Desafio de organização de feminismo anticapitalista é discutido pela Marcha Mundial das Mulheres

“Resistência e construção de movimento: confrontando o neoliberalismo desde a economia feminista e os comuns” é o tema do seminário internacional organizado pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM)

Por Marcha Mundial das Mulheres

Na tarde desta terça-feira (18), o seminário internacional “Resistência e construção de movimento: confrontando o neoliberalismo desde a economia feminista e os comuns”, organizado pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM), que reúne militantes feministas de países das Américas, Europa, África, Ásia e Oriente Médio no centro de São Paulo, entre os dias 17 e 19 de junho, discutiu os desafios do movimento feminista na nova ordem neoliberal.

O debate coletivo partiu de grupos em que as participantes refletiram sobre as dinâmicas do feminismo em seus países e regiões, identificando questões comuns e desafios para a construção de um feminismo antissistêmico. É comum a avaliação de que as mulheres são a principal força de resistência e confrontação ao ascenso da extrema direita em diferentes partes do mundo.

Mas também é comum a percepção da tendência de mercantilização e instrumentalização do feminismo, com a apropriação fragmentada de slogans despolitizando os conteúdos. Isso é perceptível tanto na atuação de grandes empresas transnacionais, que passam uma maquiagem lilás em sua atuação de exploração do trabalho e acaparamento dos territórios – estratégia também encontrada no âmbito da luta socioambiental – como pela forma como a Organização das Nações Unidas (ONU) tem reformatado os discursos de gênero e defesa dos direitos das mulheres.

Coletivamente, reafirmamos que o feminismo que queremos é aquele que muda a vida das mulheres para mudar o mundo, e muda o mundo para mudar a vida das mulheres, em um só movimento. Este feminismo tem no centro um compromisso profundo com a transformação da sociedade, com a luta pelo fim do capitalismo, do patriarcado e do racismo, porque entendemos que estes sistemas de exploração são base da opressão que vivemos. Não nos basta representação nesta sociedade. Queremos uma sociedade inteira nova.

Para construí-la, é preciso acumular os aprendizados e experiências, e também participar da organização do tempo presente, como refletiu Sandra Morán, da MMM da Guatemala, que compôs a coordenação da mesa. Nesse sentido, é preciso construir sínteses políticas e organizativas considerando as diferentes gerações políticas que se encontram no feminismo.

E por isso o foco do debate foi o desafio da organização permanente, para além de grandes datas de mobilização. Apostamos na auto-organização das mulheres, como sujeito político e no processo de reorganização das relações econômicas, e portanto, da vida em âmbito local. Esta nova organização social vem sendo construída, cotidianamente, pelas mulheres, a partir de seus territórios. Questionamos a violência e o fazemos ao mesmo tempo em que criticamos e apontamos o sistema que possibilita que essas violências sejam reproduzidas e naturalizadas. Para nós, transformar a sociedade é romper com a divisão sexual do trabalho, com o extrativismo e a militarização dos corpos, vidas e territórios. Para Nalu Faria, da MMM do Brasil, que também coordenou a mesa, “muitas vezes, as experiências concretas das mulheres já confrontam o patriarcado. O processo é importante. É um desafio nosso conseguir que a palavra ‘feminismo’ reúna esse conjunto de experiências, que são muito mais do que as ideias reduzidas e banalizadas que se espalham”.

Desde o nosso feminismo, reafirmamos que é preciso fazer uma crítica integral ao sistema capitalista, patriarcal e racista. O desafio é conectar as lutas por autonomia sobre o corpo, a sexualidade e a vida, com a resistências as novas estratégias de colonização dos nossos corpos e territórios. As participantes afirmaram o feminismo como um movimento social, não apenas como um comportamento e um discurso, ou seja, como um processo político de um sujeito coletivo. A classe é uma dimensão central nesse movimento, assim como é o reconhecimento de que as mulheres trabalhadoras, camponesas, negras, quilombolas e indígenas tem sido sujeitos coletivos, capazes de grandes mobilizações e de confrontos cotidianos ao capitalismo racista e patriarcal. Um desafio – que também é resistência – é não permitir que essas lutas sejam apagadas e ocultadas do presente como já foram na história. Sobre isso, Nalu concluiu: “é urgente que sejamos capazes, desde o campo antissistêmico, de construir uma força que possa inspirar outros setores para que participem desse processo”.

“Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres” é o nosso lema e horizonte. O repetimos sempre porque reconhecemos nossa diversidade e ela é nossa potência. Somos muitas e só seremos livres quando todas forem.

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