Na avenida da vida Elza é ancestral

Foi na sala de casa, naquele apartamento grande, aonde meu pai adorava promover grandes festas para mostrar a sua coleção de long plays, o hoje vintage vinil, que ouvi Elza Soares pela primeira vez.


Era anos 80, acho que 86, eu tinha dez anos.
Lembro-me de minha mãe explicando que Elza era uma mulher sofrida, pois tinha uma
relação amorosa muito complicada com um jogador de futebol. Meu pai, imediatamente gritou lá do outro lado da sala: “homem de verdade não bate em mulher!”
Pois bem, daí em diante a minha mãe me explicou com mais detalhes o valor da Elza.

Com o passar dos anos, eu fui me empanturrando de Elza. Não parei mais de ouvir e me sentia cada vez melhor, quando sentia no coração os clamores daquela voz. Para mim, não era só voz, era uma espécie de canto de resistência. Eu dublava a Elza escondida no espelho do banheiro de casa na pré-adolescência. Eu amava esse segredo. Sentia orgulho de mim mesma. Adorava me ver nela. Mas eu não tinha aquela voz, claro. Eu sentia a energia do reconhecimento naquele corpo de mulher negra.

Hoje, quando recebi a notícia de sua partida, eu e outras companheiras negras estávamos juntas sentadas em roda, conversando sobre a vida e olhamos umas para as outras e não ousamos chorar. Nos silenciamos.

A gente tem uma coisa meio senzala com a Elza. Depois pensei que esse silêncio da dor, deve ser porque ela é como se fosse uma coisa nossa, das negras, negros, meio escondido, quase que um um segredo que só a gente consegue absorver, entender, sentir cheiro, gosto. É uma fala, um grito, uma respiração e uma voz só nossa. É uma coisa muito nossa, de senzala, um código que só a gente entende. Elza é ancestral.

Tem quem goste, vanglorie e se emocione, mas não entende como nós.

Elza parte no dia do aniversário do RJ, onde nasceu. RJ é de OXOSSI, orixá da caça e da fartura. Tomara que seja o prenúncio de melhores tempos.

Consegui chorar.

Meu choro não é nada além de carnaval.

Elza é ancestral.

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