ELISA LUCINDA: Cadê o futuro que estava aqui?

"Estamos sem quando, esse importantíssimo advérbio de tempo que nos guiava como uma estrela na noite escura do inédito"

Elisa Lucinda
Elisa Lucinda

Tudo cancelado. Era março e, de repente, o futuro não estava mais ali, a ação nas ruas exigindo saber quem mandou matar Marielle,  minha apresentação no teatro São Pedro em POA, o curso de literatura viva para professores que participarão da primeira Festa da Palavra em Itaúnas… tudo se pulverizou em materialidade imaginada só e sem o “quando”. Estávamos todos ansiosos indo para o futuro quando o mundo parou de ir. Se bem que eu andava reclamando de gastar tanto o meu verbo ir. A vida vai levando a gente num frenesi que, muitas vezes, não se tem tempo nem de desfazer as malas porque uma viagem se sobrepõe à outra. E o pior, isso era bom, isso era o “sucesso”.  

Sem perceber, como escravos robotizados, entramos na doida corrida do ouro, porque dentro do sistema capitalista de altos lucros para os senhores, tudo nosso é muito caro. Então tem que se ganhar muito dinheiro pra se viver com a mínima dignidade: saúde, escola boa, comida, roupa, transporte. Tudo caro. Tudo escrotamente caro. E quem mais trabalha, menos ganha. A comida é cara. Uma passagem de avião, comprada na hora de viajar, despudoradamente te cobra mais porque sabe que você precisa, que é uma emergência. Aproveita-se o momento do desespero, é escancaradamente a taxa desespero! É isso que o capitalismo não quer que pare. Uma máquina de moer gente para transformar em dinheiro! É isso! Estávamos sendo moídos por dentro, lutando pesado para achar um canto para nossa necessária aula de Yoga, de música, um telefonema para os amigos. Congestionadíssimo, o tempo presente, ia sempre acumulado das tarefas de ontem, impossíveis de serem cumpridas num só dia, e as de hoje que, se não fosse a vida on line não pertenceriam ao tempo presente  simultaneamente. Esperávamos cartas por dias. Agora, elas chegam de toda parte do mundo dentro do mesmo “agora” em que apenas se esperavam cartas há vinte anos atrás. O agora não mudou de tamanho. É certo que pode ser imenso, mas é um agora apenas.

O novo vazio: São Paulo confinada pela lente de Victor Moriyama

O novo vazio: São Paulo confinada pela lente de Victor Moriyama

        A verdade é que desembarcamos dentro de nossas casas violentamente.

Não tem mais aquela reunião física, aquele trabalho foi pra onde ninguém sabe, nem quando. Fora comprar comida, pra que comprar um vestido agora? Pra quê? Aonde vamos? Não vamos. Há uma hora em que o dinheiro vai acabar. O que faremos? É só uma questão de prazo. Isso me aflige e ao mesmo tempo me leva para o espaço da ignorância. Aquele em que fico quando ainda não sei o que eu vou fazer, que cena vou escrever, qual poema, que arco dramático terá esse romance ou essa  peça. É profícuo esse lugar. É vazio. Mas é nele que vai brotar o que houver. Estou perdida. Triste e estranhamente feliz. Tenho alguns compromissos virtuais, reuniões, aulas, mas, de cara, uma vida inteira voltou pra mim sem horas marcadas. Molho as plantas, cozinho, malho, amo, namoro meu amor, e as coisas estão todas animadas sabendo que voltei. No ateliê, recentemente organizado por uma especialista, a fofoca dos lápis, purpurinas, colas, tesouras e papéis de texturas e cores diversas é imensa. Também me aguardam roupas para tingir, revista da biblioteca, esculturas para colar, e muitos cadernos com seus manuscritos decifráveis e a serem digitados. O negócio é animado. Os livros, meu Deus, tantos livros se assanhando pra mim. Lerei todos? 

Tudo se conecta e implora pela empatia, pelas correntes virtuais de solidariedade, pelo mundo desintoxicado de seu modo egoísta. Esse é o momento para a gente distribuir, olhar para aquilo que não usamos, compartilhar. Os dias de isolamento da humanidade precisam nos levar a uma nova sociedade. Estávamos isolados antes. Vivendo para derrotar o outro. 

