O reizinho genocida

A coluna “Café com Muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. "O reizinho genocida" é um conto de fadas moderno e periférico. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
Bolsonaro, o reizinho genocida

Por: Dinha

Eu não me vejo na palavra
Fêmea, alvo de caça
Conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

Compositores: Juliana Strassacapa / Sebastián Piracés-Ugarte / Andrei Martinez Kozyreff / Mateo Piracés-Ugarte / Rafael Gomes

“A multidão então entrou no palácio, pisou no jardim gramado – bem onde estava a placa de “proibido” – e banhou-se na água das fontes dançantes que requebravam sem melodia. Um frisson tomou conta das matronas e essas mulheres, tomadas de uma fúria nunca vista, assaltaram o palácio, fuzilaram os guardas, cercaram o rei, a esposa e os quatro filhos.”

Num lugar não muito distante, chamado Reino dos Banana Prata, morava um pequeno rei, junto com a esposa e seus cinco filhos: quatro rapazes e uma menina, cujo nome “Fraquejada” era abreviado para “Fraquê”. Nos contos de fadas, estamos acostumadas a não saber os nomes da maioria das pessoas, assim como não estranhamos nomes feios como o de “Rapunzel” e o da pobre menina “Fraquê”. 

O reizinho não gostava de mulheres, por isso ordenou que a todas lhes fosse negado o direito à vida, exceto enquanto crianças e durante o período fértil – para que, assim, parissem os filhos do reino. Por causa disso, mulheres não tinham voz em Prata, nem direito a reclamar quando um homem lhe batia ou a obrigava a atender aos seus desejos íntimos. As que ousavam se defender eram friamente executadas com quatro tiros na cabeça.

Certo dia, circulou por todo o reino a notícia de que um assassino estava à solta. No começo, apenas as mulheres eram as vítimas, mas, com o passar do tempo, o monstro resolveu sabotar estradas – remarcando a velocidade máxima permitida e afastando toda a fiscalização. Os homens começaram a morrer como zangões velozes atrás da rainha abelha, num esmagar-se constante de uns contra os outros. Quando o homicida foi, enfim, encontrado, soube-se que o dito cujo estava sob as ordens diretas do rei – e mais: vinha aplicando golpes contra idosos doentes, levando-os para um abatedouro cujo nome de fachada – que o fazia parecer-se com um hospital – era “Velhinhos Prevenidos”.

Na mesma época desse serial killer, todo o reino foi tomado por uma praga que roubava o fôlego às pessoas. Com dificuldade para respirar, boa parte da população ou morria de fome ou de tristeza, pois o padeiro não tinha forças para sovar o pão e o circo parou com as lonas arriadas.

Os súditos do reizinho, então, decidiram lhe procurar, na esperança de receber conforto e algum dinheiro para combater a praga, cultivar arroz e um pouco de arte. O pequeno soberano, no entanto, diante das súplicas dos seus subalternos, resignou-se a mandá-los ir em busca do nobre coveiro – dado que só ele poderia, naquele momento, lhes ajudar.

No trágico reino de Prata, o caos permaneceu por longos anos. Sem amparo, sem fôlego e sem arte, a natureza humana se extinguia. A mortalidade aumentou em 15%. Trezentos mil bebês deixaram de nascer. A fome atingiu níveis nunca antes vistos e florestas ardiam para divertimento do soberano.

Quando solicitado, o reizinho piromaníaco, oferecia ao povo o velho e obsceno gesto da banana que, acertadamente, nomeava o reino de Prata. 

Ricamente vestido e evidentemente bem alimentado, o tirano guardava para si toda a prata da casa, dispensando aos pobres do reino apenas cascas de frutos apodrecidos. 

Certo dia, porém, sua pequena filha, Fraquejada, brincava de bola nos fundos do palácio (escondida, pois nenhum esporte era permitido  às meninas) quando viu passar uma centena de mulheres. Elas eram, verdadeiramente, muitas.

A princesa então se escondeu atrás de uma bananeira real e, de lá, observou cuidadosamente a multidão. A menina Fraquê notou que todas as passantes traziam o rosto cansado, os lábios azuis da pouca oxigenação e trajavam roupas incomuns (calças masculinas, ou saias e blusas parece que ou sobrando ou faltando pano, outras tinham lenços na cara, no lugar das máscaras de proteção contra a praga). 

Fraquê notou também que elas carregavam bandeiras e faixas com dizeres para ela incompreensíveis. A bandeira que mais lhe chamou a atenção, por conter uma imagem do rosto de seu pai, era segurada por uma mulher grande e pálida. A garotinha não sabia ler, pois mulheres não precisam disso no reino de Prata , mas raciocinou que, pela fúria com que repetiam algo que lhe soava como “FODA-SE REIZINHO GENIOCIDA”, a mulher grande e as outras não poderiam estar elogiando seu pai.

Manchetes de jornal bolsonaro genocida
Bolsonaro, o reizinho genocida

Durante uns minutos, a multidão parou diante do seu portão e, por um instante, a menina pôde olhar nos olhos de algumas mulheres, antes que os cães da guarda real as atacasse e elas todas entrassem numa luta sangrenta. Pouco tempo depois de iniciada a batalha,  ninguém sabe dizer bem a razão, Fraquê destrancou os portões.

A multidão então entrou no palácio, pisou no jardim gramado – bem onde estava a placa de “proibido” – e banhou-se na água das fontes dançantes que requebravam sem melodia. Um frisson tomou conta das matronas e essas mulheres, tomadas de uma fúria nunca vista, assaltaram o palácio, fuzilaram os guardas, cercaram o rei, a esposa e os quatro filhos.

Sem ter para onde correr, o primeiro pulou da janela alta e morreu espatifado. O segundo, sacou seu revólver, atirou a esmo, sem lograr atingir as mulheres e, vendo que elas não recuaram, atirou na própria cabeça. O terceiro esboçou uma fuga. Enquanto os olhos se voltavam contra os mortos, embrenhou-se no meio das mulheres tentando passar desapercebido. Este foi asfixiado pelo abraço apertado das mulheres-sucuri. O quarto filho, vendo o destino dos outros, tentou barganhar: disse que dividiria sua herança com aquela que o deixasse viver e o tomasse como marido. Teve a garganta cortada por uma moça linda e virgem.

Por fim, ao casal real só lhes restou a menina Fraquê – última esperança de compaixão.

A esposa apelou para os laços maternos, para a sororidade e para sua situação de submissa em relação aos homens da casa. Depois de mostrar às outras onde estavam as armas, as riquezas do reino, e enfiar duas balas na barriga do rei, ganhou, junto com a filha, o direito ao exílio. Mãe e filha partiram no mesmo dia.

No palácio real, as mulheres cantavam, dançavam e bebiam sobre o cadáver dos soberanos. Mais felizes que exaustas, juntavam amor e armas – proteção contra possíveis rebeldias contra revolucionárias.

Em algum lugar do planeta o sol nascia. Muito em breve, o mesmo sol banharia o reino com suas luzes douradas.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.
Nas redes: @dinhamarianilda

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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