2024: Duas previsões e uma lista

O Café com Muriçoca apresenta duas previsões para o ano de 2024 e uma lista com grandes mulheres da literatura brasileira
previsões

Não sou astróloga

Já tem muito tempo que eu não convido vocês pra tomar café comigo, e ceis sabem que eu sou escritora, não astróloga, certo?

Gastei toda minha prosa este ano escrevendo um livro novo (que nem imagino quando vai sair) e não sobrou inspiração pra outros diálogos literários. Sorry.

Agora, no último dia do ano, volto aqui por dois motivos: primeiro, deu vontade de fazer uma lista com o nome de mulheres vivas que precisam ser reverenciadas, no campo da literatura – pois as considero fundamentais e, já que ninguém as mulherageou, faço as “honras” por aqui eu mesma. Segundo, porque não sou mesmo astróloga, mas desejo fazer previsões – e é quente o que vou anunciar. Se liga.

Previsão n. 1: Prêmio Carolina Maria de Jesus será revogado

O Prêmio Carolina Maria de Jesus, criado pelo Minc, e tão festejado por todas nós, artistas, pesquisadoras, jornalistas e leitoras de Carolina, acabou se revelando uma grande decepção e, por isso, a previsão é de que será revogado. 

A vedete da favela, grande escritora, ancestral de tantas nós, artistas periféricas, deve estar se revirando no túmulo ao saber que um concurso que leva seu nome premiou sobretudo mulheres brancas, excluindo inegáveis talentos negros, devido a um sistema de cotas que, em vez de beneficiar, pune escritoras pretas, pardas, indígenas, quilombolas, PCDs e ciganas.

Em minha opinião – que ninguém perguntou, mas vou dizer assim mesmo – o barato já começou errado, pois uma das exigências do edital era que cada obra inscrita tivesse, no mínimo 49 páginas inéditas. Como um concurso pode exigir de mulheres negras e pobres que elas tenham, tanto texto escrito e sem marcas que as identifiquem, se:

1-  nosso tempo é dividido entre as múltiplas jornadas de trabalho, sobrando pouco para a criação literária;

2- muito do que escrevemos tem viés biográfico – porque não temos tempo nem dinheiro pra pesquisas, sendo nosso mundo cotidiano e lembranças nossas principais bases de inspiração – e, por fim;

3- se muitas de nós escrevemos justamente para comunicar e, por isso, costumamos expor nossos escritos assim que vemos a oportunidade se apresentar?

Eu, por exemplo, escrevo também com essa finalidade, logo, me é estranha a exigência de ineditismo. Mais ainda, a maioria de nós sabe que as palavras detêm um poder fortíssimo e usamos essa força para interferir no mundo – e quem quer mudar o mundo tem pressa.

Além disso, tem mais uma coisa: conheço os textos de muitas das participantes do edital, porque sou leitora e editora, e discordo veementemente das notas atribuídas a elas. Não vou citar nomes, porque não vem ao caso, mas vi obras ruins receberem notas ótimas e textos excelentes, com  amplo “domínio técnico e inventividade no uso dos recursos linguísticos” – um dos critérios de desempate previstos no edital – receberem notas menores. Esta constatação me deixou absolutamente descrente no júri.

Por tudo isso, e também por que essa distorção revela mais uma faceta do racismo nosso de cada dia, minha primeira visão sobre 2024 é que o resultado deste prêmio será revisto e revogado.

Vocês, queridas pessoas leitoras, podem colaborar com essa previsão, assinando o manifesto puxado pelo coletivo Nós Carolinas do Brasil, clicando neste link.

E tenho dito.

Previsão n. 2: Será criado o Prêmio Kalango de Literatura Periférica 

Conceição Evaristo, Geni Guimarães, Miriam Alves, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Sony Ferseck e nenhuma mulher negra, indígena ou periférica que se conheça venceu o Prêmio Jabuti, na categoria “Livro do Ano”, alguma vez. Entretanto, são excelências no que fazem.

A querida Luiza Romão, contrariando muitas expectativas – inclusive a dela própria, não por ser negra (ela é branca), mas por ser uma poeta da linhagem do slam – ganhou. E eu não tenho dúvida nenhuma de que ela é digníssima deste e de muitos mais reconhecimentos, porque seu talento é inquestionável. Mas devo dizer que o Jabuti é um prêmio elitista e colonialista, porque seu júri tende a compreender como intertextualidades dignas de apreço apenas aquelas que dialogam com “clássicos” da literatura mundial e, via de regra, me parecem incapazes de reconhecer como valorosas as referências à nossa própria tradição literária, sobretudo a não-branca. 

