Mais um: sangrento ataque a engenheiro revela urgência do combate à política fascista

Vinícius Fernandes escapou da morte. Agora luta por justiça e pelo desmonte da prática fascista que capturou brasileiros
Vinícius Fernandes no hospital
Dois dias depois do ataque bolsonarista: Vinícius se recupera da cirurgia de reconstrução da face, no Hospital São Camilo (Foto/Reprodução)

Era 1º de novembro, dois dias depois do povo cravar a vitória em Lula (PT) na eleição presidencial. Havia 267 pontos de bloqueios nas estradas de 24 estados brasileiros, com milhares de bolsonaristas negando a democracia, pressionando por intervenção militar e golpe ao resultado das urnas. Eles também esperavam ouvir qualquer palavra, uma só que fosse, do presidente Jair Bolsonaro (PL), que se mantinha calado desde a derrota. O país permanecia conflagrado, com gente apontando arma para oponente, queimando pneus, a despeito de Lula ter dito que não existe dois Brasis, mas uma só nação para quem governará.

Às 11h20 daquele 1º de novembro, voltava para casa o engenheiro de software Vinícius Fernandes, 36 anos, violonista clássico, pianista, pesquisador de computação musical e doutorando no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Tinha saído de uma loja da Claro, onde comprara um chip para o celular.

Descia uma rua do bairro paulistano da Lapa quando viu uma bandeira do Brasil, de pano ordinário, presa por haste de plástico à antena de um carro estacionado. Não havia ninguém no veículo. E Vinícius não podia imaginar que 10 minutos depois estaria arrebentado, ensanguentado, iniciando um périplo entre delegacia de polícia, Instituto Médico Legal, pronto-socorro e a sala de cirurgia onde, sob anestesia geral, enfrentaria uma delicada operação de reconstrução da face.

58 milhões de brasileiros: eles não são todos fascistas

O episódio doloroso e sangrento que Vinícius viveu não é o único sintoma do bolsonarismo. O caso reflete a política fascista encarnada no país, da contenda de rua às engrenagens da segurança pública, onde o engenheiro tentou se socorrer. Os 58,2 milhões de eleitores que tentaram reeleger Bolsonaro não são todos fascistas, mas, sim, conservadores que, em alguma medida, foram capturados pela propaganda.

Sucumbiram-se a uma insistente mensagem de que a sociedade estava diante de um gigantesco perigo tramado pelos piores inimigos: os comunistas, os negros, os gays, as mulheres donas de si e os não-cristãos. Esses inimigos – ainda segundo a propaganda – queriam tomar propriedades, destruir igrejas, matar pastores, padres e freiras, aniquilar a família, derrubar valores caros para os conservadores.

Os 58,2 milhões não são, na totalidade, ensandecidos e violentos, mas se contaminam pela agressividade e truculência. Estão embarcados na fantasia de que só um homem forte, que eles supõem ser Bolsonaro, pode devolver o passado pretensamente de paz que lhes fora tirado. Em um delírio de massa, passaram a crer que o nacionalismo extremo é a única via para a manutenção da pátria, com os símbolos pátrios selando o compromisso entre a massa e seu mito.

Massa é diferente de povo. O povo é a coletividade, como seus modos de organização e suas lutas. Massa é o grupo desumanizado, sem subjetividade, que perdeu a identidade e se grudou naquele que, imaginariamente, pode vencer o inimigo. A massa deixa de enxergar, perde a capacidade de raciocinar, discernir, deixa de lado a razão, a lucidez, os sentimentos e, perigosamente, pode encaminhar-se para a barbárie. Numa visão equivocada e nacionalista, a Bandeira Nacional e o Hino Nacional são a garantia da aliança da massa com o guru. Selam a fidelidade que se estabeleceu entre eles.

Uma bandeira “deles” a menos

Diante daquela bandeira, de 50cmX40cm, tremulando na antena do carro, Vinícius Fernandes se viu invadido pela raiva. O pano onde se lê “ordem e progresso” foi tomado de assalto em 2018, durante a empreitada de Jair Bolsonaro para engolfar-se no poder central. “Não era cabível que, quase 48 horas depois da vitória de Lula os derrotados ainda insistissem em reverter o resultado” – pensou Vinícius. “Me veio um turbilhão à cabeça: as manifestações violentas e antidemocráticas tomando as estradas, o extermínio de pessoas nos últimos 4 anos, os insultos às mulheres, a violência policial nas periferias, as ameaças por orientação sexual diferente da deles…”, enumerava na mente.

