Bolsonaro e Michelle almoçaram com Guilherme de Pádua; algumas reflexões

Como Bolsonaro comemora as mortes de negros e pobres em chacinas cometidas pela PM e almoça cordialmente com o assassino Guilherme de Pádua?
Bolsonaro, Michelle e Guilherme de Pádua: pena de morte é pros outros
Bolsonaro, Michelle e Guilherme de Pádua: pena de morte é pros outros

Hoje (12), o assunto “Guilherme de Pádua” tornou-se um dos mais comentados no Twitter. O presidente Jair Bolsonaro e a primeira dama, Michelle, almoçaram com Guilherme de Pádua e sua atual mulher, Juliana Lacerda, depois de um culto na Igreja Batista Lagoinha. O encontro aconteceu no domingo 7, em Belo Horizonte. A jornalista Fábia Oliveira, colunista do blog “EM OFF” descobriu e publicou hoje que o presidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, não apenas visitaram a igreja onde Guilherme de Pádua é pastor, como também participaram de um almoço particular na companhia do assassino de Daniella Perez, da mulher dele e de outros seletos convidados. Juliana Lacerda, que é maquiadora, chegou a tirar uma selfie com a primeira-dama. A coluna de Fábia Oliveira recebeu o registro com exclusividade.

Juliana lacerda, mulher de Guilherme de Pádua, posou com Michelle Bolsonaro em almoço na Igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte (Reprodução)

Imediatamente após a divulgação do post no blog “EM OFF”, setores da esquerda e apoiadores de Lula lançaram-se à tarefa de “denunciar a ousadia” de Bolsonaro ao encontrar-se com um dos mais famosos e odiados assassinos do Brasil. Trata-se de um terrível erro.

Um dos principais pilares das igrejas evangélicas e cristãs é a fé na conversão, como forma de salvação das almas. Baseiam-se no ensinamento do próprio Jesus Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6)

É por isso que os principais televangelistas do Brasil adoram gravar depoimentos sobre a regeneração e restauração de pessoas que passaram por dramas como a dependência química, a prisão, o tráfico, a depressão, a loucura, a tragédia de uma família desestruturada e violenta e o envolvimento em crimes diversos. Esses depoimentos têm em comum o mesmo “ponto de virada”: a conversão ao Evangelho, o batismo, a graça do Espírito Santo. É assim que operam líderes religiosos como o bispo Edir Macedo (Universal), Valdemiro Santiago (Mundial do Poder de Deus), Silas Malafaia (Igreja Evangélica Assembléia de Deus na Penha) ou R.R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), entre outros.

Quanto pior o passado de uma pessoa, mais a sua conversão atesta o poder de Deus, o poder da Igreja, o poder do pastor. Os fiéis, nos megatemplos dessas grandes denominações evangélicas, aplaudem, felizes, os testemunhos dessas almas, antes consagradas aos demônios, aos espíritos, às possessões. São a prova de que todos podem ser salvos mediante a submissão aos ensinamentos da Bíblia.

O almoço de Bolsonaro e Michelle com Guilherme de Pádua, portanto, longe de causar escândalo entre os evangélicos, é motivo de júbilo. O ex-ator está convertido há 20 anos, inclusive tendo se consagrado pastor da Igreja Batista Lagoinha, liderada pelo pastor Márcio Valadão. Sobre o assassino de Daniella Perez, Valadão declarou em post no Instagram, datado de 2019:

“O Guilherme cumpriu a pena. Ele é uma bênção. Nenhum de nós somos os mesmos, constantemente somos transformados pela misericórdia de Jesus.”

Ou seja: os evangélicos acreditam na bênção, na graça, no perdão. Na transformação!

Guilherme de Pádua, bolsonarista

Bolsonaro é campeão em criar ciladas para a esquerda. Ele almoça com um homem condenado por um crime cruel e nos deixa zonzos. Em vez de o campo democrático criticá-lo pela contradição entre esse acolhimento ao assassino e sua reiterada defesa da pena de morte, critica-o por compartilhar a mesa com Guilherme de Pádua, que já cumpriu a pena que lhe foi imposta pela Justiça. Queríamos que o criminoso fosse eliminado? Condenado ao ostracismo? Desejaríamos a sua desaparição física? Quem é que defende a pena de morte mesmo?

O questionamento que deveríamos endereçar a esse Bolsonaro que se finge de cristão é outro: Se todas as almas podem receber a graça divina, por que ele defende a pena de morte? Por que acolhe Guilherme de Pádua e nega qualquer possibilidade de uma vida nova a outros criminosos? Como ele consegue conciliar o almoço “cordial” com Guilherme de Pádua com o apoio irrestrito que dá a policiais que assassinam negros e pobres nas periferias e favelas do Brasil?

Guilherme de Pádua com a mulher durante ato pró-Bolsonaro em Brasilia, em 2020 Foto: Instagram / Reprodução
Guilherme de Pádua com a mulher durante ato pró-Bolsonaro em Brasilia, em 2020 Foto: Instagram / Reprodução

Eu tenho uma hipótese para explicar o tratamento diferenciado que Bolsonaro dá a Guilherme de Pádua, quando comparado aos acessos de ódio que ele direciona aos negros e pobres. Chama-se racismo e oportunismo. Afinal, Guilherme de Pádua é branco e hoje está casado com uma loira… Além disso, é um ferrenho apoiador do atual presidente, como se vê na foto.

Nós, democratas, não podemos nos associar à idéia de uma Justiça vingadora, a pretexto de denunciar Bolsonaro, ou corremos o risco sério de validarmos os linchamentos e justiçamentos. Nossa Constituição não prevê a pena de morte. Temos de honrá-la, seja na Igreja Batista Lagoinha, seja na favela da Maré ou no Complexo do Alemão. E exigir que Bolsonaro faça o mesmo.

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