reconhece a importância de uma mulher afro-brasileira falando para outras mulheres afro-brasileiras”.

    Mariana ficou sabendo da morte de Marielle na manhã de quinta-feira, um dia após a execução, e foi acometida por uma tristeza profunda. Para não ceder ao sentimento de impotência, se mobilizou na organização de uma manifestação em Genebra e, para tanto, procurou Paulo de Tarso Lugon Arantes, um dos articuladores da denúncia feita no Conselho da ONU. Foi, então, que Paulo falou sobre a denúncia e sugeriu que ela fizesse a leitura do discurso.

    Mariana não só leu, como participou ativamente da confecção do discurso, ressaltando, porém, que “o documento é resultado coletivo de todas as organizações que participaram de sua elaboração. Minha contribuição tem o mesmo peso de todas as outras entidades”. Segundo ela, o texto inicial tinha o dobro do que foi apresentado e, por uma questão de tempo, algumas demandas das entidades foram retiradas do documento final.

    Ela espera que o caso seja solucionado pelas autoridades e “seja aberta uma comissão transparente e independente para investigar e apurar a execução de Marielle e Anderson Gomes”. Acredita que “a Intervenção Militar deve ser revogada”. Para a ativista, a violência nas comunidades atingidas é de ordem estrutural, social e econômica. “Não será com mais repressão que os problemas históricos das comunidades pobres serão resolvidos”, afirma.

    Mariana enxerga o Brasil hoje sendo cobrado pelo mundo: “A pressão política e diplomática não vem só do Conselho de Direitos Humanos, mas também do Parlamento Europeu e de diversos países que se manifestaram publicamente sobre o caso”.

    “Foi chocante não só para os brasileiros que moram no Brasil ou no exterior. O mundo inteiro está comovido! Na faculdade, os professores comentam em aula, alunos se mobilizam e querem se informar sobre as consequências dessa tragédia”.

    Na próxima sexta-feira (23), haverá uma manifestação na Place des Nations, Genebra – Suíça, em frente ao prédio da ONU, no mesmo dia do encerramento dos trabalhos do Conselho de Direitos Humanos. Mais de 700 pessoas, de diversas nacionalidades, confirmaram presença no evento, que será realizado em três línguas: Francês, Inglês e Português.

    O texto do convite afirma que “Marielle Franco era uma ativista e líder política das favelas e do movimento feminista afro-brasileiro. Vereadora da cidade do Rio de Janeiro, defendia os direitos dos moradores das favelas e pessoas afrodescendentes. Em 14 de março, ela foi brutalmente executada depois de deixar um evento chamado ‘Jovens negras movendo as estruturas’. No caminho de volta para casa, Marielle foi baleada quatro vezes na cabeça e ela e seu motorista morreram no local”. O convite ressalta, ainda, que Marielle lutava contra a decisão federal de colocar as forças armadas no comando da Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro: “ela temia que essa intervenção levasse à ocupação brutal das favelas e agravasse as condições de vida dos afro brasileiros.”

    Em seu discurso na ONU, Mariana Tavares foi hábil na leitura, para que sobrasse dois segundos para um improviso. Em tom emocionado disse ao mundo: Marielle, PRESENTE!

    Veja a denúncia feita no Conselho de Direitos Humanos da ONU

    https://www.facebook.com/jornalistaslivres/videos/714572878666592/

  • CURSO DE MEDICINA DA UEMG PEDE SOCORRO

    CURSO DE MEDICINA DA UEMG PEDE SOCORRO

    Por Laura Abreu, para os Jornalistas Livres

     Na tarde dessa terça-feira (20) alunos do curso de medicina da UEMG da cidade de Passos se manifestaram contra o desmonte do curso. Reivindicando novos laboratórios, professores e contratos com órgãos terceirizados, os estudantes seguem pedindo por direitos que vem sendo negados também para outros cursos da instituição, que ainda vive uma transição de prédio e administração que prejudica os estudantes.

    Com duas semanas de aula e sob ameaça de fechamento do curso, os alunos foram às ruas visando chamar a atenção do reitor da Universidade para o descaso e desestrutura que o curso se encontra.

    Foto por Lucas Ferri, para os Jornalistas Livres

    Uma novidade na universidade, o curso de medicina foi aprovado por um projeto pedagógico inovador e sofre com a irresponsabilidade e a falta de atenção do governo e da reitoria, que prometeram a resolução dos problemas estruturais, mas não cumpriram.

