Todavia sonhamos

Entre o horror e a esperança: Palhaça Julieta, DJ Cesinha e a arte contra a barbárie
Todavia sonhamos
Palhaça Julieta. Fonte: Reprodução Facebook
“Disse que elas 
Unhas arrancadas 
E hematomas de soluço pelo sertão do corpo. 
Findaram sentadas 
Na porta da escola 
A mão segurando o rosto. 
Olhos abertos. 
Dormindo. 
Ou quem sabe se sonhando.”
As duas mulheres do meu pesadelo de infância
In: Gado cortado em milprantos (Dinha, 2018)

Vulnerável como carniça eu era, quando criança, e foi assim que me senti, diante da morte de César, de Julieta e do pesadelo com a menina assombrada, por isso o meu medo de alucinar.”

Tem dias que eu acordo morrendo de medo, como na noite de ontem, em que acordei de madrugada, com o coração batendo forte, liguei a luz, revistei os armários, olhei embaixo da cama e, não encontrando nada, passei sede, porque uma opressão no peito me impediu de dar dez passos pra além da porta do quarto. Então eu tomei um calmante porque, na minha experiência, esse tipo de sensação costuma terminar comigo alucinando.

Quando eu era criança, vivia apavorada assim – com medo de fantasmas, presenças malignas, lobisomens e outros seres sobrenaturais. E bastava eu abrir os olhos, no escuro, pra essas coisas se materializarem, como na noite em que o fantasma do meu tio veio e conversou comigo em sonho. Eu disse, tio, se quer se despedir de mim, não pode aparecer de repente. Tem que ser assim, comigo sonhando, porque se não eu morro do coração.

Também, uma das coisas que mais me apavorava nesse tempo era a possibilidade de estar “endemoniada” – e disso eu tinha muita vergonha, porque na saída do beco onde eu morava tinha uma igreja evangélica e uma das nossas diversões de crianças era criar coreografias e paródia dos hinos, além de, justamente,  rir do diabo no coro alheio.

Ao mesmo tempo em que a gente sentia medo, o exorcismo nos parecia um ato bem engraçado, com as pessoas ali, perto do altar, bambas, mal se mantendo em pé, as vozes que iam ficando graves e grotescas e o esforço do pastor por provar que tinha poderes divinos, capazes de nos livrar de todo o mal, amém.

Um dia, não consigo dizer se esta é uma memória construída, ou uma alucinação coletiva, aconteceu de  minha mãe – que frequentava outra igreja -, por curiosidade, parar na porta dessa do beco, e calhou também de estar acontecendo uma sessão de oração, dessas em que as pessoas entram em transe. Minha mãe não entrou – ela nunca entrava – e éramos orientadas a não sair durante uma sessão de exorcismo porque, segundo diziam, o “coisa ruim” saía de um corpo, mas tomava a alma que estivesse mais perto, do lado de fora do templo.

De repente, uma senhora de cabelos muito lisos e muito longos, que estava sentada em um dos bancos, enquanto sua gêmea era exorcizada, se jogou no chão e começou a se arrastar, feito uma cobra sem ossos, sem usar braços nem pernas, dobrando-se por cima e por entre os bancos do salão até chegar aos pés de mãe.

Toda a igreja ficou paralisada, olhando aquela cena, exceto o pastor que, um segundo antes de a mulher-cobra morder o pé de mãe, a pegou pelos cabelos. Nesse dia, minha mãe ficou até o final do culto e viu, um a um, todos os demônios serem dispensados.

Enfim, na infância, meus episódios de medo extremo, sempre findavam com alucinações.

Talvez porque duas mortes me tocaram nesta semana – a do DJ Cesinha, um conhecido de infância e que foi fundador do grupo de rap do meu irmão, o Pânico Brutal, e a de Julieta, a palhaça venezuelana, brutalmente assassinada – alguns gatilhos devem ter sido disparados.

Da esquerda pra direita: Terno, Diego, DJ Cesinha e Negro D. Fonte: Reprodução/Instagram

Deve ser por isso que, antes de acordar com medo da minha própria sombra, sonhei que tentava exorcizar uma criança e, pra isso, rezava mil aves-marias sem parar.

Não sou católica, nem evangélica. Sou, como disse em outra ocasião, um tipo de cristã sem religião, mas quando meu pai estava no leito de morte, rezei muitas vezes essa oração, porque queria garantir a ele uma passagem tranquila e acolhimento no plano seguinte. Como papai, Cesinha morreu de câncer.

Sobre Julieta, o que me pegou foi a sensação de vulnerabilidade, mais o horror da história em si, muito parecida com as que ouvi na infância, e que me renderam os poemas de terror do livro Gado cortado em milprantos – com mulheres sendo torturadas e mortas, somente por serem mulheres.

Vulnerável como carniça eu era, quando criança, e foi assim que me senti, diante da morte de César, de Julieta e do pesadelo com a menina assombrada, por isso o meu medo de alucinar.

E não é à toa. Tanto horror na vida real, com as falhas do nosso importante, porém ainda insuficiente sistema de saúde, mais o machismo, a misoginia e a xenofobia que mataram Julieta me devolvem ao estado infantil, quando a oração era minha única arma contra os medos reais e imaginários.

Por isso, escrevo este texto com tristeza, mas firme no propósito de cultivar esperanças, como Cesinha, na arte do Hip Hop, como Julieta, na arte da palhaçaria, contrapondo as manifestações do mal, sejam elas sobrenaturais ou, como é mais comum, humanas, com a disseminação de arte e alegria.

Apesar dos recentes pesadelos, ainda escrevo sonhando com um 2024 de paz, amor e justiça para todos e todas nós.

Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros “De passagem mas não a passeio” (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros. Nas redes: @doutoradinha


LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

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Olha nos olhos e enxerga o bebê

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

8 respostas

  1. Os nossos jamais serão esquecidos,
    DJ Cesinha lutou por anos contra essa doença avassaladora
    formou djs, mcs, e criou seus filhos dignamente
    combatente

  2. Saudades do vovô, mais esta em um bom lugar.

    Casinha e Julieta também deixaram saudades.

    Mais cada lembrança boa, que tivemos ao lado nos cura o coração.

  3. Sempre estaram vivos em nossas memórias, todos os momentos vividos e toda amizade cultivada ao longo dos anos…será combustível pra dar continuidade nessa batalha diária!!!
    Meus sentimentos à todos familiares e amigos por essas perdas irreparáveis.

  4. Lindo texto com um mixto de medo, do que nos espera, Cesinha deixa saudades.
    Nosso mundo ainda está doente nos deixando cada vez mais também, quando se é corriqueiro assassinatos como de Julieta, e a falta de recursos na saúde pública com esse mal que assola a população que é o câncer. Obrigado Dinha!

  5. Cesinha deixou saudades, fez muito pelo Hip Hop do Pq. Bristol e Jardim São Savério.
    Estará sempre em meu coração e minhas orações.

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