Pátria ou Morte! O histórico discurso de Che Guevara na ONU em 1964

Che deixou registrado, naquela histórica Assembleia da ONU, o caráter internacionalista da Revolução Cubana além da inegociável disposição em defender sua soberania. Conceitos que se tornaram ainda mais urgentes e universais em razão da pandemia de coronavírus que o mundo enfrenta nos dias de hoje.
Che na 19ª Assembleia da ONU

“Patria o muerte!”, com essa frase o então Ministro da Indústria de Cuba, Ernesto Che Guevara, encerrou seu discurso em 11 de dezembro de 1964, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Quase 60 anos depois, o discurso e a consigna escolhida por ele para seu encerramento, seguem sendo farol para o continente latino-americano.

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Uma revolução internacionalista

Antes de mais nada, é preciso dizer que Che Guevara deixou registrado, naquela histórica 19ª Assembleia da ONU em Nova York, o caráter internacionalista da Revolução Cubana, além da disposição inegociável da ilha socialista de defender sua soberania com surpreendente – e porque não dizer, triste – atualidade, quando se transporta suas palavras para o contexto da experiência latino-americana das últimas décadas.

Em plena Guerra Fria, “El Che” também jogou luz sobre a realidade dos continentes africano e asiático convergindo a atenção para demandas de países não-alinhados¹ que, ainda nos dias de hoje, lutam contra o imperialismo e o colonialismo tendo por base as pautas inseridas na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O longo e intenso discurso, acompanhado atentamente pelos líderes presentes, percorreu as mazelas do capitalismo pelo mundo naqueles anos 60 e questionou a verdadeira missão do organismo criado com o objetivo de preservar a paz mundial. Na condição de chanceler da nação cubana, Che saudou outras nações em resistência contra a opressão como a Palestina e a Somália; defendeu a luta por independência de Porto Rico; denunciou os horrores da Guerra do Vietnã; acusou as Nações Unidas de conivência com a brutal ocupação do Congo pela Bélgica e com o assassinato do líder Patrice Lumumba; cobrou dos países membros que se posicionassem contra o cruel regime de apartheid na África do Sul imposto pelo Reino Unido; instou que reconhecessem a legitimidade da representação da República Popular da China e sua condição de nação indivisível na ONU, entre muitos outros pontos em que Cuba – com Che como porta-voz – deixava claro ao mundo que não só manteria a cabeça erguida diante das consequências de haver escolhido o caminho da independência, como se colocava como luzeiro ao lado de todas as demais lutas por liberação. Era pátria ou nada.

Pátria ou Morte!

O grito, que imprimiu caráter transcendental e aprofundou o conceito de pátria para além da geografia (invocando os que morreram em qualquer parte do mundo para defendê-la) havia sido expressado anteriormente pelo líder histórico da revolução Fidel Castro – inspirado pelo prócer da independência José Martí – diante de uma multidão, em 5 de março de 1960, durante o enterro das vítimas da explosão do navio francês La Coubre, que deixou mais de cem mortos e quase quatrocentos feridos.

Foi também justo durante esse funeral coletivo que o fotógrafo Alberto Korda fez o registro icônico do então guerrilheiro argentino Che Guevara, imagem que se tornou um dos mais reconhecidos emblemas da própria Revolução Cubana e que ainda hoje é examinado por cátedras acadêmicas na mesma medida em que é cultivado popularmente em todo o planeta como símbolo de resistência.

O vapor cargueiro, que transportava 76 toneladas de munições, explodiu ao descarregar no porto de Havana. Menos de uma hora depois, uma segunda explosão, ainda mais forte, atingiu centenas de voluntários envolvidos na operação de salvamento das vítimas da primeira detonação.

Uma série de documentos desclassificados logo confirmou que o ataque terrorista ao cargueiro francês havia sido organizado pela CIA, com o objetivo de sabotar o fornecimento de armas e munições a Cuba, deixando a ilha indefesa contra as ofensivas de Washington, a primeira delas se materializando em seguida, com a tentativa de invasão da Baía dos Porcos em abril de 1961. Sendo essa apenas uma das muitas derrotas dos EUA em sua vã, porém perversa, obsessão por subjugar a nação cubana.

