O ano em música: Os 15 melhores álbuns de 2020

Além de quase 100 canções que fizeram o ano
Os 15 melhores álbuns de 2020
Rina Sawayama, Riz Ahmed, The Weeknd e Lady Gaga entraram na lista com os 15 melhores álbuns de 2020

De todas as artes, a música é a que mais carregamos conosco para todo lugar. Embora ver séries e filmes no celular, enquanto nos movemos de um lugar para o outro, tenha se tornado habitual nos últimos anos, é normalmente a música que nos acompanha por aí e nos provém um senso de continuidade narrativa quando, no caos da vida real, essa história de narrativa nem existe.

Em um ano de isolamento, e mais caótico do que nunca, a música desempenhou esse papel, apropriadamente, com ainda mais afinco. Abaixo, selecionamos os 15 melhores álbuns de 2020, um ano que servirá de exemplo, no futuro, para falar do poder expressivo daquelas sete notinhas arranjadas em combinações infinitas e complexas.

Em 12 meses terríveis, a música continuou a, diligentemente, nos salvar de nós mesmos e do mundo. É um trabalho nada fácil – e aqui estão os funcionários exemplares da turma de 2020.

Os 15 melhores álbuns de 2020

15. The Weeknd – After Hours

The Weeknd, como poucos outros artistas pop de hoje em dia, é um contador de histórias por excelência. Seus discos se desdobram em referências musicais e visuais profundas, sua carreira se divide em personas bem definidas – tudo é uma narrativa, de uma forma ou de outra. Bom, se esse é o caso, “After Hours” é sua história mais bem contada até hoje. Da primeira metade do disco, onde o The Weeknd trovador de R&B sobrevive por um final amargo de relação, até a explosão disco que ocorre a partir de “Blinding Lights” (e atinge o pico na absurdamente genial “Save Your Tears”), o americano deu voz a uma história complicada de renascimento das cinzas que ressoou forte para 2020.

14. Kesha – High Road

Um dos maiores prazeres do “Rainbow”, álbum de 2017 que marcou o primeiro lançamento de Kesha após o processo público de abuso sexual contra o produtor Dr. Luke, era ouvir como as estranhezas deliciosas da cantora floresciam sem o controle obsessivo do dito cujo. Embora sóbrio e intenso, era também um disco que podia ser debochado, kitsch, alegre. “High Road” é esse lado do “Rainbow” esticado em 16 faixas, um abraço completo e jubiloso da vida pós-recuperação, que ainda tem suas tristezas e tribulações (vide “Resentment”, “Cowboy Blues”), mas lida com elas de um ponto de vista saudável e uma vontade de explorar insaciável – um hedonismo maduro na vida, e desenfreado na música.

13. The 1975 – Notes on a Conditional Form

Quando o The 1975 te promete “notas sobre uma forma condicional” (tradução livre do título “Notes on a Conditional Form“), pode acreditar que eles vão cumprir. A “forma condicional”, no caso, é o álbum pop, que Matty Healy e cia. distorcem e desconstroem para uma nova era de consumo de música no disco mais recente da banda. Variando loucamente entre guitarras pesadas, faixas eletrônicas, momentos acústicos, influências do jazz, intervenções instrumentais e faladas, o The 1975 cria uma obra que se espalha para todos os lados, mas nunca parece menos do que genuína e eloquente em nenhum dos cantos que alcança. Pode ser um choque no começo (toda inovação é), mas “Notes” só cresce a cada audição.

12. Maggie Rogers – Notes from the Archive: Recordings 2011-2016

Se super-heróis tem suas “histórias de origem”, Maggie Rogers tem “Notes From the Archive“. A norte-americana lançou todo o material que havia guardado na gaveta (ou lançado de forma independente, em poucos locais e com poucas cópias) entre 2011 e 2016, quando assinou o seu contrato de gravação com a Capitol. O resultado é uma coleção extraordinária de 16 canções que mostram a amplitude do talento de Rogers e seu amadurecimento musical, do pop rock noventista das primeiras faixas à genialidade melódica de “New Song”, tirada do repertório de sua antiga banda, Del Water Gap. É um disco fascinante de se escutar, especialmente se emendado no primeiro álbum de estúdio de Rogers, “Heard it in a Past Life“, do ano passado.

