Quadrinhos sobre Marielle Franco viram mestrado em HQ

Dissertação defendida na UFMT narra em desenhos e palavras a importância histórica dos quadrinhos no midiativismo especialmente nas lutas envolvendo raça e gênero

Por: Marcos Zibordi @mzibordi – da Agência de Notícias da Favela

Na noite de hoje, quando Suzana Rosa Ataíde da Conceição defender sua dissertação de mestrado na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), serão reforçadas várias frentes de luta para quem deseja um mundo melhor, antes que ele acabe: a da representatividade de Marielle Franco; das mulheres, especialmente as pretas; das histórias em quadrinhos com foco ativista; e, ainda, avança a produção científica inovadora, superando anacronismos acadêmicos.

Isso porque o trabalho de mestrado de Suzana da Conceição, mulher negra, tem como objeto de estudo a HQ Marielle Franco – Raízes, lançada em 2021. A narrativa em quadrinhos apresenta a trajetória da ex-vereadora, assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes. O embasamento histórico recupera a trajetória de mulheres envolvidas com artes visuais, desenhando e roteirizando, e, de quebra, parte da dissertação é apresentada em quadrinhos. É bastante para uma pesquisa de dois anos.

Capa da HQ sobre Marielle Franco, objeto de estudo de mestrado

Um salto de mais de 2 mil quilômetros

A autora tem 28 anos e nasceu na periferia de Cabanagem, em Belém (PA). Caçula de cinco irmãos, sempre estudou em escola pública. Aos 19 anos, deixou a família “para trabalhar e ter melhor qualidade de vida”. Queria fazer faculdade de Jornalismo. Com a aprovação no vestibular, foi parar bem longe da cidade natal: Barra do Garças, Mato Grosso, mais de 2 mil quilômetros de distância. Era 2016.

“Durante a graduação eu me envolvi com movimento negro, coletivo feminista, de estudantes, de escolas públicas e projetos de extensão que trabalhavam a ideia de inclusão, representatividade e ativismo”.

Pesquisa de mestrado para ser compreendida

Na graduação, bolsas de estudo garantiram a sobrevivência. Formada, passou no mestrado na mesma Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá. Sobre a decisão de produzir a dissertação em quadrinhos, sempre achou a linguagem acadêmica “muito difícil”.

Segundo Suzana, “quando participava de eventos apresentando artigos e trabalhos, eu achava que algumas coisas estavam complicadas. Eram trabalhos lindos e muito bons, mas que não seriam lidos e entendidos por uma dona Maria, e isso contribuía e contribui para que esse universo se feche”.

Uma das páginas da dissertação sobre HQ de Marielle Franco

Quadrinhos além do entretenimento

A pesquisadora pretende demonstrar que histórias em quadrinhos vão além do entretenimento. São um “meio midiativista através do qual é possível debater raça, gênero, classe, a importância de representação e da representatividade”.

O trabalho é uma aula, com muitas lições. Algumas podem passar despercebidas, como a abertura epistemológica – diz respeito à maneira como a ciência é feita – do orientador Vinicius Souza. Enquanto muitos acadêmicos reinem em seus mundinhos medíocres de poder, ele permitiu o novo. Talvez receba elogios, provavelmente menores do que olhares e narizes tortos.

Deixemos a autora falar na entrevista a seguir, pois, entre as lições da contemporaneidade, nós, homens, devemos aprender que falamos demais.

Considerando seu histórico de vida e a maneira como sua dissertação está sendo apresentada, gostaria de começar falando de como você se coloca no trabalho acadêmico.

Tem uma coisa que eu abordo que é a questão da interseccionalidade social, como as pessoas são atravessadas por eixos sociais de gênero, raça, classe, de geolocalização, de sexualidade. Eu me incluo em todos esses eixos: como uma mulher negra, pobre, que veio da periferia, do Norte do país.

Você trata de diversas mulheres que fizeram desenhos na imprensa brasileira, qual a primeira delas?

Eu faço esse resgate histórico, especificamente de discursos ativistas dentro dos quadrinhos. A Nair de Tefé [1886-1981] é uma que eu abordo, a primeira mulher caricaturista do mundo. Apesar das produções dela serem bem críticas, interessantes e terem repercussão nos jornais da época, ela não conseguia publicar com o seu nome. Só aceitavam publicações masculinas e uma mulher publicar era um ultraje. A sociedade também não aceitava que mulheres trabalhassem fora, porque ia significar independência financeira. A forma que ela encontrou de publicar foi usar o pseudônimo masculino Rian, que é o nome dela ao contrário. Mas ela não ganhava absolutamente nada com isso.

Nair de Tefé no início do século 20, quando mulheres não podiam publicar na imprensa. Reprodução

Diante de tanta proibição às mulheres, como ela conseguiu publicar?

Ela era de família burguesa, estudou arte, música e teatro fora do Brasil. Isso ajudou a ter um pensamento mais crítico sobre as questões de gênero, ideias que ela foi levando para caricaturas e outros trabalhos artísticos. Ela usou esse privilégio de ser da alta sociedade para desenvolver produções críticas às visões da mulher como ser delicado, que era mais romântico, usava assessórios de luxo.

Como foi a relação dela com o marido?

