Na frequência do ódio

O Café com Muriçoca, que passa a ser toda quinta-feira, reflete sobre a perseguição política e o cerceamento ideológico a quem rejeita a riqueza como estilo de vida aceitável.
Na frequência do ódio
Padre Julio Lancellotti, alvo da CPI das ONGs. Fonte: Instagram

Há muito tempo que quem caminha lado a lado com as pessoas pobres sofre perseguição.

No Capitalismo, a regra é desumanizar os grupos sociais mais vulneráveis, pra poder justificar sua opressão e morte. Por isso, não é surpresa nenhuma, embora continue sendo uma grande vergonha, a abertura da “CPI das ONGs” – que, sabemos, na verdade é uma forma de intimidação direta ao Padre Júlio Lancellotti e à sua solidariedade às pessoas em situação de rua e desvalidas em geral.

E por falar em pobreza, eu que sou cristã sem religião, outro dia ganhei de presente uma sessão de tarô. Aceitei, é lógico.

Tudo corria muito bem obrigada, com a taróloga discorrendo sobre minha falta de amor próprio e sobre a presença de pessoas manipuladoras na minha conturbada vida de artista sem emprego, até que ela me disse que previa um grande prejuízo financeiro, o mais tardar no mês de março, se eu não parasse de “vibrar na frequência da escassez”.

Ela falou que minha postura precisava se modificar, pois eu não deveria me lamentar ou ficar preocupada depois de gastar meu rico dinheirinho – que isso fazia o universo entender que eu desejava a pobreza e, assim, o dito cujo, sacaneava e me mandava mais perrengues.

Argumentei que não. Que pobre eu sou, embora nem sempre limpinha, mas nem por isso sou mão de vaca. O dinheiro que entra na minha casa costuma sair rápido porque tenho uma família grande, amigos e amigas a quem presto socorro, e vice-versa, sempre que a escassez vibra no terreiro de alguma de nós. Mas que não lamento gastar com a vida, sobretudo com suas alegrias – isso não. 

Ao que ela me respondeu de pronto: “Então é pior”. 

Na frequência do ódio
Na frequência do ódio. Montagem com desenho “Payasa Marcela”, de Júppiter.

Disse que a pobreza estava no meu subconsciente e que muitos banhos, mantras e afirmações seriam necessários pra convencer meu espírito de que eu sou uma pessoa da hora e de que, portanto, sou merecedora de tudo o que o universo me trouxer de bom. Sobre distribuição de renda ela não falou nada não, mas, enfim…

Da hora eu sou mesmo, Universo!

Tirando as falhas de caráter e outras partes ruins, como o desequilíbrio mental que me põe na lona algumas vezes, e o fato de que quinze parentes assassinados me deixam em estado de constante alerta, luto e luta, sou uma mulher inteligente, forte, criativa, talentosa, sensível, bonita e amada.

Tenho uma família enorme, amizades verdadeiras e reconhecimento social. 

O problema é que esta minha formação cristã, contrariando as famigeradas ”teologias da prosperidade” (que o admirável Padre Júlio, obviamente, não segue), mais os anos de fome na favela, mais meu senso crítico, aguçado pelos estudos de Literatura e Sociedade me fazem literalmente odiar os ricos. Eles são o mal do mundo. Pra eles, o mar vermelho nunca se abrirá, muito menos as portas do paraíso, porque sua acumulação de bens destrói o planeta e toda a vida que nele há. É uma classe de assassinos em série. 

Como diria o Clã Nordestino: “entenda a armadilha e saiba que a ferida na perna do pretinho é quem paga o cruzeiro, o transatlântico romântico do casal de canalhas. Pragas são como ricos. Ricos são como pragas”. 

E eu não quero me tornar quem mais odeio.

Dito isto, como explicar ao universo, de uma forma bem didática, que eu conheço as dores da pobreza e não desejo ela nem pra mim, nem pra ninguém. Que não é disso que se trata.

Mas que, por outro lado, também não admito poucos indivíduos explorarem, mutilarem e matarem em nome da acumulação capital.

Entenda, Universo. Nem pobreza nem riqueza. Quero que cada pessoa contribua com nosso mundo na forma e intensidade que consiga, mas que receba na forma e quantidade que realmente necessite. Sem essa de merecimento. 

Eu, Universo, sei que posso fazer o bem à humanidade com minha arte – é o que tenho de mais bonito a oferecer. Em troca, quero receber dignidade na forma de moradia, educação, trabalho, renda, esporte e lazer.

Por último, eu quero sim ser uma pessoa melhor, uma pessoa boa, como o Padre Júlio. Mas a minha frequência, universo, embora não seja a da escassez, mas sim da igualdade, da equidade e do amor ao próximo, é sim, com toda certeza, também do ódio aos ricos.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros “De passagem mas não a passeio” (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros. Nas redes: @doutoradinha


LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

2 respostas

  1. Acho essa conversa de Universo muito interessante, ele tem uma facilidade enorme pra escutar as coisas negativas, mas as positivas tem que ser pedidas corretamente, e claro, você tem que pagar alguém pra te ensinar a pensar positivo. Odeio os ricos, como a Dinha, mas também os tarólogos e afins que vivem de vender ilusões.

  2. Concordo com quase tudo. A visão crítica da humanidade muito verdadeira. Só não me soa bem o “ódio “. Odiar envenena quem o sente. Gosto de compaixão. Entender que quem não se importa com o sofrimento do outro é antes de tudo pobre de espírito. O vaidoso, mesquinho, arrogante é um ser que não entendeu nada do que é viver. Pensa só em si mesmo e nem desconfia que para ele existir milhões viveram antes dele. Se pensasse seriamente na fragilidade humana, mudaria rapidamente sua postura diante do próximo, rico ou pobre.

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