11. Teyana Taylor – The Album

Quando Teyana Taylor ameaçou se aposentar, perto do final de 2020, dizendo que não se sentia apreciada como artista (depois, ela admitiu que foi tudo uma brincadeira), foi impossível não concordar um pouco com ela. “The Album” é uma elaboração admirável de R&B, que evita a repetição e o tédio de forma quase milagrosa por suas 23 faixas. Confiando na voz rouca de Taylor, e em participações especiais selecionadas com sabedoria (Ms. Lauryn Hill ilumina o fim do disco com um trecho falado na excelente “We Got Love”), “The Album” vibra com a alegria, sensualidade e talento de uma grande artista aproveitando a liberdade que foi dada a ela – mesmo que não haja tanta gente ouvindo quanto deveria haver.

10. Sufjan Stevens – The Ascension

A grande virtude não-falada da música de Sufjan Stevens é o quão plenamente conectado ao zeitgeist ele é, como compositor, ao mesmo tempo em que se posiciona como uma sensibilidade única no cenário atual. Suas canções folk orquestradas e etéreas criam mais uma obra indelével e envolvente em “The Ascension“. Aqui, Stevens se permite faixas longas, com extensos intervalos instrumentais e experimentações eletrônicas, que se alimentam umas das outras para criar uma narrativa unitária de, como já indica o título, ascensão a um plano musical intocável, ainda que muito humano.

9. Rina Sawayama – SAWAYAMA

O amálgama de referências extraordinariamente contemporâneo e pessoal que Rina Sawayama faz em sua arte é revigorante de uma maneira que só a música que realmente aponta para o futuro do pop é capaz de ser. Em “SAWAYAMA“, a cantora permite que nos acostumemos com a sua ambientação pop-punk/bubblegum/eletrônica antes de engatar a segunda marcha e nos presentear com surpresas musicais absurdas (o saxofone em “Paradisin'”) e letras dolorosamente pessoais (“Bad Friend”, “Chosen Family”), criando um disco capaz de expressar alegria, pesar e declarações alcoolizadas no melhor equilíbrio de perfeição pop.

8. Dua Lipa – Future Nostalgia

Não se engane com a oitava posição: embora não seja o melhor disco do ano, “Future Nostalgia” é provavelmente o blockbuster pop pelo qual 2020 será lembrado no futuro. Dua Lipa providenciou a dose mais potente de antídoto musical para o caos destes últimos 12 meses, cravejando o seu disco de ganchos inesquecíveis, expressando com seu timbre grave inconfundível as sentenças pop mais certeiras do ano, desfilando por referências comuns a outras obras musicais de 2020 (Blondie, Olivia Newton-John, Chic, Diana Ross) com a confiança de quem sabe que está fazendo canções potentes para o público contemporâneo. Um triunfo.

7. Róisín Murphy – Róisín Machine

Róisín Murphy sempre foi um ponto fora da curva no cenário pop – e, ao mesmo tempo, uma das artistas que melhor profetizou o futuro do gênero. Em “Róisín Machine“, este ícone subestimado do nosso tempo chega mostrando à nova geração como fazer disco music, abusando das durações das músicas para construir viagens de produção deliciosas e soltando a voz, ainda cristalina aos 47 anos, em considerações profundas (mas ainda debochadas) sobre temas eternos e universais como amor, fama, sorte e solidão. Um diamante cortante de uma das nossas mais confiáveis garimpeiras pop.

6. Riz Ahmed – The Long Goodbye

Metade poesia falada, metade disco de hip-hop e R&B, “The Long Goodbye” é todo explosão declaratória, um disco de revolta palpável, que aborda a retórica anti-imigração em alta por todo o mundo (mas, especificamente para o artista, no Reino Unido) com inteligência, humor e atitude desafiadora. Sempre surpreendendo o ouvinte com rimas complexas e produções ecléticas (a dançante “Karma”, que fecha o disco, é totalmente inesperada), Riz Ahmed fez deste álbum uma das facetas mais fascinantes de sua expressão artística, justamente no ano em que ela explodiu e o confirmou como um dos nomes essenciais da nova geração – vide os filmes “Mogul Mowgli” e “O Som do Silêncio“.