    Os problemas são tantos que a coordenação do curso entregou a responsabilidade para a Direção Acadêmica da unidade. Não há professores suficientes para o preenchimento das vagas do processo seletivo, a entrega do laboratório de anatomia está atrasada, atrapalhando todos os cursos da área de saúde e a perda dos contratos com órgãos terceiros -como a Santa Casa- influenciam, negativamente, na formação dos alunos.

     

    Essa semana o curso encontra-se paralisado para tentar resolver a situação, porém sem previsão para retomar as aulas. A recente estadualização da unidade, a falta de concurso público e o esquecimento da reitoria e do governo são fatores influenciadores para os problemas estruturais que não só o curso de medicina encontra, mas também os mais de 20 cursos que a instituição oferece.

     

    Foto por Lucas Ferri, para os Jornalistas Livres

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Em meio ao grito de UEMG RESISTE, muitos estudantes afirmam que a vontade de resistir vai diminuindo quando não há nada além de promessas. Durante o ato, os alunos afirmaram que não querem só promessas, mas uma universidade que seja realmente pública e de qualidade.

    *Editado por Agatha Azevedo

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Como provar que Lula é inocente para quem não quer acreditar

    Como provar que Lula é inocente para quem não quer acreditar

    Por Maria Júlia Morenno

    Por que Lula foi condenado?

    Porque atribuíram a ele um tríplex que nunca o pertenceu. O juiz Sérgio Moro e o TRF-4 consideraram que o apartamento seria pagamento por corrupção e uma forma de lavar dinheiro.

    Os juízes estão errados?

    Sim. Estão errados.

    A condenação é injusta?

    Sim. Lula é 100% inocente. Ele não cometeu nenhum crime.

     

    Mas vi por aí que tem recibo, vídeo de visita ao prédio e tudo o mais…

    Não há nenhuma prova. Vamos discutir cada uma dessas alegações.

    Tá bom, vou começar. Qual a relação do Lula com o apartamento no Guarujá?

    Em 2005, dona Marisa comprou uma cota para adquirir um apartamento no edifício Solaris, o ap. 141. E ela pagou as prestações normais até 2009, quando a construtora original, a Bancoop, faliu.

    E aí?

    Aí a OAS assumiu a construção.

    OAS, aquela enrolada na Lava-Jato por causa da roubalheira na Petrobrás?

    Não. A OAS da Petrobrás é a Construtora OAS. A do prédio é a OAS Empreendimentos. São caixas separados de um mesmo grupo.

    Hum. E o que aconteceu?

    A OAS propôs para ele e para a Marisa um apartamento maior, o número 164-A. O tal tríplex.

    Taí: corrupção!

    De jeito nenhum. Ficou combinado entre Lula e Leo Pinheiro – então presidente da empresa – que a OAS poderia fazer a reforma sem compromisso. Se Lula e Marisa gostassem, comprariam pelo preço de mercado.

    Ahá! Então o Lula visitou mesmo o prédio?

    Visitou, sim. Com o Leo Pinheiro. Ele nunca negou isso. Tem vídeo e tudo.

    Mas como o presidente da construtora se presta ao papel de corretor?

    O cliente potencial era um ex-presidente da República. É praxe no mercado colocar o executivo mais graúdo no trato com autoridades e ex-autoridades.

    E a Marisa foi mais de uma vez?

    Sim. Ela foi duas vezes.

    Por quê?

    Porque ela não havia gostado do apartamento. O Leo Pinheiro perguntou como ela acharia que ficaria melhor. Ela deu palpites, sempre sem compromisso.

    Mas a OAS não estava fazendo isso a troco de nada.

    Claro que não. A construtora queria influenciar o presidente, manter boas relações. Novamente, esse tipo de assédio é comum no mundo dos negócios.

    Assédio, não! É corrupção!

    Não. Primeiro porque não havia obrigação de compra, mas se o casal Lula quisesse comprar, pagaria o preço de mercado. Segundo – e principal: quem se corrompe tem de dar algo em troca.

    Aposto que o Lula deu.

    Não deu, não. Quem diz isso não sou eu, é o próprio Sérgio Moro. Ele reconhece que um eventual dinheiro da OAS não foi usado no tríplex.

    Como assim? O Moro reconhece que não houve corrupção?

    Está lá na sentença dele: “Este Juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram utilizados para pagamento da vantagem indevida para o ex-presidente”.

    Peraí, não pode ser! Tem várias provas de que ele o Lula recebeu o tríplex por corrupção.