“As memórias foram fervendo, mexendo comigo, me magoando. Era abominável ver no que transformaram o símbolo de um povo”, pensou.  Então, o engenheiro levantou a mão aberta e a fechou amassando a bandeira. “Uma eleição absolutamente limpa e justa precisa ser respeitada. A bandeira do meu país não faz mais referência ao nazismo. Acabou!” Vinícius a arrancou e jogou no chão. “Aquele pano não valia 5 reais. Eu fiz com cuidado, sem estragar nada no carro. Apenas tirei de circulação: era uma bandeira deles a menos.”

A divisão: eles e nós

Vinícius punha de um lado “eles” – a horda que bate continência para milicianos e ignora os crimes cometidos por Bolsonaro. Do outro lado, “nós”. Nós, que queremos justiça, igualdade, direitos… A divisão interessa ao fascismo, como explica Jason Stanley no livro “Como Funciona o Fascismo – A Política do Nós e Eles”. Nascido nos Estados Unidos, o filósofo é estudioso do neofascismo no seu país, mas o livro parece ter sido escrito com base na radiografia do bolsonarismo.

Stanley afirma que o sintoma mais marcante da política fascista é essa divisão em dois grupos. Não só fazendo distinção étnica, racial, moral e religiosa, como solidificando as distinções entre nós e eles. A ideologia fascista quer convencer que os bons, os produtores, os devotados a Deus são eles. Na ponta oposta, ficam os sujeitos preguiçosos, os parasitas que querem se encostar no Estado, explorar as políticas públicas. Eles são os que defendem a família, o resto quer abortar.

Os perigos da política fascista vêm da maneira com que ela desumaniza segmentos da população. E bestializa também, reduzindo a capacidade de empatia por outro cidadão, justificando a tentativa de castigar ou eliminar quem tem liberdade ou age de forma diferente em relação ao  comportamento massificado. Certamente, foi o que moveu o agressor de Vinícius Fernandes.

Enfurecido pela derrota e em busca de vingança

Na Rua Afonso Sardinha, a poucos metros do local onde o engenheiro arrancou a bandeira, um senhor perguntou a ele a localização de um caixa eletrônico. Enquanto explicava, Vinícius viu um carro de cor prata parando perto dele. Não era o alvo do seu protesto silencioso, mas deixou Vinícius confuso: o que queria o motorista que o abordava de forma tão virulenta? “Eu vou te pegar, vou te arrebentar”, dizia em voz alta o motorista branco, grisalho, aparentando ter 50 anos. “Não sou de entrar em conflito, fingi que não escutei e não respondi”, recorda Vinícius.

Mas as agressões escalaram: “Seu filho da puta, você vai ver, não vai passar desta. Você tirou aquela bandeira?” O engenheiro ficou assustado, em seguida ofendido. “O cara não era o dono do carro da bandeira. Desviou do caminho dele e voltou para me abordar. Parou para justiçar”, raciocinou o engenheiro. Sentiu-se “o bode expiatório de um bolsonarista inconformado” e revidou: “Cara, o que você quer? Vaza, vai embora”.

O homem, mais alto que ele, desceu do carro pronto para o ataque. Cuspia fogo e ira, encostando na vítima que escolhera para expressar seu azedume, seu ódio diante do fracasso sofrido por seu presidente – que, além de tudo, abandonara seus seguidores, como um pai autoritário, um carrasco descartando o filho frágil. O enredo envolvia abandono, menosprezo e traição. Para Freud, a massa – da qual o agressor da Lapa faz parte – seria uma revivescência da horda primitiva para quem o pai arcaico é um líder narcisista que não amava ninguém. Um líder temido e, mesmo assim, ideal da massa.

