Uma saudação a The Americans, a série que precisávamos (e que quase ninguém viu)

The Americans, da FX

Eu entendo. Entendo de verdade.

Na década de 2010, é difícil escolher o que ver na TV. Difícil não em virtude da escassez, mas em virtude da abundância. Em meio ao drama épico e mega produzido de Game of Thrones, à ficção quebra-cabeças de Westworld, à crítica contemporânea fina e afiada de Mr. Robot, à sofisticação e fascínio pelo poder de The Crown… em meio a tudo isso e muito mais, é fácil deixar uma The Americans passar, tanto quanto é fácil deixar uma família “exemplar do sonho americano” passar anos, décadas, atuando como espiões sem ninguém perceber. No fim, a história da negligência de The Americans é, guardadas as devidas proporções, tão trágica quanto a dos Jennings.

Com o nome me refiro a Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell), que encabeçam a família que acompanhamos durante os anos 1970 e 1980, no coração da Guerra Fria. Treinados para se passar por americanos e forçados a posarem como um casal (o amor veio, com muita dificuldade, muito depois), Philip e Elizabeth tiveram dois filhos, inicialmente ignorantes do “trabalho paralelo” dos pais, donos de uma agência de viagens. Eles agem defendendo os interesses da União Soviética durante as seis temporadas e 75 episódios de The Americans, que chegarão ao fim nessa quarta (30) com a exibição de “START” (6×10), o último episódio.

Philip e Elizabeth matam, enganam e arruínam vidas para conseguir acesso a plantas militares, projetos tecnológicos, armas biológicas e informantes. A série não nos poupa de nada disso, mas tampouco nos poupa do outro lado da moeda – os Jennings vivem cordialmente na mesma rua do agente do FBI Stan Beeman (Noah Emmerich), e a série nos faz testemunhar enquanto ele mata, engana e arruína vidas para tentar deter os “ilegais”, como ele mesmo chama, que no fim das contas eram seus próprios melhores amigos. Se isso não é uma ironia dramática, eu não sei o que é.

The Americans não faz isso, essa advocacia pelos dois lados da Guerra Fria, para ser elogiada por sua ambiguidade e por sua fuga do maniqueísmo. The Americans faz isso porque essa é a história que ela quer contar, que os criadores e showrunners Joe Weisberg e Joel Fields idealizaram e aplicaram suas mentes a fim de executar. Na 5ª temporada da série, a penúltima, acompanhamos enquanto um dos coadjuvantes mais envolventes da série, Oleg Burov (Costa Ronin), sai de seu posto na embaixada americana e retorna para a União Soviética, onde reencontra sua família.

Costa Ronin como Oleg Burov em The Americans

A história de Burov, assim como tantos outros elementos de The Americans (os “chefes” mais velhos para quem Elizabeth e Philip reportam, por exemplo, sejam eles o gentil Gabriel de Frank Darabont ou a durona Claudia de Margo Martindale), existe tanto para expor um lado diferente da corrupção desses “inimigos históricos do Ocidente” quanto para que entendamos porque eles não são os vilões dessa história, se você pensar o bastante nela. Como Elizabeth tão brilhantemente articula em determinada cena da última temporada, a cultura e o mundo em que ela nasceu e cresceu, largamente moldado por um Ocidente que deixou a Rússia isolada e destruída após a 2ª Guerra Mundial, ao mesmo tempo que os negava o heroísmo de ter sacrificado mais do que qualquer outra nação pela derrota do nazismo e do fascismo, sobra na missão de explicar o comportamento no qual ela se engaja durante as seis temporadas.

O que há de mais heroico nessa trajetória sem heróis nem vilões, no fim das contas, é a própria forma como essa história, e eu quero dizer especificamente essa história, foi contada – conforme acompanhávamos Philip, Elizabeth e Stan (e Paige, e Nina, e tantos outros personagens), testemunhávamos a forma como a dedicação cega a uma ideia destruiu um pedaço deles cuja falta, inevitavelmente, causou infiltrações pérfidas em todos os outros. O ato de dedicar tudo o que você tem a qualquer coisa (uma pessoa, uma ideia, uma missão) exige que você esteja disposto também a perder tudo o que você tem para conseguir o que quer.

