Elza Soares foi um caminho chamado LIBERDADE

O cabelo de Elza alçava-se do caixão; aos pés dela, a bandeira da Mocidade
O cabelo de Elza alçava-se do caixão; aos pés dela, a bandeira da Mocidade

Diferente das filas tradicionais de velório, não vi ninguém derrubando lágrimas por Elza Soares. Ouvi muitas contações sobre o orgulho de assistir a um show dela. Havia jovens e idosos disputando quem esteve em mais shows de Elza. Falava-se em nomes de palcos famosos do RJ. Falava-se de sentimento, de liberdade e resistência.

Por Katia Passos, do Rio de Janeiro

A fila dos populares que aguardavam para se despedir de Elza, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, dobrava o quarteirão da Avenida Rio Branco com a Almirante da Veiga, em frente à Praça Floriano.

Um repórter da Reuters pediu que uma senhora negra, chamada Angela Magalhães, 70 anos, cantasse algo; e logo ela entoou “Lata d’água na cabeça.” Angela me contou que era vizinha de Elza, pois mora em Jacarepaguá.

Quero falar da continuidade de Elza

O caminho que Elza abriu também se chama LIBERDADE. Quem acompanhou sua carreira sabe bem que dizer que ela era só uma cantora é pouco. A potência corporal e espiritual dessa mulher ultrapassou todos os limites. Por isso também que muitas mulheres negras e pessoas trans se vêem na figura da artista, sem estereótipos, com todas as realidades da história de Elza Soares.

Ronalda Santos Araujo, travesti não-binária, 20 anos, me contou lá fora do Theatro Municipal, que Elza ressignificou sua vida e que enxerga na artista a maior quebra de paradigmas que já viu. Ronalda veio do Espírito Santos para o velório.

Quando a escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel chegou foi um alvoroço de colegas de veículos tradicionais registrando. Após a entrada do grupo, uma salva de palmas ecoou do salão onde o corpo da rainha estava, para as escadarias do teatro imponente. Eu, do lado de fora ainda, aguardando a abertura para o público geral, me arrepiei, mas contive as lágrimas. Foi uma cena realmente afetuosa.

Enxergar Elza deitada naquele leito fúnebre foi difícil, mas ao mesmo tempo, muito bonito. A bandeira da Mocidade a cobria. Um momento carregado de forte emoção. Seus lábios e cabelos estavam mais imponentes e brilhantes do que nunca. Era como se eu ouvisse sua voz vibrar num ritmo mais potente dentro do meu coração.

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