Programa pesquisa segurança dos jornalistas no mundo

A iniciativa reúne docentes e doutorandos do Brasil, África do Sul, Estados Unidos e Noruega
Fotojornalistas independentes Rodrigo Zaim (RUA Fotojornalismo) e Paulo Ishizuka (Mídia Ninja) sendo agredidos por PM em 7 de setembro de 2013. Foto: Vinicius Souza - Jornalistas Livres/MediaQuatro

Por: Felipe Parra[1] e Márcia Ohlson[2]

Ataques a jornalistas ocorrem não somente em contextos de guerra, como no atual conflito na Ucrânia. É comum que aconteçam também no cotidiano profissional nos mais diferentes países. Esses abusos são realizados por grupos do crime organizado, milícias, segurança pessoal e até mesmo de instituições governamentais, tornando os jornalistas locais os mais vulneráveis. Esses ataques incluem assassinato, sequestros, assédio, intimidação, prisão ilegal e detenção arbitrária. A impunidade dos crimes contra esses profissionais da comunicação alimenta e perpetua o ciclo de violência e a autocensura. Tal ação priva a sociedade de informações e afeta diretamente a liberdade de imprensa. Isso impacta diretamente os esforços das Nações Unidas para promover a paz, a segurança e o desenvolvimento sustentável.

Diante desse contexto global, a Oslo Metropolitan University (Noruega), em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM ECA-USP), a University of the Witwaterstrand Johanneburg (África do Sul) e a University of Tulsa (EUA), resolveu desenvolver o projeto intitulado Safety Matters: research and education on the Safety of Journalists (em português: Segurança Importa: pesquisa e educação na segurança de jornalistas). A iniciativa, que busca estudar a violência contra os jornalistas em diferentes contextos históricos, sociais, culturais, políticos e econômicos, tem a duração de cinco anos. Em cada edição do projeto será abordado temas diferentes relacionados à segurança de jornalistas.

Iniciada em outubro de 2021, a atividade financiada pelo The Research Council of Norway também conta com a colaboração do The Intercept Brasil, do Dart Center for Journalism and Trauma, da Media Monitoring Africa e do The New York Times. No Brasil, o projeto é coordenado pelas Profas. Dras. Elizabeth Saad e Daniela Osvald Ramos, ambas do PPGCOM ECA-USP.

Entre os entrevistados pelo projeto no país estão profissionais de grandes veículos jornalísticos e também  jornalistas independentes, incluindo colaboradores do coletivo Jornalistas Livres. Entre os temas abordados nas entrevistas estão a falta de apoio (seguro, equipamentos, etc) dos veículos aos jornalistas (especialmente os freelancers), a inexistência de preparo e apoio psicológico para a cobertura de eventos como tragédias humanitárias, a violência das PMs sobre profissionais cobrindo manifestações e as declarações da presidência atual contra jornalistas colocando a categoria como inimiga das forças de segurança.

As investigações científicas foram organizadas de acordo com três principais eixos temáticos: trauma, gênero e segurança digital. Os objetos de estudo dessas ações se concentram em assuntos como aspectos sensíveis/traumáticos sobre violência, ameaças e assédios a jornalistas; desinformação, fake news e educação midiática; censura e autocensura; assédio moral e sexual dentro e fora das redações; cobertura em zonas de conflito e protestos; suportes legais e jurídicos; questões técnicas, práticas e psicológicas sobre a segurança nos meios digitais e o papel das empresas de mídia e das universidades no processo de ensinar técnicas de segurança para jornalistas veteranos e recém formados.

Os doutorandos Felipe Parra e Márcia Ohlson (PPGCOM ECA-USP) durante as atividades do projeto Safety Matters. Fonte: arquivo pessoal de Felipe Parra

Na primeira parte do projeto, as pesquisas foram apresentadas no Congresso sobre segurança dos jornalistas feito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O evento acadêmico internacional realizado em novembro de 2021, na capital da Noruega, Oslo, se concentrou em promover a segurança dos jornalistas e combater a impunidade daqueles que os agridem. Com esse objetivo, a UNESCO busca dar visibilidade às violências sofridas por esses profissionais da comunicação e lutar pela liberdade de imprensa em todas as plataformas de mídia.

Apresentação do grupo 1 (Trauma) representado por Seth Osborn (University of Tulsa). Fonte: https://uni.oslomet.no/mekk/news/

Os integrantes do projeto também realizaram um treinamento sobre como agir em uma situação de risco de vida para melhorar sua possibilidade de sobrevivência. A atividade se concentrou em apresentar técnicas e comportamentos adequados durante um sequestro simulado. O curso foi ministrado pela empresa Aeger Group, especializada em segurança e preparação de profissionais para situações de emergências.

Vídeo do treinamento sobre como agir em situações de risco. Fonte: arquivo pessoal de Felipe Parra

A etapa final do projeto está sendo concluída nesse início de 2022. Em breve, os doutorandos apresentarão os resultados de seus estudos em artigos científicos. A ideia é que os conceitos desenvolvidos auxiliem jornalistas de diferentes partes do mundo a prevenirem-se contra ataques verbais e físicos. Simultaneamente, a proposta estimula universidades e empresas de mídia a oferecer recursos para que esses profissionais da comunicação tenham conhecimento para lidar com situações traumáticas e, assim, desenvolver resiliência.          


[1] Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM ECA-USP). Bolsista do CNPq – Brasil. São Paulo | SP | Brasil. ORCID: 0000-0002-4160-3065. E-mail: [email protected].

[2] Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM ECA-USP). Editora executiva da revista Semeiosis. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4455451227991666 E-mail: [email protected]

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