Geral
Laços de amor ameaçados
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11 anos atrásem
A adoção e o apadrinhamento afetivo são ainda grandes mitos na vida das pessoas. Isso faz com que as vidas dos menores ainda sejam de rejeições e de pré-conceitos
A luta pela guarda definitiva da pequena M.E, mais conhecida como Duda, de 6 anos, aproximou ainda mais o casal de empresários Liamar de Almeida e Valbio Messias da Silva. A batalha judicial acontece desde 2011 e, após quatros anos, ela está praticamente na estaca zero. Devido à demora em solucionar o caso, Liamar e Valbio se sentem, a cada dia, mais pais da criança. “Desde os primeiros meses de convivência, Duda já nos chama de papai e de mamãe e a minha filha mais velha, a Gabriela, ela fala para os colegas da escola que é a irmã dela”, conta Liamar.
A situação da menor que agora já está aprendendo a ler, escrever e formar as primeiras frases já foi muito triste. Com apenas dois meses de vida, o Ministério Público de Minas Gerais abriu um processo contra a família biológica, com a denúncia de abandono e maus tratos e a menor foi separada deles e entregue a um abrigo. Após quase dois anos sob a tutela do Estado, o casal que mora em Contagem, conseguiu a guarda provisória de Duda para fins de adoção e começaram a partir desse momento construir os laços familiares. “A nossa gestação foi um pouco diferente da gestação biológica. Estávamos na fila de adoção há mais de cinco anos e esse foi o tempo que levou para a Duda nascer em nossas vidas”. Para Liamar, o filho adotivo não tem o DNA de sangue e sim o DNA de alma.
Porém, a família biológica da menina recorreu da decisão judicial e pediu para retomar a guarda de Duda e dos outros seis filhos e o caso tomou repercussão nacional chegando a ganhar apoio de grupos de adoção de todo o país. Segundo Valbio, a história da menor está sendo construída em dois processos judiciais. Um dos processos é do Ministério Público, aberto em 2009, contra os pais biológicos. Nesse processo, a família Silva não participa e ele vem se arrastando há anos, sendo que a conclusão foi para o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, TJMG, que julgou pela devolução de todos os filhos, inclusive a Duda, para os pais biológicos. “Nós não pudemos recorrer porque não fizemos parte desse processo”, disse Valbio.

Os advogados de defesa do casal adotivo, Rômulo Mendes e Mariana Tonucci, abriram um novo processo de destituição familiar dos genitores. Os motivos alegados no novo processo já não são mais a situação de abandono que a pequena Duda passava e sim a situação de laços afetivos que foram construídos no período de guarda provisória. Segundo Rômulo Mendes, o processo de adoção deve sempre garantir o interesse da criança atendendo ao artigo 127, da Constituição 1988. “O juiz da comarca de Contagem chegou a extinguir esse novo processo de destituição e após indeferir, o caso foi parar no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) no sentido de questionar a decisão do Juiz de Contagem”, afirma.
Em 23 de setembro de 2014 os desembargadores do TJMG, por meio do Acórdão, mandaram uma ordem judicial para o juiz da comarca de Contagem obrigando-o a aceitar o processo, afirmando que o casal adotivo tem direito a lutar pela guarda da menor. Segundo Valbio Silva, passado um ano da decisão em segunda instância, o processo se encontra parado, como se estivessem acabado de receber a Duda na fila de adoção, sendo que as partes ainda não foram chamadas. “Agora que vai começar a julgar a destituição do poder familiar dos pais biológicos, com o pedido de adoção, mas a nossa preocupação é com a Duda, onde ficam os interesses e direitos da criança nesse caso? Eu quero o que seja melhor para a vida dela, pois o maior interesse deve ser sempre o da criança e não dos adultos”.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é direito do menor conviver no seio da família seja pela biológica ou pela substituta, cabendo ao juiz decidir pela reintegração familiar, ou colocação em família adotiva. Essa decisão deve ser fundamentada, com base nos laudos e relatórios de uma equipe multidisciplinar.
