A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

Por Mirna Wabi-Sabi*, especial para os Jornalistas Livres

Entre perdas e danos, choramos a perda do museu enquanto ignoramos a destruição das culturas dos povos tradicionais - Foto Helio Carlos Mello e internet

O país inteiro ficou perplexo ao ver o Museu Nacional literalmente em chamas, como se fosse nossa vez de sermos destruídos pelos alienígenas do “Independence Day”. Quando acabou, oscilamos entre emoções de raiva e tristeza, lamentando a perda de objetos insubstituíveis e 200 anos de trabalho de muitas pessoas.

Fomos descuidados com nossa história material e irresponsáveis com a preservação de nossa memória desde sempre que este museu existe, por que estamos chateados agora? Nossa indignação parece vir da vergonha de ter falhado em alcançar um padrão europeu de possuir História.

Dez anos atrás, houve um incêndio criminoso que destruiu uma comunidade indígena não muito distante do Museu (em Camboinhas), e praticamente ninguém foi às ruas. Nós falamos sobre todos os registros de línguas indígenas que foram perdidos dentro deste edifício colonial, mas o que estamos fazendo para proteger os povos indígenas vivos aqui agora? Nós não os vemos como tendo história, nós os vemos como obstáculos para o desenvolvimento. Isso é o que realmente me faz oscilar entre emoções de raiva e tristeza, ano após ano.

Parte do fascínio que temos com o Museu não é necessariamente por todos os objetos valiosos que estavam ali dentro, é sobre quem atribui valor à essas coisas. A atmosfera Real do espaço vem do fato de que é um dos poucos lugares com arquitetura de estilo europeu autêntico em nosso país. Uma das pessoas no vídeo de “Campanha para a requalificação do Museu Nacional” do ano passado disse que quando você sobe as escadas do museu pode-se facilmente imaginar um baile da família real, e é por isso que ela se apaixonou pelo local.

O Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do Brasil. A Academia, juntamente com a Monarquia, e a Igreja Católica, foram instituições medievais introduzidas aqui centenas de anos atrás, e que hoje ainda sentimos a necessidade de preservar sem analisar adequadamente o papel genocida que elas tiveram em nossas vidas. Embora eu veja a tragédia do evento e sinta o horror da perda, acho importante abordar nossas visões subconscientemente eurocêntricas que nos levam a acreditar que a Europa e as instituições européias são detentoras da História.

O conceito de o que significa ser humano, desenvolvido na Europa Ocidental no século XVI, estava muito ligado à ideia de ter história e, portanto, de ser civilizado. A perda desta “História”, esses artefatos, traz de nossas idiossincrasias colonizadas a sensação de sermos menos humanos. Trágico é como ainda tratamos nossas comunidades indígenas e quilombolas como menos humanas, como não tendo realmente história, ou não dignas de ter suas terras e seus lares preservados.

Não vemos o que acontece quando deixamos a História nas mãos de instituições europeias? Roubam, depois embranquecem, distorcem ou destroem. O Egito, por exemplo, quer seus tesouros de volta há anos. Eles foram colonizados e a Europa lucrou com o que eles roubaram desde então. Nós, como sociedade, ainda estamos lutando para desaprender os ensinamentos de uma campanha etnocêntrica que criou a idéia de que a África não tem História. Aprendemos que a evolução da humanidade foi em direção ao norte e ao oeste, e convenientemente esquecemos de que o Egito é negro e africano, não branco e do norte do Mediterrâneo, como a Grécia.

O Brasil também teve sua memória distorcida, e aceitamos. Os povos indígenas foram massacrados e retratados na Europa como animais selvagens. Até hoje, os museus europeus exibem com orgulho as obras de homens brancos que pintaram mulheres nativas nuas ao lado de animais e plantas inventados. Internalizamos essa retórica, nos embranquecemos, e rejeitamos nossas outras ancestralidades.

Se vamos falar sobre o descuido com qual lidamos com artefatos valiosos, devemos também falar sobre como atribuímos valor a esses artefatos, e o inegável Etno / eurocentrismo envolvido nesse processo. Tão importante quanto, se não mais do que, reconstruir esta instituição é combater o epistemicídio que tem aniquilado nosso povo e nossa história por centenas de anos.

Mirna Wabi-Sabi* é militante anti-fascista/decolonial, e feminista interseccional. Editora de “Gods and Radicals” (.org), filósofa e professora.

https://godsandradicals.org/author/mirnawabi/

http://www.anf.org.br/author/mirna-wabi-sabi/

https://redeinfoa.org//?s=mirna+wabi-sabi

Mídia democrática, plural, em rede, pela diversidade e defesa implacável dos direitos humanos.

Categorias
CulturaDestaquesGeralGolpeHistóriaHistória do BrasilInscrições rupestresInscrições rupestresMovimentos Sociais

Mídia democrática, plural, em rede, pela diversidade e defesa implacável dos direitos humanos.
Um comentário
  • Inácio da Silva
    21 setembro 2018 at 22:20
    Comente

    Tragédia mesmo é o que o PT e seus sequazes fizeram com o país…

  • Deixe uma resposta

    AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish