São Paulo é uma cidade-palafita

#5 Café com Muriçoca, coluna literária

Por: Dinha | Ilustração: Sandrinha Alberti

“Eu recebi seu tic
Quer dizer, kit
De esgoto a céu aberto
E parede madeirite.
De vergonha não morri
Tô firmona, eis-me aqui.
Você não, cê não passa
Quando o mar vermelho abrir”


Racionais MCs

“São Paulo é uma cidade-palafita com mulheres e homens negros suportando a enxurrada, e uma elite medíocre suspensa, jogando seu lixo e seu ódio na correnteza que ameaça inundar nossos lares e destruir a pouca dignidade que nos resta

Escrever é quase sempre um desafio, mesmo pra quem manja do assunto. Depende de inspiração, técnica, conteúdo, tempo, ócio… e depende também de se ter ou não ter algo que valha expor pro mundão. Eu escrevo poesia, sabe? mas tem dias que o verso não dá conta. Assim como a crônica, tem dias que ela não traduz toda a agonia que tatuam os olhos do nosso cotidiano.

A cidade onde moro, São Paulo, é uma cidade-palafita, dividida entre as carnes dos prédios chiques e os ossos dos barracos erguidos por cima ou na beira dos córregos. O da minha mãe, na Vila Cristina, ficava bem de frente pra enxurrada. Ele se erguia de cara pro beco, com um esqueleto de pau, chão de assoalho de tábuas, onde os brotos de feijão cresciam por entre os vãos e ninguém nem comia porque tinha nojo dos ratos que podiam estar por lá – debaixo do piso e das paredes de madeirite.

Nosso barraco se erguia a mais de meio metro do chão de barro e, pra garantir que a água suja, o desconforto e a lama que qualquer chuva trazia ficassem do lado de fora, papai construía comportas que funcionavam quase sempre. Era preciso um daqueles dilúvios pra nossa casa ser mesmo inundada.

Por isso, enquanto o mundo não caía de vez, a gente construía pequenos barcos de papel com folhas de caderno velho e que, amarrados às linhas de costura da minha mãe, enfrentavam a correnteza e nos distraíam do desconsolo de estarmos cercados de água suja.

Depois de um tempo, os barquinhos, molhados, se desprendiam e afundavam.

Com a vizinhança não era tão fácil assim. Várias vezes foi preciso apelar para a caridade das igrejas e da defesa civil pra poder substituir os colchões, os móveis e a seca segurança levada pela enchente.

Pra ser justa, na verdade, e descrever bem essa cidade de cotidiano azul e amargo, eu poderia até citar Nelson Rodrigues, se a frase dele não fosse machista: bonitinha, porém ordinária não cabe a essa municipalidade. Primeiro porque ela é mesmo bonita em sua luz e sua sombra, na sua diversidade. E segundo porque só sua elite é realmente ordinária.

Essa porra de elite é sim a causa de o pé das palafitas sermos nós, mulheres e homens negros e pobres, acumulando feridas físicas e psicológicas, enquanto mantemos a sua pirâmide social intacta.

Agora mesmo, enquanto escrevo este texto com uma mão, com a outra ajudo a sustentar o país.

Agora mesmo, minha amiga me conta que se lembra da infância, quando a enchente inundou sua casa e as ratazanas subiram na cama, disputando o colchão em que ela e a irmãzinha tentavam se manter a salvo.

Agora mesmo, escrevendo este texto, sou confrontada com a notícia de que mais um adolescente, aqui no meu bairro, deu de cara com a PM assassina e se encontra em estado grave, tratado como bandido, num hospital que coerentemente tem o mesmo nome de São Paulo.

Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, me lembro do falecido Zé Piaba, aquele que não teve nenhuma sorte na vida. Um dia ele resolveu morar bem debaixo do nosso barraco, bem por onde a enxurrada corria.

Olhando pra trás eu pergunto: mas por que, Piaba? Por que você quis dormir logo ali, na companhia de ratos e restos de tudo o que na correnteza cabia? Ninguém nunca soube, nem ele nunca responderá.

Talvez ele tivesse enlouquecido de tanto tomar na cachola e visse, debaixo do barraco, o que mais ninguém via: os barquinhos de papel estacionados em algum porto seguro, onde ele podia pegar carona e navegar por águas menos sinistronas.

São Paulo é sim uma cidade-palafita, mas o distanciamento dos ricos é erguido sobre aço e concreto, desprezo e vidas diluídas no empenho da promessa de respiro, do salário mínimo ao final de cada mês.

Suas palafitas são higiênicas e suas bases têm nomes mais discretos e formatos menos convencionais: “elevador social”, “entrada de funcionários”, “quartinho da empregada”, “banheiro só para clientes”.

Suas palafitas são também bastante eficientes: mantêm longe a visão da pobreza, a ameaça dos desvalidos, o cheiro ruim da fome das crianças – das que ficam na rua e daquelas que não podem pedir esmolas nos faróis da vida, porque mamãe e papai têm medo de gente ruim as roubar.

São Paulo é uma cidade-palafita com mulheres e homens negros suportando a enxurrada, e uma elite medíocre suspensa, jogando seu lixo e seu ódio na correnteza que ameaça inundar nossos lares e destruir a pouca dignidade que nos resta.

São Paulo é uma cidade palafita: urbana, insana e desumana. E essas fita, todas elas, não cabem nos meus versos, tampouco nas prosas da crônica, nem no padrão da norma culta brasileira.

São Paulo é uma palafita: urbana, insana e desumana.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo,editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • Interessante. Gostaria de contatar a escritora para um livro de uma editora que estou montando. Cidade de São Paulo para os brasileiros seria o título de uma série. Seria possível? Obrigado

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