À espera de uma família
Segundo a Psicóloga Judicial, do Juizado da Infância e Juventude de Contagem, Larissa Alexandra de Sá Teixeira, 12 crianças e adolescentes estão aptas a encontrar uma nova família para recomeçar a contar a história de vida. Dessas 12 crianças, a maioria está com idade acima dos 10 anos. Estudo feito pelo Juizado, em agosto de 2015, aponta que 40% dos adotantes não têm preferência para a cor de pele e 27% preferem crianças com cor branca. Porém, a exigência maior está relacionada à idade do adotado, 71% dão preferência às crianças menores de três anos e apenas 2,3% adotam crianças maiores de seis anos. Diante desse quadro, a realidade da maioria desses menores, que estão liberados pelo Juizado da Infância e Juventude de Contagem para a adoção, é de que não existem pessoas interessadas em adotá-los e completarão a maioridade sem ter tido algum laço familiar.
É o caso do menor Daniel, 15 anos, de Belo Horizonte. Mesmo não pertencendo à comarca de Contagem, a realidade dele é semelhante a dos adolescentes de lá. O adolescente está em situação de acolhimento em uma instituição da capital, com mais 11 meninos. Desde os 12 anos, o garoto não convive mais com os pais biológicos que segundo ele, eram agressivos e tinham problemas com consumo de álcool. “Foi a violência que mais me impulsionou a fugir de casa. A vida no abrigo não é a melhor de todas porque sinto falta de uma família, mas aqui eu posso estudar e tentar ter um futuro melhor. Hoje eu tenho dois sonhos: o primeiro é ter uma família e o segundo é me tornar um juiz de direito”.
Em contagem, cerca de 100 menores vivem em instituições de acolhimento e muitos deles, segundo a integrante do Grupo de Apoio à Adoção Amigos da Duda, GAA, Regina Puddo, já poderiam estar em processo de adoção e ainda não estão por falhas no judiciário. “Tem crianças que crescem nos abrigos, sem voltar para a família de origem e que nunca entraram no cadastro de adoção. Umas das lutas do grupo no qual faço parte é apoiar a adoção desses menores”, afirma.

Apadrinhamento afetivo ameniza a carência dos menores, mas ainda falta legislação específica
Com o objetivo de amenizar a distância do convívio familiar, o apadrinhamento afetivo permite às crianças e adolescentes que estão em acolhimento institucional, o contato com outros referenciais de vida, além dos profissionais da instituição. Porém, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de Direito da Família, Rodrigo Cunha Pereira, os programas de apadrinhamento afetivo no país, embora reconhecidos como iniciativas louváveis de acolhimento aos menores em situação de vulnerabilidade social, ainda não possuem base legal. “O ECA prevê a criação de uma lei específica sobre apadrinhamento, mas para não deixar as crianças e os adolescentes sem nenhum direito, os municípios promovem iniciativas, porém os termos de cooperação firmados entre as instituições sociais e os órgãos governamentais criam brechas e disparidades e os maiores prejudicados nisso são os menores”.
A analista financeira Érica Freitas, já foi madrinha de uma criança acolhida em Contagem, em meados de 2007. “Fui madrinha no sistema antigo, nessa época, a gente levava a criança sem fazer nenhum tipo de registro ou cadastro de apadrinhamento. Esses documentos eram feitos dentro dos próprios abrigos. Eu apadrinhei uma menina que tinha dois irmãos que foram adotados por uma família e ela já estava em processo de adoção, dessa família, e com isso, eu me afastei para a criança ter maior contato com a família adotante”, conta.
Os adolescentes têm o direito à família e foi pensando assim, que a Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação de Contagem em conjunto com a vara da infância mudaram as regras do programa de apadrinhamento O programa tem alguns requisitos como preencher cadastro e passar por entrevistas. Outra alteração foi que agora o padrinho não poderá apenas ficar com os menores só no final do ano, ou em datas festivas, ele deverá ter regularidade de presença na vida do menor. “Quando acontecia isso de só pegar no final do ano, gerava uma expectativa para a criança no restante do ano e não resolvia o problema da carência dela” defende Érica.