5. Miley Cyrus – Plastic Hearts

Um álbum de energia e inteligência pop alarmantes, “Plastic Hearts” traz Miley Cyrus encarnando a persona mais genuína de sua carreira até hoje: uma femme fatale fascinada pelo pop rock setentista e oitentista, uma rainha gelada à la Debbie Harry, que se apropria de referências díspares com tranquilidade e segurança – vide o quanto “Prisoner” empresta de “Physical”, de Olivia Newton-John, mesmo em um disco voltado para um som mais teoricamente “pesado”. É sua obra mais coerente e mais pessoal, como demonstram as baladas que flertam com o passado country da cantora, e um álbum que explora bem as forças na voz e personalidade de Miley, que ficaram em segundo plano durante outras fases da discografia.

4. Jessie Ware – What’s Your Pleasure

No ano em que a música disco não saía dos ouvidos de qualquer um que acompanhasse o cenário pop, Jessie Ware e seu “What’s Your Pleasure?” indicaram exatamente como se aproveitar de uma tendência sem perder a identidade. O disco tem a assinatura melódica inconfundível da britânica, calcando o lirismo da disco e os pacotes de cordas etéreos que fazem parte da identidade do subgênero, posicionando assim os seus momentos mais francamente dançantes (“Step Into My Life” é uma favorita) como surpresas deliciosas. Um álbum que eleva sua artista da forma como este faz não pode ser subestimado.

3. La Roux – Supervision

Em certa dimensão, “Supervision” é um exercício intelectual, o álbum em que Elly Jackson (nome artístico: La Roux) exercita com mais energia a sua abordagem “substância-sobre-estilo” de música pop. Com produções espertas, mas repetitivas (sintetizadores no mesmo tom, linhas de piano similares), ela abre espaço para que o ouvinte se concentre na voz, no que ela está dizendo, e na estrutura das canções. La Roux se mostra, aqui, fascinada com temas que sempre foram caros a ela: identidade, controle, inquietude social. “Supervision” é mais um álbum legado de uma artista que não sabe produzir música de outro modo.

2. Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters

Um canto de liberação furioso e bem-humorado, “Fetch the Bolt Cutters” posiciona Fiona Apple como a diva caótica do auto aperfeiçoamento, da experimentação emocional e musical, da independência em seu sumo mais puro. A cantora, que já surgiu no cenário pop (com o “Tidal”, de 1996) dando voz a uma revolta própria e profunda que foi abraçada como um momento cultural definitivo pelo mundo, parece ter encontrado neste deliciosamente alucinado quinto álbum a encarnação mais pura e definitiva de sua presença no imaginário coletivo – mas vai saber o que ela vai aprontar no futuro.

1. Lady Gaga – Chromatica

Reemergindo como a profeta dance que conhecemos em 2008, após provar sua proficiência em outros gêneros (e o quanto conseguia esticar a sua magia pop para eles), Lady Gaga criou o disco definitivo do ano mais bizarro da memória recente. “Chromatica” é ágil, mas infestado de referências díspares que, milagrosamente, se organizam em uma história coerente. Uma história, diga-se de passagem, sobre isolamento, vício, estresse pós-traumático e eventual redenção – deve soar familiar para qualquer um que viveu 2020.

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As músicas

Se 2020 fosse uma playlist, como ela seria? Para um ano tão desastroso em todos os sentidos, menos o musical, selecionamos abaixo nada menos do que 86 canções lançadas em 2020 que nos fizeram dançar, cantar, chorar, sorrir – enfim, viver – em doze meses tão acachapantes que fazer tudo isso parecia impossível.

São destaques de alguns dos discos acima, e de outros que ficaram de fora da lista por falta de espaço, organizados sem a pretensão de continuidade musical. Prepare-se para um passeio de montanha-russa.

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