Parangolé da serpente

o ovo fissura no asfalto

Domingo passado entrei rapidamente na avenida, pensando que era dia de jogo, torcidas comemorando. Tudo em vão, minha bandeira linda  tremulava absorta ao movimento de indecentes, império das barbáries, falsas paixões. Piso no solo olhando para o céu, com todo cuidado, temo os répteis.

Não é explícito, irrompe sutilmente o inimigo dentro de cada um em si, dentro de tudo, a história como peneira e a chapa quente como o tempo, tal fazer farinha, se alimentar e prosseguir…

Me envolve recordação artística, polêmicas de ventos, formas em tecidos de Hélio Oiticica e seus parangolés, e, como observara Waly Salomão, parangolé é gíria de morro, com uma multiplicidade imensa de significações, variando, dançando conforme os conformes.

Tecido sem pé nem cabeça, o parangolé da besta fera, o ovo da serpente eclodido, revolta da bandeira após o fim do mundo, em movimento sobre o caminhão de som dos algozes. 

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Há um efeito rebote do vírus, não mais entre a terceira idade, mas que invade os jovens agora, suas roupas pretas, as torcidas caladas no isolamento, jovens que demonstram um basta aos antigos vícios do atraso, em franca invasão.

Estamos fogo, há encaixe entre tanta chama, apesar dos mortos, um mundo que acaba enfim num incêndio que água não apaga.

Reflexo,  espelho côncavo, a imagem virtual dialética da matéria humana, em punho cerrada, invertida ou direita na célula da gente. 

A solução aquecida nos sais do fotógrafo Daguerre,  a fixação,  a anti-obra de Oiticica cunha fissuras na memória das ruas. Querem impor um medo, seus exércitos, grande malandragem das velhas políticas nas trincheiras das covas.

Nada será como antes.

parangolé

imagens por helio carlos mello©

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crônica
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