    Vamos examinar essas “provas”. Mas podemos concordar numa coisa pelo menos? O Lula nunca foi o dono de fato do imóvel.

    Certo, mas geralmente os corruptos usam laranjas.

    Mas no caso a dona era a própria OAS. E o imóvel foi usado como garantia da construtora numa outra operação. Você não faz isso com um imóvel que não é seu ou que está reservado para outra pessoa.

    Qual o número do tríplex?

    Ap. 164-A.

    E do apartamento em que eles tinham cotas?

    Ap. 141.

    Agora eu te peguei! Tem uma prova que é o recibo rasurado de um pagamento da Marisa para a construtora que faliu, a Bancoop.

    O recibo não está assinado.

    Não importa! Estava escrito “164-A” e alguém escreveu por cima “141”. Como você explica isso?

    O funcionário da Bancoop preencheu errado, o que invalidou o recibo.

     

    Mentira!

    É verdade. De novo, não sou eu quem está dizendo. É a Polícia Federal. A perícia da PF comprova que a rasura foi feita quando as três vias estavam no mesmo documento.

    Mas se o recibo estava incorreto, o funcionário precisa ter feito outro! A Marisa tinha esse recibo?

    Sim.

     

    Sério?

    Sério. Está nos autos do processo para quem quiser consultar.

     

    Só que tem uma outra prova: a declaração no imposto de renda do Lula das cotas do ap. 141. Isso é lavagem de dinheiro!

    Lavagem como?

    Ué, se ofereceram o tríplex, que era o ap. 164-A, não podiam ter declarado o ap. 141!

    Ele nunca tive o ap. 164-A. Como poderia declarar o que nunca teve? Não custa lembrar: o tríplex foi uma oferta do Leo Pinheiro sem garantia de compra. Lula e Marisa decidiram não comprar.

    Mas se o ap. 141 era da Marisa e do Lula, porque a OAS o vendeu em 2014? Te deixei sem saída, hein!

    Porque quando a Bancoop faliu, a Marisa perdeu o prazo para confirmar a possa e pagar o resto para a OAS. O apartamento ficou disponível e a grana dela e do Lula ficou com a construtora. Em 2016, como te falei, eles pediram o dinheiro de volta.

    Cara, não é possível que o Lula seja inocente… Tem o depoimento do Leo Pinheiro!

    É uma delação premiada. Muitos juristas concordam que é muito, muito complicado considerar uma delação premiada como prova. O delator tem interesse direto em contar algo que o ajude a se safar. Mesmo que seja uma invenção. Ainda mais no caso do Leo Pinheiro, que mudou de opinião enquanto estava preso.

    Como assim?

    Mesmo quando foi preso pela primeira vez, em novembro de 2014, ele reconheceu que não havia qualquer envolvimento do ex-presidente. Cinco meses depois ele foi solto por decisão do STF e no ano seguinte sua delação foi recusada. Ele foi preso novamente e, sem Lula na delação, a pena de Leo Pinheiro foi aumentada em 10 anos. Foi só depois de sete meses na prisão, condenado a cumprir mais 26 anos que Leo Pinheiro se dobrou e resolveu incriminar Lula para obter uma redução de pena.

    E obteve?

    Sim. E muito: inacreditáveis 23 anos de redução e foi imediatamente colocado em regime aberto. Um grande negócio, hein! Com Moro, diminuiu de 16 anos (de 26 anos e 7 meses para 10 anos e 8 meses). No TRF-4, a segunda instância do processo, caiu mais 7 anos: para apenas 3 anos e seis meses, o que o levou automaticamente para o regime semi-aberto.

    Disso eu não sabia… Mas como terminou a história do apartamento?

    A reforma ficou pronta e o Leo Pinheiro avisou o casal Lula e Marisa. Eles não gostaram e não ficaram com o apartamento. Em 2016, eles pediram o dinheiro de volta para a OAS.

    E quem é o dono do apartamento hoje?

    A OAS sempre foi a dona, mas empenhou o apartamento como garantia de dívidas. Os credores cobraram e Moro decidiu leiloar. Ainda assim, destacou na decisão:

    “O imóvel será vendido em leilão público e o produto da venda será depositado em conta judicial, com os valores sendo destinados, após o trânsito em julgado, à vitima no caso de confirmação do confisco ou devolvidos à OAS Empreendimentos ou ao ex-Presidente no caso de não ser confirmado o confisco.” 

    Ou seja, pra você ver a bizarrice, o dinheiro do leilão ou vai para o Lula ou para o Leo Pinheiro. Seria cômico se não fosse trágico. É absurdamente injusto.

