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Governo Federal financia entidades para dependentes químicos denunciadas por maus-tratos e irregularidades

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Da BBC Brasil.Reproduzida pelo coletivo Transforma MP.

O governo federal financia cinco comunidades terapêuticas denunciadas por praticar uma série de irregularidades, como maus-tratos a dependentes químicos, violação de correspondências e alta mediante conversão religiosa.

Os problemas nessas cinco instituições religiosas sem fins lucrativos foram identificados em 2018 por membros do Ministério Público Federal, dos Conselhos Federal e Regional de Psicologia e do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, órgão federal dissolvido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) na semana passada.

Por meio de depoimentos de pacientes e funcionários, os membros da comissão também constataram problemas como tratamento baseado majoritariamente em espiritualidade, isolamento da família, prisões de internos em quartos, trabalhos forçados e punições por faltas a cultos religiosos.

As irregularidades foram constatadas nas comunidades Jovem Maanaim, Esquadrão da Vida, Jovem Ebenezer, Caverna de Adulão, Salve a Si.

Procuradas pela BBC News Brasil, as comunidades terapêuticas negaram os problemas apontados, e parte afirmou ter havido uma “análise ideológica” por parte dos órgãos fiscalizadores.

Já o governo federal não explicou os motivos da manutenção dos contratos, mas disse que exige das comunidades a contratação de profissionais graduados em ciências humanas e saúde, além de liberdade religiosa para os internos – também diz que estão previstas vistorias a cada 12 meses de contrato.

Os contratos foram assinados sem licitação, meses após a divulgação do documento que apontava os problemas. Ao todo, as cinco instituições devem receber aproximadamente R$ 2 milhões dos cofres federais neste ano.

A participação das comunidades terapêuticas (CTs) na Política Nacional sobre Drogas vem se tornando o principal mecanismo de combate à dependência química da gestão Bolsonaro. Mas a política foi iniciada por Dilma Rousseff, do PT. Segundo dados do governo federal, foram repassados cerca de R$ 234 milhões para 384 entidades deste tipo de 2015 a 2018, em valores nominais.

Em março, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, aumentou em 78% o número de entidades do tipo contratadas (de 280 para 497), também sem licitação. Neste ano, serão repassados R$ 149 milhões para custear 10,8 mil vagas.

Esse movimento vem na esteira da nova Política Nacional de Drogas, projeto de lei aprovado pelo Senado em maio. O texto facilita internações involuntárias em unidades de saúde e fortalece as comunidades terapêuticas.

Essas entidades agora podem receber dinheiro de isenção fiscal – pessoas e empresas podem deduzir no Imposto de Renda doações feitas às comunidades.

Existem três tipos de internações previstas na lei: a voluntária, a involuntária (quando o dependente é levado pela família ou por um agente de saúde) e a compulsória – quando há determinação da Justiça.

Liberdade religiosa

As comunidades terapêuticas são um dos vários modelos de atenção a dependentes oferecidos pela saúde pública. Em geral, são residências coletivas que promovem o modo de vida em abstinência.

Os leitos, oferecidos gratuitamente, são financiados pelo governo e cada um custa R$ 1.172 por mês. Os internos têm o direito de abandonar o tratamento a qualquer momento, mas nem sempre é o que ocorre na prática.

Uma das principais críticas feitas por especialistas e procuradores ao modelo passa pela relação entre o tratamento de dependentes químicos e proselitismo religioso.

Das quase 2.000 comunidades terapêuticas no país, segundo estudo do Ipea (instituto de pesquisa vinculado ao Ministério da Economia), 82% disseram ter ligação com igrejas e organizações religiosas – 40% pentecostais e 27% católicas.

A leitura da Bíblia é uma atividade diária em 89% delas, e a participação em cultos e cerimônias religiosas é obrigatória em 55%.

Segundo as vistorias feitas pelo CFP e o MPF, grande parte das 28 instituições não oferecia liberdade religiosa – ou seja, internos eram punidos ou expulsos caso não participassem dos cultos.

Uma das denunciadas foi a Jovem Maanaim, ligada a uma igreja evangélica da cidade mineira de Itamonte, a 385 km de Belo Horizonte. A instituição firmou um novo contrato com o governo federal em dezembro passado, durante a gestão Michel Temer, dois meses após a divulgação da vistoria.

