O assassinato brutal da Marielle Franco nos obriga a refletir

Texto: Silvio Albuquerque, embaixador de Vancouver. Fotos: Thiago Macambira

O assassinato brutal da Marielle Franco nos obriga a refletir sobre o que nosso convívio com as atrocidades no campo dos direitos humanos diz sobre quem somos e sobre quem pretendemos ser como povo e como indivíduos.
As circunstâncias do seu assassinato deveriam chocar, envergonhar e indignar qualquer brasileiro, já que nos colocam diante de um abismo civilizatório. Na verdade, já estamos mergulhados nesse abismo, em queda livre, há tempos. E, por incrível que pareça, seu fundo parece não chegar nunca.
No tributo fúnebre a Malcolm X, em fevereiro de 1965, o ator Ossie Davis disse: “Aqui, nesta hora final, neste lugar silencioso, o Harlem veio despedir-se de uma de suas mais brilhantes esperanças – extinta agora e para sempre arrancada do nosso convívio”.
O mesmo se pode dizer de Marielle, que tão poucos conheciam Brasil e mundo afora. Ela era uma de nossas mais brilhantes esperanças. Mas seu brilho não se extinguiu e não se extinguirá.
Hoje, todos podem ver e admirar sua imagem altiva e sua história de vida, seu rosto lindo, sua alegria de viver, sua coragem e desassombro.
Tal como Martin Luther King e Malcolm X, Marielle teve uma curta trajetória de vida. Nenhum dos três chegou aos 40 anos de idade.
Sua morte, assim como a deles, não terá sido em vão. A semente que plantou haverá de germinar.
Que a data de 14 de março seja para sempre lembrada não como o dia do seu covarde assassinato, mas o dia em que reaprendemos a ter esperança, a sermos otimistas diante da tragédia, a não nos amargurarmos, apesar do horror que nos cerca, a não nos acovardarmos. Para isso, cada um de nós precisa sair de sua zona de conforto e, em qualquer espaço familiar social ou político que eleja, fazer algo transformador por mais diminuto que seja.
Na morte prematura de uma jovem brilhante dramaturga negra norte-americana, Martin Luther King mandou um telegrama para sua família em que reproduzia trecho de Romeu e Julieta, de Shakespeare. Na terceiro ato, na cena 2, Julieta diz, sobre Romeu, o que gostaria de dizer – corrigido o gênero da citação – a Luyara sobre sua mãe, Marielle:

“E caso ela venha a morrer
Transforme-a em pedacinhos de estrelas.
Ela deixará a face do céu tão bela que
todo o mundo vai amar a noite, deixando de adorar o sol”.

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