Zé Dirceu volta para a peleja

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp

por Laura Capriglioni e César Locatelli

Eles venceram? O sinal está fechado para nós?

O que está acontecendo é uma derrota política para eles, estratégica. É a maior derrota política da história do Brasil. Só a volta do Getúlio em 50 é tão grande como essa que está acontecendo. Com tudo o que fizeram, eles são minoria no país. Nós temos a maioria do país do nosso lado. Numa eleição normal, com o Lula candidato, nós ganhamos a eleição.

O processo do Lula é sumário, de exceção e político. Todo o resto é secundário. O objetivo é banir o Lula. Eles queriam banir o PT, mas a memória da experiência vivida da imensa maioria dos trabalhadores é que esse é o governo deles: o do Lula.

Éramos perto de 50 jornalistas de meios independentes de comunicação. O convidado era Zé Dirceu, para falar da conjuntura, das eleições, do futuro e de seu livro “Zé Dirceu: Memórias”. O auditório do Centro de Estudos da Mídia Alternativa “Barão de Itararé” foi o cenário.

Estamos vivendo uma eleição ‘sob controle’. A campanha está proibida.

A Justiça Eleitoral permitiu que os candidatos financiem campanhas com recursos próprios. Isso significa o retorno do financiamento empresarial. É o poder que vai ditar essa eleição.

Basta andar pelo país para ver que a compra de votos atingiu um nível avassalador.

Diminuíram o tempo da propaganda eleitoral e a Globo dobrou o tempo com os candidatos. Os jornais, as revistas, televisões e rádios vão dobrar o horário que elas vão dizer como votar e em quem votar.

Estamos numa situação-limite, mas podemos ganhar a eleição mesmo assim. Se Lula for candidato, ganha no primeiro turno. Se não for temos chances reais de ir para o segundo turno. Aí será uma nova eleição.

Zé Dirceu não tem dúvidas de que, se preciso, as classes dominantes entregarão a presidência para Bolsonaro.

Não subestimem o Bolsonaro. Eles entregaram o poder para Jânio Quadros, sabem o que é eleger o Jânio presidente do Brasil? E para o Fernando Collor. Entregaram o governo para o Michel Temer. Entregam para o Bolsonaro sem tapar o nariz.

Estamos sob uma ditadura?

Nós temos uma situação privilegiada do ponto de vista histórico. Quando acabou o golpe de 64, quando ele consolidaram o poder, os sindicatos estavam fechados, havia dezenas de milhares de líderes sindicais desempregados, no exílio, nas prisões. A Contag estava fechada. As ligas camponesas foram reprimidas. Sete mil oficiais foram expulsos das Forças Armadas. A imprensa estava censurada. A repressão foi muito maior do que nos temos pesquisado e documentado nos meses de 64, muito maior. É uma história por ser contada ainda.

Hoje, não. Eles deram um golpe, mas nós temos um nível de organização política, um nível de consciência, uma base social e eleitoral, organizações, partidos.

Temos experiência de governo. Porque a classe operária brasileira, a classe trabalhadora brasileira, as camadas populares muitas vezes se alçaram, se constituíram da história do país e eles reprimiram a ferro e a fogo e cortaram. Agora nós conseguimos uma continuidade

Saímos da passividade. Somos uma força ativa no país.

Ele conta sobre seu plano pessoal.

Precisamos ter uma força de massas, a médio prazo. É a isso que quero me dedicar nos 10 ou 15 anos que me restam.

Nós já conhecemos a nossa elite: não tem pudor nenhum de governar pela força. Não nos iludamos.

A direção do partido precisa ter programa e teoria.

Hoje eu me arrependo, porque o Frei Betto queria criar os Conselhos do Fome Zero. Aí começou aquela discussão que a direita e a esquerda adoram “mas e a Câmara Municipal? E o Poder Legislativo? … Podíamos ter hoje 10 ou 20 mil conselhos … Não teria acontecido o que aconteceu.

Zé Dirceu tem repetido que a carta escrita por Lula para o dia do registro da candidatura é o que deve balizar o discurso petista.

Precisamos resolver a questão tributária e reformar o sistema bancário.