Ira, socos e um rio de sangue

Vinícius, então, gritou um “tira a mão de mim, seu porra” e viu em sua frente uma imagem ainda mais ameaçadora. “Do desejo sádico e premeditado de matar alguém, ele migrou para uma feição irracional de animal. Me olhou com cara de bicho e entrou num transe assassino.” O primeiro soco no meio da cara desnorteou Vinícius. “Eu me desequilibrei, caí no meio-fio; e ele montou em cima de mim, esmurrando meu nariz sem parar.”  

Os ossos das costas do engenheiro rangiam contra o chão, a pele já estava esfolada. “Pensei que ia morrer. Pensei nos meus pais. Eles não poderiam vir me ver, porque o bloqueio na estrada ia impedir a viagem”, recorda. O velho que queria ir ao caixa eletrônico, desesperado, implorava: “Para com isto. Você vai matar ele”. Vinícius, completamente zonzo, começou a gritar pela polícia. O truculento desdenhou: “Isso, chame a polícia. Pode chamar!” Para os perdedores de Jair Bolsonaro não há lei, não há Constituição Federal, não há Justiça, civilidade, não há nada que possa contê-los ou impor limite aos seus instintos.

Numa cadência ensandecida, os golpes se repetiam, fazendo o sangue esguichar. Parte daquela gosma vermelha escura podia ser também da mão do algoz, que, à altura daquela fúria, devia estar ferida. Feito fera rosnou enquanto durou o transe. Finda a energia mortífera, ergueu o corpo separando-se de Vinícius e seguiu para o seu carro como se nada tivesse acontecido.

O engenheiro juntou forças e pegou o celular para registrar a placa do veículo. O chip novo, mal colocado, impediu a tentativa. Cambaleante, e deliberadamente, aproximou-se do veículo, que tinha o vidro aberto e conseguiu esguichar o sangue do nariz manchando o banco e a camisa do opressor. “Vai servir de registro material, de prova do que este canalha fez comigo”, raciocinou.

Na delegacia, mais vítimas do bolsonarismo

Vinícius limpou o rosto ensanguentado na bandeira que havia descartado (Foto/Reprodução)

O homem deu partida no carro, Vinícius decidiu ir ao 7º Distrito Policial. Voltou pelo mesmo caminho e reencontrou a bandeira caída do lado do veículo, como havia deixado. Pegou-a e limpou o sangue do rosto. Não sabia se chorava ou pedia socorro. Precisou andar sob sol intenso por 20 minutos até chegar à Rua Camilo, 317, na Lapa, para registrar um Boletim de Ocorrência.

No trajeto, ia tentando entender a pancadaria, a experiência que ele jamais imaginaria viver. Atordoado, questionava: “Quem é este cara? Por que fez tudo isto? Era só um louco?” Vinícius usava camiseta preta e jaqueta jeans sem bóton ou símbolo da esquerda; nada que identificasse o voto que dera dois dias antes. Não tinha pronunciado uma só vez o nome de Lula. Também não ouviu do bárbaro qualquer menção a Bolsonaro. “Mas estava tudo implícito. Era uma questão política”, concluiu.

Foi preciso esperar algumas horas no 7º DP. Antes do engenheiro, um casal entrou na sala do delegado. O rapaz negro, de uns 20 e poucos anos, e sua namorada branca, da mesma faixa etária, denunciavam uma vizinha bolsonarista que, enraivecida com o resultado das eleições, jogou o carro em cima da dupla. No atropelamento, não se machucaram muito, apesar do tombo doído que sofreram. Mas ficaram indignados com o ponto a que chegaram os partidários do presidente da República e se solidarizaram com Vinícius antes de saírem. 

Chegou a vez dele. Como cidadão, queria ser ouvido pela autoridade e achou que explicando os detalhes, pormenorizados, ajudaria a polícia a encontrar o agressor, de quem não sabia nada. Sequer a placa do carro havia anotado. Mal começou a contar sua história, a autoridade perguntou porque ele tinha feito aquilo. E sentenciou: “Não devia ter tirado”. Vinícius respondeu: “Acho ofensivo, que a bandeira de todos os brasileiros tenha virado um símbolo associado ao nazismo…” O delegado cortou a vítima: “Aqui, você não tem que achar nada.”

