Caso Marielle fica perto de ser desvendado com delação de ex-PM e nova prisão

Ex-PM Élcio de Queiroz firmou delação premiada e acusa ex-policial Ronnie Lessa de disparar submetralhadora; Maxwell Simões Corrêa, o Suel, foi preso nesta segunda-feira pela Polícia Federal. Mas, quem mandou matar a vereadora?
Marielle Franco durante discurso na Câmara - Foto de Renan Olaz/Câmara Municipal do RJ

O ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, conhecido como Suel, foi preso nesta segunda-feira, 24, no Rio de Janeiro, pela Operação Élpis, deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela Força Tarefa Marielle e Anderson, junto com o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco/MPRJ). Conforme a PF, a ação é a primeira fase da investigação que apura os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves na noite do dia 14 de março de 2018, na rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, na região central do Rio. Marielle e Anderson foram mortos a tiros dentro de um carro. A assessora também estava no veículo, mas sobreviveu aos ferimentos.

Foram cumpridos um mandado de prisão preventiva e sete mandados de busca e apreensão, no Rio e região metropolitana. No dia 10 de junho de 2020, Maxwell Simões Correa foi preso e acusado de obstruir as investigações sobre a execução de Marielle e de Anderson, mortos a tiros dentro de um carro. A assessora também estava no veículo, mas sobreviveu aos ferimentos.

Delação

O ex-PM Élcio de Queiroz firmou delação premiada com a Polícia Federal e com o Ministério Público do Rio de Janeiro e deu detalhes das execuções. Ele está preso desde 2019, assim como o seu amigo e suposto cúmplice, o ex-policial reformado Ronnie Lessa, vizinho do ex-presidente Jair Bolsonaro num condomínio da Barra da Tijuca.

Élcio Queiroz dirigia o carro na hora dos assassinatos e fez delação premiada – Divulgação Polícia Federal

Em depoimento homologado pela Justiça, Élcio confessou que dirigiu o automóvel Cobalt prata usado no ataque e afirmou que Ronnie fez os disparos com uma submetralhadora contra Marielle. Élcio disse ainda que o ex-bombeiro Suel fez campanas para vigiar a vereadora e participaria da emboscada, mas acabou trocado por ele.

Suel foi condenado a quatro anos de prisão em 2021 por atrapalhar as investigações, mas cumpria a pena em regime aberto. Ele tinha sido preso em 2020 pela Operação Submersos II. Conforme o Ministério Público do Rio de Janeiro, Maxwell era o dono do carro usado para esconder as armas que estavam em um apartamento de Ronnie Lessa, acusado de ser um dos autores do assassinato e amigo de Suel. O ex-bombeiro também teria ajudado a jogar o armamento no mar.

O ex-bombeiro Suel é acusado de ter cedido um carro para a quadrilha de Lessa esconder as armas por uma noite, logo após a prisão do sargento, ocorrida em março de 2019, antes de um de seus comparsas, Josinaldo Freitas, o Djaca, recolhê-las e jogá-las no mar para evitar a apreensão. A polícia cogitou que uma das armas pode ter sido usada no ataque contra Marielle. O carro de Suel ficou estacionado no pátio de um supermercado na Barra da Tijuca. Suel tentou usar falsas testemunhas para esconder a propriedade do carro, mas elas foram desmentidas.

Maxwell foi preso em casa, no Recreio dos Bandeirantes, a mesma residência onde foi detido anteriormente, onde um carro seu foi apreendido. Agora as investigações ganham nova fase para descobrir, finalmente, quem são os mandantes dos assassinatos.

Ao confessar a sua participação no crime, Élcio apontou o ex-policial militar Ronnie Lessa como autor dos assassinatos. “A partir da saída de Marielle, de Anderson e da Fernanda, ambos seguiram no Cobalt, emparelharam, e todos sabemos o que aconteceu. A rota de fuga ele detalha com minúcias: seguiram pela Leopoldina, pegaram o acesso à Avenida Brasil, dali foram para a Linha Amarela, desceram na última saída da Linha Amarela em direção ao Méier”, revelou o delegado da PF Guilhermo Catramby.

