Crônica de um discurso desejado

Por Diógenes Júnior*, colaboração para os Jornalistas Livres

Em dado momento aconteceu que, na cena política brasileira, o surreal sobrepujou o real, e uma espécie de “realismo mágico” em um Brasil paralelo começou a desenhar-se. Como em um filme do diretor José Padilha, aquele diretor sempre em busca de heróis.

Ligo a TV e sou surpreendido com o pronunciamento da presidenta Dilma, direito de resposta dentro do jornal de maior audiência na TV brasileira, jornal que é faca, queijo e mãos sujas, artífices de golpes contra a democracia da qual ela mesma, Dilma, é a representante máxima.

“Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: não vou renunciar! Colocada numa encruzilhada histórica, pagarei com minha governabilidade a lealdade que devo ao povo.
E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de todos os milhares e milhares de pessoas que votaram em nossa proposta de governo não poderá ser ceifada definitivamente.
Eles, os rentistas, os especuladores, os golpistas, têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força.
A história é nossa e a fazem os movimentos sociais e toda a esquerda que nos ajudou a alcançar o poder.”

A nação para e ouve atentamente as corajosas palavras da fiel depositária dos sonhos, rumos e destinos de toda uma enorme nação. Cinquenta e cinco milhões de votos de um lado, cinqüenta e quatro milhões do outro.
(O outro é aquele outro que não aceita a derrota.)

As centrais sindicais, os movimentos sociais, os coletivos LGBTT, intelectuais, índios, povo quilombola, estudantes saem às ruas, tingindo de vermelho e multicor todas as ruas do Brasil. “Fica Dilma! Não vai ter golpe!”

O pronunciamento prossegue:

“Trabalhadores e trabalhadoras de minha pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em uma mulher que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a Lei, e assim o fez.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que em nós acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças.”
(Sempre as crianças. Sempre. As crianças que programas sociais como o “Bolsa Família” ajudaram a salvar, ajudaram a manter na escola. )

Nota mental minha: não nos esqueçamos disso.

“Dirijo-me aos trabalhadores da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram defendendo esse projeto de governo contra a sedição auspiciada pelos interesses imperialistas, associações classistas que defendem os lucros de uma sociedade capitalista.”

“Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram “Dilma, coração valente” e deram sua alegria e seu espírito de luta.”

“Dirijo-me ao homem do Brasil, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos (e seremos), porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos linchamentos incentivados por programas policialescos, nas execuções cometidas por grupos de extermínio formados por policiais que deveriam nos proteger, nos arroubos de intolerância praticados por gente que bate panelas e veste camisetas da entidade mais corrupta do esporte para desfilarem, inclusive nus, “contra a corrupção”.

“A História os julgará. A História nos julgará a todos.”

Ditas essas palavras, como que em um passe de mágica acontece uma “liga” em todo o tecido social que, outrora esgarçado e roto em vias de se romper, se fortaleceu em unidade.

Setores que se encontravam relutantes em defender a democracia agora engrossam nossas fileiras, mobilizados e organizados em defesa do bem comum.

“O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se…”

Dilma encerra seu discurso:

““Saibam que, antes do que se pensa, essa crise (que é mais virtual do que real, e que beneficia quem dela faz propaganda) será superada, e de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o brasileiro livre para construir um Brasil melhor.”

(Com menos desigualdades sociais — nota mental minha)

Vem-me à mente toda a dedicação de um sem números de anônimos, pessoas comuns e celebridades que se empenharam, entregando-se de corpo e alma à tarefa de eleger o projeto de governo que julgavam ser o mais justo para o Brasil

É neles e em todo o povo brasileiro que penso: essas pessoas esperam não menos que as atitudes expressas nesse discurso

O que impede que essa peça de ficção, mundo paralelo de realismo mágico, se torne realidade?

Termino com as palavras que comecei: “Em dado momento aconteceu que, na cena política brasileira, o surreal sobrepujou o real, e uma espécie de “realismo mágico” em um Brasil paralelo começou a desenhar-se, como em um filme do diretor José Padilha, aquele diretor sempre em busca de heróis…”

…e Dilma se tornou novamente heroína, como foi na luta contra a ditadura, protagonista de uma grande virada política, que começou com um discurso.

“Tem horas que é caco de vidro
meses que é feito um grito
tem horas que eu nem duvido
tem dias que eu acredito.”
(Paulo Leminsky)

(N. do A: você pode ler aqui, na íntegra, o memorável discurso de Salvador Allende, no qual inseri minha licença poética a fim de escrever essa crônica http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/allende.htm)


*Diógenes Júnior é pesquisador independente, paulistano de nascimento, caiçara de coração e gaúcho por opção. Radicado em Porto Alegre, RS, escreve sobre Política, História, Cinema, Comportamento, Movimentos Sociais, Direitos Humanos e um pouco de um tudo.

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