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Aula magna de Boulos unifica esquerdas em defesa da previdência e humilha bolsonaristas

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Boulos, ao lado de líder do DCE e ver. Afrânio Boppré.
Foto Carol Morgan e Leonardo Gatti

A Universidade  pública federal foi, na noite de quarta-feira (19), em Florianópolis, território de resistência e ocupação das esquerdas, como nos tempos das grandes reações à ditadura militar. Aula magna promovida pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC mobilizou mais de 2.000 pessoas para ouvir o líder do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST) e ex-candidato a presidente da República pelo PSoL, Guilherme Boulos, falar sobre as estratégias de resistência contra a destruição da previdência pública e dos direitos sociais. Boulos defendeu a unidade e a maturidade da esquerda para “enfrentar um inimigo maior que quer destruir nossa perspectiva de futuro”. Bolsonaristas mobilizados por Luciano Hang foram postos pra correr pela esmagadora maioria.

 

Do lado de fora, mais de 1.500 pessoas acompanhavam a aula magna

Depois de lotar o auditório e o hall da reitoria da UFSC, o público ocupou o espaço externo, na Praça da Cidadania, em frente à administração, transformando em ratinhos constrangidos pouco mais de uma dúzia de militantes do MBL e estudantes de extrema direita, convocados pelo bolsonarista Luciano Hang. Dono da rede de Lojas Havan, Hang atacou a universidade por permitir a palestra de Boulos, que chamou de “invasor de propriedades”.  O empresário biliardário é famoso por ter sido indiciado em processos judiciais de sonegação de impostos, apropriação indébita de descontos do INSS, evasão de divisas, fraude em documentos federais, violação dos direitos trabalhistas e, durante o período eleitoral, constrangimento e assédio político aos empregados.

Recebido pelo público com o bordão do Povo Sem Medo, “Aqui está, o povo sem medo, sem medo de lutar”, Boulos defendeu a universidade como espaço público de debate do pensamento crítico em oposição à tentativa de mordaça e perseguição do Projeto Escola sem Partido. Na capital de Santa Catarina, reduto do bolsonarismo, mas também a cidade onde obteve a votação mais expressiva do país nas eleições presidenciais, Boulos proclamou a união das esquerdas contra o desmonte da previdência pública, a fúria de privatização e a entrega das riquezas nacionais  ao capital estrangeiro. Ao protestar contra o assassinato de Marielle Franco e a prisão política de Luiz Ignácio Lula da Silva, foi encorajado por um coro uníssono de “Lula Livre”. Os ecos do lado de fora, onde pelo menos 1.500 pessoas acompanhavam a aula por um telão, chegaram ao auditório e levaram o palestrante ao encontro desse público.  Na Praça da Cidadania, Boulos falou em forma de jogral com a multidão: “Universidade deve ser espaço democrático, instância pública de debate. Ninguém vai impedir que a gente fale, que a gente debata, lute. Vamos em frente, resistir, até a vitória!”.

Entre os organizadores da aula magna, dirigentes do PSoL, do DCE Luís Travassos e da universidade, havia muito temor pela segurança do palestrante e do público. Bolsonaristas chegaram a criar um evento na página do Facebook do movimento fascista Endireita UFSC para chamar um ato de repúdio contra a presença de Boulos na universidade. Contudo, em vez de intimidar, os ataques  só conseguiram  aumentar a mobilização dos estudantes, que começaram a ocupar o espaço às 17 horas, duas horas antes do início marcado, para evitar a invasão dos pró-governistas. Partidos de oposição como PT , PCB, PCdoB e PCO mobilizaram seus coletivos, assim como outras agremiações e entidades populares em defesa da democracia, da universidade e dos direitos humanos, a exemplo do Floripa Contra o Estado de Exceção, Movimento Negro Unificado, Movimento das  Ocupações Urbanas e 8M Santa Catarina e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

A campanha Lula Livre teve uma presença marcante no cenário do evento, com faixas cartazes, venda de camisetas, bandanas e palavras de ordem endossadas pelo palestrante que defendeu a pluralidade política no espaço da universidade. “Onde querem fazer o debate sobre as diferentes posições sobre os rumos da sociedade? No quartel?”, provocou o sociólogo. “Gostaríamos que em vez de dizerem que vão jogar pedra e ovo, tivessem a coragem de sentar aqui nessa mesa para debater com a gente o futuro do Brasil. Não debatem porque não têm projeto. Nem o chefe deles vai ao debate. Fugiu dele a eleição inteira!”. Por isso, acrescentou, “é fundamental manter esse evento depois das ameaças daqueles que só fazem gesto de arminha, mas não têm disposição de debater o futuro do Brasil”.

