Preço da comida continuará nas alturas

Deflação observada no mercado brasileiro não atinge a população mais pobre e vulnerável, que continuará a sofrer com o preço dos alimentos
[Imagem: Reprodução/JorgeOMau]

Em julho, a economia do Brasil sofreu deflação e pode repetir o feito agora em agosto. Mas quase ninguém sentiu essa mudança que faz os valores, na média geral, caírem. Isso acontece porque é usada uma “cesta” de produtos e serviços para calcular o percentual de variação dos preços no país como um todo. Como os alimentos pesam muito mais no orçamento dos mais pobres, o reflexo da deflação registrada no último mês não chegou à maioria da população.

Por Renê Gardim (*)

A deflação é diferente da queda dos níveis de inflação, que é quando os valores continuam subindo, mas de forma mais “lenta”. Preço deflacionado significa que houveram alguns produtos e/ou serviços que passaram a custar menos. Mas necessariamente nem todos.

Lembre-se que o índice oficial da inflação é medido a partir de uma cesta de produtos e serviços. O que aconteceu no Brasil é que houve uma queda artificial da gasolina e, em menor nível, do diesel, dois componentes de peso na tal cesta.

Os governos estaduais foram pressionados a reduzir o percentual cobrado de Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, o ICMS, depois que o Congresso Nacional, tangido pelo governo federal, aprovou uma lei neste sentido, mas que vale apenas até o fim do ano, numa jogada puramente eleitoreira.

Juntamente com a lei que reduz as alíquotas do ICMS, o governo federal decidiu zerar também a cobrança dos impostos federais (Pis/Pasep, Cofins, Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, e Cide, Contribuição de Intervenção no Domínio Público) sobre a gasolina e o etanol até o fim de 2022. Assim, qualquer brasileiro agora pode pegar seu carro e encher o tanque. Resta saber como, se grande parte não consegue nem mesmo comprar comida.

E por falar em comida, os preços da cesta básica, essa sim composta por alimentos, continuou subindo. Em julho, esse aumento foi de 1,3%. Alimentos e bebidas já subiram 9,83% nos primeiros sete meses de 2022, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual é mais do que o dobro da inflação do período medida pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), o índice da inflação oficial, que foi de 4,77%.

Quando a deflação foi anunciada, juntamente com a previsão de repeteco em agosto, houve quem alardeasse que, agora sim, vamos ver os preços dos alimentos caírem este mês. Mais parece uma torcida do que uma análise econômica. Nada indica que haverá uma ampla diminuição nos valores da comida do prato do brasileiro. Isso para quem ainda consegue comprar comida. 

É preciso lembrar que temos dezenas de milhões de brasileiros que passam fome, num país que insiste em manter o rótulo de “celeiro do mundo”.

(*) Jornalista há 37 anos, atuou na Folha de Londrina, Jornal de Londrina e RBS. Foi editor de economia e agronegócio no DCI. Contato pelo e-mail [email protected]

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