Creiam-me: o mundo muito torto conseguiu chegar aqui até com a fé sendo um produto de manipulação e de grana ao mesmo tempo. Ou seja, um mundo miserável, do ponto de vista espiritual. Amaldiçoado seja o templo que cobra prestação dos fiéis, e o pior,  que tem a má fé de os aglomerar em tempos de contágio onde o ser humano é o único e perigoso hospedeiro e transmissor da devastadora doença. E o presidente chamando o povo para a morte. Será que é ideia dele matar esses crentes? Já que ele sabe que não são todos atletas. Ou esse Deus tem preferências, é injusto, e só vai proteger do vírus os que pagarem o dízimo? Será que é por motivo comercial que os templos não podem parar? Se eu fosse evangélico, ia achar que o presidente está de má fé comigo. O Deus que faz tal distinção não pode ser chamado de Deus. Este é um tipo de cargo que não aceita injustos. Sem citar ainda os produtos vendidos nos templos e tudo isso é negociado, passa de mão em mão entre fiel e vendedor. A verdade é que a grana é que não pode parar. Muitos templos são negócios. Quem quer que não fiquemos isolados agora está apavorado em ficar sem dinheiro, perder o seu altíssimo lucro e fala-se em economia e como se essa pudesse existir sem a mão do trabalhador. Como se não fosse uma produção humana. Quem tem mais dinheiro está achando que tem mais direito à vida do que seu empregado doméstico que ele não liberou na quarentena. 

Fiquemos em casa, reinventemos a vida. Há muito o dinheiro está em luta com o amor. Usando o seu nome em vão. Até bancos falam levianamente de amor e felicidade e lucram trilhões nos emprestando dinheiro a juros cruéis de dar inveja à mais alta agiotagem, fazendo refém a humanidade. Agora é hora de eles enfiarem as mãos nos próprios bolsos e tirarem as mãos dos nossos. É bom que a reparação tão logo aconteça. Urge.

Enquanto isso sinto que a Natureza está gostando. As praias estão desertas. Ouvem-se mil vozes de pássaros em Copacabana. Espécies em extinção voltaram a dar as caras. Os céus estão mais azuis e estrelados em toda parte, de Pequim a Sampa, e o número de desastres automobilísticos nas estradas despencou geral. Golfinhos aparecem nas orlas, brincam. O planeta  respira, desocupamos seus poros. Parece que a Terra descansa de nós. Eu sinto, ela está farta de nós, da nossa presença tóxica, predatória, destruindo e pisando afoitos com a bota da pressa querendo fazer o tudo. Seguíamos vorazes, velozes e furiosos, em busca do pseudo próximo novo. De repente, aquele futuro imediato não será mais daqui a pouco. Vai demorar e será outro. Estamos sem quando. Esse importantíssimo advérbio de tempo que nos guiava como uma estrela na noite escura do inédito. Sabemos que a ciência deve ser ouvida, a arte compartilhada para nutrição geral e que o Estado, representante do povo que é, tem que segurar a estrutura e nos manter vivos até chegarmos à nova ordem. Que encontre esta grana. Que milionários usem os altos lucros agora para nos manter viáveis se quiserem ter gente viva consumindo quando o futuro voltar a ser possível.

Abaixo os neoliberalistas, abaixo separatistas, abaixo a vida escrota e competitiva até o talo. Coisa tensa. Pois o jogo mudou. O mundo todo se tornou contaminador e contaminável. Neste momento constatamos que paz, igualdade e sobrevivência não são assuntos particulares. Renomados indígenas afirmam que o futuro é um delírio branco pois, no encalço cego deste futuro desprezamos passado e presente, que são simplesmente o seu chão. Estivemos todos muito tempo fora de casa. A mãe Terra nos  botou pra dentro. Que nos seja lição. O que do que fomos servirá para o novo mundo que surgirá depois da guerra? Já não somos mais os mesmos.

Coluna Cercadinho de  palavras, Elisa Lucinda, outono inusitado, 2020

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