    Só isso?

    Só.

     

     

  • Sargentos gays vão ao CNJ contra desembargadora que caluniou Marielle

    Sargentos gays vão ao CNJ contra desembargadora que caluniou Marielle

     

     

    Os sargentos gays FERNANDO ALCÂNTARA DE FIGUEIREDO e LACÍ MARINHO DE ARAUJO ganharam fama em junho de 2008, quando denunciaram a homofobia institucional no Exército do Brasil. Primeiro casal homossexual assumido na ativa das Forças Armadas no Brasil, os dois foram matéria de capa da revista Época, o que lhes custou uma série de retaliações envolvendo ordem de prisão, atentados e até mesmo tortura física. O caso de ambos os sargentos já foi admitido pela Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acolheu a denúncia deles e transformou o Estado brasileiro em RÉU, acusado do crime de ódio; no caso, homofobia.

    Desde então, Fernando e Lací lutam pelo reconhecimento de seus direitos e de todos aqueles que sofrem com o preconceito. Assim, em 1º de dezembro de 2010, fundaram o Instituto SER de Direitos Humanos e da Natureza, organização sem fins lucrativos que atua em direitos sociais e ambientais.

    A desembargadora MARÍLIA CASTRO NEVES, em foto no seu perfil do facebook

    Dessa forma, entre outras frentes de luta, eles ingressaram nesta terça-feira (20/3) com uma Reclamação Disciplinar junto ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), contra a flagrante atuação degradante por parte da desembargadora MARÍLIA CASTRO NEVES, que escreveu um post nas redes sociais, em que caluniou a vereadora assassinada Marielle Franco, dizendo que ela “estava engajada com bandidos” e “não era apenas uma lutadora”.

    Fernando e Lací requisitaram ao CNJ a “urgência” e a “punição” que o caso requer. Abaixo, a reclamação deles, entregue ontem ao CNJ.

  • Contra a privatização da água

    Contra a privatização da água

    por Adriana Castro (texto e fotos), especial para os Jornalistas Livres

    Durante a abertura do 8º Fórum Mundial da Água, na manhã desta segunda-feira (19/3), Michel Temer informou que o governo trabalha em um projeto de lei cujo objetivo é “modernizar” o marco regulatório do saneamento básico. Sem mais detalhes, a proposta causou reações imediatas.
    A informação não é novidade, mas acende o alerta vermelho. Sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) adiantam que a proposta temerosa nada mais é do que Medida Provisória do Saneamento, que abre as portas do setor para a privatização nos municípios superavitários e o sucateamento ainda maior dos municípios deficitários, onde os serviços já são ruins. Esse é o futuro “moderno” do saneamento no país, caso seja aprovada a Medida Provisória.

    Água não é mercadoria

    Com visões de mundo diametralmente opostas e divergentes, dois grandes eventos – o 8º Fórum Mundial da Água e o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) – acontecem simultaneamente em Brasília. O primeiro, conta com patrocínio da Petrobras e Nestle, do combalido Sistema Único da Saúde/Funasa, da Sabesp, da Eletrobras e custo, não confirmado, de 120 milhões. De euros… São mais de 40 mil participantes, o que esgotou a capacidade da rede hoteleira na cidade. Cada participante tem que desembolsar algo em torno de dois mil reais para a inscrição.

    Já o FAMA, promovido pelos movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade se pagou por meio de doações, a entrada é gratuita e reúne seis mil participantes no Parque da Cidade, com 38 delegações estrangeiras e representantes de todas as regiões brasileiras.

    A discussão central é uma só: a privatização da água. “Água é direito não mercadoria” é a bandeira do Fórum Alternativo Mundial da Água que até quinta-feira irá debater e propor políticas públicas e mobilização nacional contra a privatização da água.

    A ideia é enfrentar a onda de privatização empreendida pelo governo golpista, que atualmente mira o saneamento básico e os setores de água e energia, este expresso na venda da Eletrobras e no desmonte da Petrobras.

    Mas os ataques não são apenas do Executivo. Aberto à consulta pública, o projeto de lei nº 495/2017, do senador tucano Tasso Jereissati cria “o mercado da água”.

    No FAMA há o consenso de lutar por um modelo público e de qualidade. E argumentos não faltam para embasar a proposta. Nos últimos anos vários serviços de água foram municipalizados. Na França, por exemplo, já são 106 municípios que retomaram da iniciativa privada os serviços de abastecimento d’agua. No mundo todo são 267 casos nos Estados Unidos, Alemanha, Argentina e Canadá.