Neste ano, a entidade já recebeu R$ 146,5 mil dos R$ 281 mil previstos no contrato. Desde 2014, a comunidade obteve R$ 911 mil do erário.

De acordo com o relatório, a Jovem Maanaim só concede alta terapêutica aos dependentes químicos se eles se converterem ao Evangelho.

“Como não há acompanhamento da evolução de cada caso, o único critério de alta é a conversão e adoção dos preceitos religiosos cuja demonstração pública e convencimento dos obreiros constituem a ideia de tratamento concluído. Há certo obscurantismo”, afirma o documento.

Uma travesti relatou ter sido proibida de vestir roupas femininas, pois o pastor teria lhe dito que “aquele comportamento era possessão do espírito maligno ou ‘pombagira’” – segundo o mapeamento do Ipea, os acolhidos não têm permissão para escolher a própria roupa em 38% das comunidades terapêuticas.

A unidade negou todas as irregularidades apontadas, afirmando que o relatório é enviesado. “A vistoria foi realizada por uma pessoa que não é qualificada para o trabalho, nada ali é fidedigno”, disse Marcos Vinicius Vitorino, gestor administrativo da casa.

Ele também refuta acusações de maus-tratos e de falta de liberdade religiosa. “Há pessoas que inventam que foram abusadas para sair da comunidade. E aqui temos pessoas ateias e católicas”, disse.

‘Momentos devocionais’

A Esquadrão da Vida, de Montes Claros (MG), também foi acusada de proselitismo religioso – ela vai receber R$ 253 mil do governo.

“Não há liberdade religiosa, na medida em que todos são obrigados a participar dos momentos denominados ‘devocionais’. A cada dia, um interno é responsável pelo devocional, que significa escolher uma parte da Bíblia para ser lida. O interno que não se apresentar para o momento da reza será disciplinado (punido)”, diz o relatório.

A BBC News Brasil não conseguiu contato com os responsáveis pelo local.

Na comunidade Jovem Ebenezer, em Seropédica (RJ), os fiscais também relataram que cultos evangélicos diários são o ponto mais importante do tratamento. “Quando uns se mostram mais isolados, ou quando destoam do comportamento tido como desejável, eles são imediatamente interpelados por um dos monitores, que os chamam ao convívio, à fé, à crença, às normas desejáveis. A não adesão implica no afastamento.”

A unidade vai receber R$ 422 mil dos cofres federais neste ano.

Responsável pela entidade, o pastor Aldemir Gomes de Paiva afirmou que “ninguém é obrigado a se converter ali, já que a presença de todos dos acolhidos é voluntária, e o trabalho espiritual serve mais como um alento para quem está nessa situação (de vício)”.

Afirmou ainda que a instituição atua dentro da legislação e que os acolhidos são acompanhados individualmente por psicólogos e profissionais da rede pública de saúde.

Para Jardel Fischer Loeck, pós-doutorando em Saúde Coletiva na Unisinos, integrante da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas e autor de um dos estudos do volume do Ipea “Comunidade Terapêuticas – Temas para Reflexão”, nem todas as entidades buscam necessariamente (ou unicamente) a conversão religiosa dos acolhidos, mas esse método se repete em muitos centros.

“Ao mesmo tempo, a busca pela transformação moral pode passar pela conversão religiosa. O mais importante é que se tratam, sim, de projetos de conversão (lida dessa maneira mais ampla) e que tendem a não comportar especificidades individuais. Pelo contrário, buscam homogeneizar as experiências individuais para que a retórica terapêutica sirva a todos, apesar das diferenças entre as pessoas”, afirma Loeck.

Pablo Kurlander, gestor-geral da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas, critica generalizações sobre o segmento. Segundo sua entidade, uma comunidade terapêutica precisa oferecer, entre outras coisas, acolhimento apenas voluntário, garantia de direitos básicos como liberdade religiosa e acesso ao mundo externo, acompanhamento individual, atendimento multidisciplinar, ligação com a rede pública de saúde e fiscalização frequente.

Isolamento e abstinência dos internos

Outra controvérsia se refere à abstinência mediante isolamento dos dependentes químicos, meta da nova política sobre drogas. Os pacientes chegam a ficar internados por meses e até anos, muitas vezes sem qualquer contato com o exterior.

