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Categoria: Inscrições rupestres

  • A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

    A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

    O país inteiro ficou perplexo ao ver o Museu Nacional literalmente em chamas, como se fosse nossa vez de sermos destruídos pelos alienígenas do “Independence Day”. Quando acabou, oscilamos entre emoções de raiva e tristeza, lamentando a perda de objetos insubstituíveis e 200 anos de trabalho de muitas pessoas.

    Fomos descuidados com nossa história material e irresponsáveis com a preservação de nossa memória desde sempre que este museu existe, por que estamos chateados agora? Nossa indignação parece vir da vergonha de ter falhado em alcançar um padrão europeu de possuir História.

    Dez anos atrás, houve um incêndio criminoso que destruiu uma comunidade indígena não muito distante do Museu (em Camboinhas), e praticamente ninguém foi às ruas. Nós falamos sobre todos os registros de línguas indígenas que foram perdidos dentro deste edifício colonial, mas o que estamos fazendo para proteger os povos indígenas vivos aqui agora? Nós não os vemos como tendo história, nós os vemos como obstáculos para o desenvolvimento. Isso é o que realmente me faz oscilar entre emoções de raiva e tristeza, ano após ano.

    Parte do fascínio que temos com o Museu não é necessariamente por todos os objetos valiosos que estavam ali dentro, é sobre quem atribui valor à essas coisas. A atmosfera Real do espaço vem do fato de que é um dos poucos lugares com arquitetura de estilo europeu autêntico em nosso país. Uma das pessoas no vídeo de “Campanha para a requalificação do Museu Nacional” do ano passado disse que quando você sobe as escadas do museu pode-se facilmente imaginar um baile da família real, e é por isso que ela se apaixonou pelo local.

    O Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do Brasil. A Academia, juntamente com a Monarquia, e a Igreja Católica, foram instituições medievais introduzidas aqui centenas de anos atrás, e que hoje ainda sentimos a necessidade de preservar sem analisar adequadamente o papel genocida que elas tiveram em nossas vidas. Embora eu veja a tragédia do evento e sinta o horror da perda, acho importante abordar nossas visões subconscientemente eurocêntricas que nos levam a acreditar que a Europa e as instituições européias são detentoras da História.

    O conceito de o que significa ser humano, desenvolvido na Europa Ocidental no século XVI, estava muito ligado à ideia de ter história e, portanto, de ser civilizado. A perda desta “História”, esses artefatos, traz de nossas idiossincrasias colonizadas a sensação de sermos menos humanos. Trágico é como ainda tratamos nossas comunidades indígenas e quilombolas como menos humanas, como não tendo realmente história, ou não dignas de ter suas terras e seus lares preservados.

    Não vemos o que acontece quando deixamos a História nas mãos de instituições europeias? Roubam, depois embranquecem, distorcem ou destroem. O Egito, por exemplo, quer seus tesouros de volta há anos. Eles foram colonizados e a Europa lucrou com o que eles roubaram desde então. Nós, como sociedade, ainda estamos lutando para desaprender os ensinamentos de uma campanha etnocêntrica que criou a idéia de que a África não tem História. Aprendemos que a evolução da humanidade foi em direção ao norte e ao oeste, e convenientemente esquecemos de que o Egito é negro e africano, não branco e do norte do Mediterrâneo, como a Grécia.

    O Brasil também teve sua memória distorcida, e aceitamos. Os povos indígenas foram massacrados e retratados na Europa como animais selvagens. Até hoje, os museus europeus exibem com orgulho as obras de homens brancos que pintaram mulheres nativas nuas ao lado de animais e plantas inventados. Internalizamos essa retórica, nos embranquecemos, e rejeitamos nossas outras ancestralidades.

    Se vamos falar sobre o descuido com qual lidamos com artefatos valiosos, devemos também falar sobre como atribuímos valor a esses artefatos, e o inegável Etno / eurocentrismo envolvido nesse processo. Tão importante quanto, se não mais do que, reconstruir esta instituição é combater o epistemicídio que tem aniquilado nosso povo e nossa história por centenas de anos.