Ainda segundo Érica, existe a possibilidade do padrinho apenas ter um compromisso financeiro com o afilhado. No apadrinhamento material, o padrinho se compromete com valores acordados e registrados. Ele não pode simplesmente deixar de colaborar de uma hora para outra. Para a artesã Regina Carla, essa possibilidade só gera mais afastamento dos adolescentes do convívio familiar, uma vez que os padrinhos só terão o compromisso financeiro deixando de lado o principal que é o afetivo.
Daniel pode ser considerado um adolescente de sorte dentro desse universo. Desde quando os pais biológicos deixaram de ter o poder da guarda dele, o adolescente encontrou apoio da madrinha que garante a ele um plano de saúde, roupas e calçados, mas para o adolescente, o que a “dinda” dá de mais valioso é o carinho e os conselhos para melhorar de vida. “Às vezes vou à casa dela e tenho convívio com a família dela, mas na verdade queria ser adotado”.

Mesmo com um judiciário lento e a falta de lei específica, voluntários arregaçam as mangas
Pensando em todas as dificuldades, desafios e dúvidas referentes ao universo da adoção e do apadrinhamento e inspirados no caso da pequena Duda, o casal Liamar e Valbio percebeu que muitos casais brasileiros e principalmente, as crianças e adolescentes, passam por dificuldades semelhantes às deles e com isso, o casal resolveu criar um grupo de apoio à adoção, em Contagem. “O Grupo de Apoio à Adoção Amigos da Duda, GAA, busca dar orientação na hora que os adotantes mais precisam. Os participantes trocam experiências, dúvidas e dão conselhos. Tivemos a necessidade de reunir com pessoas que pensam da mesma forma. São os diversos olhares que fortalecem o grupo”conta Valbio.
Formado em março de 2015, o grupo tem o apoio da psicóloga Marlene Santos e de pessoas como a funcionária pública Lenir Silva que tem um filho adotivo de 13 anos; da artefinalista, Patrícia Pechim, que atualmente está com 30 anos e foi adotada quando tinha apenas dois anos de idade.
A funcionária pública, Lenir das Dores Silva adotou o pequeno Wesley quando ele tinha dois anos e hoje o garoto está com 13 anos. Segundo Lenir, Wesley é como qualquer outro adolescente: dá trabalho e também alegrias. Porém, segundo Lenir, nem todas as crianças tiveram a mesma sorte que Wesley, a adoção requer mais um pouco de cuidado porque a criança já vem com um histórico triste na vida “Quando uma criança tem dois anos ela tem um histórico de rejeição ou maus tratos em um período de dois anos. Quando essa criança tem dez, doze anos, o histórico e os traumas são maiores e os adotantes têm que estarem mais preparados para lidar com o adolescente”. Mesmo com todas essas dificuldades, Lenir acredita que não adotar um adolescente pode ser considerado uma forma de preconceito.

Para Patrícia, poder falar da experiência de vida de uma pessoa que cresceu sabendo que foi adotada é muito importante porque elimina traumas pessoais e ajuda quem também passa pela mesma situação. “Fui morar com meus pais ainda bebê e sou a caçula de uma família de quatro irmãos. Cresci tendo o mesmo tratamento dos meus outros irmãos, mas na escola sofri alguns bullyings de colegas que estudaram comigo quando criança e falar sobre isso e ter a possibilidade de trabalhar essa temática dentro de um grupo, ajuda a romper barreiras”, conta.
O grupo não é apenas de apoio mútuo. Segundo a integrante, Débora de Paula Cortezzi, são desenvolvidos projetos voluntários com os adolescentes em situação de acolhimento na tentativa de qualificá-los para o mercado de trabalho. “Eles chegam às instituições de acolhimento com a dificuldade da adoção tardia e quando completam 18 anos, saem da instituição sem estarem qualificados profissionalmente. A intenção do nosso grupo é desenvolver o trabalho de qualificação. Queremos buscar parcerias com empresas da região e também a inclusão de novos voluntários”, finaliza.

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Geral
A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
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2 meses atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Geral
O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
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6 anos atrásem
07/11/20O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac
Por Dirce Waltrick do Amarante*
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
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O show de Trump: renovação ou cancelamento?