Em 1913, quando ela casou com o Marechal Hermes da Fonseca, então presidente do Brasil, ela parou de fazer caricaturas. Eu não sei dizer se ele não deixou. Mas, em 1922, na Semana de Arte Moderna, ela se torna um dos destaques, com pinturas.

Pioneira, Nair de Tefé viveu 95 anos, atravessou o século e 20 e viu sua obra ser reconhecida.

Você também aborda uma quadrinista negra e ativista norte-americana que começa a produzir depois de Nair de Tefé?

É a Jackie Ormes [1911-1985]. Ao contrário da Nair de Tefé, ela não teve privilégios, era quadrinista de um jornal afro-americano, Pittsburgh Courier. Ela viveu um contexto social problemático como mulher periférica, de perseguições. Uma das coisas que a motivou a produzir quadrinhos eram mulheres negras nos quadrinhos com imagens diferentes do que elas realmente eram. Ou nem eram desenhadas. Eu resgato alguns desenhos da mesma época nos quais mulheres negras aparecem animalizadas, ou como pano de fundo. Jackie Ormes produziu quadrinhos totalmente diferentes.

Quais trabalhos dela você aborda?

Um dos projetos é Torchy Brown, que teve duas fases, em 1932 e em 1950, totalmente diferente dos estereótipos. Ela desenha uma mulher que valoriza a beleza negra, independente, que busca melhor qualidade de vida mudando de cidade; na segunda etapa, ela se torna uma heroína. São quadrinhos coloridos, uma fase em que a Jackie Ormes valoriza a moda negra. Os personagens tem muito da autora, uma revolucionária.

Jackie Ormes, quadrinista negra norte-americana que desenhou combatendo estereótipos

Você também aborda o trabalho de uma pioneira negra brasileira, roteirista, certo?

É a Maria Aparecida Godoy, hoje com 78 anos, a primeira brasileira negra a roteirizar histórias em quadrinhos. Ela era do interior de São Paulo, de Guaratinguetá. Não tinha muitas condições financeiras, de ter uma televisão, por exemplo. Seu entretenimento era escutar histórias dos seus pais, avós e senhoras da região, sobre terror e folclore, narrativas que a inspiraram. Ela passou a escrever várias cartas pra editoras da capital, São Paulo, com histórias de terror, na esperança de publicar. Até que, em 1960, um editor leu a carta, gostou e respondeu, querendo comprar a história e publicar em formato de quadrinhos. Era a Editora Taika.

Cida Godoy, roteirista negra pioneira

Você sabe qual foi a história aceita pela editora?

A Vingança da Escrava. Infelizmente, não achei essa história. Sei que o editor enviou um modelo de roteiro de história em quadrinhos, Cida Godoy aprendeu a adaptar os textos escritos para o formato de roteiro e passou a escrever para essa editora até os quadrinhos sofrerem com a censura no Brasil, na Ditadura. Ela misturava algumas histórias tipo Drácula, mulher lobo, que usavam a cor vermelha, por isso foi censurada, por medo do comunismo. Havia um código, inspirado em um dos EUA, que só aprovava histórias que valorizassem a família, a moral, os bons costumes e Deus. Ela parou em 1993 e passou a se dedicar ao reconhecimento da cultura afro-brasileira.

Cida Godoy está viva, com 78 anos

Depois desses resgates históricos, você chega ao quadrinho sobre Marielle, o núcleo da pesquisa. Quem produziu o trabalho? Como? Qual a importância?

A HQ é uma produção do Instituto Marielle Franco, com uma equipe de pessoas negras, a maioria mulheres. Tem o objetivo de inspirar meninas negras a realizarem os seus sonhos, não serem parte de uma estatística, e, claro, apresentar quem foi a Marielle, ensinando a valorizar nossas origens. A história em quadrinhos foi publicada em 2021, no dia do aniversário de Marielle, logo após a repercussão de mentiras espalhadas sobre ela, que ela era envolvida com o Comando Vermelho; que tinha ficado grávida adolescente, de um traficante; que era usuária de entorpecentes. A importância do material? É como se a Marielle contasse sua história, está em primeira pessoa, uma mulher negra falando por si mesma.

Página em quadrinhos da dissertação sobre a HQ de Marielle Franco

Para finalizar, vamos falar da sua dissertação, com uma parte em quadrinhos. Você desenha faz tempo, só desenhou na tese? O que te levou a tal ousadia?

Eu não desenho há muito tempo, quadrinhos prontos eu só tenho partes da dissertação. Essa ideia foi um insight, perguntei ao meu orientador se podia colocar alguma coisa prática. Ele autorizou, achou ótimo. Comecei a praticar as ilustrações. A ideia inicial seria o material completo em quadrinhos. Mas um dos problemas foi o tempo, bem curto, dois anos. Um capítulo da análise e as considerações finais são em quadrinhos. No Trabalho de Conclusão de Curso de graduação eu abordei questões de gênero e sexualidade nos quadrinhos. Eles são uma mídia ativista e a dissertação fala sobre representatividade, movimento feminista negro e eu fiquei pensando: por que não desenhar tudo isso?

Esta matéria foi produzida com apoio do Edital Google News Initiative.

Reportagem publicada originalmente em: https://www.anf.org.br/quadrinhos-sobre-marielle-franco-viram-mestrado-em-hq/

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