O presidente derrotado

“Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.”

Que país é este? Affonso Romano de Sant’Anna

O Derrotado, segundo a princesa, depois de ter comprado os 51 imóveis com dinheiro vivo aqui, na Terra, pode ter achado pouco e caído no golpe dos terrenos na lua. Os gastos com seu cartão corporativo devem revelar, em breve, que sua família comprou toda a extensão do nosso satélite. O intuito da compra, especula a moça, é ter um lugar seguro pra se esconder, quando a casa cair e a liberdade parar de cantar.

A eleição passou e a favela continuou do mesmo jeito – com duas diferenças: em primeiro lugar, um miliciano foi eleito para governar o Estado de São Paulo e o cenário de guerra entre criminosos organizados começa a se desenhar no horizonte. A tinta com que se pinta é nada mais, nada menos, que o nosso pobre sangue.

Meu amigo, MC Di, continua preso, sem ter cometido crime algum. Os policiais que mataram os meninos Lucas, da Favela do Amor, Igor, Richard e Rogério, aqui no Fundão do Ipiranga, e Guilherme, da Vila Clara, só pra ficar nos casos geograficamente mais próximos a mim, eles seguem suas vidas normalmente.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio segue recebendo denúncias toda semana: de prisões forjadas, tortura e morte de pessoas negras e periféricas.

A eleição passou, mas essas dores não.

Mas, por outro lado, a esperança também foi eleita, fazendo a favela sonhar novamente com pratos cheios, respeito e uma lista de segredos prestes a serem revelados, sobre um presidente derrotado e sua trupe indecente.

Não que eu queira aqui dar ibope a canalhas, mas a gente conhece uma pessoa que pode, talvez, adiantar alguns dos segredos deles. E como fofoca das boas distrai a vida, que ainda tá dureza, convidamos Fraquejada, a princesinha do Reino dos Bananas Prata que pediu asilo no Brasil, depois de matar o reizinho genocida, para falar um pouco sobre o que podemos esperar por aí, a respeito desse tralha que um dia foi presidente desse país.

Na opinião de Fraquê, os segredos do sujeito, que daqui por diante vamos chamar apenas de “O Derrotado”, vão desde compras de mansões na lua, até gastos com a construção de obras faraônicas, como um espremedor gigante de laranja e uma estrada até o fim do mundo.

O Derrotado, segundo a princesa, depois de ter comprado os 51 imóveis com dinheiro vivo aqui, na Terra, pode ter achado pouco e caído no golpe dos terrenos na lua. Os gastos com seu cartão corporativo devem revelar, em breve, que sua família comprou toda a extensão do nosso satélite. O intuito da compra, especula a moça, é ter um lugar seguro pra se esconder, quando a casa cair e a liberdade parar de cantar.

Quanto ao espremedor de laranjas, dizem que ele tem capacidade para até 50 milhões de unidades. Fraquê não sabe dizer ao certo o que o Derrotado quer com esse trambolho, mas suspeita que seja pra espremer súditos que amarelem na hora de defender a extinta honra do finado mandatário.

Por fim, Fraquê arrisca dizer que um dos segredos que virão à tona quando o Derrotado finalmente tentar fugir pra Lua, são os gastos com a longa estrada que ele mandou construir pra chegar até lá. 

Com base na teoria da Terra Plana, se a estrada fosse longa o suficiente e a rotação da Terra e do nosso satélite natural forem calculados direitinho, ao chegar à beira do planeta, pode ser muito fácil pular para suas mansões lunares e, assim, escapar da prisão que o aguarda solenemente.

Não sei se vocês sabem, mas eu vou repetir aqui: eu sou uma pessoa que é contra o cárcere. Acho que é preciso criar formas novas de responsabilizar quem faz mal a outros seres, porque o corró, como tá, não funciona. 

Então, no caso do Derrotado, se ele conseguir fugir praquele lugar inóspito que é a lua terrestre, confesso que vou ficar de boa. Sem água, sem luz, sem comida e sem oxigênio, ele vai ficar como os milhões de brasileiras e brasileiros que pagaram mó veneno nesses últimos quatro anos. Rezo pra que ele leve junto todos os seus milicianos.

Por fim, se ele sobreviver, pode ser, quem sabe, que ele aprenda a virar gente, né não?

Bom domingo.

Feliz Ano Novo pra geral!

Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) Diário do fim do mundo (2019) e Horas, Minutas y Segundas (2022), entre outros. 
Nas redes: @dinhamarianilda


LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

O Reizinho Genocida

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