A eleição nos EUA e o destino da democracia na condição atualista
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06/11/20por
Aloisio MoraisNos EUA voto popular não significa vitória. Biden terá mais votos do que Trump e ainda assim o resultado da eleição continuará indefinido por algum tempo. Apesar dos descalabros que marcaram a gestão Trump antes e durante a pandemia, o seu desempenho na atual corrida eleitoral será muito forte.
Mateus Pereira, Valdei Araujo e Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG
A disputa está sendo muito mais acirrada do que era inicialmente previsto pela maior parte dos institutos de pesquisa e da mídia americana, embora a cautela e o medo nunca deixaram de estar presentes. Sob esse ponto de vista, as eleições deste ano são como uma repetição do que vimos em 2016, ainda que o resultado possa ser a derrota eleitoral para Trump. Em 2016 foram os democratas que denunciaram a interferência russa, agora é o presidente-agitador que se apressa em questionar a legitimidade do pleito, sem mostrar nenhuma prova. Sabemos que no ambiente do atualismo provas têm como base apenas convicções.
Um sistema eleitoral que sobreviveu por séculos, sem grandes mudanças, pode ter se tornado obsoleto desde a eleição de Bush, em 2000. Um lembrete do possível declínio da democracia americana: das últimas oito eleições presidenciais desde 1992, os democratas venceram no voto popular as últimas sete, mas em apenas quatro ocasiões ganharam o colégio eleitoral e fizeram o presidente.

Acreditamos que as eleições nos EUA são um exemplo do confronto entre duas estratégias e duas concepções sobre fazer política: de um lado, Trump e sua promessa de eterna atualização da atualidade em modo nostálgico; e Biden, com sua aposta moderada no cansaço na agitação atualista que seu adversário republicano encarna e radicaliza, e a retomada da política em moldes liberais. Essa retomada é feita sem uma crítica efetiva ao modelo neoliberal abraçado pela cúpula do partido democrata. Uma aposta radical, como Sanders, teria se saído melhor? É difícil dizer, mas tudo leva a crer que não, tendo em vista o complicado xadrez do voto estado a estado.
A escolha entre as duas estratégias/concepções se mostrou muito mais difícil e apertada do que se imaginava. A tal “onda azul” anunciada por parte da imprensa estadunidense esteve longe de acontecer. De fato, Trump se mostrou eleitoralmente muito mais forte do que os analistas supunham. Considerando que esta não é a primeira vez que os institutos de pesquisa falharam em captar esse movimento no eleitorado americano, e considerando também que fenômeno semelhante ocorreu no Brasil em 2018, coloca-se a questão de saber se as tradicionais pesquisas de opinião tornaram-se de alguma forma obsoletas em um mundo atualista. Esse quadro muda pouco, mesmo com uma eventual vitória de Biden ou pior, com uma inconveniente reeleição de Trump.
São vários fatores que devem ser considerados para avaliar essa questão. Os próprios institutos se apressaram a ensaiar algumas explicações ao público. O diretor da Trafalgar Group, Robert Cahaly, afirmou que muitos eleitores “esconderam”, como já havia acontecido, sua preferência por Trump por algum receio ou constrangimento social.[1] Não podemos desconsiderar algum tipo de boicote/sabotagem dos eleitores republicanos, já que na retórica do trumpismo as pesquisas de opinião fazem parte da mídia vendida. Outros recorreram à justificativa de que as pesquisas anteriores representavam apenas fotografias do momento específico em que as entrevistas foram feitas, e não o que se poderia esperar na eleição propriamente dita. Isso poderia ter sido de fato observado pela tendência de redução da vantagem de Biden nos últimos 15 dias. Afinal, o episódio da contaminação de Trump e sua rápida recuperação pode ter tido um saldo positivo, ao menos na mobilização de sua base, como já havíamos especulado em coluna anterior.
