Ando possuído

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Não sei se é questão de remédios, óculos ou maus médicos, mas algo não vai certo.

Foge ave, foge passarinho, foge gavião; o céu anda excêntrico.

Ando com sentimento estranho, profunda tristeza: esse homem presidente não gosta das árvores, não gosta de nordestino, não gosta de índio, não gosta de comunista, não gosta de artista, não gosta de nada diferente. 

O presidente gosta de parente.

Quer um mundo belo, sendo ele tão feio.

Árvores, seres de longa data, moram em qualquer sertão, rincão, grotão. Tudo rima com árvore; rio, saúde, riquezas. Desaforo queimar árvore, é como queimar asilo de senhores, bondosas velhinhas.

Tu concordas em queimar velhas senhoras?

Encontrei, hoje, imagem esmaecida do jovem cacique Raoni. Antigo negativo em róseos tons, no arquivo histórico em que trabalho. Vejo um cachimbo entre uns rebordos distintos, um olhar para algo longínquo, tão firme destino.

Olhos de cacique, abstraio no ofício, é diferente de olhos de presidente.  Vê-se longe quando se tem consciência do tempo, da existência, da mecânica da vida.  

Ser cacique, creio, deve ser  como ser árvore: vida longa, abrigo, sombra, alimento, providência.

Raoni foi meu primeiro cacique, conheci tantos. Presidentes vi alguns: Geisel, Figueiredo, Henrique e Lula foram favas, mas Tancredo acompanhei e fotografei no cortejo fúnebre, minhas primeiras imagens remuneradas.

Temo gente perversa, por isso furtei-me de Temer e Bolsonaro.

Tenho a cruz.

imagens por Helio Carlos Mello© e Acervo Projeto Xingu/ EPM©

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