“Não é possível perder algo que nunca tivemos: a democracia”, diz Vladimir Safatle

Filósofo autor do livro "O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo", participou do primeiro ciclo de debates que abriu o Seminário Internacional 'Democracia em Colapso?'

“Devemos nos questionar contra quem estamos lutando quando falamos em preservar a ideia de democracia, afinal a democracia é algo que nunca esteve no horizonte concreto da maioria das pessoas desse país”.

As provocações trazidas pelo filósofo Vladimir Safatle no primeiro ciclo de debates do Seminário “Democracia em Colapso”, intitulado “Trabalho e os Limites da Democracia no Brasil”, alegam que a preocupação com a democracia no Estado brasileiro é maior do que uma preocupação momentânea com o atual contexto de retrocessos no país, mas se constitui em uma adversidade histórica e estrutural. Segundo ele, nunca houve democracia no Brasil, mas apenas a vigência de um necro-estado que há séculos mobiliza uma guerra civil contra sua própria população.

O filósofo afirma que o principal elemento constituinte da sociedade brasileira se fundamenta em um modelo latifundiário escravista que perdura até os dias de hoje. Esse modelo gera uma dualidade ontológica que separa seus indivíduos entre os que podem alcançar a condição de sujeitos e os que permanecem na posição de objetos.

Segundo ele, há uma enorme discrepância de posicionamento e visibilidade social entre esses indivíduos: enquanto o sujeito possui um nome, uma história, uma narrativa de vida e cuja morte acarreta uma comoção social, o objeto não possui nada disso. Não tem nome, nem história, nem narrativa de vida, e sua morte é mencionada apenas de forma superficial e generalizada – em geral, o objeto não possui lugar na sociedade. Para Safatle, a maior parte da população brasileira é tida como objeto, e são poucos os indivíduos que alcançam o privilégio de serem reconhecidos como sujeitos.

“O Estado toma constantemente atitudes que fazem com que a população se lembre de que ela não passa de uma coisa, um objeto”, afirmou em sua exposição. “Essa política torna o Estado brasileiro um necro-estado, cuja função fundamental é perpetuar a lógica da não-democracia e manter tais condições de vida aos seus cidadãos. Juntamente com a presença de uma Polícia Militar consolidada pela Constituição e que atua pelo objetivo de “manter a ordem”, trava uma guerra civil contra a população – principalmente aquela tida como objeto – ao considerar que essa constitui a sua própria ameaça.”

Por fim, ele afirma que nenhum governo possuiu em sua agenda a pauta da construção de democracia. No contexto do Estado brasileiro, isso significaria destruir essa estrutura de necro-política presente nele.

Ciclo de debates

Também fizeram parte do ciclo de debate “Trabalho e Limites da Democracia no Brasil” Laura Carvalho, doutora em economia e colunista da Folha de São Paulo, e Ricardo Antunes, um dos maiores nomes da área de Sociologia do Trabalho do Brasil.

Estrategicamente iniciado no simbólico Dia dos Professores, o seminário internacional “Democracia em Colapso?”, organizado pela Boitempo Editorial em parceria com o SESC, pretende promover discussões e reflexões a partir do conceito de democracia em um momento no qual ela se encontra fragilizada e em constantes retrocessos em âmbitos nacional e internacional. As atividades iniciaram no último dia 15, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em São Paulo, e seguem até o próximo dia 19, quando será encerrado com a conferência “A liberdade é uma luta constante” de Angela Davis e o lançamento de seu livro “Uma autobiografia” publicado pela Boitempo Editorial.

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6 comentários:
  • João Batista Nunes
    17 outubro 2019 at 18:32
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    Excelente iniciativa, estamos precisando muito desmascarar essa farça democracia Brasileira. Meus parabens.

  • Soriano de Mell
    17 outubro 2019 at 20:56
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    O q é democracia no entender da esquerda ? Alguma coisa proxima ao q se tem em Cuba ? Tipo um jornal , um partido , um candidato , 4 ovos por mes com o tiket liberado pelo governo , sem possibilidade de sair do país, …
    A palavra democracia na boca da esquerda , nao faz sentido .

  • Ana Mello
    17 outubro 2019 at 22:04
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    Muito boa essa reflexão, as outras tbm que tenho acompanhado por aqui. Obrigada!

  • Carlos Thadeu Couceiro de Oliveira
    17 outubro 2019 at 23:06
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    Safatle é o pensador brasileiro vivo mais lúcido, radical e sofisticado, sendo ao mesmo tempo bastante direto. Há Marilena Chauí tbem. E infelizmente o q ele afirma é verdade: ñ há nem mesmo entre as lideranças políticas da esquerda atual — salvo Guilherme Boulos, talvez –, nenhum projeto de radicalização democrática, seja dentro dos partidos ou das instituições políticas atuais. Vivemos num tempo em q o único objetivo é recompor um passado recente melhor do ponto de vista econômico, mas medíocre politicamente, porque caudatário de formas políticas envelhecidas e conservadoras.

  • Luiz Gonzaga Alves
    17 outubro 2019 at 23:49
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    Com Lula a democracia existiu. Porque ele era povo e sintetizou a definição de democracia, qual seja: o governo do povo, pelo povo e para o povo, e em seu nome será exercido.

  • EDUARDO
    20 outubro 2019 at 14:16
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    Soriano de Mell, o que não faz sentido é você acreditar em revistas tendenciosas…
    Procure a pontuação do Brasil no IDH lançado recentemente e veja que com toda essa arrogância do atual governo ficamos atrás da Venezuela e seus poucos ovos !!

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