O nosso encontro emocionado com o Papa Francisco

Por Larissa Gould, enviada especial a Santa Cruz de la Sierra


De 7 a 8 de julho, a cidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, recebeu 1.500 dirigentes e militantes de 28 países para o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares em diálogo com o Papa. Os Jornalistas Livres estavam lá!


A verdade é que não sou católica, mas isso não tem a ver com religião. Líderes mudam o mundo, palavras mudam o mundo, discursos mudam o mundo.

Ouvir um grande líder causa alguma mudança dentro da gente. Dá força para fazermos revoluções, internas e externas.

Sua fala é calma, mas não apática, e mesmo com o meu parco (na verdade nulo) espanhol pude compreender a importância do conteúdo daquele discurso.

O Papa pediu mudança “Uma mudança real e nas estruturas” uma mudança que atinja todo o mundo. O mundo não vai bem… E foi por aí que ele começou. Por essa simples e revolucionária constatação.

E já teria valido a pena, mas ele foi além. “Me pregunto si somos capaces de reconocer que estas realidades destructoras responden a un sistema que se ha hecho global. ¿Reconocemos que este sistema ha impuesto la lógica de las ganancias a cualquier costo sin pensar en la exclusión social o la destrucción de la naturaleza?” Sim, Francisco. Somos.

E para os que não entendem, ele é bem mais claro: a ambição desenfreada regida pelo dinheiro — “Ese es el estiércol del diablo”.

Ele lembrou que Maria foi uma jovem pobre, de um povoado da periferia de um grande império, sem teto para ter seu filho.

Em um momento tão crítico à juventude do nosso país, falou do direto a infância.

Na semana em que a Grécia deu uma lição ao imperialismo ao se impor às chantagens do FMI, ele fala “Ningún poder fáctico o constituido tiene derecho a privar a los países pobres del pleno ejercicio de su soberania”.

Falou de novas formas de colonialismo, do colonialismo ideológico e –vejam só — do monopolismo exercido pela concentração monopolista dos meios de comunicação, que pretende impor padrões de consumo e a uniformidade cultural.

E, no momento em que mais me emocionei, pediu perdão pelos crimes cometidos contra os povos originários durante a chamada “Conquista da América”. Não, um pedido de perdão não limpa as muitas manchas de sangue causadas, no passado e no presente, pela igreja católica. Mas, definitivamente, nos dá perspectivas de um futuro sem elas.

No final, Francisco, como se costume, pediu que rezassem por ele. Rezarei, pois, independentemente da religião, admiro a coragem do líder, que está enfrentando os grandes, os poderosos. Que Deus o proteja daqueles que querem o seu mal, os mesmos que querem o nosso mal. Afinal, o Papa (pelo menos em várias coisas muito importantes) está do nosso lado.

Abaixo, você lerá o relato de como foi o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares — EMMP


Dias 7 a 8 de julho, a cidade de Santa Cruz de La Sierra, recebeu 1.500 dirigentes e militantes de 28 países para o Encontro Mundial de Movimentos Populares. Com os temas Terra, Teto e Trabalho, o encontro teve como objetivo a integração, organização e articulação dos grupos, cooperativas, coletivos e movimentos dos países participantes.

O EMMP foi dividido em painéis expositivos e grupos de trabalho — todos puderam participar da discussão. Ao final, um documento foi elaborado conjuntamente e entregue ao Papa Francisco, selando os compromissos do encontro.

A primeira edição ocorreu em outubro de 2014, a convite do Vaticano, e reuniu cerca de 100 dirigentes que representavam organizações de base dos 5 continentes. Foi de lá que saíram as diretrizes: direitos trabalhistas, moradia digna e terra fértil. Foi a primeira vez que a instituição chamou movimentos populares para dialogar. “Se aquele foi um momento histórico, esse é um segundo momento histórico”, diz Paola Estrada, secretária da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), organização que tem como objetivo integrar os países da América Latina e Caribe, sendo uma alternativa à ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

Na Bolívia

A organização aproveitou a agenda do Papa Francisco, que visita a América do Sul passando por Equador, Bolívia e Paraguai, para realizar o Encontro. A escolha do país não foi por acaso. Evo Morales foi um dos debatedores convidados para a primeira reunião, no Vaticano. A realização do Encontro Mundial na América Latina foi mais um dos acertos do evento. O Papa sabe das coisas, e mais uma vez obrigou o mundo a colocar seus olhos, ou melhor, suas lentes, na América Latina, em um país que sofre pelos caprichos do Capital, mas que resiste.

Na abertura do EMMP, uma mística deixou claro o propósito do encontro. Nela, os trabalhadores à margem do capitalismo, sofrem na miséria, enquanto três monstros representando a Mídia, os Bancos e as Grandes Corporações passeiam entre eles, destruindo os 4 elementos da natureza. Quando esses trabalhadores, fortalecidos pela cultura, educação e agroecologia se unem, os monstros saem da cena acuados. As trabalhadoras e trabalhadores são vitoriosos. É essa unidade dos [email protected] do campo e da cidade que o encontro busca.

A abertura institucional contou com a presença do presidente do país, Evo Morales. Em seu discurso, ele elogiou o Papa Francisco e sua atitude de diálogo com os movimentos. Ele também pediu responsabilidade na elaboração do documento final do Encontro e com as futuras gerações. “(O documento) deve permitir liberdade a todos os povos do mundo”. Evo também lembrou das melhoras na economia do país, após a estatização do Petróleo. “Tudo isso, fruto da luta, da união e da consciência do povo boliviano.” E finalizou “A união dos povos é necessária para enfrentar o imperialismo”.


Esse é o nosso país. Essa é a nossa bandeira. É por amor a essa pátria Brasil
que a gente segue em fileira


Do Brasil foram cerca de 250 pessoas de mais de 90 organizações, entre movimentos populares, sindicais, religiosos, de juventude, indígenas, de economia solidária, cooperativas, fóruns e redes. Foram quatro delegações saídas de Brasília, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Também estiveram presentes representantes do Norte e Nordeste.

Jéssica Pereira Garcia faz mestrado na Universidade de Brasília (UnB). Integrante do Levante Popular da Juventude, ela viajou por dois dias, para chegar ao EMMP. Dentro do ônibus, movimentos diversificados davam uma amostra do que seria o Encontro — diversos movimentos do Campo, Urbanos, indígenas, da Juventude… 56 pessoas ao todo. Jéssica não é católica, mas acredita que a participação do Papa é estratégica para dar visibilidade às pautas sociais. O que vai levar do encontro? “A diversidade cultural. Levo a importância da força da União da América Latina. Volto mais fortalecida e motivada!”.

Mariana Melheiros, da Caritas do Paraná, comenta durante o evento “É o encontro mais importante de que participo”. A sensação é comum a todos, aquela que a gente sente por fazer parte da história.

Nenhuma Família sem teto

A moradia urbana é um dos problemas com maior impacto social em todo o mundo, e não poderia estar de fora das pautas. Eduardo Cardoso, da Central de Movimentos Populares, a CMP, participou dos dois encontros. Para ele o primeiro encontro foi importante por abrir as portas e propor uma articulação mundial organizada entre os movimentos populares. O segundo encontro para ele tem como maior mérito estreitar laços “A perspectiva é que o diálogo com os outros países ajude na organização dos movimentos, mais especificamente no nosso, que é de moradia. Para que consigamos nos articular como, por exemplo, a Via Campesina.”. Para Eduardo, é um avanço debater a questão com organizações do mundo. “Entendemos esse como um espaço fundamental para debater o problema de moradia”.

Alex Ferreira, do Sefras — Serviço Franciscano de Solidariedade, participou do grupo sobre moradia: “Podemos ver que os problemas são muito próximos, principalmente nos países da América Latina”, ele também relata que a especulação imobiliária é um drama geral.

Nenhum Trabalhador Sem Direitos

O painel e os grupos de trabalho sobre trabalho, discutiram, principalmente, a ausência de direitos dos trabalhadores informais: trabalhadores de reciclagem, pescadores, ambulantes e artesãos. Mais uma vez ficou clara a proximidade dos problemas. Além disso, a questão de gênero também teve destaque.

Nos grupos de trabalho, as principais questões pontuadas foram a ausência de regulamentação de políticas públicas que deem contas das especificidades de cada categoria.

Nenhum Camponês sem Terra

A questão da Terra é histórica e foi muito presente no Encontro. Os movimentos camponeses possuem uma articulação internacional própria, a Chamada Via Campesina, porém a articulação com movimentos populares de pautas diversas é um desafio.

E não é o único. Nas mesas de debate e nos grupos de trabalho, foram pontuados problemas, muitos deles já conhecidos como a concentração de terra, desmatamento, mudanças climáticas, modelo do agronegócio, demarcação de terras indígenas e quilombolas e sementes transgênicas.

Para João Pedro Stédile, o agronegócio é modelo do capital para controlar o campo “As grandes áreas de monocultura, o uso desmedido de venenos, a priorização do uso de máquinas e as sementes transgênicas privatizam a vida” e defende “um projeto que garanta terra para todos, recupere a agroecologia, a diversidade de produção e a produção saudável. Mas, principalmente, uma boa vida no campo”.

Foto: Jorge Mamani/ABI/Fotos Públicas

O Papa é Pop

O último dia do encontro teve início com a sistematização final do documento. Os grupos de trabalho se separaram e sintetizaram suas propostas. O último dia do encontro, na verdade, era o mais esperado por todos.

Depois da plenária final, todos se concentraram em frente ao ginásio que abrigou aqueles dois dias de trocas e de construção colaborativa. De lá seguiram em ato até o a ExpoCruz, onde aconteceu o tão esperado encontro com Francisco.

Em fila, no mais tradicional estilo MST, os 1.500 participantes caminharam. A delegação do Brasil, por ser a maior, foi à frente. Caminhando e cantando, entoaram canções camponesas, religiosas, de denúncia, da juventude, feministas… Era lindo ver aquela unidade.

A verdade é que o país parou para receber Francisco. Era nítida a comoção nacional de um país, quase que inteiramente católico, com a vista do Papa. Foi decretado feriado em Santa Cruz e instituída a lei seca. Na TV? Papa. Nas Ruas? Papa! No avião? Papa! Até água mineral estampava o rosto de Francisco! Bandeirinhas, faixas, bandeironas, medalhinhas. A sensação da população e a preparação da cidade se assemelhava à Copa Brasileira. E ele não decepcionou nenhum de nós. (volto com adesivo, bóton e chaveirinho! Rs)

Já dentro do galpão, todos se sentaram para agenda exclusiva com o Papa. Na mesa, ao lado de Francisco, representantes dos países e dos diversos seguimentos: camponeses, trabalhadores, jovens, sindicalistas, cooperativistas. Pelo caminho que o levaria até o palco, bandeiras e reivindicações diversas.

Quando Francisco entrou, o mundo não parou. Na verdade não restaram cadeiras em seus lugares. Um em cima dos outros, a multidão se aglutinou para tentar tocá-lo, entregar-lhe algo ou, simplesmente, vê-lo mais de perto. Afinal, participar de um Movimento é estar em constante movimento.

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América Latina e Mundo
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