     

    Mirna Wabi-Sabi* é militante anti-fascista/decolonial, e feminista interseccional. Editora de “Gods and Radicals” (.org), filósofa e professora.

     

    https://godsandradicals.org/author/mirnawabi/

    http://www.anf.org.br/author/mirna-wabi-sabi/

    https://redeinfoa.org//?s=mirna+wabi-sabi

  • Trabalhador faz emocionante homenagem às cinzas do Museu Nacional

    Trabalhador faz emocionante homenagem às cinzas do Museu Nacional

    Queimamos o quinto maior acervo do mundo.
    Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas.
    Queimamos murais de Pompeia.
    Queimamos o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos.
    Queimamos o acervo da botânica Bertha Lutz.
    Queimamos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais.
    Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro.
    Queimamos alguns fósseis de plantas já extintas.
    Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina.
    Queimamos o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII.
    Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil.
    Queimamos duas bibliotecas.

    Queimamos a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos.

    O que arde no Museu Nacional é uma parte da história antropológica da humanidade. Da história científica da humanidade.

    Se eles pudessem, nos queimavam junto com as paredes do museu, com o prédio em si, com as salas de onde D. Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república, se eles pudessem, nos queimavam.

    É imensurável o que perdemos.
    Eu tô engolindo o choro.

    ‘Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro’. Era isso que vinha escrito no chão, frente ao Museu Nacional.”

    Em 1972, uma cápsula do tempo foi enterrada em frente ao Museu Nacional com documentos. Ela deverá ser aberta somente em 2022. Foto Rio – Casas & Prédios Antigos

     

  • REVIRAVOLTA NA HISTÓRIA: Inscrições rupestres de Florianópolis seriam ideogramas chineses

    REVIRAVOLTA NA HISTÓRIA: Inscrições rupestres de Florianópolis seriam ideogramas chineses

    Semelhança das inscrições rupestres com ideogramas chineses despertou a investigação

    Foi o interesse apaixonado pela história da Ilha de Santa Catarina que levou Fausto Guimarães, filho de pescador, a “atravessar a ponte” para a China e a ser reconhecido no Oriente e nos Estados Unidos como o maior pesquisador do mundo sobre a presença dos chineses nesta região antes da chegada de Cabral. Agente de vigilância do INSS, ele lança, na sexta-feira (15), às 19 horas, no Restaurante Árabe Falah, em Florianópolis, sua quarta publicação sobre a passagem pelo Brasil de dois dos cinco almirantes da dinastia chinesa Ming, entre os anos de 1421 e 1423. Criado no Morro do Céu, Fausto tornou-se não apenas um grande especialista nas incursões chinesas pelo Novo Mundo, como autor de uma descoberta arqueológica capaz de revolucionar tudo que se sabe sobre as relações entre os indígenas que aqui habitavam e esse povo do Oriente. Capaz também de mudar o entendimento sobre as inscrições rupestres e os artefatos de pesca locais que, na sua hipótese, são uma transferência de tecnologia chinesa na troca de conhecimento com os índios Avás.

    Para início de compreensão da importância de suas pesquisas, a partir delas a origem das inscrições rupestres dos sítios arqueológicos teria uma versão muito diferente da conhecida: “Já temos evidências para demonstrar que nos desenhos dos dois costões do Santinho ou da Ilha do Arvoredo, por exemplo, há presença de caracteres chineses”, afirma Fausto. O encontro feliz entre o manezinho da Ilha e o mundo do Oriente aconteceu há 15 anos quando caminhava pela praia do Santinho e é tão 

    Inscrições rupestres poderiam indicar a troca de símbolos indígenas e ideogramas chineses (Ilha do Campeche)

    fascinante quanto a história que ele passou a contar a partir daí, traduzidas do português para o mandarim e para o inglês. Junto com as publicações, ele tem realizado inúmeras palestras em congressos internacionais sobre as incursões marítimas das dinastias chinesas pelas Américas no período pré-colombiano, patrocinadas pelo governo e por instituições de pesquisa na China e nos Estados Unidos, onde suas teses já são referência.

