O efeito teflon para boas notícias no governo Lula

Foto de Ricardo Stuckert


RODRIGO PEREZ OLIVEIRA, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia

Desde o início do ano que uma realidade incômoda, e aparentemente contraditória, vem tirano o sono dos integrantes do governo Lula: mesmo diante dos bons indicadores econômicos, o presidente assiste a queda nos números de sua popularidade. É como se o governo estivesse revestido por uma de camada teflon que dificulta a aderências das boas notícias.

Isso não acontece apenas aqui no Brasil. Para efeitos de comparação, o governo Biden passa por situação semelhante nos EUA. Já na Argentina, mesmo diante da massificação da pobreza, Javier Milei ostenta números de apoio popular que ultrapassam a casa dos 50%.

Inflação sob controle, saldo positivo na geração de empregos, diminuição da miséria, crescimento no consumo das famílias, valorização do salário mínimo e crescimento econômico acima das projeções do mercado. No geral, o presidente Lula faz, sim, um bom governo.

No começo do século, essas medidas tinham grande apelo popular e mostravam o Estado nacional como instância provedora de direitos sociais. Foi exatamente a capacidade de encarnar essa imagem do Estado provedor que transformou Lula em fenômeno político, ampliando seu alcance para além do círculo da classe média letrada que por anos tinha sido a base social do petismo.

Hoje, essas ações parecem ter perdido parte de sua capacidade de encantamento.

O que está acontecendo? Será que é apenas a “dificuldade de comunicação”? Creio que a situação seja muito mais complexa.

2024, de fato, vem sendo um ano difícil para o governo. Muitas agendas negativas acumuladas em pouco espaço de tempo nas áreas da saúde, da educação e da segurança. Repercussão enviesada de declarações do presidente no campo da política externa.

Fuga na penitenciária de Mossoró, os tropeços do Ministério da Saúde na condução da epidemia de dengue e o colapso dos hospitais federais no Rio de Janeiro são fatores de desgaste. As declarações (corretas) do presidente em relação ao extermínio perpetrado por Israel na Faixa de Gaza também possuem sua importância no quadro geral. A incapacidade do Ministério dos Povos Indígenas de proteger o território Ianomani do garimpo ilegal e o recente movimento grevista que está paralisando as universidades públicas federais fragilizam o governo junto à sua própria base.

Elementos fundamentais para análise, sem dúvida. Mas não são os mais importantes. Acredito que o núcleo da discussão esteja em outro lugar: a internet como potencializadora de expectativas de consumo e bem-estar que são incompatíveis com o atual estágio da acumulação capitalista.

Como assim? Explico.

Desde a década de 1990 que a internet está aprimorando sua capacidade de processamento de dados. Na segunda década do século XXI, esse aprimoramento possibilitou que a rede se emancipasse da tutela do computador doméstico. Essa talvez tenha sido a maior revolução tecnológica da história humana, mais importante, inclusive, do que a invenção da internet em si.

Hoje, qualquer pessoa com um smartphone nas mãos tem acesso à rede mundial, sendo bombardeada todos os dias com informações, desinformações, estímulos de consumo e expectativas de felicidade e bem-estar.

A dona de casa, o trabalhador precarizado, a pessoa pobre em geral até percebem que a vida melhorou nos últimos dezoito meses. Arroz, feijão, proteína animal e outros itens básicos de consumo estão mais acessíveis.

No entanto, na fila do supermercado ou no transporte público, essa pessoa saca o celular da bolsa e navega na internet, com dados limitados, mas operantes. Tropeça no programa de entretenimento que divulga o produto de limpeza que deixa o tênis mais branco, ou o amaciante que faz a roupa ficar cheirosa. Vê nos stories o parente mais afortunado viajando, postando fotos do fim de semana na praia. Nada disso entra na conta do “básico”, nada disso é contemplado pela melhoria no acesso aos itens “básicos”.

O sentimento predominante, portanto, não é o alívio porque o básico está mais acessível. É a frustração derivada do desejo não saciado.

As expectativas induzidas pela hiperconexão e pela propaganda direcionada não se contentam com o “básico”. Três refeições por dia não são mais o suficiente para melhorar o humor da população mais pobre. O “básico” não tem mais a mesma capacidade de encantamento.

Enquanto isso, a extrema direita traz a família para o primeiro plano de sua ideologia comportamental. A família como espaço de refúgio e proteção contra as inseguranças da vida pública. As igrejas neopentecostais constroem algum sentimento de comunidade, onde todos podem ser acolhidos, desde que não descumpram os preceitos da teologia do domínio, é claro. Há, aqui, a produção de um sentido para a realidade, onde o Estado e os “políticos corruptos” são o motivo causador de todas as dores cotidianas, do transporte público à fila no hospital, passando pela rebeldia das crianças e pelo orçamento familiar restrito ao “básico”. Essa utopia explica a vida e sinaliza para a superação do sofrimento.

Quando a realidade não é suficiente, a imaginação se torna capital político ainda mais valioso.

A combinação entre a voracidade da acumulação capitalista e as expectativas de felicidade e consumo produzidas pela tecnologia digital demanda um esforço de produção de imaginação política, de discursos que sejam capazes de arrebatar mentes e corações.

As forças políticas progressistas estão reféns da realidade econômica imediata e limitadas pelo politicamente correto, pelo ressentimento e pela fragmentação discursiva inerentes ao paradigma da diversidade. Não encantam, não arrebatam, não excitam a imaginação. Estão se mostrando incapazes de enfrentar o desafios impostos pela contemporaneidade digital.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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