Ciro, o colaboracionista

Por Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia

Mágoa, ressentimento, vingança, inveja.

Não estou interessado em especular sobre os dilemas psicológicos que afetam Ciro Gomes. Até penso que essa seria linha de investigação que ajudaria a entender o comportamento público de Ciro ao longo dos últimos anos.

Mas não, não é isso que discuto aqui. Há gente mais qualificada pra fazê-lo.

Meu interesse é outro: analisar os cálculos e os efeitos práticos da movimentação de Ciro Gomes no tabuleiro eleitoral desde 2018.

Então, vamos lá….

Depois de uma trajetória partidária errante (o que, segundo muitos, significaria frágil coerência ideológica), Ciro se filiou ao PDT em setembro de 2015. Desde então tenta se apropriar da memória de Brizola, reivindicando a herança do trabalhismo e do nacional desenvolvimentismo. O interesse político era óbvio: disputar as eleições presidenciais de 2018. A ambição é legítima, é claro.

Num primeiro movimento, Ciro se colocou como aliado do PT. Na época, se notabilizou como um dos principais defensores de Lula. Criticou duramente Sérgio Moro e a Operação Lava Jato. Não raro, causou constrangimentos para jornalistas da grande mídia.

Lembro bem quando Ciro acossou Eliana Cantanhede e outros jornalistas lavajatistas num evento organizado pelo “Estadão”, em setembro de 2018. Na ocasião, usando sua autoridade de professor de direito constitucional, Ciro foi contundente, incisivo, elevou o tom de voz e de dedo em riste disse que Lula estava sendo vítima de uma conspiração.

Bolsonaro já tinha força eleitoral. No campo progressista se ventilava a possibilidade da aliança entre PT e PDT. Importantes lideranças petistas, como Jacques Wagner, demonstraram simpatia pela ideia. Ciro chegou a recorrer ao STJ para ser autorizado a visitar Lula na cadeia. O encontro aconteceu em agosto de 2018. Na pauta da reunião, é claro, estavam as negociações envolvendo a aliança.

Como sabemos, o acordo não aconteceu. O PT queria levar até o fim a candidatura de Lula, mesmo sabendo do impedimento, com o objetivo de fazer a crítica política à Operação Lava Jato. Ciro estaria na chapa, como vice. Não topou.

Acompanho o processo político há tempo suficiente pra saber que em negociações desse tipo não existem vítimas e vilões. Os atores políticos têm seus interesses e prioridades. Fazem suas escolhas à luz disso. Ninguém aí é santo, e nem demônio.

Finalizado o primeiro turno das eleições, Ciro foi derrotado, mas saiu da disputa com relevantes 12% de capital eleitoral. Resolveu tirar férias em Paris. Foi tímido no apoio a Haddad no segundo turno. A relação só fez se desgastar. Mas as críticas de Ciro ao PT ainda estavam contidas dentro dos limites da honestidade política. Afinal, Lula estava preso, inelegível. A aliança que não tinha acontecido em 2018 poderia se concretizar em 2022.

Com o início do governo de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019, Ciro tentou se construir como principal crítico ao presidente. Por muitas vezes acionou a justiça pra questionar decisões do governo. Assinou diversos pedidos de impeachment. Algumas rusgas com o PT. Nada que não pudesse ser resolvido em conversa a portas fechadas. O alvo de Ciro era Bolsonaro. Insisto: Lula estava preso e inelegível. Haddad estava desgastado com a derrota em 2018. Fazia todo sentido tentar ocupar a esquerda do espectro político. O espaço estava vazio.

Essa possibilidade começou a se fechar em novembro de 2019, quando Lula foi solto. Ciro deu entrevistas comemorando a libertação do ex-presidente. Falou em “necessária reparação”. Sim, Lula estava solto, mas ainda inelegível.

Em abril de 2021, veio a pá de cal em qualquer pretensão de Ciro em liderar a esquerda brasileira. O STF devolveu os direitos políticos a Lula. Não havia mais nenhum impedimento legal para sua candidatura. Em qualquer pesquisa de opinião, Lula, mesmo nos piores momentos, nunca teve menos de 25% das intenções de voto. ¼ do eleitorado, de partida, sem campanha. Em nenhum lugar do mundo, em nenhuma circunstância, alguém com essa força deixaria se der candidato.

Falando à “Folha de S.Paulo” em maio de 2021, Ciro admitiu que com a volta de Lula “minhas chances ficam mais restritas”. Havia duas possibilidades: a primeira seria reconhecer a derrota dentro do campo e voltar à órbita do PT, colaborando com a campanha, quem sabe como vice na chapa, se colocando na disputa pelo espólio político de Lula, um senhor de 76 anos, importante lembrar. Ciro tinha a seu favor capital eleitoral próprio, de 12% dos votos. Muito mais do que qualquer outro adversário que poderia vir de dentro dos quadros do PT. A outra possibilidade seria abrir disputa com Lula pela hegemonia no campo progressista, numa jornada cuja vitória era bastante improvável.