    Não limitado a publicar suas descobertas em forma de romance no primeiro livro “A rampa do Santinho, um legado chinês na Ilha de Santa Catarina” (Editora Insular, 2010), edição bilíngue português-mandarim de 456 páginas, o servidor recorre agora às histórias em quadrinhos para divulgar essa narrativa épica. “A grande maioria dos florianopolitanos e brasileiros – e mesmo os entendidos na cultura local – desconhece completamente os impactos da presença chinesa na Ilha”, enfatiza Fausto, 52 anos, que com o cabelo ruivo e os olhos claros foge ao estereótipo brasileiro. “Desconhecem inclusive o fato histórico das navegações marítimas chinesas”. Em A grande viagem às Terras do Oeste (Brasil) – 1421, a revista em quadrinhos que ele lança na sexta-feira vem para romper um pouco o silêncio sobre esse contato prodigioso entre dois povos fundadores da cultura local, na sua visão. Compõem as ilustrações um mix de tecnologia virtual com alguns desenhos dele mesmo e de outros autores, mas a maior parte são adaptações fotográficas, a exemplo das fotos aéreas da região dos Ingleses e do Santinho, explica Fausto, que trabalha na Previdência Social há 33 anos.

    Tanto livro como revista são, conforme o autor, coerentes com paradigmas e estudos já consolidados sobre as experiências dos chineses com outros povos. Sem referências exatas de realidade para compor uma etnografia, optou por preencher as lacunas com as suas suposições, narrando em forma de romance a relação desses exploradores com os índios Avás, que habitavam a Ilha de Santa Catarina e arredores. “Mas tudo que escrevi explorando a imaginação parte das minhas pesquisas e do

    Agente de vigilância lança sua quarta publicação

    conhecimento estabelecido por outros autores”, esclarece Fausto, que fará distribuição gratuita das revistas no lançamento. Com a ajuda das comunidades Guarani, árabe e chinesa, organizou para o evento uma grande performance com música, dança e teatro em torno de episódios do seu épico que mostram a pluralidade cultural dessas relações entre povos.

     

    Primeiro livro do autor é a história romanceada das relações entre chineses e os índios Avás na Ilha de Santa Catarina

    Até 15 anos atrás, antes da publicação do romance de Fausto, os pesquisadores canônicos só falavam das expedições europeias ao Brasil e ao Novo Mundo como um todo. Ao longo de seis séculos, a misteriosa passagem dos chineses manteve-se desconhecida dos historiadores modernos como um tesouro secreto. Com esse episódio, o romance entre a índia Iracema e o marinheiro Xiao também ficou guardado feito uma pérola em concha fechada para ser reinventado pela pena do autor. Interessado pela cultura chinesa desde que estudou acupuntura no Ceata, em São Paulo (1995), e desde a graduação no curso de História da UFSC (1997), Fausto fez sua primeira viagem à China em 2005. Ficara entusiasmado pelas viagens marítimas pré-colombianas ao ouvir de uma guia turística chinesa em São Paulo sobre sua presença no Amazonas. Essa informação reforçou a hipótese da presença chinesa também em Meiembipe (nome indígena de Florianópolis) e aumentou a suspeita de que as inscrições rupestres tinham a marca oriental.

    As investigações bibliográficas e em campo acabaram tomando conta do seu tempo livre e deram origem ao segundo livro, que apresenta a trajetória dos seus estudos e fundamenta suas hipóteses. Em Do Shan Hai Jing às épicas viagens do almirante Zheng He; estariam os chineses visitando as Américas e o Brasil há mais de quatro mil anos?, ele explica os elementos que foi interligando para creditar a narrativa sobre os rastros deixados pelos chineses na Ilha. Entre eles estão os registros do Padre Alfredo Rhor, no primeiro congresso local sobre Arte Rupestre, em meados de 1960, revelando ter tirado e extraviado na década de 40 a pedra com a imagem de uma santa que se atribuía à padroeira dos navegantes. Diante desse objeto sacralizado pela comunidade local, as mulheres dos pescadores faziam suas preces para pedir proteção antes de os homens se lançarem ao mar, numa espécie de ritual pagão.