Tentando entender o que move um eleitor de extrema direita

Durante a longa espera para fazer o B.O., o engenheiro teve uma conversa inusitada que explica o estado bolsonarizado em que se encontra a sociedade. Um delegado negro passou por ele, e, atraído pela gravidade dos ferimentos quis entender porque o nariz de Vinícius estava para um lado, a boca entortada para o outro. O delegado ouviu o relato e deu uma risada larga.

O engenheiro perguntou: “Você está rindo de mim?”, e o policial respondeu: “Sim. Vai tirar a bandeira do meu carro pra você ver. Eu faço o mesmo!” Vinícius respirou fundo: “Eu estava fodido, puto da vida, querendo justiça e me recebem desse jeito na delegacia?” Ficou incomodado, acreditando que o policial o encaixou no estereótipo de pessoa de esquerda e ponto final. Talvez por isto tenha decidido ir atrás do delegado negro para conversar. Poderia render algo além da piada, das opiniões “exacerbadamente hétero”, da caricatura bolsonarista. Vinícius pediu um cigarro a ele.

Fumaram juntos e falaram de muitas coisas, entre elas o racismo. Para o delegado negro, o país vive “um racismo pesado demais”. E, surpreendentemente, disse que pessoas pretas são mais racistas que as brancas. Sobre os protestos que infernizavam o país a partir das estradas, impactando a produção, o escoamento de mercadorias, o atendimento de doentes em hospitais e a vida de passageiros e motoristas, o policial deu razão aos manifestantes: “Os caminhoneiros estão certos!”. Vinícius rebateu: “Certos? Fazendo saudações nazistas? Atacando e ferindo policiais, como você? Concorda com isto?”  Seu interlocutor discordou: “Ah, isto não pode. Atacar, não”.

Vinícius estava interessado não só em entender o que move um bolsonarista, mas em abrir uma possibilidade de comunicação no país que, daqui para frente, terá que se entender e ser para todos. Então, esticou a conversa.

Política fascista apaga a história, cria falsa realidade e a divulga como fake news

O delegado havia se apresentado como “xiita”. Vinícius lembrou a ele que a palavra xiita faz menção a um grupo específico de pessoas que seguem uma ramificação do islamismo, aceitando exclusivamente os ensinamentos de Maomé. Mas prestou a atenção na forma como o delegado se descrevia como xiita, querendo, na verdade, se dizer um homem duro, que se coloca do lado da aspereza como forma de reação e autoproteção. Percebeu nele algo que considera muito comum no pensamento bolsonarista: o discurso do ressentido.

Vinícius lembrou do livro “Ressentimento”, da psicanalista Maria Rita Kehl. “Ela descreve isto de uma forma muito bela”, afirma. Ressentir-se, para a psicanalista, significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. “Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a ter direito de culpá-lo do que venha a fracassar”, escreveu Kehl.

“A ideia é: a culpa é sempre de alguém, nunca minha”, resumiu Vinícius. O delegado dizia que a culpa do país ter chegado à situação que chegou era “das pessoas da USP”. Stanley tem uma ótima explicação para isso: “Os políticos fascistas justificam suas ideias ao aniquilar um senso comum de história criando um passado mítico para respaldar sua visão de presente. Eles reescrevem a compreensão geral da população sobre a realidade, promovendo o anti-intelectualismo, atacando universidades e sistemas educacionais que poderiam contestar suas ideias. Depois, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado.”

Um delegado de polícia da maior cidade do país demonstrou crer em fake news e estar capturado pelas conspirações. Com uma visão apocalíptica, ele comentou a eleição presidencial. Usava o partido para substituir o nome do eleito: “Agora ‘tá tudo fodido. Com o PT aí, não vai dar nada certo. Vai destruir o que resta do país”.

Ele era confuso, às vezes, contraditório. Então, Vinícius tentou aproximar-se pelo lado pessoal: “Você está satisfeito com as suas condições de trabalho? Com o seu salário? Acha que tem o valor que merece, por correr tantos riscos na missão policial?” O delegado não demonstrou satisfação alguma com a vida que leva. Vinícius fez mea-culpa: “As pessoas da esquerda não entendem os perigos que vocês enfrentam e ignoram que o policial é um trabalhador e ganha pouco”.  