Essa lógica, segundo o Conselho Federal de Psicologia, pode se assemelhar à dos manicômios, que perderam força no país desde a reforma psiquiátrica em 2001.

Quem é a favor dessa linha afirma que é preciso retirar o usuário do ambiente de consumo da droga e que só a interrupção do uso pode acabar com o vício.

Em geral, entidades de classe de psicólogos e de médicos costumam apoiar a chamada política de redução de danos – conjunto de práticas de saúde adotadas em diversos países com o objetivo de diminuir os efeitos causados pelo uso de drogas em pessoas que não conseguem ou não querem parar – e a abstinência pode ser uma das abordagens.

“A generalização do ideal de abstinência total como desejável para todos leva, em muitos casos, pessoas a alternarem entre estados de intoxicação total e abstinência total. Ou seja, é uma leitura totalizante do indivíduo que usa drogas, que não abre margem para arranjos diferentes, particulares, relacionados ao uso de drogas e ao cuidado em saúde”, afirma Jardel Loeck.

Por outro lado, em sua tese de doutorado sobre comunidades terapêuticas, Pablo Kurlander aponta para “a abstinência como fator que aumenta a chance de melhores indicadores de qualidade de vida, podendo ser tanto causa quanto efeito, mas isso não significa que ninguém possa ter qualidade de vida boa se fizer uso não problemático de substâncias psicoativas”.

O psicólogo Paulo Maldos, membro do Conselho Federal de Psicologia, participou das visitas às comunidades Salve a Si e Caverna de Adulão, ambas no Distrito Federal. As duas também foram contratadas pelo governo por R$ 844 mil e R$ 168 mil, respectivamente. No relatório, elas receberam diversas críticas.

“Ambas repetem o isolamento das pessoas, o corte de relações com os familiares até por meio de controle das correspondências, que são lidas por funcionários antes de chegarem aos internos”, diz Maldos. “No nosso ponto de vista, essa não é a melhor forma de enfrentar o problema. Não há trabalho individualizado para cada paciente e não há qualquer projeto de vida para ele fora dali”, diz.

Na comunidade Caverna de Adulão, os acolhidos chegam a ficar três meses sem qualquer contato com o exterior – a reportagem não conseguiu contato com os responsáveis. Já na Salve a Si, o tempo mínimo de internação é de seis meses.

Fundador da casa, Henrique França nega todas acusações contra a unidade, como violação de correspondências. “Esse relatório é alimentado por uma ideologia tendenciosa. Quem fez essa vistoria é anti-religião e anti-família”, disse. Também afirmou que a unidade passa por vistorias mensais feitas pelo governo do Distrito Federal.

Entidades contratadas pelo governo são obrigadas a oferecer um Plano de Atendimento Singular (PAS), em que são registrados o histórico, os dados e o planejamento da saída do acolhido com a anuência voluntária do próprio ou de familiares. O acolhimento pode se estender por até 12 meses consecutivos ou intercalados, no intervalo de 24 meses.

Para Kurlander, da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas, um dos principais trunfos do modelo é, ante a escassez de equipamentos públicos, ter uma capilaridade muito maior que a rede pública de saúde, principalmente em municípios menores e zonas rurais.

Já Rogério Giannini, presidente do Conselho Federal de Psicologia, afirma que as comunidades terapêuticas trabalham de forma intuitiva – ou seja, não há métodos científicos ou médicos. “A religiosidade é imposta às pessoas. Raramente existe tratamento individualizado ou projeto terapêutico para cada paciente”, diz.

Ele também critica a falta de fiscalização e estudos sobre a efetividade dos tratamentos oferecidos. “Não há qualquer estudo do governo para medir o impacto e efetividade desses tratamentos. Não há nada que aponte quais comunidades produziram resultados. É uma política baseada em preceitos religiosos, intuição e ideologia.”

Questionado, o Ministério da Cidadania não soube informar qual é a taxa média de recaída dos dependentes químicos em comunidades terapêuticas financiadas pelo governo federal.

Terapia do trabalho

Pesquisa do Ipea mostrou que 92,9% das comunidades terapêuticas do país usam a laborterapia como método do tratamento. O documento do MPF e do CFP também aponta que várias casas utilizam ex-internos na monitoria dos dependentes químicos – e parte delas não remunera esses funcionários.

Na comunidade Salve a Si, por exemplo, “houve relatos de uma carga de trabalho por um período de duas horas e meia diárias, no entanto, muitos trabalhavam além desse horário”, segundo o relatório dos inspetores.