Já no Méier, Ronnie Lessa interfonou para o seu irmão Dênis Lessa, na casa dele. Os dois entregaram os equipamentos utilizados no crime e Ronnie pediu ao seu irmão que chamasse um táxi. “É aí o nosso elemento de corroboração mais efetivo, mais contundente. Conseguimos junto à cooperativa de táxi o rastreamento dessa corrida de ambos do Méier até a Barra da Tijuca, local o qual embarcaram novamente”, disse o delegado Catranby, acrescentando que ali os dois ativam os seus celulares. “Basicamente esta foi a dinâmica do crime no dia 14 de março de 2018”.

CPF

Dois dias antes do crime, Ronnie Lessa fez pesquisas em uma empresa privada de dados do CPF da Marielle e de sua filha Luyara. O delegado Catranby disse que esse fato ainda não tinha aparecido nas investigações, até agora, e quando apresentado a Élcio Queiroz contribuiu para ele fazer a delação. Outro fato, conforme o delegado, que incentivou a colaboração, foi o depoimento da mulher de Ronnie Lessa, que indicou que nem o marido e nem Élcio estavam na residência do casal, o que contrasta com as versões dos dois à Justiça. O delegado observou que apesar de ter conhecimento sobre o planejamento do crime, Élcio contou que não participou das execuções, porque começou a integrar as ações do grupo no dia 14 de março de 2018.

“Ninguém colabora se achar que tem alguma chance de ser absolvido, portanto, as provas hoje são muito contundentes contra o Élcio, por isso ele entendeu por bem colaborar”, explicou o promotor de Justiça Eduardo Morais Martins.

Conforme a delação de Élcio Queiroz, a contratação de Ronnie Lessa para matar a vereadora foi intermediada por Edimilson Oliveira da Silva, o “Macalé”, morador na região de Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio. Portanto, Macalé é quem teria apresentado o mandante do crime a Ronnie Lessa. Élcio disse também que Macalé teria participado das campanas feitas para vigiar a movimentação de Marielle na preparação do crime. Mas Macalé foi executado na Avenida Santa Cruz, em Bangu, Zona Oeste do Rio, em 2021. Um vídeo mostra quando ele andava com duas gaiolas nas mãos e um carro passa com criminosos fazendo disparos. 

As investigações identificaram ligações entre Ronnie e Macalé que coincidem com ligações entre Macalé e Maxwell Simões, preso na operação desta segunda-feira. Essas ligações teriam se intensificado nos dias imediatamente após o crime, conforme informou a agência O Globo.

Repercussão

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, postou mensagem no seu perfil do Twitter em que reafirma a confiança nas investigações. “Falei agora por telefone com o ministro Flávio Dino e com o  diretor-geral da Polícia Federal sobre as novidades do caso Marielle e Anderson. Reafirmo minha confiança na condução da investigação pela PF e repito a pergunta que faço há cinco anos: quem mandou matar Marielle e por quê?”, questionou mais uma vez.

Também pelo Twitter, o ministro da Justiça e Segurança Púbica, Flávio Dino, publicou mensagem sobre a operação. “Hoje, a Polícia Federal e o Ministério Público avançaram na investigação que apura os homicídios da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves. Foram cumpridos um mandado de prisão preventiva e sete mandados de busca e apreensão”, disse.

Em entrevista coletiva, Dino contou que a operação desta segunda ocorreu a partir de delação premiada realizada há cerca de 15 dias por Élcio. “Élcio Queiroz confirmou em delação premiada a participação dele próprio, do Ronnie Lessa e do Maxwell. Temos o fechamento desta fase, com a confirmação de tudo que aconteceu no crime. Há elementos para um novo patamar da investigação, que é descobrir os mandantes”, afirmou o ministro.

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