Do otimista ao homem cordial: a classe média chega ao inferno

Artigo do historiador e mestre em gestão e desenvolvimento social Marcos Rezende

No seu livro ‘Cândido ou o Otimista’, Voltaire apresenta elementos sobre o otimismo e o pessimismo, nos fazendo crer que, mesmo quando acreditamos estar no fundo do poço e, por mais difícil que possa parecer, sempre é possível piorar ainda mais. Creio que, caso nós brasileiros fôssemos contemporâneos e conterrâneos de Voltaire, a narrativa do livro escrito no século XVIII poderia ser creditada como alusiva ao Brasil atual.

Durante o segundo mandato da presidenta Dilma, tudo remetia a um Brasil sorumbático. As pressões estabelecidas pela mídia, conectada aos interesses das tradicionais oligarquias, de parcela do empresariado nacional a serviço dos interesses do capital internacional, que tinham como principal referência Paulo Skaf e o seu pato amarelo, juntamente com a ampliação da crise política causada pela Operação Lava-Jato, seguida das artimanhas estabelecidas pelo derrotado, mimado e inconformado Aécio Neves e as pautas bombas do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha foram vitaminados através de notícias veiculadas diariamente em Rede Nacional de Televisão, nas revistas semanais, nas rádios e, também, através das mensagens de WhatsApp. O clima era de terra arrasada. A imagem era a de que o Brasil havia chegado no fundo do poço.

No entanto, três anos após o impeachment, parece que a profecia de Francis Fukuyama sobre o fim da história encontrou reverberação e força com a realidade que estamos vivendo no Brasil de hoje.

Claro que em sua obra Fukuyama falou da queda do Muro de Berlim, mas, ao que parece, seria mais acertado se tivesse escrito sobre o Brasil atual. Assim o digo porque vivemos nesse novo Brasil onde a civilidade não mais encontra lugar.

O conceito de “homem cordial” aventado pelo embaixador mexicano Alfonso Heyes e desenvolvido pelo historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Raízes do Brasil” ganhou nova dimensão. Certamente no estrangeiro, após todos os embaraços criados pelo presidente Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, esse conceito, que havia se mantido firme por séculos, desmoronou em menos de um ano. Já em terra brasilis ele segue mais firme do que nunca.

Sérgio Buarque de Holanda dizia que o conceito do “homem cordial” brasileiro possuiu virtudes elogiadas como hospitalidade e generosidade e essas “virtudes”, valorizadas pelos estrangeiros, não são sinônimos de bons modos. Menos ainda de bondade ou amizade. E, sim, de desfaçatez.

Foi a partir desse modelo que as classes mais abastadas do país engabelaram a classe média e os fizeram crer que a melhor saída seria dar um golpe de Estado — golpe esse que o próprio Temer assumiu em programa de televisão — e como desenrolar do golpe a prisão de Lula sem provas e a pavimentação do caminho para o ódio, a divulgação de mentiras nas redes (fake news) e a chegada de Bolsonaro e a “Nova Era” ao poder.

A partir daí, o que vimos foi o país conseguir descer ainda mais o poço e mostrar que ele não tem fundo. A recessão aumenta, milhões de desempregados, perda dos direitos trabalhistas, no Brasil a tortura deixa de ser tratada como crime contra a humanidade e passa a ser exaltada, as empresas públicas vão sendo vendidas a preço de banana, as universidades públicas sucateadas, os agrotóxicos liberados aos borbotões e a população comendo veneno, as milícias ocupando os espaços públicos e matando aos montes, a Previdência sendo destruída, o valor da gasolina e do gás de cozinha chegando a patamares nunca antes visto ou imaginados e o país voltando a prestar reverência servil, com postura neo-feudal, aos Estados Unidos.

Lógico e visível que uma parcela da classe média já percebeu a barca furada em que embarcou e as pesquisas já apresentam Bolsonaro como o presidente mais mal avaliado da história do país. No entanto, ainda temos mais três anos e meio pela frente e, ao que tudo indica, ainda não chegamos ao fim do poço.

Mas, voltando a Sérgio Buarque de Holanda, o discurso do presidente e seus seguidores (Deus, pátria e família) materializa que as relações familiares continuam a ser o modelo obrigatório da nossa composição social. Nesse esteio, o bispo Edir Macedo coloca Bolsonaro de joelhos para ungir-lhe de bençãos e sobrevida política, ao tempo que, de forma semiótica, a imagem afirma o seu poder sobre o Estado. A pátria destila ódio, censura e violência, o jargão “cidadão de bem” volta à ordem do dia, enquanto os ditos nacionalistas, sobretudo a parcela militar presente no governo bolsonarista, que corrobora com uma postura que rompe com a tradição desenvolvimentista nacional projetada por antigos governos militares e que agora, na sua versão contemporânea, entrega os ativos estatais ao capital internacional.

Talvez, por motivos como esse e outros mais, que, em geral, os indivíduos não conseguem compreender a distinção fundamental entre as instâncias públicas e privadas, o Estado e a família e, principalmente, a exata distância entre o céu e o inferno.

Por fim, Pangloss, o personagem criado por Voltaire no livro ‘Cândido ou o Otimista’ diria: “Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, mas depois de tantos desastres por que passou durante o desenrolar da obra, um ex-otimista Cândido responde ao final: “Devemos é cultivar o nosso jardim”.

*Marcos Rezende é candomblecista, mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pela Universidade Federal da Bahia, atuando nas temáticas de raça, direitos humanos, patrimônio, religiões afro-brasileiras e racismo religioso. Foi Conselheiro Nacional de Segurança Pública, de Direitos Humanos e de Promoção da Igualdade Racial. Atualmente, é bolsista do Centro Cultural África Caribe – Harlem-NY, além de coordenador Para Assuntos Internacionais do Coletivo de Entidades Negras (CEN) e membro do Conselho Editorial 4P

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