Parada LGBT BH 2015: um local de (R)existência e identidade

 

Parada LGBT BH 2015: um local de (R)existência “As pessoas sabem que a gente existe, mas elas querem jogar a gente de lado” — diz Anyky Lima, presidente da Cellos MG e representante estadual da ANTRA

A capital mineira entardeceu com a imensidão das cores da diversidade invadindo a Praça da Estação e as ruas neste domingo, 19 de julho. Mais de 50 mil pessoas saíram de suas casas para desfilar contra o preconceito e a invisibilidade que sofrem os movimentos que integram a sigla LGBT.

Pedro Gontijo / Jornalistas Livres

A mobilização daqueles que a sociedade nega e põe à margem deve ser diária. Anyky Lima, presidente do Cellos MG e representante mineira da ANTRA (Associação Nacional das Travestis e Transexuais), ressalta o poder desta data como o símbolo da batalha diária de ser LGBT: “Nós usamos este dia para reivindicar direitos e para mostrar que a gente existe e que a travesti é um ser humano. A Parada pra mim é um dia de luta, como outro qualquer, que a gente luta o ano inteiro e a vida inteira, mas além de ser um dia de luta é um dia de felicidade, que a gente vai pra rua mostrar que a gente existe.”

Mostrar-se ao olhar do outro que interpela e questiona a existência LGBT e seu direito de pertencer à sociedade, para Anyky, é o desafio: “A travesti e a transexual tem que ocupar todos os espaços. Eu tô aqui representando mas eu quero que outras meninas apareçam e ocupem este espaço. É uma coisa que você tem que conquistar, ninguém vai te dar de mão beijada”.

Nicole Marinho / Jornalistas Livres

Esbanjando sempre um sorriso, Anyky ressalta que “já tiveram muitas coisas boas por aqui, casamentos, avanços na área da saúde, tudo aqui é um recomeço e a gente vai lutando para conquistar mais avanços a cada dia”. Mas também questiona os avanços e retrocessos dos últimos tempos: “o nome social não é uma lei, é uma portaria, então pra mim ele não tem muito valor, tem lugares que as pessoas não respeitam”.

A Parada LGBT de Belo Horizonte contou com apresentações artísticas e falas dos principais movimentos envolvidos e autoridades apoiadoras da causa. Nilmário Miranda, Secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania de Minas Gerais, também manifestou seu repúdio ao preconceito. “Eu participo das Paradas há mais de 20 anos, o movimento foi crescendo, virou uma multidão e um movimento social. Mais de 30 cidades fazem paradas hoje em dia, e houveram conquistas muito boas no judiciário, na sociedade e na mídia para romper esta discriminação. Acho que o nosso objetivo é acabar com toda forma de preconceito, que faz muito mal a uma sociedade.”

Pedro Gontijo / Jornalistas Livres

Pós-abertura, três trios elétricos se alinharam para fazer o percurso que trouxe o grito e também toda a alegria e energia dos movimentos LGBT às ruas da cidade. A Parada seguiu pela Rua da Bahia até a Av. Afonso Pena rumando sentido à Av. Professor Moraes.

Ao lado dos trios, as reivindicações eram semelhantes. Aléxia Star, drag queen há 2 anos, indica para a sociedade: “vamos nos conscientizar, vamos nos tratar com respeito que é o que estamos precisando para um mundo melhor e com paz”. A transformista Eli Moon compartilha da mesma ideia, retomando o intuito da data: “hoje em dia a Parada do orgulho LGBT tem perdido muito foco, na verdade a gente não pode perder o intuito, a Parada existe para que a gente peça respeito”.

Pedro Gontijo / Jornalistas Livres

O tão pedido respeito vem aos poucos, mas o avanço da aceitação fica nítido quando se nota a presença, ainda que sutil, dos ativistas do Movimento em Cores, Doutra Forma e Redenção Pedro II, ligados a igrejas que veem as pessoas LGBT com amor. “A gente queria quebrar o preconceito que a igreja tem com todo este movimento, porque somos cristãos e Jesus não tem preconceito, então quem é de Jesus também não tem. Quem julga as pessoas, não tem tempo para amá-las”, explica Esther Roth, representante do grupo cristão que levou diversas bandeiras à Parada.

Pedro Gontijo / Jornalistas Livres

Em união à fala de Esther, a drag queen Aléxia também enxerga esperança para o conflito entre algumas religiões e o movimento LGBT. “Na verdade isso é um movimento, as pessoas estão vindo aqui para criar um mundo sem preconceito”. O contraponto é feito pela Presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais, Cida Vieira: “essa marcha é uma marcha muito importante e nos permite falar sobre a “Putafobia”, que existe no mundo inteiro e não é vista”.

Nicole Marinho / Jornalistas Livres

A prostituição é pauta fundamental à Parada, e segundo Cida, a discussão ainda não acontece como deveria. “Nós invadimos as paradas , porque quando você fala em LGBT existem as profissionais do sexo, gays, lésbicas, trans. Nós, profissionais do sexo, muitas vezes somos bissexuais também”. Quando questionada, Cida diz que sua presença na Parada tem uma razão gritante: “Contra a violência dos profissionais do sexo, tendo em vista vários assassinatos sem estatística. A profissional existe e somos assim reais”. Crítica, Cida pede por mais direitos e visibilidade: “hoje a gente está discutindo também com o LGBT e passando o Luiz XV nesta sociedade que nos usa e não nos assume”.

Ao fim da Parada, os paetês parecem seguir de volta pra caixa, o fazem e eles continuam a reluzir, porém, distantes. Ainda brilhando em resistência, eles deixam claro que não se pode ofuscar aqueles que nasceram pra brilhar.

Pedro Gontijo / Jornalistas Livres 

 

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