“Uma pessoa estava lá há dois anos com a justificativa de ter se tornado um voluntário trabalhador da casa, porém, sem receber salário e com direito somente a uma ajuda de custo”. A entidade nega a acusação, dizendo que houve um engano por parte dos fiscais.

Já na Esquadrão da Vida, dois monitores sem formação em saúde são os responsáveis pelo local. “Eles trabalham por turnos de sete dias, alternando-se durante o mês. Cuidam de todos os detalhes do cotidiano: tocar o sino para demarcar os horários de despertar, rezar, trabalhar. Também decidem sobre a utilização dos espaços de oficina e acompanham as ligações realizadas pelos internos para seus familiares. Os monitores são os principais agentes de ‘cuidado’ da CT.”

Mas a carga de trabalho chega a ser mais problemática e afetar a saúde dos internos em outros locais.

O relatório cita o caso da Casa de Resgate Emanuel, de Bandeira do Sul (MG). “Não são distribuídos equipamentos de proteção individual para os internos executarem tarefas. A equipe de visita recebeu sérios relatos de pessoas que tiveram sua visão afetada (‘queimada’) por trabalharem com solda sem a devida proteção.”

Embora não faça parte dos novos contratos da gestão Bolsonaro, a Casa de Resgate Emanuel recebeu R$ 656 mil do governo federal de 2014 a dezembro do ano passado – mesmo após ter sido acusada maus-tratos, ela ainda foi beneficiada por três repasses de verbas.

Para Rogério Giannini, do Conselho Federal de Psicologia, esse tipo de terapia é “escandalosa”. “Na prática, o que acontece é que as pessoas fazem trabalhos domésticos sem remuneração, como limpeza, manutenção, pintura e até segurança das unidades. São tarefas forçadas que não acrescentam em nada”, diz.

Disciplina e punições

A disciplina passa por diversos aspectos da rotina, segundo pesquisa do Ipea. Metade proíbe faltas a cultos e cerimônias religiosas e um terço veta que essas pessoas escolham o próprio corte de cabelo. Mesmo a prática mais permitida, assistir à TV, não é indiscriminada – parte só exibe programas religiosos ou noticiários em determinados horários.

“O baixo percentual de CTs que permitem que os acolhidos mantenham relações sexuais com seus parceiros (6,3%) e com os demais residentes (0,8%) também é digno de destaque, revelando a quase unanimidade com que a sexualidade dos acolhidos é vista também como problemática e, de alguma forma, associada ao consumo de drogas”, afirma o Ipea.

Conselheiro do CFP, o psicólogo Paulo Maldos presenciou esses aspectos em suas vistorias. “Relações afetivas e sexuais eram vistas como prejudiciais ao tratamento”, relata.

“O trabalho terapêutico é focado na culpa e no remorso. Ou seja, a pessoa é constantemente lembrada dos males que causou à família, às pessoas, aos amigos. Não se fala sobre os pontos positivos da pessoa, mascarando as questões que as fazem mal”, diz.

Na comunidade Jovem Maanaim, havia internos presos em quartos por até uma semana como punição por desvios disciplinares, segundo o documento.

“Dependendo do grau da infração, o adolescente, ou a moça interna, permanece dentro do quarto por uma semana, apenas em companhia da Bíblia”, escreveram os fiscais com base em depoimentos de pacientes da casa. Outros dependentes, menores de idade, sequer eram liberados para frequentar a escola, aponta o documento.

“Também foi relatado por diversos internos que a disciplina é rígida, sendo aplicadas penas como lavar panelas e retirar o colchão do interno que, por exemplo, se recusa a participar de cultos. Um paciente psiquiátrico, de 62 anos, confirmou já ter sido punido com a retirada do colchão, o que o obrigava ficar deitado na cama de alvenaria – pelo fato de nem sempre conseguir participar dos cultos porque sentia muito sono, devido ao uso de remédios.”

A unidade nega as denúncias.

Já na Casa de Resgate Emanuel, os fiscais ouviram relatos de que os internos precisam ficar nus durantes as revistas pessoais.