Ciro escolheu o improvável.

Ao longo de 2021, todas as pesquisas mostravam que Lula era o favorito para as eleições de 2022. Não tinha jeito. O campo da esquerda já estava dominado. Ciro foi obrigado a reconhecer . Mudou completamente a estratégia e fez outra aposta.

Explico.

A previsão era de que o caos administrativo do governo derreteria a popularidade de Bolsonaro, deixando órfãos os setores da sociedade civil que rejeitam o PT. Ciro esperava, então, que o antipetismo continuaria muito forte e Bolsonaro cairia em desgraça, perdendo a confiança daqueles que o elegeram.

A previsão não era absurda.

As eleições municipais de 2020 pareciam sugerir que Ciro poderia estar certo. O PT sofreu o pior revés de sua história, não conseguindo vencer em nenhuma capital, algo inédito na Nova República. Por outro lado, o bolsonarismo também amargou contundentes derrotas, sendo o caso do Rio de Janeiro o mais paradigmático.

Só que, para a infelicidade de Ciro, a previsão não se consolidou. Primeiro porque Lula é muito maior que o PT. O antipetismo não cola completamente em Lula. Segundo, porque Bolsonaro demonstrou uma resiliência que impressiona todos aqueles que acompanham com algum rigor metodológico a recente história política brasileira. Tal como Lula, Bolsonaro jamais teve menos de 25% de apoio popular, mesmo em seus piores momentos. Definitivamente, o antipetismo tinha dono. Ninguém consegue odiar o PT melhor, e de forma mais convincente, que Bolsonaro.

Ciro, então, ficou sem lugar.

Já em 2021era evidente que Ciro não teria a menor chance na corrida presidencial de 2022. Lula e Bolsonaro são as mais importantes e carismáticas lideranças populares brasileiras dos últimos 40 anos. Dois personagens solares. Não tem espaço pra “terceira via” na disputa polarizada entre eles.

O que Ciro começou a fazer, então? Exatamente o que está fazendo agora, neste momento: mirando no próximo ciclo eleitoral. É mentira que essa seria sua última tentativa. Ciro dorme e acorda pensando em 2026. Cada vez mais subirá o tom contra o PT. O alvo é o PT. É Lula. Guerra aberta! Há poucos dias, Ciro esteve na Joven Pan, aparelho ideológico da extrema direita. Mentiu, disse que o filho de Lula é ladrão. Acionou a semântica lavajatista, a mesma que tanto criticou em 2018.

Qual é a aposta dessa vez?

Ciro sabe que Bolsonaro perderá a eleição. Sabe que Lula vencerá e terá anos muito difíceis pela frente. O cenário é ainda mais desafiador do que aquele que o petista encontrou em 2003. A frente ampla, tão necessária para vencer a eleição, cobrará seu preço. Os limites fiscais impostos pela legislação e o cenário internacional aparentemente hostil a um novo ciclo de comodities sugerem que Lula terá dificuldades em repetir a agenda social tão bem executada no começo do século.

E Bolsonaro?

Ciro insiste em esperar o derretimento de Jair Bolsonaro. Acredita que a derrota eleitoral e a saída do poder o enfraquecerão, deixando um campo vazio. Por isso, Ciro se coloca, discursivamente, à direita. Tenta agir como Bolsonaro, falar como Bolsonaro. Quer chamar atenção daqueles que, hoje, se sentem representados por Bolsonaro. É como se estivesse dizendo: “Olhem pra mim, posso fazer igualzinho a ele”.

Pode mesmo?

Na pesquisa Datafolha divulgada em 14 de setembro, Ciro oscilou um ponto pra cima, enquanto Bolsonaro oscilou um ponto pra baixo. Isso pode indicar que Ciro está, de fato, chamando a atenção de alguns dos eleitores de Bolsonaro. Poucos ainda. Não dará tempo de ser ser algo relevante para essa eleição. E para a próxima? Ciro espera que sim.

É impossível saber se, dessa vez, a previsão se confirmará. Acho difícil. Estou mesmo convencido de que nada mudará o fato de que Bolsonaro, enquanto estiver vivo, será o porta-voz dessa conjunção de afetos políticos que genericamente chamamos de “anti-petismo”.

Por enquanto, o que dá pra saber é que ao atacar Lula com esses argumentos, Ciro fortalece Bolsonaro, colaborando para levá-lo ao segundo turno da eleição que acontecerá neste ano, em 2022. Numa eleição há muito perdida, o máximo que Ciro está conseguindo é colaborar com o bolsonarismo.

A ver como isso impactará na biografia de Ciro Gomes. Acho improvável que algo tão grave passe desapercebido, e sem o devido julgamento político.

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