Assim que ouviu os estrondos e viu a imensa nuvem de poeira cobrindo a cidade o então Ministro Che, que estava reunido no Instituto Nacional de Reforma Agrária, correu para a área portuária e passou horas prestando atendimento médico aos feridos.

Medicina que de fato, Che jamais deixou de praticar e que inspirou Cuba a se tornar o que é ainda hoje: a maior referência mundial em saúde pública como dever do estado. Em meio à pandemia, o exemplo do Che está mais do que vivo: ao menos quatro vacinas estão sendo produzidas por Cuba – apesar do agressivo bloqueio – e com atendimento garantido a seu povo, mantendo números baixos de casos e mortes e ainda enviando médicos, enfermeiros e insumos a dezenas de países, pobres ou ricos.

Enquanto países ricos tensionam a geopolítica mundial promovendo conflitos e guerras mesmo durante uma implacável pandemia, apoiar a campanha que pede um Nobel da Paz para a Brigada Internacional Henry Reeve, e que já conta com o apoio de mais de 17 mil personalidades em todo o mundo, é o mínimo que a humanidade pode fazer para agradecer tamanho gesto de solidariedade universal.

Os médicos cubanos incorporam como valor e missão a ideia expressa pelo professor e escritor brasileiro Marcelo Biar e que se tornou símbolo da campanha: “A alma não tem fronteira, nenhuma vida é estrangeira”

Desde então, “Patria o Muerte” se converteria em mais que uma declaração, mas espiritualizava um veredito – afetivo, moral e carregado de memórias – de uma nação agradecida e decidida a jamais se render e convertendo-se ela mesma, em referência para a imensa comunidade de seres humanos explorados do mundo.

O espectro que ainda assombra o mundo

Não é difícil perceber, observando o discurso de Che na ONU, o evidente peso político de ter sido aplaudido com tanto entusiasmo naquele momento histórico da humanidade e por aquela Assembleia das Nações, logo depois do grito que, como ele mesmo disse em seu discurso, tinha “a compreensão e o apoio de todos os povos do mundo”.

Ali, “El Che” se transformou inevitavelmente em um alvo preferencial dos EUA, tendo sido de fato assassinado poucos anos depois. Mas também por isso, se tornou a maior representação do herói convertido, por seu próprio inimigo, em ícone mundial de dignidade e autodeterminação dos povos.

O martírio de Che teve o efeito oposto dos que queriam silenciá-lo, resultou em espectro que ainda assombra e seguirá assombrando gerações de covardes.

O terrorista Felix Gutierrez Mendigutia, conhecido como El Gato, não só assassinou Che Guevara por encomenda dos EUA, como garantiu que suas mãos fossem decepadas e enviadas à CIA para que a morte de tão incômodo personagem fosse comprovada. Mas Che ou Cuba jamais ameaçaram nação alguma do mundo, exceto com sua “Batalha de Ideias”, da qual falava Fidel Castro, e que segue até hoje como o grande nó na garganta daqueles que precisam destruir a ideia viva da possibilidade de construção de um “novo homem” em contraposição ao egoísmo, ao individualismo e toda miséria humana escancarada pela pandemia.

São figuras como Che Guevara que tornam – para aqueles que assumem as mesmas lutas de liberação – qualquer passo atrás um ato de traição ao sacrifício para o qual ele tão certamente tinha consciência de que se entregava naquele instante e que é representado e representa milhares de outros heróis anônimos, de todos os gêneros, raças e credos, da fantástica e desafiadora história humana.

O extenso discurso que o Che – proclamado pela revolução ‘cubano de origem’ e por sua história de vida e ideias, um irremediável internacionalista – transmitiu ao mundo naquele dia, encerrava um conceito universal porque intergeracional e adaptável à qualquer cultura ou nação, e que cabe inteiro em uma única frase do hino nacional de Cuba: “morrer pela pátria, é viver“.