Em entrevista à BBC News Brasil, Sebastião Silveira, responsável pela comunidade, atribuiu os maus-tratos e desrespeitos à privacidade dos acolhidos, como retenção de documentos e violação de correspondência a uma psicóloga que atuava no local à época da vistoria. Segundo ele, a profissional defendia essas práticas para evitar recaídas e venda de drogas dentro da entidade.

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Narcorrachadão das Américas, o escudo

De Serra Pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime. Mas quem fica no controle?

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Narcogarimpo. Comércio de ouro, de fachada, para lavar o dinheiro sujo do narcotráfico. O que poucos sabem, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou por volta de 1981, em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo enviou, ainda em maio de 1980, interventor federal para botar ordem na bagunça, Major Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava. Na cratera em si, no formigueiro humano.

Não no Trinta, como ficou conhecida a vila para onde a balbúrdia migrou, lá do ladinho, no km 30 da rodovia PA-175, e criada só para isso: institucionalizar a balbúrdia. No Trinta, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma, cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que a vila acabou virando cidade e a cidade foi batizada em homenagem a seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é. O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, juram de pés juntos que querem criar um Escudo das Américas para nos proteger dos narcoterroristas”.

Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra? Mais conhecido como o pivô assumido (1) do esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio, o Bolsonaro. Caladinho até dia desses, agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho. (2) Prefiro nem imaginar Queiroz se movimentando, a tirar por Bolsonaro Pai fazendo flexão. De todo modo, a dúvida: estaria se movimentando sozinho? Ou se movimentando com os mesmos comparsas de sempre, só esperando para transformar o país num narcorrachadão?

Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, não, nem estou me referindo a esses, não. Falo de um Alessandro Pitombeira Carracena, por exemplo, que só anda com ilustres cações. Apontado como cúmplice do Comando Vermelho. Sabe? Aquele clubinho de biriba, domingo de sol no parque. Era secretário de Esportes e de Defesa do Consumidor do ex-governador Cláudio Castro, com acesso a informações privilegiadas, ao ser preso por vazar justo esses dados, no caso, sobre operações na Maré, no Complexo do Alemão. (3) A Polícia Federal o descreveu como “verdadeiro integrante” do CV, transcendendo os limites do exercício lícito da advocacia. (4) Gente finíssima, o Carracena. Grande biribeiro. Adivinha quem o indicou a Cláudio Castro? O Queiroz? Não, não foi o Queiroz. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro. (5)

Até aí, espero, novidade nenhuma. Mal molhei o bico. O papel de Carracena no esquema com o Comando Vermelho era “apenas” complementar, o X9 da turma, quem entregava as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja aos traficantes. O responsável pela articulação política e financeira era outro, TH Joias. Era Joias quem, segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado, drogas e dispositivos antidrones para o CV. (6) Agora, adivinha de quem TH Joias era aliado de primeira hora? Então. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro. (7)

O contato direto de Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da Polícia Federal, era Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão, assessor parlamentar de TH (8) e com quem Joias negociava armas, drogas, cinco milhões de reais convertidos em dólares para a facção. (9) Fartas provas, com direito a videozinho que Índio recebeu de TH Joias, duzentos quilos de maconha. (10) Faltou a selfie com joinha, tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático. Pena não ter videozinho também dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que TH teria transacionado com Pezão. (11) Luciano Martiniano da Silva. (12) Quem estava acima de todos no bando, “no topo da estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.

Resumindo, para ficar facinho de entender: Carracena e Joias formavam o “núcleo de liderança política” do esquema, e os dois estavam “sob a supervisão dele”, de Pezão. (13) Percebe? Tanto o sujeito que Flávio, o Bolsonaro, indicou para secretário de Castro, quanto o aliado de primeira hora de Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos de Pezão, o cara que traficava armas do Paraguai (14), drones e equipamento antidrone da China (15), cocaína do… do próprio TH. E, se era Pezão quem supervisionava TH e Carracena, nova dúvida: quem supervisionava Pezão?

Não sei. Mas olha que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho? (16) Você deve ter visto, né, nos jornais? Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, vice de Cláudio Castro. Balinha de coco ao primeiro que adivinhar de quem Bacellar era o preferido para suceder Castro como governador. Exato. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro. (17) Vai ter de se contentar com Douglas Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei compatível com os empreendimentos do grupo. (18) Boa sorte.