    Água para matar a fome

    Rosmari Malheiros, diretora da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), reafirmou a importância da água na produção de alimentos. Levar alimentos a mesa dos brasileiros é algo feito por pequenos e médios agricultores, responsáveis por plantar em torno de 70% de tudo que comemos.

    Ela adiantou que os movimentos sociais do campo e da cidade estão unidos. “Vamos lutar pela não-mercantilização da água”, garantiu. Não só os agricultores. Os indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, estão representados no FAMA. Nesta terça-feira, por exemplo, os jovens Krenak participam de debates sobre o impacto do crime da Samarco na terra indígena em Resplendor (Minas Gerais). Passados dois anos do “acidente”, os Krenak dependem de caminhões-pipa para o abastecimento. Os peixes do rio Doce desapareceram há dois anos, anteriormente base da alimentação da população indígena.

    No último final de semana, mais de 200 atividades foram realizadas na Universidade de Brasília (UnB). A programação continua até quinta-feira, desta vez no Parque da Cidade. Caravanas de todo canto do país ainda estão chegando. Serão mesas de debate, atividades culturais e a plenária final com a redação e votação do documento final.

    A luta pela água em Correntina, Bahia

    Na Bahia, a luta popular contra a privatização da água no município de Correntina, a 920 km
    de Salvador, tem sido um dos destaques da atualidade.

    O geraizeiro Jamilton Santos de Magalhães, da comunidade Fundo e Fecho de Pasto, conhece de perto o drama de quem precisa concorrer com a força política e econômica do agronegócio.

    Para se ter uma ideia, os ruralistas respondem por cerca de 75% da captação de água de toda a Bacia do Rio São Francisco, responsável pelos afluentes que deságuam na região. A atividade compromete diretamente o acesso ao recurso por parte dos segmentos populares.

    “Todo mundo sabe que, quando o agronegócio chega, muda tudo num local, aí a comunidade precisa lutar muito pra poder consumir água e pra manter o cerrado de pé. É uma luta dura, mas nós somos guardiões do cerrado e vamos continuar, porque ninguém pode morrer de sede estando na margem de um rio”, desabafa o geraizeiro.

    A privatização e a contaminação dos recursos hídricos comprometem diretamente a manutenção dos biomas. No caso do cerrado, mais de 50% da área já foram destruídos. Segundo pesquisadores que atuam na região Centro-Oeste, todos os anos cerca de dez córregos ou rios desaparecem por conta do desequilíbrio ambiental. “Se a gente não aprender a preservar isso, as consequências serão ainda mais graves no futuro”, sublinha Isolete Nichinieski.

    O bioma tem um valor central para o meio ambiente e é responsável pela distribuição de boa parte da água que abastece o Brasil e a América do Sul. É dele que nascem os principais rios brasileiros, com destaque para as Bacias Amazônica, do São Francisco e do Prata.

    Água pode significar morte!

    “Em decorrência do sistema capitalista que exclui a maioria da população do direito à cidadania e do acesso às fontes essenciais, o quadro mundial de distribuição do consumo de água é aterrador.
    De acordo com o Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado em julho de 2017, mais de dois bilhões de pessoas, que representa cerca de 30% da população mundial, não têm acesso à água potável.

    Além disso, mais de 60% não são atendidas por serviços seguros de saneamento – dessas, 160 milhões tem como única alternativa o consumo de água não tratada de fontes superficiais, como córregos e lagos. Como resultado, 361 mil crianças morrem com menos de 5 anos devido à diarreia.

    Há também o alarmante número de 263 milhões de pessoas que se deslocam mais de 30 minutos para ter acesso a uma fonte segura de água. Nesse caso, é importante frisar a questão de gênero, já que a maioria desse montante é de mulheres, historicamente responsabilizadas pelos serviços domésticos e de cuidados. São diversos os exemplos ao redor do mundo de mulheres que caminham quilômetros com recipientes de água na cabeça para abastecer as necessidades para a reprodução da vida.

    Precisamos utilizar esta semana para expor todos esses casos de violação dos direitos fundamentais do ser humano, mas, sobretudo, reunir forças para continuar na luta em defesa da água e da vida.”

    (Da Assessoria de imprensa / FAMA – http://fama2018.org/2018/03/19/agua-e-direito-nao-mercadoria/ – por Guilherme Weimann, jornalista e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); integra a equipe de comunicação do FAMA.)