A principal arrecadação de impostos não pode continuar a vir do consumo e deixar a alta renda sem tributação.

As altas taxas de juros permitem uma apropriação absurda da renda nacional pelo sistema bancário e a parcela rentista da população brasileira.

Como conseguir governar?

Não há como governar o país se nós não fizermos o que fizeram: milhões de pessoas na rua e força de pressão.

Nós não vamos apelar para a força. Nós temos que criar um forte, poderoso, grande movimento de massas no Brasil.

Eles sabotaram o governo, desestruturaram o governo, independentemente dos nossos erros. Botaram milhões de pessoas nas ruas. E falaram para o Congresso e para o Supremo: arruma um jeito aí e diz que é legal e constitucional e tira esse governo.

Nós não temos poder econômico, não temos poder militar, não temos as instituições. E vamos governar? Só seremos capazes de fazê-lo se tivermos força popular.

O Brasil está rapidamente entregando sua soberania

Nem os países árabes, nem as monarquias do Golfo deixam que a renda do petróleo seja apropriada pelas empresas estrangeiras.

Essa questão do pré-sal era determinante para nós porque era a renda nacional que podíamos fazer uma profunda revolução cultural, educacional, científica no Brasil. E mais, eles cortaram o coração do salto de desenvolvimento, que era a exportação de tecnologia, serviços e capital.

O Brasil estava ocupando o espaço que antes era do espanhóis, das empresas francesas. Eu visitei a América Latina durante os seis anos entre 2006 e 2012. Em qualquer país de três obras de infraestrutura, duas eram de empresas brasileiras. Metrô, estaleiro, siderúrgica, não era só rodovia e saneamento, hidroelétrica, termoelétrica, aeroportos. Foi cortado isso.

O Brasil tem um estado de bem-estar social, porque tem o SUS. Vocês pensam que os outros países têm SUS? Aonde? A Previdência nossa como é, o Seguro-Desemprego, a LOAS, além do Bolsa Família, agricultura familiar, a educação pública e gratuita do fundamental ao ensino médio.

Nós sabemos como é a devastação rápida, que eles fizeram na primeira fase [governo FHC]. Cadê o centro de pesquisas que a Eletrobras tinha? Onde estão os centros de pesquisa que as estatais tinham? O perigo da Petrobras é esse. Não é só a entrega das reservas.

PT é muito criticado por não ter feito uma reforma política.

Não é verdade que deixamos de lado a reforma política. Porque todos se lembram quando houve a farsa do Mensalão, o Tarso Genro e Márcio Thomaz Bastos percorreram esse país, conversaram com todas entidade, com todos os partidos o Lula apresentou a proposta de reforma política.

Essa reforma, o Henrique Fontana fez toda concessões que nós podíamos fazer para tentar aprovar. Eles não queriam aprovar. Quando aconteceram as manifestações de 2013, a nossa presidente apresentou a proposta de uma constituinte exclusiva. Que era correta. Com referendo depois, que é ultrademocrática

O que vem depois?

A eleição não vai resolver o problema do país. O problema do país é um problema de raiz, estrutural. É um embate histórico e conjuntural, estrutural. Histórico porque eles querem quebrar o fio da história de um país soberano, independente e com um projeto de desenvolvimento. É disso que se trata.

Estou propondo que a gente tenha força de massa, política, consciência política capaz de confrontar isso.

Os reveses não o conformaram. Sua disposição para a peleja política parece a mesma de outros tempos, como na campanha de 1990 quando seria eleito deputado federal pela primeira vez.

Veja a íntegra:

2 respostas

  1. Zé Dirceu era o que faltava. Nós militantes aguardávamos por ELE. Avante militância!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS RELACIONADOS

LULIZAÇÃO DE BOLSONARO?

Pra sobreviver, Bolsonaro precisará abandonar o bolsonarismo e ser um tantinho lulista, fazendo a tal comparação ter algum sentido

O MELANCÓLICO FIM DA LAVA JATO

ARTIGO Ângela Carrato, jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG Depois de embalar o sonho das “pessoas de bem”, que vestiram verde