Admitir a desconfiança da esquerda em relação à polícia, além de reconhecer as condições difíceis do policial, mudou o caminho da conversa. O delegado passou a falar da própria luta, contou coisas técnicas que precisou aprender, como análise balística, por exemplo. Disse que a aceleração da gravidade é 5 metros por segundo, ao quadrado. O engenheiro discordou: “Não, a aceleração é 10”. O policial assentiu: “Tem razão,10!”

Trazendo um bolsonarista de volta pra casa  

Provavelmente, o policial sentiu que Vinícius não queria um embate, ao contrário, buscava o diálogo. “Havia nele experiências que eu precisava levar em conta. Acho isso necessário até com um bolsonarista mais radical. Posso discordar dele, mas enxergar um ponto com alguma concordância”, explica Vinícius. “A pessoa se sente menos usurpada, pode falar do lugar dela. E isso constrói um contato com quem não está disposto a trocar ideias depois da derrota”, analisa.

Ele admite que é difícil, dá trabalho, mas gera a possibilidade de uma relação humana. “Nosso encontro terminou quando perguntei: ‘Posso te dar um abraço?’ E o delegado aceitou numa boa”, conta o engenheiro. O desfecho aponta um bom sinal. Pelo menos um dos 58,2 milhões de eleitores de Bolsonaro deixaria a retórica de perdedor, entenderia que a democracia passa por outros caminhos, concordaria que o autoritarismo deve ser rechaçado e, finalmente, voltaria para a casa, para a pátria de todos.

A filósofa Márcia Tiburi considera este tipo de atitude uma saída para o nosso caos. “A semente da democracia precisa ser introduzida no coração dos fanáticos”, escreveu no Instagram a autora de “Como Conversar com Um Fascista”. A semente de que falou Tiburi também deve ser plantada nos desavisados e nos manipulados pela propaganda orientada por Steve Bannon, ex-estrategista de Trump que vendeu seus serviços ao clã Bolsonaro, dono do gabinete do ódio. 

Uma semente de democracia e acolhimento pode florescer também nos que se submetem ao ridículo, marchando de chinelos Croc na frente das sedes do Exército país afora. E pode sensibilizar pessoas que oram pela morte de Lula, saúdam Hitler ou puxam terço com Cássia Kiss, em nome de um moralismo escravizador.

Naquela tarde, enquanto Vinícius abraçava o delegado, Bolsonaro fazia o primeiro – e tardio – pronunciamento após a derrota. Sua fala durou dois minutos e não reconheceu o triunfo de Lula. O presidente questionou os bloqueios nas estradas, mas acabou conferindo legitimidade aos apoiadores, afirmando que os movimentos eram “frutos de indignação e sentimento de injustiça sobre como se deu o processo eleitoral”. 

O duplo comando do presidente enfraquecido fez estender o delírio da massa que ainda manipula. Há convocações histéricas para mais protestos no 15 de novembro, dia da proclamação da República. Ao presidente derrotado sobraram poucas alternativas: tentar aliciar mais parlamentares e a velha mídia – para ocupar a liderança da oposição –, ser processado, condenado e preso ou fugir.

No Instituto Médico Legal, sem ar, com medo de morrer

Vinícius deixou a delegacia, pegou o trem, o metrô, desceu perto do Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito. O médico legista balançou a cabeça negativamente enquanto ele contava o que havia acontecido de manhã. Disse, porém: “Olha, sou Bolsonaro, mas com isto aí eu não concordo”.

Passava das 19 horas, o engenheiro estava num estado lastimável de esgotamento. Ofegante, com medo de morrer, tentava respirar por vias obstruídas pelo sangue e por fragmentos de ossos. Não tinha comido nem bebido nada e a conversa não evoluiu. “Já estava bom demais saber que o legista não era a favor de uma agressão gratuita como aquela”, considerou. 

Foi desabar num choro convulsivo só ao chegar na casa da ex-namorada. Olhou-se no espelho e acreditou que nunca mais se recuperaria. Moralmente, emocionalmente estava destruído.