    Depois de escrever o romance, Fausto recorreu a história em quadrinhos para divulgar essa história ignorada que desmonta a vulgata ocidental sobre o descobrimento

    Décadas depois, conversando com o pai pescador e com as mulheres mais velhas do Santinho, que alegaram ter ouvido a explosão da pedra quando crianças, Fausto verificou que o artefato tinha uma localização e um tamanho muito diferentes dos mencionada pelo arqueólogo. “Segundo os relatos, o santuário devia ter o tamanho de uma porta, e não os 33 centímetros informados pelo padre”. A descrição da imagem feita pelo padre também difere da apresentada pelas mulheres, o que levou Fausto ao seu primeiro grande achado: tratava-se, na verdade, não de uma santa católica, mas de uma mulher grande e forte, com um chapéu quadrado e um manto nas costas, que corresponde à figura de uma chinesa chamada Mazu. Hábil nadadora, essa personagem viveu de fato no século X na colônia de pescadores Meizhou, no litoral de China. Entre seus feitos, consta ter salvado vários homens de afogamento com seus braços fortes. Depois de sumir no mar, Mazu foi mistificada como uma espécie de padroeira dos pescadores.

    Com equipe de pesquisadores na China

    As surpresas não terminam por aí. Nesse trabalho de campo, o autor confirmou no costão esquerdo da Praia do Santinho, bem na entrada pelo mar, a existência de uma pedra com um furo de dinamite, provavelmente a da imagem da Santa dos Navegantes oriental, implodida pelo padre. E o mais importante: descobriu ao lado dela uma grande rampa cortada na pedra, visivelmente produto de manufatura humana e não da ação da natureza, que serviria ao atracamento das embarcações. Tomou o cuidado de registrar essa descoberta na certeza de que em breve suas evidências seriam confirmadas, assim como outros indícios impactantes: num museu de Hong Kong, identificou muitos instrumentos de pesca, como puçá, coca, jererê, tarrafa que os índios usavam na Ilha de Santa Catarina. “Todos esses artefatos para pegar siri existem na China”, diz Fausto, sustentando ainda a tese de que a sofisticação das técnicas de pesca na Ilha, identificadas pela presença abrupta e inexplicável de esqueletos de grandes peixes nos sambaquis, seria resultante desse contato profícuo entre Avás e orientais. “Sem falar na semelhança etimológica e material da jangada nordestina com um pequeno junco chinês”, comenta o pesquisador, com uns olhos arregalados de espanto pelas possibilidades de interconexões multiculturais que a investigação de sua Ilha lhe trouxe. Da mesma forma, reflete, os chineses, que têm como padrão de comportamento o contágio e a apropriação cultural devem ter aprendido muito com os índios.

    NO CONTEXTO DA MISSÃO CHINESA PELOS MARES

    Estudante de mandarim há seis anos, logo o vigilante-historiador se faria um dos grandes pesquisadores das expedições chegadas à Ilha por ordens do imperador Zhu Di. O chefe da dinastia alistou cinco almirantes para, sob o comando de seu homem de confiança, o almirante Zheng He, cumprirem uma desafiadora missão: descobrir terras além da África e cartografar todos os oceanos do mundo. O imperador estava decidido a implantar uma importante mudança cultural no mapa político e geográfico do planeta. Desejava romper definitivamente com uma tradição de milênios, pela qual os chineses mantinham-se fechados ao olhos do mundo. Nessa expedição, Hong Bao seria o responsável pela “descoberta” de terras, hoje conhecidas como Brasil. Junto com ele, outros chineses, indianos e um africano de nome Kebec, empreenderiam uma impactante relação com os índios Avás, que significa gente em Guarani e substitui a denominação europeia de Carijós (índios escuros e claros).

