Glória a um passo da solução. Ou não

Ministério Público segue pressionando para a reintegração de posse, mesmo que violenta, da maior ocupação urbana do Brasil, em Uberlândia. Mas nova reitoria da UFU diz que pretende resolver de vez, e pacificamente, a situação da área – Por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá – www.mediaquatro.com - Especial para os Jornalistas Livres

Sem medo, mas com juto receio sobre como será o futuro numa ocupação que luta há cinco anos pra ser regularizada

As mais de 15 mil pessoas de 2.350 famílias que moram no bairro Élisson Prieto, zona sul de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, têm vivido numa montanha russa nos últimos meses. Enquanto o assentamento, mais conhecido por Glória, completa cinco anos com praticamente todas as casas de alvenaria, as ruas definidas, o espaço para uma praça central separado, o Ministério Público Federal pressiona cada vez mais pela desocupação. Nessa quinta, diante de uma nova ameaça de despejo iminente, para o qual a Polícia Militar de Minas Gerais estima um custo de R$ 7.5 milhões além da morte de 40 pessoas (10 policiais e 30 moradores https://wp.me/p7pbzg-5Uk), mais de 2.000 assentados foram cobrar diretamente de Valder Steffen Jr, novo reitor da Universidade Federal de Uberlândia, dona da área, um posicionamento claro.

Valder Steffen Jr, reitor da UFU, e Minéia do Glória

Depois do MP bloquear no ano passado os bens dos dois últimos reitores da UFU em R$ 7.5 milhões exigindo o pagamento dos custos para a reintegração de posse, em dezembro o dinheiro é liberado pelo Governo Federal (https://www.youtube.com/watch?v=CE2CBOXjxUs). Em janeiro, o MP intima a reitoria, que havia acabado de tomar posse, a desenhar um plano de desocupação em 10 dias. Vencido o prazo, os procuradores federais da defensoria da própria UFU informam o juiz do caso, no último dia 13 de fevereiro, que a universidade não possui a expertise para tanto e “nesse caso não há outro plano senão contar com a imprescindível atuação do Poder Judiciário e com o necessário auxílio das Polícias Militar e Federal, além do acompanhamento de outros atores sociais como o Corpo de Bombeiros, Ministério Público, Conselho Tutelar e Secretarias Municipais de Saúde e Ação Social […] durante o desenvolvimento dos trabalhos de desocupação”. No mesmo despacho, requerem dos réus (os assentados) “que exponham, de sua parte, qual o plano para por fim à desobediência e cumprir a ordem de desocupação, sem darem ensejo ao uso da força e exporem a risco inocentes”.

O saguão da reitoria ficou pequeno para os manifestantes. No meio da sala, uma maquete do futuro Campus Glória, da UFU. O triângulo branco que aparece vazio é onde moram 2.350 famílias

A escalada das ameaças é evidente. Acordos alinhavados nos últimos anos com os governos municipal, estadual e federal, com oferecimento de outras áreas em troca do terreno, definido pela prefeitura antes mesmo da disputa como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), nunca utilizado pela UFU e separado por uma rodovia do restante do Campus Glória, são simplesmente ignorados. Nenhum argumento de ordem humanitária, social ou mesmo financeira é levado em conta. Afinal, além das dezenas de mortos e centenas de feridos previstos pela PM, como acomodar da noite pro dia 3% da população do segundo município mais populoso de Minas? Ainda mais se tratando de milhares de crianças, cerca de 2.000 idosos e 600 pessoas com deficiência. E que sentido tem deitar por terra mais de 2.300 construções num valor estimado de pelo menos R$ 160 milhões?

Sem medo, mas com justo receio sobre como será o futuro numa ocupação que luta há cinco anos pra ser regularizada

Diante de tudo isso, os moradores marcharam bastante tensos para a reitoria. Nas conversas entreouvidas, o sentimento era muito semelhante: “não vou sair da minha casa, nem que o trator passe por cima”, “só saio morta”, “construí lá meu sonho e minha vida”. De tempos em tempos, um grito de guerra: “Aqui está, o povo sem medo, sem medo de lutar”, “Eeee, o Glória voltou, o Glória voltou”, “Lutar, resistir e depois morar aqui”. As lideranças andam entre os moradores. Minéia do Glória, Marcos do MTST, Frei Rodrigo da Comissão Pastoral da Terra e Dr. Igino Marcos, advogado, tentam manter o ânimo em alta. Sobem e descem os três andares do prédio. Buscam representantes para conversar.

O reitor recebe convidados numa sala envidraçada do terceiro andar. Depois do pedido, concorda em descer e conversar diretamente com os assentados, algo inédito. E mais, traz boas notícias. Segundo ele, o governo deu “um presente de natal” ao promulgar em 23 de dezembro passado a Medida Provisória 759 (http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/127879), que facilita a regularização de ocupações urbanas consolidadas, como é o caso do Glória. Ele pediu um “voto de confiança” na nova gestão da universidade e afirmou que levará na próxima reunião do Conselho Universitário, já em março, uma proposta para encerrar o processo atual de despejo e iniciar um novo com vistas a uma “solução pacífica”. Resta agora esperar pra ver se, diferente de outras ocasiões, não se trata de mais uma “conversinha” enquanto os procuradores da UFU tomam decisões contrárias ao assumido pelo reitor e se o MP vai aceitar as resoluções do Consun.

Vista aérea da ocupação do Glória. Mais de 15 mil pessoas morando num bairro organizado e consolidado maior que muita cidade no Brasil

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