A sorte que Márcio Canella não teve. Preso em flagrante a dois meses das eleições, com um fuzil no carro. (19) Preso de novo agorinha no dia 15 de outubro, apontado pela PF como “patrono político e articulador de alto escalão” (20) de uma organização criminosa que movimentou sete ponto seis bilhões, com B de Bolsonaro, em lavagem de dinheiro via rede de postos de combustíveis, conexões com milícias, evidente, e com o Comando Vermelho em Belford Roxo. (21) E quem apoiou Canella como seu pré-candidato ao Senado pelo Rio, numa chapa com PL, União Brasil e PP? Quem? A mãe de Flávio, o Bolsonaro? Bem provável, afinal, Rogéria Bolsonaro foi escolhida, uni duni tê, como primeira suplente de Canella. (22) Natural, o apoio. Natural, filho apoiar mãe e a chapa em que sua mãe é suplente. (23) Normal. Nada de mais. Flávio, o Bolsonaro, inclusive, se declarou “surpreso” diante das… desse caso de família todo aí. (24)

A assessoria do candidato à presidência pelo Partido Liberal, a bem da verdade, nega tudo, relação nenhuma com qualquer dos episódios. Claro que nega. Imagina assumir relação com cento e cinquenta quilos de cocaína em meio ao segundo turno, relação com a própria mãe. Caso eleito – bate na madeira –, aí sim, Flávio, o Bolsonaro, poderá assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário duma vez e assumir tudo, tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater o crime organizado o qual ele jura de pés juntos que irá combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora, indicado por mim, meu preferido para governador, mas nem conheço. Nunca nem vi. Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga. Bora mudar de assunto, bora?

Que tal? Por que vocês da imprensa não falam sobre o avião lá da FAB com trinta e nove quilos de cocaína, na comitiva do Lula? Perfeito, porque não foi na comitiva do Lula, foi na comitiva do pai, o Bolsonaro. (25) Eu não disse isso. Acho que vou desmaiar, rapeizo. De modo geral, é o que costumam fazer. Negar a realidade. Vê o Trump. Disse que tinha invadido a Venezuela para combater o narcotráfico. (26) Aí, capturou o Maduro e deixou os traficantes todos lá. Colocou outra presidente no lugar para “supervisionar” os trabalhos, capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor. (27) Sem comando, será? Os EUA passaram a controlar o petróleo, (28) querem as terras raras, (29) a Venezuela toda, e justo o cartel de drogas, que era o maior problema do país segue funcionando sem a “supervisão” dos EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?

De besta que sou. Normalidade é exceção no continente. Da Argentina a El Salvador. É, meu querido “ancap” (anarcocapitalista, que defende a abolição total do Estado), não adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ler até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo por Bukele ou por Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou meio mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que Milei teria lhe confessado já ter “assessorado narcotraficantes” como economista, (30) e que seu contato, Federico Machado, teria sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante?

Não ia. Claro que não ia. Se falasse, José Luis Espert, candidato de Milei à prefeitura de Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares de Machado nem admitido ter feito míseras trinta e cinco viagens nos aviões dele durante a campanha de 2019. (31) Nunquinha. Milei nega tudo, coisa da oposição. Tal qual o presidente do Equador, Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e que teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína para a Europa. (32) A investigação revelou que ao menos 26 milhões de euros em droga foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente, com destino à Croácia e à Itália. Apesar disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou a cooperação de Noboa no combate ao narcotráfico. (33)

No Chile, agora, temos José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado. Cara de compenetrado, tem. Mas, ô, dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me escolher justo Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Importou lá de El Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça de Nayib Bukele. “Sócio de narcotraficantes”, segundo consta. (34) O leitor deve estar se perguntando: “Espera, o Bukele não tinha prendido os meliantes, os membros de gangue, livrado o país da criminalidade? É desse mesmo Bukele que estamos falando?”

Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase todos. Empenhou-se tanto que fez até pacto secreto com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, do México, em 2023, para que o cartel capturasse e entregasse “Crook”, líder da Mara Salvatruga, maior facção de El Salvador. Em contrapartida, ofereceu um milhão de dólares. No fim das contas, surpresa, descobriram que era tudo armação de um pilantra 171 para cima do governo. (35) Quer dizer, armação, o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis de El Salvador, não teve armação, não. O pacto foi para valer. (36) Isso, para não mencionar os três funcionários públicos salvadorenhos, bem próximos de Bukele, incluindo seu chefe de gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e facilitadores do tráfico de drogas. (37) Te contar, viu, se Bukele por acaso tivesse qualquer tipo de vínculo oculto com Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico, (38) daria até para alguém com mente mais poluída imaginar que esse combate à criminalidade em El Salvador, na ponta do lápis, não ter passado de tomada de território mesmo. Acabar com a concorrência e ficar com o caminho livre para assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se Bukele tivesse vínculo oculto com algum ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico, mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. Muito embora Flávio, o Bolsonaro, ter declarado, dia desses, não existir isso de coincidência.

Porquê… sabe? Se começarmos a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido por tráfico que financia candidato de Milei, sócio de traficantes como assessor de Kast, pacto secreto entre cartéis e Bukele, e mais vínculo oculto com outro ex-presidente narcotraficante – que mal tem, gente, vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu? que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que vamos parar?

Vamos pensar mais o quê? Que Trump teria algo a ver com isso? (39) Que Trump estaria controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas seria só uma desculpinha furada para tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, a fim de “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador, Honduras, Equador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora. (40) Desfeita.

Se Trump tivesse dado indulto a Hernandez (41), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões de dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano (42), ou tivesse, sei lá, feito acordo com o filho de El Chapo, lembra de El Chapo?, para que dezessete familiares de líderes do Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA (43), ou fosse aliado e entusiasta das bananas de Noboa, aquelas, eu até pensaria mesmo coisa errada sobre o moço. Daria até para pensar que essas centenas de soldados (44) que ele está enviando para a América Latina não são para combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só para ocupar o território e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez na Venezuela. Porque besta eu sou, mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, o que estava à frente das investigações contra o aliado de Trump, Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz de la Sierra, afastado por lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes. O cara também não se ajuda, né?

Não se ajuda. Enfim, Bolívia. Lá longe. O problema de ficar pensando nessas coisas é acabar imaginando que Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente para que o Brasil entre nesse clubinho do narcotráfico do bem (45) e ele faça que nem Bukele em El Salvador: exterminar a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja ao aliado, ao preferido, ao indicado, ao Comando Vermelho e à narcomilícia toda duma vez. E é como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, outra acolá, e, quando vê, já está fumando cocaína, fica doidão e logo quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado pela narcomilícia. Que nem Major Curió fez em Serra Pelada. Disse que ia proteger os garimpeiros, acabou criando uma cidade com seu nome para proteger os próprios interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que pode acontecer se Flávio, o Bolsonaro, virar presidente sob “supervisão” de Trump. Ele jura de pés juntos que quer o Brasil no Escudo das Américas para nos proteger. Talvez, só queira mesmo proteger seus narcomilicianos de estimação. Tirar a soberania do Brasil de nossas mãos e entregá-la de mãos beijadas ao narcotráfico internacional. Ao chefão da quadrilha de colarinho branco.
Arrisca? Ou melhor nem pensar nisso?


Referências da reportagem:

1 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/
2 https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml
3 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml
4 https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
5 https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/
6 https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html
7 https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv
8 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm
9 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml
10 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml
11 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml
12 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm
13 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml
14 https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html
15 https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/
16 g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml
17 https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/
18 https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/
19 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/05/preso-com-fuzil-canella-e-o-2-deputado-estadual-mais-votado-no-rj.ghtm
20 https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/canella-era-patrono-politico-e-articulador-de-organizacao-criminosa-diz-pf/
21 https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/15/pf-cita-ligacao-de-marcio-canella-com-milicia-e-acordo-com-comando-vermelho.ghtml
22 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/mae-de-flavio-foi-escolhida-como-suplente-de-canella-preso-pela-pf/
23 https://veja.abril.com.br/politica/preso-pela-pf-marcio-canella-foi-pre-candidato-ao-senado-na-chapa-de-flavio-bolsonaro/
24 https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-diz-que-foi-surpreendido-com-prisoes-de-canella-e-bacellar/
25 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/02/politica/1562091519_351309.html
26 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml
27 https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894
28 https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/
29 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/
30 https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/
31 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm
32 https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/
33 https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds
34 https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816
35 https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html
36 https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223
37 https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele
38 https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/
39 https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/
40 https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/
41 https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968
42 https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891
43 https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html
44 https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml
45 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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