Sonhos suspensos

Foto: Sato do Brasil

Ontem foi o primeiro dia de outono. Equinócio. A partir de agora, a noite será mais longa que nossos dias. O vento aumenta sua força, os dias ficam mais frios, a neblina abre a manhã e a garganta seca. Beleza e melancolia. Tempos de mudança, dizem. Época de folhas secas. Folhas caídas sendo espalhadas pelo chão, pelo asfalto, pela terra.

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“Quando o tempo avisar

Que eu não posso mais cantar

Sei que vou sentir saudade

Ao lado do meu violão e da minha mocidade”

Crescer, crescer, crescer. Conhecer o espaço, a vizinhança, estar em todos os lugares. Entender sua história, seu passado. Olhar no espelho e ver o mundo inteiro que já passou. Meu pai fez 90 anos há pouco. Minha mãe, há menos tempo ainda, completou 86. Essas coisas todas, eu aprendi com eles, em dias de almoços barulhentos ou noites de novelas silenciosas. Fui pra rua, aprendi mais. Andar, andar, andar. Olhar por através. Encontro. Entender o diferente como igual. Perceber as diferenças. Respeitá-las. Respeitar ideias contrárias e diversas. Conversa. Pontos de vista, história também.

Acreditei que sempre damos um passo à frente. Progresso. Dia após dia. Minuto a minuto. Acreditei que sorrisos funcionam melhor de manhã e que lágrimas se derramam à noitinha. Escondidas. Devagarinho. Silenciosas. Depois, percebi que nem tudo tem regras. Que podemos criar as nossas, ou mesmo, deixá-las serem criadas em sonhos de noites leves e frescas. Nossos sonhos, nossas regras. Sonho diariamente. Sonho toda noite. Lembrava-me de quase todos eles. Mas ultimamente, não lembro de mais nada. Nenhuma lembrança mínima, um lugar, alguém, algo que fiz durante a noite. Nada. Os sonhos ficaram suspensos.

Ontem, estive no Itaim Paulista, Vila Mara, filmando com meus compas da casadalapa e com os aliados do Arte e Cultura na Kebrada, meu máximo respeito, as últimas cenas do episódio “Daqui pra frente não tem pra trás”, onde a personagem, Mariana, tenta relembrar sua história e reativar suas memórias, depois de muito tempo com as gavetas trancadas. Momentos de alegria, comprometimento, parceria e companheirismo. Quinta, estive com a turma do LabMóvel, reconhecendo o território de Taipas, Jardim Rincão e vizinhanças, entendendo as demandas, conhecendo seus moradores, seus estudantes e sua história. Dia de risos, atividades lúdicas, caminhada e pertencimento.

Entre um e outro, na sexta, fui na Paulista.

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Vários amigos mostraram seu medo de ir pra rua defender a democracia. Defender os direitos humanos de fato. Defender os direitos adquiridos. Defender o Estado de Direito. Dizer “não ao golpe”. Medo de violência, de ter que resolver no braço ou de tomar um tiro pelas costas. A que ponto chegamos… Enquanto isso, na periferia fui recebido com abraços, circulei por territórios que a classe média branca nem ousa querer conhecer, com tranquilidade e carinho, ganhei garrafinhas de água só pelo cansaço que eu demonstrava pelo meu suor na testa, fui convidado a adentrar em casas de pessoas que nem sabiam donde eu vinha, trouxeram seus filhos pra gente conhecer e carregar no colo, pintar e desenhar com eles. A periferia toda na rua, amigos, família, vizinhos. Alunos de escolas públicas, seus pensamentos, suas vontades, sua atenção. Força que já pude conhecer nas andanças pelas escolas de luta.

“Esses dias na perifa me fizeram sentir algo que me é muito caro. Um sentimento cada vez mais raro pelos lados da cidade rica, centro nervoso, bairros cercados em condomínios fechados e luzes nas calçadas. Afeto.”

Coisa simples da vida. Percebi que há muito tempo eu não sentava mais no chão a me desviar do sol intermitente, encostado em algum muro cheio de grafites e tags coloridos, apenas jogando pra dentro pequenos causos de dias intensos de humor e amores. Também percebi que a cor de uma camisa ali não fez a menor diferença, a não ser ainda as velhas tretas dos campos de futebol.

Mais ainda, os abraços, a vontade de conhecer outra vizinhança, a nossa conversa, o nosso poder de riso e arte. Ganhei um presente de alguém que acabei de conhecer, deixaram que nossos discursos em intervenção de grafite e ideias, poesia e teatro pudessem compor a sua paisagem diária.

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Mariana, uma personagem dúbia, homem e mulher, não foi xingada ou vilipendiada pela sua aparência. No máximo uma chegada curiosa e respeitosa gerando riso e surpresa. Quando seu Marcos, em nosso passeio pelo território do Jardim Rincão, entre as ruas 5, 6, 8 , 11 e 12, me convidou para um papo no buteco da praça, contando histórias do bairro que não contou pra mais ninguém, ou quando passamos pela favela da Donária, onde ninguém me acusou ou me temeu pela minha cor ou minha aparência burguesa, essa é a cidade que eu quero.

Esse é o país que eu sonhava e que nos últimos dias eu não sonhei mais.