Quanto mais a cobra do fascismo rodopia, mais ela provoca o grito das multidões. Em efeito contrário, as ameaças acabaram provocando um “momento emblemático de união  e resistência das esquerdas, que deve ter continuidade em 22 de março, dia de e mobilização contra a Reforma da Previdência e construção da greve nacional”, como propôs o sociólogo. O clima de grande tensão e até a expectativa de incidentes graves e agressão física se extinguiu com o carisma do guerreiro e a sede de esperança da plateia sob a lua cheia. Sem violência, como mostram os vídeos, mas com firmeza, a própria militância de esquerda enquadrou e controlou os militantes de direita do Instituto Imperial Catarinense, Liberalismo Radical, Endireita UFSC e Direita Santa Catarina, que tentavam sabotar o evento, com barulho de apitos, cornetas e palavras de ordem provocativas. Alguns deles reivindicavam a posse dos símbolos nacionais e a bandeira do Brasil, quando foram questionados sobre a posição submissa e entreguista do presidente do Brasil nas relações com Trump, nos Estados Unidos, denunciando esse falso patriotismo. Uma bandeira de Bolsonaro foi consumida pelas chamas. Numa resposta vigorosa aos ataques dirigidos do presidente contra o movimento estudantil nomeando-o  inimigo do governo, Boulos referendou a importância da juventude na luta contra a ditadura militar e, agora, no combate ao projeto fascista e entreguista. Luís Travassos, o líder estudantil, torturado e assassinado pela Ditadura Militar, homenageado no nome do DCE, foi referendado pelo vereador Afrânio Boppré como símbolo da força e da organização estudantil nacional, que tomou fôlego em Florianópolis.

Gravação ao vivo da Aula Magna publicada pelo DCE Luís Travassos

https://www.facebook.com/dceluistravassosufsc/videos/781675198873303/

Com uma crítica construtiva à esquerda que foge ao divisionismo cultuado por membros do seu próprio partido, Boulos apontou como falhas da esquerda que conquistou o poder nos últimos anos o afastamento das periferias e das bases. Afirmou que Bolsonaro é fruto da desesperança, da desilusão, fruto do medo. “Para construir outro caminho, temos que ser capazes de nos reencantar para encantar as pessoas. Capazes de construir sonhos coletivamente e de nos organizar”.  Como desafio, o ativista político propôs que as esquerdas fortaleçam a unidade considerando que as diferenças entre si são menores  do que as ameaças de futuro impostas pelo governo Bolsonaro.

Defesa de Boulos e da previdência pública une esquerda em Florianópolis. Foto: Carol Morgan e Leonardo Gatti

O que está em jogo no país com os projetos de Bolsonaro é a perspectiva de futuro, acredita Boulos. A começar pela reforma da previdência, que quer fazer com que todos nós não tenhamos perspectiva nenhuma de se aposentar, temos que morrer trabalhando. Mas não é só a reforma da previdência: “É um ideário de sociedade que coloca o privilégio acima dos direitos, que colocar o cada um por si como princípio de organização social acima da solidariedade. É isso que eles querem fazer com a previdência como é isso que querem fazer com a universidade. Um ministro que diz que universidade e para elite intelectual. Se eles acham que a porta que se abriu, abriu demais, nós achamos é que abriu pouco. Tem que ser escancarada. Tem que ter mais negras, mais favelados “.