Passou a madrugada no pronto-socorro do Hospital São Camilo. Já na primeira tomografia, o médico foi assertivo: “Seu nariz está esmigalhado e tem quebra de ossículos da face, que precisam ser reconstituídos em cirurgia imediatamente.” Descartada a presença de sangue nos pulmões, seguiu para a mesa de cirurgia. Era quarta-feira, ele teria alta no final da quinta. Gravou um vídeo narrando a agressão sofrida e postou nas redes.

Relato gravado: Vinícius pede divulgação do ataque bolsonazista que sofreu

Lembrança de Carla Zambelli, crise de pânico e luta para manter a esperança

Vinícius está vivendo na casa de amigos, em licença do trabalho e do doutorado. Tem sofrido crises de pânico e sudorese a cada vez que sai às ruas. “Pego o Uber e fico imaginando que o motorista é fascista e pode me matar.” Sente dores no rosto, enorme incômodo com os tubos de sustentação dentro do nariz – para os ossos cicatrizarem – e teme reviver o inferno, caso reencontre seu agressor. “Não é normal um cara parar, espancar e voltar para casa como se voltasse de um passeio”, reflete.

Ele compara a ação do homem grotesco ao ataque protagonizado por Carla Zambelli. Em um episódio banal, na véspera da eleição, a deputada bolsonarista se sentiu no direito de sacar uma arma na rua e correr atrás de um homem que acreditava na vitória de Lula. “Luto todo dia um pouco para não perder a esperança, porque Zambelli e meu agressor agiram como se o ser humano não valesse nada. Acham que devem se vingar de acordo com a régua paranoide deles.”

O crápula da Lapa, Zambelli, Jair Bolsonaro, seus filhos e partidários, como a ex-ministra e senadora eleita Damares Alves, não representam apenas um movimento ideológico ou político. O psicanalista Rubens Marcelo Volich lembra em seu livro “Tempos de Encontro” que “o fascismo revela uma modalidade de existência e de relação humana, uma atitude emocional básica do indivíduo reprimido por formas autoritárias da civilização, que resulta em uma concepção de vida mística e mecanicista”.

Citando Reich, Volich diz que o fascismo é consequência de uma personalidade reprimida. Atitudes, comportamentos e ideias fascistas vêm da impossibilidade de expressão e satisfação de necessidades básicas, biológicas, afetivas e relacionais.

Pessoas que cercam Bolsonaro – incluindo seus eleitos para Câmara e Senado – são importantes na criação e manutenção dessa falange fascista. O lema deles, diferentemente do que acreditam os corpos que marcham de verde e amarelo na porta dos quartéis, não é o bem-estar da família brasileira. Desejam avidamente o poder. Bolsonaro não quer poder só pelo gozo de mandar e dominar, mas pelo prazer de comer e beber como rei, espalhar-se em centenas de imóveis comprados com dinheiro escuso, gargalhar, deleitar-se diante da morte alheia e blindar-se de qualquer possibilidade de punição.

No papel de detetive, à espera do novo tempo

Lesão corporal gravíssima. É isso que Vinícius pretende provar na Justiça. Ele parou a vida para correr atrás de reparação, e tem buscado provas, testemunhas que possam depor, além de orientação de advogados. Conseguiu na pizzaria, próxima do local do espancamento, imagens que revelam o veículo e o homem de índole sanguínea. Descobriu nas redes sociais quem é o sujeito. Ele se descreve como “um cidadão de bem”. Casado, pai, católico, o algoz dirigia no dia do quase homicídio o carro da própria mulher. Mistura postagens de ódio com falas “tipo cristãs”, dá à família caráter de propriedade e bate na esgarçada tecla dos banheiros unissex que desvirtuarão crianças nas escolas. 

A situação fica ainda mais sinistra pelo fato de o agressor viver e trabalhar no mesmo bairro onde virou bicho e onde morava Vinícius – que precisou abandonar sua casa depois do trauma. Ele juntou sua investigação aos laudos médicos e voltou ao 7º DP. Crê que em breve seu agressor estará diante da polícia e da Justiça. Nós também acreditamos que a familícia inteira, seus bajuladores e agregados serão levados aos tribunais para pagar por tudo que fizeram 

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