Aceite-se ou não essas justificativas, fato é que os institutos de pesquisa sairão dessas eleições com sua credibilidade e imagem pública mais arranhadas, sobretudo diante das especificidades do sistema eleitoral americano. Como afirmamos, muitos fatores concorrem para esse desgaste. Um deles está relacionado à condição atualista que caracteriza o nosso presente e como cada um dos candidatos se coloca frente a tal condição.

Trump é um político bastante sintonizado com o ambiente da comunicação atualista onde as provas dispensam comprovação factual. Seja nas redes sociais, seja em seus concorridos comícios, o presidente se revela um comunicador difícil de ser batido. Dentre os aspectos associados à condição atualista, destacamos a intensidade e velocidade sem precedentes do fluxo de notícias, em detrimento dos protocolos de verificação e checagem da informação veiculada. Esse ambiente infodêmico[2] é particularmente fértil para a produção de desinformação e sua disseminação como misinformação.[3] Além das informações imprecisas, para não dizer apenas falsas, que a infodemia trumpista ajuda a difundir, é preciso levar em consideração a agitação/ativação que produz. É como se a oposição se agitasse confusamente e a base trumpista se ativasse a cada um de seus comentários polêmicos. Assim, o uso constante das redes sociais para disseminar fake news ou comentários faz com que, seja de modo positivo ou negativo, o presidente esteja sempre no foco da mídia. O acúmulo de notícias sobre suas falas ou atos inconsequentes faz com que seja difícil recuperar qual foi o absurdo dito ou feito na semana anterior. Na condição atualista há um valor excepcional em estar mais atualizado (e exposto) que o seu adversário.
Ainda assim, a manipulação das fake news como ferramenta política supõe uma linguagem organizada para se tornar eficaz. Essa afirmação pode soar chocante à primeira vista: como podemos atribuir coerência a um discurso fundamentado em desinformação e que frequentemente e sem o menor pudor afirma hoje o contrário do que disse ontem, como o exemplo do uso de máscaras na pandemia?[4] O ponto aqui é que a condição atualista coloca muitos obstáculos para que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Assim, quando confrontados com suas próprias contradições, políticos atualistas como Trump e Bolsonaro simplesmente atualizam suas narrativas e afirmações quando as anteriores se tornam insustentáveis. Com muita frequência, os seus discursos mudam em função da conveniência da atualidade, sem a mínima necessidade de se prestar conta da contradição com o que eles mesmos diziam no dia anterior.
Essa estrutura atualista do discurso político só se torna eficaz, porém, no interior de uma linguagem organizada e facilmente identificável pelo público que a compartilha, no interior de uma condição material de reorganização do mundo do trabalho e do capital. A crise de 2008, concentração de renda, neoliberalismo, capitalismo de vigilância e a formação do atual “precariado” são elementos, dentre outros, fundamentais para entender a emergência de líderes que governam e são eleitos por pequenas maiorias mobilizadas pela historicidade e ideologia atualista. Só assim podemos entender a força de Trump na eleição independente do resultado final, ainda que sua derrota interesse a todos os democratas do mundo.

Trump lança mão de artifícios retóricos quando confrontado com suas afirmações evidentemente baseadas em mentiras e contradições, de tal maneira que ele consegue, mesmo em tais situações, transmitir e reforçar o código entre o seu público. O código se estrutura em uma lógica antagonista, na qual o portador é sempre vítima de perseguição por parte do establishment e da imprensa vendida para a “esquerda corrupta” ou as corporações globalistas.
O ponto principal a ser considerado é que para ser politicamente eficaz não é necessário que o código seja compartilhado por todos; mas que seja continuamente ativado junto aqueles que já o compartilham. Por mais que esteja sustentado em desinformações, o fato é que o código é bastante poderoso na ativação de afetos políticos centrais como o medo, ódio e ansiedade, vetores de forte engajamento e agitação política que Trump e Bolsonaro sabem tão bem promover.
