Obra jornalística de Marx e Engels na Nova Gazeta Renana é lançada na íntegra no Brasil

A editora Expressão Popular lançou no mês de março uma edição completa, em dois volumes, dos escritos de Karl Marx e Friederich Engels no jornal diário A Nova Gazeta Renana – Órgão da Democracia, da então jovem Liga dos Comunistas.

Esta edição, que traz textos inéditos no Brasil, foi organizada e traduzida direto do alemão pela destacada cientista política Lívia Cotrim (1959 – 2019). Contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo e de organizações sindicais de docentes das Universidade Federais de Pelotas (Adufpel), Ouro Preto (Adufop) e Federal Fluminense (Aduff).

Diante do ineditismo “quase completo” da obra jornalística dos autores, a importância desta edição e tradução são incalculáveis, na medida em que revelam definitivamente ao público brasileiro e lusófono as formas acabadas de intervenção crítica e organizativa dos fundadores do materialismo dialético no campo jornalístico e político revolucionário. Isto deve servir de acúmulo para a historiografia e também de fôlego para a atuação revolucionária socialista dos novos tempos que, infelizmente, em muito se assemelham à realidade da Prússia do século XIX.

A Nova Gazeta Renana (NGR) foi a público no dia 1º. de junho de 1848, em Colônia, cidade da região da Renânia, no contexto da chamada Primavera dos Povos – insurreição democrática popular iniciada em Paris, se desdobrando na Revolução Alemã – e teve suas atividades encerradas pela repressão reacionária do kaiser Frederico Guilherme IV, em 19 de maio de 1849.

De acordo com a apresentação da própria tradutora, o periódico “foi o principal instrumento de ação política de Marx nas revoluções que então se desencadearam”. Apesar disto, enquanto os materiais marxianos que examinam os desdobramentos da contrarrevolução instaurada através do golpe de Estado na França por Luís Bonaparte e outras intervenções na política são amplamente comentados, “o vasto manancial composto pelos artigos da Nova Gazeta Renana tem sido relegado, senão ao esquecimento, ao menos ao segundo plano. ” (Cotrim, 2021, v.1)

O conteúdo essencial deste esforço editorial diário, ao longo de pouco menos de um ano, é a análise detalhada do processo revolucionário alemão e os interesses das diversas classes sociais nele implicadas, particularmente os dos trabalhadores. Ao longo dos textos, pode-se observar também os problemas de fundo teórico-metodológico, sem se distanciarem da materialidade das disputas políticas-ideológicas em jogo. 

A tensão permanente que determina a linha editorial do diário gira entorno da pergunta ressaltada por Cotim (2021): “quais elos poderiam vincular reivindicações imediatas da classe trabalhadora, nascidas das condições de vida igualmente imediatas, a uma revolução comunista, isto é à reivindicação de supressão do capital, das classes e do estado?”

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Segundo seu biógrafo brasileiro, José Paulo Netto (Boitempo, 2020), nos meses anteriores ao lançamento da publicação, Marx via a impossibilidade de se implementar uma orientação prática à dispersão da jovem Liga dos Comunistas, ainda presa aos “ranços do conspirativismo / secretismo herdados da Liga dos Justos” e que, ao longo do processo de derrubada da autocracia prussiana, “emergiam posturas ora sectárias, ora conciliadoras diante das posições dúbias e hesitantes dos líderes burgueses”.

 Por isto, em meados de 1848, ele e Engels fizeram da NGR  “o centro diretivo político-ideológico” da Liga e dos trabalhadores da Renânia, em nome da unificação da Alemanha, como república democrática indivisível, sob influência do proletariado, ainda que dentro de um horizonte de transição liberal-burguês. Ainda segundo Netto (2020): “A Neue Rheinische Zeitung (NGR) constituiu de fato o veículo através do qual Marx e seus camaradas intervieram decisivamente na Revolução Alemã”. Já segundo Lênin (1914), a NGR se firmou como o “melhor e insuperável” periódico do proletariado revolucionário.

Para jornalistas, economistas, historiadores e cientistas políticos, a edição da Expressão Popular deve representar um novo impulso para métodos de trabalho, pesquisas, teses e dissertações. Para a massa dos trabalhadores e trabalhadoras das demias áreas servirá como material de formação política e elaboração das lutas a serem empreendidas. Para os revolucionários brasileiros e lusófonos de todas as origens, certamente, será fonte de inspiração e modelo crítico de intervenção na realidade no caminho da grande transformação que, como diria Fidel Castro, deve mudar tudo que precisa ser mudado.  

Por tudo isso, em tempos de exacerbação da “via prussiana” que reafirma o capitalismo dependente ultrarreacionário, tempos de negacionismo e recolonização do Brasil, de autoritarismo, façamos como fez Marx e Engles através da NGR. Em nome da Revolução Brasileira, reunir crítica teórica e intervenção política. Como sintetizado pela consigna da Expressão Popular, diante desta edição inestimável: Leia e lute!

Vida longa à obra de Marx e Engels! Viva à emancipação da classe trabalhadora! E fora governo genocida!