Se alguns diziam que iam pra Miami porque não aguentavam mais a companhia de rodoviárias em seus aeroportos, e outros dizem que vão para o Uruguai se proteger da espada fascista que enche as ruas de medo e terror, se o bicho pegar, eu volto pra periferia, donde eu vim e pra onde eu corro toda vez que preciso de colo, na casa de meus pais. Que hoje, precisam mais de colo do que eu. Esse é o lugar de meus castelos de proteção.

Eu sou o único na minha família que defende com unhas e dentes o bolsa-família, o Pronatec, o Fies, o Prouni, as conquistas sociais do Norte e do Nordeste, o empoderamento das periferias, o Minha casa, Minha Vida, os movimentos sem terra, sem teto, o movimento LGBTT, a luta contra o racismo, as conquistas feministas, a luta dos índios em permanecer com o que sempre foi seu, a luta dos secundas. Foi muito solitário o começo dessa caminhada. Até, enfim, conhecer essa outra família com quem vivo todos os meus dias, trabalhando, fazendo arte, discutindo, escrevendo meus textos, fotografando minhas vizinhanças.

“Não consigo deixar de lado uma tristeza imensa que está percorrendo minhas veias neste exato momento. Eu me cerquei de tantas pessoas, me propus a conhecer tantos outros que pensam da mesma forma, que acreditam no amor, no afeto, na tolerância, na possibilidade de reduzir os abusos e as desigualdades, e penso que tudo isso pode ir água abaixo, se perder na correnteza dos insensatos, dos egoístas, dos preconceituosos, uma vontade absurda de chorar toma conta de tudo.”

 

 

 

IMG_6879Aí procuro as guias das minhas cachorras e vou dar um rolê com elas na praça aqui da rua. Sento num dos bancos e vejo pais e filhos brincando, crianças se balançando, um casal de velhinhos se acarinhando, e mesmo que sejam contrários às minhas ideias, todos merecemos um lugar nessa praça. Que todos possam ocupar essa praça, na hora e da forma que quiserem, com respeito, tranquilidade e alegria e dignidade. O pensamento diferente não nos faz soldados armados de uma guerra particular. Não. Me recuso a essa tendência bélica que toma conta dos pontos de ônibus, padocas, plataformas de metrô, ciclovias e as ruas que cruzam nosso caminho.

Dizendo claramente que tudo que estiver errado, seja investigado de forma honesta e precisa, sem desvios de conduta e parcialidades inventadas, sem abusos de poder e de intenções, sem contaminações midiáticas e unilaterais. Que a Constituição, que ainda que tenha muitos erros, seja respeitada pois foi aprovada e ainda é um documento magno de nossa existência como uma República.

Por outro lado, meu sangue queima. As lágrimas jorram. Quero continuar a acreditar no meu País. Um país em que todos possam ter as suas oportunidades de protagonismo. Um país que celebre a diversidade e igualdade. Que as diferenças sejam respeitadas. Um país que volte a trazer em seu âmago, os tapetes de boas-vindas nas frentes das casas e dos corações, um país que saiba te receber e te convidar para a conversa e para a discussão democrática e que, depois de disputas honestas, possam se encontrar na fila do cinema e apertar as mãos de contrários.

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Mas se isso não acontecer, se não for possível a paz entre todas essas torcidas que aprenderam agora a se confrontar nas calçadas e asfalto, se não pudermos escolher as roupas que a gente quer sem tomar uma cusparada na cara, se não conseguirmos andar com nossas bicicletas pelas ciclovias da cidade apenas por causa da cor que ela foi pintada, se não deixarem carregar nossos nenês nos slings que nos deram ainda nos tempos de maternidade, se não permitirem que possamos dizer ou assinar qual lado estamos mesmo que estejamos certos ou errados, aí, broder, eu sei de que lado eu estou.

E esse lado eu revi e reconheci na Avenida Paulista, na última sexta-feira. Um lado de muitos.

Negros, brancos, idosos, crianças, movimentos de moradia, estudantes secundaristas, ruivos, nordestinos, gays, lésbicas, trans, homens, mulheres, trabalhadores, moradores de rua, funkeiros, grafiteiros, migrantes, índios, mães e pais de santo, evangélicos, católicos, muçulmanos, roqueiros, mcs, bikers, amarelos, pardos, coloridos, feministas, professores, b-boys, dj’s, cantores, refugiados, todos os estados da federação, celebridades, anônimos, um mar de gente tão bela quanto a certeza dessa diversidade. Pessoas que se olham, se abraçam, se beijam. Pessoas que lutam diariamente. Pessoas que ocupam a construção deste país. Esse é o Brasil que eu ainda acredito e que quero ao meu lado ao atravessar a rua.

“Eu amo essa porra toda, amo! E quero voltar a sonhar. Preciso voltar a sonhar. Preciso voltar a lembrar dos meus sonhos. Não tirem isso de nós. O sonho revela o nosso passado, canta o nosso presente e ilumina nosso futuro. E o inverno que se aproxima se transforme logo na primavera que todos queremos. E os sonhos suspensos? Que caiam na palma de nossas mãos, que então se fecharão pra guardar por todo o dia o perfume da noite passada.”

 

Foto: Sato do BrasilIMG_6872

Foto: Sato do Brasil
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