As atuações em The Americans refletem a culpa gigantesca, o remorso infindável, que existe nas pessoas que fizeram essa escolha. Há tantos grandes atores que passaram pela série, dos desempenhos sábios já citados de Darabont e Martindale à performance estupendamente emocional de Allison Wright como Martha, passando pela construção detalhista e idiossincrática que Noah Emmerich faz de Stan. É inevitável perceber, no entanto, como eles vivem à sombra das presenças colossais de Keri Russell e Matthew Rhys – ela, um forte de resiliência que deixa as rachaduras e a fúria de Elizabeth aparentes nos momentos mais angustiantes que a série pode conjurar; ele, uma expressão tocante de insegurança e tormento, que nunca deixa de considerar as premissas antiquadas em que a masculinidade de Philip é construída.

A família Jennings: Philip (Matthew Rhys), Paige (Holly Taylor), Elizabeth (Keri Russell) e Henry (Keidrich Sellati)

Essas são duas das grandes, se não forem as duas grandes, performances da nossa era de televisão. Assim como tudo em The Americans, no entanto, elas são magníficas da forma sutil e humana que, curiosamente, desaprendemos como apreciar na nossa época de mídia rápida e abundante. Você nunca vai me ouvir esbravejando contra a tecnologia ou contra a era de ouro da TV americana, porque seria hipócrita da minha parte – mas é inegável que nosso gosto por construções bombásticas, que se banqueteiam em valores de produção e pegam o espectador pelo pescoço com reviravoltas e adrenalina, foi realçada nessa nova era de produção ficcional.

Como resultado, o espaço permitido para a equipe criativa de The Americans florescer foi pequeno – mas, nesse espaço, eles fizeram coisas gloriosas. Direção dotada de precisão cirúrgica que nunca deixava de nos confrontar com a subjetividade dos personagens (Chris Long, Daniel Sackheim e Thomas Schlamme precisam levar crédito por isso); design de produção e equipes de figurino e maquiagem que recriaram época sem nada da opulência falsa de outras produções, mas todo o cuidado e o humor sutil que um fã pode pedir; trilha sonora que encontrou distinções sutis e inteligentes entre cenas climáticas e momentos de ação; e tantos outros elogios que eu poderia passar uma eternidade listando.

Fazer essa lista de virtudes, no entanto, iria contra todo o ponto de The Americans como obra de arte. Essas qualidades existiram não puramente porque as pessoas envolvidas tinham esses talentos, mas porque a história pedia que eles se esforçassem nesse sentido – e esse esforço organizado em criar a melhor versão possível da obra única que se quer desenvolver, em oposição a uma exibição egoísta de seus talentos particulares, é muito frequentemente subestimado no nosso ambiente cultural.

Noah Emmerich como Stan Beeman em The Americans

Acima de tudo, por fim, a história que The Americans, e só The Americans, contou, era uma história que o mundo onde ela foi criada precisava ouvir. Porque essa é uma obra de arte tão obstinada em sê-lo, The Americans não está aqui para dizer que é errado se entregar a uma ideia, dedicar-se a ela de corpo e alma – está aqui para expor as consequências inevitáveis disso. Quando a jovem Paige finalmente descobre que seus pais são espiões, há uma estranha familiaridade na cena em que Philip e Elizabeth a contam tudo (ou quase tudo), na mesa da cozinha – não que nós tenhamos passado pela mesma coisa, mas sentimos algo parecido.

Em certo nível, The Americans é sobre a angústia adulta de saber que nada é preto e branco, que os idealismos da nossa juventude são falsos, e que as coisas são mais complexas do que pareciam. Em sua obstinada jornada pelos cantos mais escuros e curvas mais escusas desse mundo, a série passou seis temporadas analisando, elaborando e mostrando o que vem depois do momento em que descobrimos a humanidade dos nossos pais, os primeiros ideais que conhecemos – o momento em que percebemos o quão falhos, terríveis e magníficos, em níveis e doses diferentes, eles são como seres humanos, e então precisamos confrontar quem nós somos na mesma dimensão adulta. Após a adolescência de crer que o problema é o mundo, e aquele breve, mas angustiante período em que lutamos com a noção de que o problema somos nós, ser adulto é entender que as duas coisas podem ser, e geralmente são, verdade.

Decidindo como intitular essa minha elegia a The Americans, pensei em que palavra usar para dizer adeus. Achei “saudação” uma escolha graciosa – enquanto ela transmite o quanto eu a aprecio como obra de arte, a palavra carrega também algo de formal, rígido, imperdoável e triste que existe em The Americans. “Saudação” conjura na minha cabeça a imagem de um soldado em posição de sentido. Eu confio que os Jennings (talvez Elizabeth, especialmente) saberiam apreciar essa última ironia.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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