Então, uma autora dos slams teve que recontar a Ilíada para vencer o Jabuti, mas eu arrisco a dizer que – com a mesma qualidade literária – se ela tivesse recontado Dom Casmurro, Quarto de Despejo, Becos da Memória, Morte e Vida Severina ou o Auto da Compadecida, não teria sido premiada – porque essas obras não são “universais” o suficiente para quem está preso nos textos fundantes europeus.

Por isso, em 2024, minhas parceiras e eu vamos criar o Prêmio Kalango – que vai premiar de acordo com nossos próprios critérios decoloniais e antirracistas. Os detalhes ainda serão pensados, prometemos.

No início, só de raiva, pensamos em nomear como Prêmio Cágado – mas a referência direta ao Jabuti, assim como o risco de se esquecer o acento, depunha contra nós. Assim, lidamos com nosso recalque e escolhemos Kalango – que é um bicho ágil, réptil presente em muitos biomas brasileiros, inclusive em meios urbanos. Kalango também é um dos nomes para as lagartixas que vivem nas nossas casas e, nesse sentido, está em todos os cantos do nosso país, como nós, artistas das periferias.

Kalango vai premiar quem a gente quiser e terá um júri capaz de reconhecer a beleza das nossas próprias referências culturais, da oralitura ao cânone acadêmico, do funk à literatura erótica, do Cordel a Carolina, de Maria Firmina a Conceição Evaristo, com espaço também pra reconhecer grandes diálogos com artistas internacionais, mas sem privilegiá-los, né não?

Dito isso, vamos para nossa listinha.

Uma lista pra começar a mulheragem

Como é de praxe de se dizer, esta lista não se pretende exaustiva – até porque não dou conta nem de escrever minha própria coluna semanal, que dirá listar toda a gente da hora que eu conheço. 

Esta também é uma lista afetiva, que inclui mulheres que me tocam, me (co)movem e me dão orgulho de ter cruzado com elas (ou com suas obras) neste plano de existência.

Começo com 37 nomes, mas convido vocês a listar mais mulheres (vivas) que deveriam ser reverenciadas, por sua escrita e/ou por sua atuação na cadeia de produção da nossa literatura negra e/ou periférica (ou, ainda, alinhada a ela). 

Também convido vocês a buscar por seus perfis e saberem mais a fundo a razão de eu ter escolhido essas pessoas pra iniciar essa mulheragem de fim/início de ano. 

A maioria dessas mulheres escrevem e, dentre as escritoras, elegi as que têm pelo menos um livro autoral publicado. Algumas delas não são artistas da palavra, necessariamente, mas fazem a roda girar – seja publicando outras, diagramando ou cuidando do imenso trabalho que é a produção cultural dos nossos eventos. São elas:

  1. Amara Moira – Escritora
  2. Apeagá – Slam das Minas
  3. Bel Santos Mayer – Incentivadora
  4. Bruna Mitrano – Poeta
  5. Catita – Flores de Baobá
  6. Cissa Lourenço – Poetas do Tietê
  7. Cidinha da Silva – Escritora
  8. Conceição Evaristo – Ancestral viva
  9. Cristiane Sobral – Escritora
  10. Dona Edite – Musa da Cooperifa
  11. Eliana Freitas – Baderna Literária
  12. Esmeralda Ribeiro – Cadernos Negros
  13. Evânia Vieira – Escritora
  14. Gih Trajano – Slam do Grito
  15. Glau Dantas – Estreante
  16. Geni Guimarães – Ancestral viva
  17. Elizandra Souza – Mjiba
  18. Helena Silvestre – Escritora
  19. Jenyffer Nascimento – Poeta
  20. Jéssica Balbino – Escritora
  21. Jô Freitas – Escritora
  22. Mel Duarte – Poeta 
  23. Michelle dos Santos Lomba – Amora Balaio Criativo
  24. Michelle Santos – Sobrenome Liberdade
  25. Miriam Alves – Ancestral viva 
  26. Neide Almeida – Poeta
  27. Nina Barbosa – Estreante.
  28. Luiza Romão – Poeta  
  29. Rachel Quintiliano – Jornalista
  30. Raquel Almeida – Elo da Corrente
  31. Rose Dorea – Musa da Cooperifa
  32. Sandra Regina de Souza – Editora Feminas
  33. Sandrinha Alberti – Me Parió Revolução
  34. Sonia Bischain – Sarau da Brasa
  35. Sony Ferseck – Wey Editora
  36. Suzi Soares – Sarau do Binho
  37. Zainne Lima da Silva – Poeta 

E é isso!

Feliz Ano Novo pá nóis tudo.

Com a colaboração de Jaiane Conceição


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros “De passagem mas não a passeio” (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros. Nas redes: @dinhamarianilda


LEIA TAMBÉM algumas das crônicas anteriores:

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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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