Sobre as perspectivas de um governo tirano e imbatível, o líder popular apontou esperança em meio à tragédia. “Há pouco mais de quatro meses Bolsonaro foi eleito como se fosse uma derrota irreversível. Não demorou 60 dias para aqueles que se diziam ser o novo, mostrassem práticas vergonhosas de corrupção e as táticas mais velhas da política brasileira. Não demorou 60 dias para que as pessoas percebessem o despreparo, o quando colocaram um bando de trapalhões na Presidência da República”. E prosseguiu: “Não demorou 60 dias para aqueles que garantiriam a segurança pública e que acabariam com a violência se mostrassem um bando de milicianos, associados ao que tem de pior no Rio de Janeiro, que são as milícias que mataram Marielle Franco e que exploram milhões de moradores de comunidades carentes por extorsão. Essas milícias hoje estão bem próximas do Planalto, se é que não estão alojadas lá”.

REFORMA VAI FALIR A PREVIDÊNCIA PÚBLICA

Com a aula magna, Guilherme Boulos, começou por Florianópolis uma turnê em 17 cidades brasileiras para organizar a luta contra Bolsonaro e a Reforma da Previdência. De Florianópolis, ele segue hoje (20/3) para Curitiba, amanhã para Porto Alegre, e na sequência para Brasília, Belém, Macapá, Fortaleza, Teresina, Recife, as cidades paulistas de São Roque, Campinas, São Carlos e Franca, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Niterói e Rio de Janeiro. Boulos qualificou o projeto da Reforma da Previdência como criminoso e covarde. “Eles querem com a proposta da reforma destruir a previdência pública e jogar o dinheiro de quem puder poupar para os bancos privados. Como destroem a previdência? Tornando a aposentadoria quase impossível, determinando 40 anos de contribuição num país onde a maioria está na informalidade, 60 anos de idade num país onde a expectativa de vida não chega aos 60 em várias periferias”. Na sua avaliação, o projeto inviabiliza a previdência pública pois quem tiver condições vai para a previdência privada e dar o dinheiro pro Bradesco, pro Itaú e pro Santander. Quem não tiver, vai ganhar R$ 400,00 depois dos 60 anos. “E dizem que isso é que vai salvar a Previdência? Isso é o que vai falir de verdade, pensem bem. Hoje 2/3 da previdência é financiado por contribuição do empresário e do trabalhador em folha de pagamento. Se o trabalhador  deixa de contribuir para a capitalização, esse dinheiro que ia pro INSS vai pra previdência privada. Aí que a previdência pública vai falir porque não vai ter como sustentá-la”, afirma.”Ah mas a previdência privada é uma opção”, pondera. “Opção coisa nenhuma. Na previdência pública a empresa tem que contribuir, na privada não paga nada. Se isso acontecer, acham que o empregado vai contratar trabalhador que opte pelo INSS? Claro que não! Será uma condição para contratar. É uma jogada pra dar dinheiro pra banco e acabar com a perspectiva de futuro”.

O que está em jogo, enfatiza o guerreiro, é a nossa geração, as próximas gerações. “O que está em jogo são as conquistas mais básicas de uma sociedade civilizada. É não ter Idoso com receita de remédio pedindo esmola na sinaleira. O que está em jogo é que a universidade seja um direito. O que está em jogo é que uma briga de trânsito não vire um bangue-bangue. Se queremos igualdade e solidariedade, ou privilégio, privatização e cada um por si. Esse é o momento da decisão”.

Antes de proferir a palestra na UFSC, Boulos participou às 16 horas da sessão na Câmara de Vereadores em homenagem à Marielle Franco, constantemente evocada por gritos de “Marielle, presente!” e “Marielle perguntou, eu também vou perguntar: quantas mães têm que morrer pra essa guerra acabar”. Foi uma aula magna curta e antológica, com o impacto das palestras dos anos 70 e início dos 80, quando multidões se apinhavam nos auditórios da UFSC para buscar na voz de grandes líderes, de esquerda como Luís Carlos Prestes, uma saída para o inferno da ditadura. Eles são uma tragédia, mas tudo isso mostra mais cedo do que muitos imaginavam, o que previu Pepe Mujica quando veio ao Brasil falar sobre o Golpe de 2016: “Nenhuma vitória é definitiva e nenhuma derrota é definitiva”.

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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