Rede de pesca ilegal afoga baleias no fim de semana em Florianópolis (SC)

Baleia Jubarte que morreu afogada na Solidão desde a sexta-feira (11/6), foi liberada ontem pela Polícia Ambiental enleada em 20 metros de rede da boca até o rabo

Por Raquel Wandelli

Desde sábado pela manhã, os moradores do Pântano do Sul, no litoral Sul de Florianópolis (SC), estão assistindo à morte de pelo menos três baleias provocada pelo emalhe em redes de pesca

Desde sábado pela manhã, os moradores do Pântano do Sul, no litoral Sul de Florianópolis (SC), estão assistindo à morte de pelo menos três baleias, presas em malha de pesca. A primeira baleia, localizada na praia da Solidão, já está em estado de putrefação, presa junto à rede que causou seu afogamento não se sabe ainda onde e em que condições. O biólogo Alcides Dutra, do Projeto Larus, da UFSC, avisa que ela pode explodir a qualquer momento, provocando um desastre ambiental em toda a extensão da praia. Trata-se de uma baleia jubarte juvenil, de pelo menos 15 metros, conforme a bióloga Elisa Vieira.

Moradores locais que foram de stand up no domingo ao local afirmaram que as redes, responsáveis pelo crime ambiental, pertencem ao proprietário de um restaurante do Pântano, mas essa acusação não foi comprovada nem pelas autoridades ambientais, nem pelos pescadores. Seriam, segundo eles, oito redes, de 200 metros cada, cobrindo todo o trajeto desses mamíferos, num total de quatro quilômetros, afirmam eles, que preferem não se identificar. Essa informação, espalhada entre os moradores, informação que também foi refutada pela Colônia de Pescadores. As causas e condições da morte da baleia ainda não foram reveladas, nem pela R3, empresa terceirizada de monitoramento da vida animal no Sul do país, que esteve no local examinando o estado do mamífero no sábado, nem pela Polícia Ambiental.

Redes no caminho das baleias

O aparecimento cada vez mais precoce das baleias em Santa Catarina coincide com o período da liberação da pesca da tainha, mas os pescadores alegam que a malha desse peixe, a de arrastão, não tem como machucar baleias, tartarugas ou animais marinhos de grande porte. Ainda no sábado, o morador Luiz Henrique Boabaid, que é arquiteto e mergulhador, chamou a Polícia Ambiental, segundo a qual o recolhimento da baleia só pode ser feito quando ela encalhar na praia. (veja outra baleia jubarte, encontrada encalhada na praia, na mesma região de Florianópolis, em abril)

Essa possibilidade está tecnicamente descartada, segundo Alcides Dutra, pois a baleia está ancorada numa rede. Gases resultantes da decomposição podem causar uma explosão do animal putrefado, produzindo jorros de combustão que atingem até nove metros de altura. Outro morador, Sérgio Gomes, advogado, reforçou a denúncia hoje pela manhã, alertando para o perigo da poluição de toda a bacia ao comandante da Polícia Ambiental, coronel Paulo Sérgio, mas até terça nenhuma providência foi tomada.

Outro morador, Sérgio Gomes, advogado, reforçou a denúncia hoje pela manhã, alertando para o perigo da poluição de toda a bacia ao comandante da Polícia Ambiental, coronel Paulo Sérgio, mas até agora nenhuma providência foi tomada.

No sábado, Dutra acionou a empresa terceirizada pelo monitoramento ambiental no litoral do Sul do Brasil, a R3 Animal, que esteve no local com uma lancha mas não conseguiu remover a baleia já morta e também disse ser necessário esperar que ela encalhe.

“Nenhuma autoridade quer fazer o seu papel”, reclama Boabaid.

Uma segunda baleia encalhada na mesma rede foi localizada por Gomes agora à tarde ao lado da jubarte.

E uma terceira baleia estava na tarde de domingo emergindo e submergindo bem próximo à praia nos Açores, balneário vizinho que faz parte da mesma bacia oceânica, segundo alertaram moradores.

A agonia lenta dessas criaturas de impressionante beleza e tamanho comove os que as identificam na imensidão do mar.

(Atualização)

Baleia já teria chegado enredada ao Sul da Ilha

Atualização:

Na terça-feira (15/6), finalmente uma lancha da Polícia Ambiental conseguiu remover o corpo da baleia morta enleada em 20 metros de malha que vão da boca até o rabo.

Um dos proprietários do Bar e Restaurante Pântano do Sul, Arante Monteiro Filho, acusado por alguns moradores da Solidão de ser o proprietário das redes, esclareceu aos Jornalistas Livres que a pesca na região não utiliza malhas de espera ou redes de fundo, como se chamam as redes fixas. A pesca da tainha é feita apenas com rede de arrastão comunitária em toda a extensão do Pântano do Sul, Açores e Solidão. “O que estão chamando de rede são apenas cordões atados a bandeiras balizando a área de pesca da tainha”, afirmou.

Ainda segundo Arante, a baleia provavelmente já chegou morta ou machucada de outras regiões Leste e Norte da Ilha, onde entre os dias 27 de maio e 14 de junho, foram avistadas pela R3, empresa que faz o monitoramento ambiental do Sul do Brasil, cerca de seis baleias-jubarte. Com o corpo e a boca amarrados em malhas de pesca, as baleias foram fotografadas, registradas e a preocupação com sua situação de sofrimento foi objeto de notícias em veículos de mídia nacional e local.

Em seu trajeto de fuga, os mamíferos carregavam âncoras de rede de corvina que não são usadas pelos pescadores e restaurantes do Pântano do Sul. Elas podem ter sido arrastadas para a costa do Sul da Ilha pelo vento Leste que caiu no final de semana, segundo os pescadores da colônia. Enquanto a Polícia Ambiental e a R3 não apresentam um laudo sobre as causas da morte da baleia da Solidão, acusações e especulações sem provas são levantadas pela população local, alimentando disputas e conflitos pessoais. Os responsáveis de fato pelo afogamento das baleias continuam impunes e provocando mais mortes.

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