Renato Silveira Costa
Jornalistas Livres
14/04/2021

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COMENTÁRIOS

  • Dizia Aristóteles que um bom começo já é a metade. O jornalismo tem o seu, e a Gazeta Renana significou mais que a metade. É um largo passo na história da comunicação, do jornalismo, da história e da análise de informações. O jornalismo seria uma espécie de “parteiro da história”. Sua origem é histórica e remonta aos romanos, sob Júlio César (100 – 44 a.C). Este que fora o último baluarte da República, concebera a “Acta Diurna”, diário escrito através do qual circulavam suas conquistas militares. Dessa forma, antigos romanos tiveram a verve publicitária em sua trajetória, como bem dela usufruíram nas guerras púnicas em que rebaixavam Cartago e sua língua sob a publicidade e informação distorcida e escusa. Em poucas palavras, a Acta Diurna juliana fora considerada a primeira folha ou publicação da história do Jornalismo. Entretanto, a ideia de comunicar, de expressar símbolos e gravuras, remonta ao Paleolítico Superior sob a Arte Rupestre de 40.000 anos atrás. Apesar de desconhecermos os motivos daquela arte, a mágica presente ainda nos fascina assim como uma informação que iremos degustar e remoer, até que vire conhecimento e concretude de ideias organizadas. Na Idade Contemporânea, a história de Marx e Engels não cessa de nos fascinar, e a magnífica obra acima sobre a NGR, renovada sob a mágica de nossa tecnologia e criatividade de seus idealizadores, é uma ressonanância do século XIX a nos provocar a fruição de ideias e aprendizados. O poeta estadunidense Watt Whitman (1819-1892) compusera o lindo poema: “Sei que sou sólido e são/ para mim num permanente fluir/convergem os objetos do universo/todos estão escritos para mim/e eu tenho de saber o que significa o que está escrito. Esse tom de Whitman me veio à mente ao saber do lançamento dessa obra. É aquele permancente fluir em que eu tenho que saber o que significa. Bom, para não demorar-me neste comentário, diria que: sobre a publicação de suma importância que é a Gazeta Renana, certamente é digna de elogios. Publicações que resgatem os escritos daqueles empenhados pensadores que desconstruiam o que os privilegiados omitiam de nós em seus porões, movendo-se contra a censura e reacionarismo, é motivo de alvíssaras para nós. Uma excelente notícia, então. Rememorando essa temática, vejamos: durante o período em que a NGR fora concebida, a LC (Liga dos Comunistas) e outras denominações democráticas sob a atmosfera prussiana, conduziam suas lutas incansáveis contra o opressor estado prussiano. Marx iniciara em 1830 seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm, em Tréveris (cidade histórica alemã localizada no estado da Renânia-Palatinado), em um período convulsivo política e socialmente. Marx tornara-se em 1842, ano que travou conhecimento com Engels, redator-chefe da Gazeta Renana. Enquanto isso, a NGR se voltava às militâncias políticas com seu teor comunista. Sobre este nome tão sujeito a distorções, basta que o entendamos como ‘ordem socioeconômica estruturada sobre as ideias de igualitarismo, propriedade comum dos meios de produção e ausência de classes’, posterior ao Socialismo. A Nova Gazeta Renana ou Neue Rheinische Zeitung – Organ der Demokratie, enfim, representou o jornalismo diário em voga entre 1º de junho de 1848 até 19 de maio de 1849, cujo conteúdo fora publicado em Köln (Colônia) por Karl Marx e, como editor, Joseph Weydemeyer, membro da Liga dos Comunistas. Em acréscimo, o nome desse jornal se originara do jornal anteriormente editado na Renânia (Rheinland) entre 1842-1843 (em um raio de 14 meses) chamado “Gazeta Renana”, dentro do qual Karl Marx havia sido redator. Por fim, em 1843, a Gazeta Renana foi fechada após criticar e expor as contradições do governo prussiano. Mais tarde, ao perder seu emprego de redator-chefe, Marx mudara-se para Paris, onde assumira a direção da publicação Deutsch-Französische Jahrbücher. Em suma, hoje, com a subserviência da mídia em geral, censurada e amordaçada pela burguesia e influência fascista dos Estados Unidos sobre a informação, sobretudo sobre a guerra russo-ucraniana, a frase de Luis Fernando Veríssomo, de que: “às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”, nos remete ao profundo contraste com o comprometimento com os fatos por parte das escritas de Marx e Engels, que o jornalismo Mainstream atual jamais o possuiria. O Journalismus, como se diz na língua de Marx, tem muito a aprender com jornais sérios e escritores comprometidos como se viu em outros tempos. Em contraste com uma vida mais recolhida para reflexão de seus estudos, Marx enxergara na NGR uma espécie de canal oportuno para a prática de resistência à opressão gerada pelos detentores do poder político. E nós atualmente, como nos comportamos com o que nos forçam a emprenhar pelos ouvidos? Quão dóceis ficamos ao passivamente entupir nossa mente com False Flags e fake news, de Bolsonaro, Trump, Biden e toda mídia anglófona que despeja sobre a mídia parcial brasileira todo despojo enganoso, todo restolho sem sentido? Há muito que o jornal atual não passa de embrulho, nos dois sentidos da palavra: pacote ou intoxicação alimentar. A NGR evoca momentos em que o jornalismo era jornalismo, que buscava o verossímil ou, como dizia Leon Tolstói: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade”.

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