    Na hipótese do historiador, algumas inscrições são feitas de símbolos indígenas e outras de caracteres chineses

    Conta o livro, sempre preservando o tom solene e misterioso de um grande épico que versa sobre o encontro de dois povos de diferenças abissais: “Hong Bao é o comandante da missão que se dirige para a terra do Oeste. Sob suas ordens homens e mulheres viverão em comunhão com ideais confucianos. O mundo dos nativos Avás nunca mais será o mesmo. Os chineses levarão seu conhecimento e em troca receberão o respeito dos povos desta terra”. Além de criar a história amorosa de Iracema e Xiao, o romance fala da vida simples do cacique e de seu povo, a trama de Seci para roubar Xiao de Iracema e as armadilhas feitas pelas índias amazonas para capturar seus prisioneiros. Pergunto se essa relação não foi romantizada, considerando que na história mundial os países expedicionários sempre foram truculentos e dominadores com outros povos em suas explorações marítimas. E ele me responde com uma aula sobre o pensamento e a história chinesa, segundo a qual os ditadores que barbarizaram a Ásia não eram de fato chineses, mas pertenciam a outras nações que invadiram a própria China, como os mongóis e manchus. “Ao contrário das explorações europeias que marcaram nossa colonização, a base desse relacionamento chinês com outros povos sempre foi a paz e o respeito”, garante, citando várias fontes bibliográficas e episódios históricos.

    Revista em quadrinhos ilustrada pelo próprio autor

    Em 2013, Fausto viajou à China a convite da Universidade de Macau e da Universidade de Shanghai para participar do seminário Viagens Marítimas Chinesas do Século XV. Nessa expedição de rota contrária aos antepassados de Hong Bao, apresentou seu trabalho sobre as evidências arqueológicas da possível passagem dos chineses pela Ilha de Santa Catarina antes da chegada dos portugueses, na Associação Macau para promoção e Intercâmbio entre Ásia-Pacífico e América Latina (Mapeau) na cidade de Macau. Em dezembro de 2016, já era o maior especialista no assunto e viajou a vários centros acadêmicos de pesquisas sobre explorações marítimas da China, em cidades como Beijing, Nanjing, Guangzhou, Hong Kong, entre outras, para divulgar seu terceiro livro, em inglês: From the Shan Hai Jing to the Epic Journeys of Admiral Zheng He in the XV Century; Where the Chinese visiting the Americas and Brazil over 4000 years ago? Por todos os institutos de pesquisa onde passou, só recebeu um gesto de imediato reconhecimento de ideogramas chineses quando mostrou as inscrições rupestres do Santinho e da Ilha do Arvoredo: “tui, tui, tui” (sim, sim, sim), respondiam-lhe com aquele gesto de cabeça afirmativo típico dos chineses. 

    Na Califórnia, onde o interesse pelo tema é fortíssimo, há também inscrições rupestres com evidências de ideogramas. Os estudos apontam, contudo, que elas resultam de visitas chinesas mais antigas ao continente americano, de cerca de dois mil anos atrás, o que poderia perfeitamente ter ocorrido também no Brasil. “Quando se fala em história, tudo são possibilidades”, reconhece Fausto, que não tem a pretensão de ser a última palavra a vencer essa distância de séculos ou de milênios, mas coloca em dúvida a vulgata do pioneirismo ocidental a partir das pegadas orientais que encontra pelas praias e no próprio corpo dos Guarani. “Não podemos mais é manter no encobrimento a presença de culturas anteriores à chegada dos navegadores europeus”. 

    Em outubro, o pesquisador anônimo em sua terra, mas famoso entre os sinólogos do Oriente e dos EUA, apresentará seu trabalho num simpósio de quatro dias sobre diáspora chinesa pelo mundo e pelo Brasil, no hotel Hilton, em São Francisco, na Califórnia. Essas viagens a convite de outros países são sempre patrocinadas, mas as pesquisas documentais ou de campo resultam de investimentos do próprio bolso. De tanto estudar as expedições não-ocidentais ao Brasil antes da invasão europeia, ele próprio se tornou um navegador a refazer obstinadamente, pelos livros ou pelas explorações físicas, as pontes que fazem as ligações estreitas entre dois povos muito mais próximos do que nossa vã herança ocidental é capaz de imaginar…