O sucesso dessa estratégia se coaduna com a popularização das redes sociais e dos smartphones, bem como das novas tecnologias de processamento de dados manipulados para fins políticos. Nesse contexto, tornou-se possível criar e difundir mensagens sob medida para cada tipo de público, cada indivíduo ou grupo formula suas próprias percepções sobre o mundo a partir de narrativas (códigos) que não mais precisam ser expostos publicamente a todos para serem eficazes. Após alguns reconhecimentos iniciais, os algoritmos se encarregam de abastecer-nos das notícias que nos mobilizam, sempre com o mesmo teor e formato. Reforça-se, assim, o fenômeno das “bolhas”.[5] Esses códigos podem circular de forma subterrânea, de tal modo que o que parece absurdo e chocante para uns, é perfeitamente aceitável e normalizado para outros.
Esse ambiente de circulação de notícias e códigos é condizente com a ordem atualista de nosso tempo e, ao nosso ver, é um fator importante a ser considerado no desempenho surpreendente de Trump nestas eleições. E um dos preços a se pagar para tal sucesso é a radicalização do clima de agitação que tem marcado a nossa época. Esse quadro tem resultado inclusive em distúrbios psicológicos cada vez mais comuns, como o “transtorno do estresse eleitoral”, que segundo estimativas afeta sete em cada dez cidadãos estadunidenses.[6]

Os políticos atualistas claramente não se importam em pagar esse preço, na verdade eles têm lucrado com isso. Mas, ao fim e ao cabo, eles não podem evitar completamente os efeitos colaterais de suas apostas. Agitação e dispersão geram também cansaço no eleitorado. Biden e os democratas tomaram esse efeito como vetor de suas estratégias para estas eleições. Frente à irrefreável agitação de Trump, Biden se vendeu como a opção mais “centrista”, de moderação e convergência. A divergência entre as duas estratégias foi mais uma vez demonstrada logo após o fechamento da votação: enquanto Trump se apressou em declarar-se vencedor e dizer que irá judicializar a eleição em caso de derrota, Biden classificou tal postura como “ultrajante” e pregou calma aos seus apoiadores[7].
Mesmo que a vitória do democrata seja confirmada, é inegável que o preço desse lance foi bastante alto. A imprensa americana noticiou como parcelas importantes do eleitorado negro, que o próprio Biden afirmou ser “a chave para a vitória”, relataram estarem pouco motivados a votarem no candidato democrata.[8] O mesmo ocorreu entre parte do eleitorado hispânico, em especial na Flórida e no Texas. O conservadorismo nos costumes, a adesão a denominações evangélicas que tem crescido entre hispânicos e a tradição anticomunista dos cubanos, e agora também venezuelanos, na Flórida, são fenômenos a serem considerados. Enquanto fechamos essa coluna Trump ainda lidera na Pensilvânia, estado no qual o operariado branco migrou dos democratas para o trumpismo. No último debate, Biden acabou por reconhecer que teria que acabar com a exploração do altamente poluente gás de xisto, o que foi imediatamente explorado por Trump: “Eis uma declaração importante”, ironizou o presidente. Caso perca por margem apertada na Pensilvânia, onde os trabalhadores dessa indústria são amplamente sensíveis ao tema, talvez essa declaração tenha custado a eleição.
Para entender melhor essas flutuações teríamos que fazer algo pouco praticado durante a campanha, uma avaliação retrospectiva fundada em boa informação acerca das políticas públicas implementadas por democratas e republicanos, em especial nos governos Obama e Trump. O apoio ao republicano não é apenas resultado da mágica da comunicação, deriva também da tibieza das políticas democratas e dos acertos de Trump. Reforma do sistema criminal, política externa menos intervencionista, foco na economia e na criação de empregos, com bons resultados, ao menos até a pandemia.
A decisão das eleições primárias do Partido Democrata em nomear um candidato “centrista” para concorrer nessas eleições – ao contrário de uma opção mais radical do populismo de esquerda como Bernie Sanders – foi importante para unificar o partido (em especial o seu establishment) e angariar o apoio do eleitorado “cansado” da agitação radicalizada. Por outro lado, a figura moderada de Biden não se mostrou capaz de promover um grau de engajamento e mobilização do público à altura do seu adversário agitador, nem está claro ainda se seu discurso de união nacional conseguiu atrair eleitores de Trump. Essa diferença é importante em um contexto onde o voto não é obrigatório e, no caso particular das eleições deste ano, ainda mais desencorajado pela pandemia do coronavírus.