Confira abaixo a tradução de fragmentos do histórico discurso do Comandante Ernesto Che Guevara representando a República de Cuba na Assembleia Geral da ONU de 1964:

Senhor Presidente, distintos delegados:

A representação cubana perante esta Assembleia tem o prazer de cumprir, em primeiro lugar, com o agradável dever de saudar a incorporação de três novas nações ao importante número daqueles que aqui discutem os problemas mundiais. Saudamos, portanto, nas pessoas do seu Presidente e Primeiros Ministros, os povos da Zâmbia, Malawi e Malta e esperamos que estes países se incorporem desde o primeiro momento no grupo das nações não-alinhadas que lutam contra o imperialismo, o colonialismo e o neocolonialismo (…)

Em alguns casos, é a cegueira causada pelo ódio das classes dominantes de países latino-americanos contra nossa Revolução; em outros, mais tristes ainda, é o produto dos deslumbramentos com o brilho de Mammon².

Como todos sabem, depois da tremenda convulsão denominada “Crise do Caribe”, os Estados Unidos contraíram com a União Soviética determinados compromissos que culminaram na retirada de certos tipos de armas que as contínuas agressões daquele país – como o ataque mercenário em Playa Girón e as ameaças de invasão à nossa pátria – obrigaram-nos a posicionar em Cuba, em um ato de legítima e inalienável defesa.

Os norteamericanos também pretendiam que as Nações Unidas inspecionassem nosso território, no que nos recusamos enfaticamente, já que Cuba não reconhece o direito dos Estados Unidos, nem de qualquer outra pessoa no mundo, de determinar o tipo de armas que possa ter dentro de suas fronteiras.

Nesse sentido, apenas aceitaríamos acordos multilaterais, com obrigações iguais para todas as partes.

Como disse Fidel Castro: “Enquanto o conceito de soberania exista como prerrogativa das nações e dos povos independentes e como direito de todos os povos, não aceitamos a exclusão de nosso povo desse direito. Enquanto o mundo for governado por esses princípios, enquanto o mundo for governado por esses conceitos que têm validade universal, porque são universalmente aceitos e consagrados pelos povos, não aceitaremos que sejamos privados de qualquer desses direitos, nós não renunciaremos a nenhum desses direitos.”

O senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, U Thant, entendeu nossas razões. No entanto, os Estados Unidos buscaram estabelecer uma nova prerrogativa arbitrária e ilegal: a de violar o espaço aéreo de qualquer pequeno país. É assim que têm voado pelo céu de nossa pátria aviões U2 e outros tipos de dispositivos espiões  que, com toda impunidade, navegam por nosso espaço aéreo. Emitimos todos os alertas necessários para que cessem as violações aéreas, bem como as provocações que os marinheiros ianques realizam contra os nossos postos de vigilância na zona de Guantánamo, os voos rasantes sobre os nossos navios ou de outras nacionalidades em águas internacionais, os ataques de piratas a navios de diferentes bandeiras e a infiltração de espiões, sabotadores e armas em nossa ilha.

Queremos construir o socialismo; nós nos declaramos apoiadores daqueles que lutam pela paz; Declaramo-nos dentro do grupo dos países não-alinhados, apesar de sermos marxistas-leninistas, porque os não-alinhados, como nós, lutam contra o imperialismo. Queremos paz (…)

Esta nova disposição de um continente, da América, se materializa e se resume no grito que, dia a dia, nossas massas proclamam como expressão irrefutável de sua decisão de lutar, paralisando a mão armada do invasor. Proclama que conta com a compreensão e o apoio de todos os povos do mundo e especialmente do campo socialista, liderado pela União Soviética.

Essa proclama é: Pátria ou morte!

¹ O Movimento dos Países Não Alinhados (MNA) reúne mais de 100 países, quase todos nações em desenvolvimento, com o objetivo de criar um caminho independente no campo das relações internacionais que permita aos membros não se envolver no confronto entre as grandes potências.

² Termo bíblico usado para descrever riqueza material, ganância, cobiça, ou literalmente, dinheiro.

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