Mesmo assim, a moderação pode ter sido eficaz para para derrotar a agitação, mas não para desativá-la. E ainda não podemos assegurar como os EUA sairá dessas eleições, pois Trump continua sendo quem é. Há ainda o risco de o agitador perder e não aceitar sair, e as consequências disso poderão ser catastróficas. E mesmo que ele saia, o trumpismo – o negacionismo, o anti-esquerdismo, o desejo de retorno a um passado glorioso e mítico – ainda permanecerá em parcelas consideráveis da população.

O que tudo isso ensina para o campo democrático brasileiro, que tem de enfrentar a sua própria versão de agitador atualista? Desde o início da votação nos EUA, Bolsonaro disparou freneticamente uma série de tweets ressoando as alegações infundadas de seu ídolo sobre as eleições serem “fraudadas” a favor dos democratas, o que seria um risco para a “liberdade” e para o Brasil. Afinal, nosso agitador atualista tupiniquim sabe bem que a permanência de Trump é uma força de sustentação fundamental para ele. As relações entre EUA e Brasil deixaram de ser uma relação entre Estados, mas sim uma relação de “amizade” (leia-se emulação e, do nosso ponto de vista, subserviência) entre os chefes de turno da Casa Branca e do Palácio do Planalto.
Assim, e seguindo o estilo atualista de fazer política, Bolsonaro ressoa as afirmações sem fundamento de Trump, sem se preocupar com a veracidade e desprezando o princípio diplomático básico da impessoalidade. Mas Bolsonaro também tem seu próprio código “alternativo”, cujo enfrentamento é a tarefa prioritária das forças democráticas no Brasil, que deverá avaliar e tomar suas próprias escolhas para vencer o confronto. Assim como o trumpismo, nos Estados Unidos, o bolsonarismo é um fenômeno que não necessariamente depende da permanência de Bolsonaro no poder: ele mobiliza parcelas consideráveis da população através de seus discursos, que defendem o conservadorismo nos costumes, o liberalismo na economia, a luta contra “o sistema”, a religião e a admiração pelo militarismo.
Será que a aposta moderada e centrista será suficiente para derrotar o bolsonarismo aqui? Mesmo que por pouco? Ou, em nosso contexto particular, faz-se necessário redobrar a aposta na radicalização pela via da esquerda? Mesmo que a vitória de Biden seja confirmada, ainda não está claro qual das duas vias parece a mais indicada para o Brasil. Enfim, tudo indica um destino trágico da democracia liberal de “pequenas maiorias” em tempos de agitação atualista. Sem negar a nossa atual realidade, cabe a nós pensar e imaginar alternativas, por mais difícil que pareça ser em nosso atual nevoeiro e impregnados por uma sensação de asfixia. Além disso, a lentidão com que a apuração avança em alguns estados decisivos promete nos deixar hipnotizados pelos mapas eleitorais na expectativa da atualização decisiva.
(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Ambos são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana (MG). Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição. Agradecemos à Márcia Motta e ao grupo Proprietas pelo apoio e interlocução nesse projeto.
[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/11/04/o-eleitor-oculto-de-trump-e-o-novo-erro-dos-institutos-de-pesquisa.htm
[2] PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer, ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.
[3] Usamos aqui um neologismo para dar conta da diferença que em inglês é mais clara entre a produção deliberada de notícias falsas (disinformation) e sua disseminação involuntária (misinformation).
[4] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/07/20/trump-muda-discurso-e-agora-diz-que-usar-mascara-e-patriotico.htm
[5] EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algorítimos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019.
[6] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/quase-sete-em-cada-dez-americanos-relatam-transtorno-do-estresse-eleitoral.shtml
[7] https://br.noticias.yahoo.com/em-pronunciamentos-biden-prega-calma-e-trump-faz-acusacao-de-roubo-065922289.html
[8] https://www.aljazeera.com/news/2020/9/12/biden-battles-trump-lack-of-enthusiasm-among-black-voters
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